
«Doce soles», dijo. /«Diez». / «No sea codicioso. Es nuevo. Me há legado hoy». / «Yo sé que es nuevo», dije. «Lo escribí yo».
Por escrever isto, alguns amigos desejarão comer-me vivo, assado no forno, depois de convenientemente estripado, cortado aos pedaços e deixado a marinar em vinho, vinagre e louro. No mínimo, quererão denunciar-me à polícia. Mas não posso deixar de simpatizar com uma prática relatada sábado passado numa página do El País. Em «La vida entre los piratas», o escritor peruano Daniel Alarcón fala-nos de uma realidade do seu país que pode vir a ecoar pelo planeta: no Perú, o mundo dos livros copiados movimenta já mais dinheiro do que o das obras legalmente produzidas. Mas isso não parece ser necessariamente um mal: há gosto pela leitura mas pouco dinheiro para comprar livros e os leitores recorrem à contrafacção – não falamos de fotocópias, mas sim de cópias quase perfeitas dos originais –, existindo já autores que não se importam de que tal aconteça. Uma vez que ganham pouco ou nada com o seu trabalho, preferem acima de tudo que os leiam. Sei que esta prática da bibliocandonga terá alguns inconvenientes, mas desconfio que, a generalizar-se, poderá produzir algumas situações interessantes. A baixa dos preços de capa, por exemplo, com menores custos com o trabalho das tipografias, ou um maior respeito das cadeias de livrarias e das empresas de distribuição por autores e pequenos e médios editores, ou o natural alargamento do número de pessoas que compram livros. Um cenário de utopia erguido sobre um campo de batalha, com sirenes, fugas pelos telhados e ruas esconsas pelo meio. Alguém quererá experimentar?
Não acreditem em tontices, boatos da reacção ou síndromes da dor de cotovelo associados a falta de assunto. Deixei de fazer parte da equipa do Arrastão rigorosamente pelos motivos que por lá expus à cidade e ao planeta. E permanecendo amigo, companheiro e camarada daquela malta. Mai’nada.

O nome de Michel de Montaigne permanece ligado à arte do ensaio por ter dado a esta forma de escrita as características essenciais que, quatrocentos e tantos anos depois, ela conserva ainda. Se o francês do Périgord tem sobrevivido como escritor «para todas as épocas», tal não se deve necessariamente às suas opiniões, muitas das quais hoje já ninguém levará a sério, mas à forma intemporal como se relaciona com o leitor. Em A Arte do Ensaio Fernando Savater define com clareza o género que Montaigne inventou e «levou ao seu mais alto grau de perfeição»: experimentações literárias, autobiográficas, filosóficas e eruditas que jamais pretendem esgotar ou delimitar um campo de estudos. Visam antes o inverso, que é corromper esse campo e convertê-lo num lugar de passagem, rumo a outros que, de momento, permanecem ainda longínquos. Nesta direcção, o ensaísta é necessariamente um céptico e um «perito em divagações», uma vez que o seu esforço exclui a certeza e a convicção de se encontrar na posse da verdade.
Esta atitude é comum ao conjunto de autores e de textos fundamentais do pensamento do século XX propostos neste texto sobre «a arte de ensaiar» do filósofo e escritor de San Sebastián, servindo ao mesmo tempo como um convite à descoberta ou ao reencontro com obras-chave, todas elas intensamente inquietantes, e sob muitos aspectos arrojadas e incompreendidas no momento em que foram escritas. Sartre, Camus, Bertrand Russell, Foucault, Freud, Adorno, Ortega y Gasset, Lévi-Stauss, Miguel de Unamuno, Marshall McLuhan, Octavio Paz, Elias Canetti, María Zambrano ou Hannah Arendt são alguns dos 25 pensadores seleccionados por Savater, todos eles capazes de dar esse passo na direcção do que não sabiam, nem podiam ainda saber, mas em relação ao qual possuíam uma forte capacidade de questionamento e um desejo de superação.
Aliás, o acento colocado em cada um dos capítulos, dedicados sempre a um autor e a uma obra, não é o da procura da sistematização, ou da «síntese» catequética da mesma, mas antes o esforço para mostrar como a sua escrita resultou sempre de uma pergunta incómoda para a qual não existia resposta e, por isso mesmo, derivou de um acto solitário. Ao mesmo tempo, a sua escrita emergiu como prova de um pioneirismo criador, aberto à novidade. Na realidade, e de acordo com Lukács, o autor da Teoria do Romance aqui evocado, se o ensaísta carece dos instrumentos científicos capazes de o ajudarem a resolver os problemas da sua época, «tem a audácia suficiente para examiná-los». Foi aquilo que fizeram, para pegar apenas em dois dos casos escolhidos, autores como Albert Camus em O Homem Revoltado, uma «meditação histórica de um inconformista perplexo», ou Michel Foucault em As Palavras e as Coisas, um texto inovador não tanto pelo que trouxe de objectivo mas «por ter assinalado que havia novas áreas a descobrir». A Arte do Ensaio pode servir, em simultâneo, como elogio da ousadia e um notável mapa do tesouro.
Publicado na revista LER de Fevereiro
Fernando Savater, A Arte do Ensaio – Ensaios Sobre a Cultura Universal. Trad. de Francisco Telhado e Pedro Vidal. Temas e Debates / Círculo de Leitores, 152 págs.

Este blogue noctívago, murmuram os arquivos, sobrevive há quatro anos.

Partindo da correspondência, em larga medida inédita, trocada entre Hannah Arendt e Martin Heidegger, Elzbieta Ettiger, professora de Humanidades no MIT, narra com detalhes o atormentado caso de amor e de proximidade intelectual que, em fases distintas, uniu dois dos mais destacados pensadores alemães do século passado. O que lhe interessa não são, naturalmente, os detalhes, em larga medida ausentes deste livro, da relação conturbada mas persistente entre a intelectual judia que denunciou o totalitarismo e o autor de Ser e Tempo que foi um apoiante confesso e contumaz do Partido Nacional-Socialista. Aquilo a que aqui vale a pena atender é à revelação das alegrias e das mazelas de uma ligação conturbada, desafiando a imagem padronizada de um Martin observado como pensador e académico austero e subtil, e de uma Hannah vista como intelectual independente e absolutamente segura de si. Ettinger sugere uma releitura e uma relativização de marcas que num certo momento julgámos poder estabelecer sobre a obra e o carácter de cada um deles.
Hannah Arendt e Martin Heidegger. Trad. de Isabel Castro Silva. Relógio d’Água, 152 págs.

Depois dos aclamados Estalinegrado (1998) e A Queda de Berlim (2002), neste Dia D – A Batalha da Normandia, lançado já em 2009, Antony Beevor ocupa-se da frente ocidental da Segunda Guerra Mundial. Não se refere, porém, apenas ao desembarque aliado previsto pela Operação Overlord, pois acompanha também o rápido avanço das forças aliadas pelo interior da Normandia, as vicissitudes experimentadas na retaguarda pelo regime nazi – que passaram pelo atentado contra Hitler e pelas pesadas consequências que este teve na capacidade de resposta ao avanço aliado –, e depois o progresso rápido, pontuado por duros combates e um volume impressionante de vítimas, até Paris. Beevor retoma aqui, no seu estilo próprio, sempre atento à intervenção dinâmica do episódico e do comportamento individual no evoluir dos acontecimentos, a tradição da historiografia militar britânica, quase perdida no continente durante boa parte da segunda metade do século XX, que se apoia numa narrativa capaz de combinar o depoimento dos sobreviventes – sempre emotivo ou nostálgico – com a sequência dos factos e das decisões comprováveis, obtidos através de um trabalho minucioso de pesquisa dos arquivos. Neste caso, o Eisenhower Center de Nova Orleães, o Imperial War Museum de Londres, e ainda os centros de documentação de Leeds e de Caen, na própria Normandia, asseguraram material inédito de grande interesse documental.
Raramente a descrição surge neutra, vendo-se o leitor permanentemente impelido para situações nas quais o humor, a ironia, a raiva ou a cobardia, combinados de modo cinematográfico, mantêm a sua carga de autenticidade graças ao relato testemunhal. Nesta direcção, surge como particularmente notável o acesso a um retrato vívido de uma «barbarização da guerra» – que inclui uma certa visualização do sofrimento e da morte dos militares de ambos os lados e das populações apanhadas entre dois fogos – mostrando de que modo, ao contrário daquilo que outras obras sobre a Segunda Grande Guerra fizeram crer, os horrores vividos em território francês não ficaram muito atrás daqueles que tiveram lugar na Frente Leste.
Particularmente interessante também, sendo este de certa forma um factor de inovação trazido pelo historiador, é o papel atribuído à personalidade e às pequenas peculiaridades dos principais chefes militares – de Eisenhower e Patton a Montgomery, de Rommel a Von Rundstedt – e aos permanentes conflitos estratégicos e políticos que protagonizaram, como parte integrante na definição do caminho que as operações militares vieram a tomar e das vicissitudes pelas quais passaram. Na última parte do livro, é a libertação da capital que se configura no horizonte dos militares em movimento, e agora do leitor que o acompanha, emergindo num relato cuja intensidade, aqui associada a uma série de pequenos episódios invocados a partir da experiência individual, amplia as conhecidas imagens da euforia colectiva, da vingança e da apoteose vividas no dia da entrada triunfal em Paris.
Publicado na revista LER de Fevereiro
Antony Beevor, Dia D – A Batalha da Normandia. Trad. de Fernanda Oliveira. Bertrand Editora, 688 págs. [Publicado na LER de Fevereiro]

Já à venda. Temas e colaborações em destaque aqui.

O reverendo Ian Paisley, de 83 anos, anunciou ontem que vai deixar o lugar de deputado britânico, ocupado ao longo de quatro décadas, após as legislativas de Maio. Foi membro da Força de Voluntários do Ulster, o mais antigo grupo paramilitar protestante da Irlanda do Norte. Fundou também a Igreja Presbiteriana Livre do Ulster, em 1951, tendo criado o Partido Unionista Democrático duas décadas depois. Termina assim, ao que parece, a carreira política de um homem que, pelas suas posições irremissivelmente violentas e intransigentes a favor do orangismo mais extremo ajudou a inscrever o nacionalismo irlandês «católico» na consciência e na agenda da esquerda ocidental. Pelo menos comigo resultou, lá pelos idos de setenta.

Sobre o trabalho do jornalista polaco Ryszard Kapuscinski escrevi em tempos isto. Foram-se depois adensado rumores sobre a sua actividade como agente dos serviços secretos comunistas e, nessa qualidade, como denunciante de colegas de trabalho e pessoa com privilégios que os outros não tinham. Entretanto acaba de ser editada a biografia escrita por Artur Domoslawski, seu compatriota, também ele jornalista, que o conheceu de muito perto e é agora acusado de ser excessivamente benévolo para com o amigo Kapuscinski. Trata-se de um daqueles casos, admito, em que não sou capaz de fazer um juízo moral assim da noite para o dia. É como nos amores indecisos: preciso de um tempo para pensar.

Suicidado aos 18 anos, em 1770, na cama da sua mansarda em Holborn, um dos mais mal-afamados bairros da Londres da época, o poeta Thomas Chatterton transformou-se rapidamente no arquétipo do herói romântico. Milhares de anémicos jovens viram-se ao espelho, por mais de um século, como Chattertons em potência, tão geniais quanto incompreendidos. Pois agora Jürgen Heizmann, um académico alemão que ensina na Universidade de Montréal, vem confirmar aquilo que a verdade alternativa desde há algum tempo vinha murmurando: que os poemas do jovem Thomas foram sistematicamente decalcados de manuscritos antigos (um falsário pois) e que a morte prematura não se deveu a suicídio, mas sim a um tratamento mal aplicado contra uma doença venérea. A ser verdade, não passa de mais um caso em que a doce fantasia excedeu largamente a crueza dos factos. Fiquemo-nos pois pela lenda e atiremos a realidade pela janela.

Como muitos outros intelectuais ocidentais, Slavoj Zizek não gosta que se fale de islamo-fascismo. Para explicar a recusa invoca no entanto, em entrevista ao L’Humanité (republicada na edição portuguesa do Courrier International), um argumento algo falacioso. Declara uma verdade («ainda há trinta anos havia uma esquerda laica muito forte nos países árabes») e associa-lhe uma evidência («o Ocidente tomou uma decisão totalmente catastrófica ao apontar a esquerda laica, pelas suas ligações à União Soviética, como inimigo principal, e ao apoiar, por razões estratégicas, os fundamentalistas»). Mas infere daqui que, pela mesma razão, este Ocidente perdeu a legitimidade para apontar o dedo ao modelo agressivo e totalitário com um peso crescente no universo do Islão contemporâneo.
O argumento terá sido simplificado por Zizek, dado aparecer numa entrevista curta onde é impossível detalhar razões. Mas infelizmente ele tem sido adiantado – justamente na sua versão simplista – por quem se preocupa em desculpabilizar os excessos das vertentes agressivas e intolerantes do Islão como justificáveis em função dos erros dos governos e da comunicação social do mesmo Ocidente. No limite, alguns sectores, de facto pouco ou nada preocupados com um convívio democrático e transcultural paritário, aceitam até esses excessos como parte de uma vertente da luta anticapitalista, anti-imperialista e anti-sionista que, na sua leitura míope e elementar, o radicalismo islâmico protagonizará de maneira legítima. Esquecendo, desta forma, a longa tradição histórica de um Islão tolerante para com o laicismo, incluindo o de pendor socialista, que tem sido particularmente reprimido por esse lado exaltado, fanático e totalitário de certas organizações e de determinados regimes auto-intitulados «islâmicos». Ou, se se quiser, «islâmicos de certa maneira».
Sem papas na língua comme d’habitude, Christopher Hitchens – que ainda no passado 18 de Fevereiro esteve por cá, na Casa Fernando Pessoa, a defender «a urgência do ateísmo» – estabelece, em artigo publicado em 2007 na revista Slate, um conjunto de «similitudes óbvias» entre o fascismo histórico e o islamo-fascismo, conceito que aceita sem grandes objecções:
«Both movements are based on a cult of murderous violence that exalts death and destruction and despises the life of the mind. (‘Death to the intellect! Long live death!’ as Gen. Francisco Franco’s sidekick Gonzalo Queipo de Llano so pithily phrased it.) Both are hostile to modernity (except when it comes to the pursuit of weapons), and both are bitterly nostalgic for past empires and lost glories. Both are obsessed with real and imagined ‘humiliations’ and thirsty for revenge. Both are chronically infected with the toxin of anti-Jewish paranoia (interestingly, also, with its milder cousin, anti-Freemason paranoia). Both are inclined to leader worship and to the exclusive stress on the power of one great book. Both have a strong commitment to sexual repression – especially to the repression of any sexual ‘deviance’ – and to its counterparts the subordination of the female and contempt for the feminine. Both despise art and literature as symptoms of degeneracy and decadence; both burn books and destroy museums and treasures.»
É verdade que o uso da expressão islamo-fascismo pode ser histórica e conceptualmente discutível (como se sabe, o próprio uso alargado do conceito de fascismo é-o também). E é com toda a certeza injusto para com toda a tradição do Islão e para com muitos muçulmanos que são até vítimas dos seus ditames e das suas práticas. Mas corresponde a uma experiência com a qual todo o mundo – a começar pelo islâmico – tem de se confrontar. Aceitar a realidade política e cultural do islamo-fascismo constitui uma precaução que em nada deve afectar o relacionamento pacífico com o mundo islâmico. Uma conexão que, todavia, não pode ser mantida a qualquer preço.
Adenda - Um erro de Hitchens no qual não reparei ao fazer a transcrição em copy-paste: a frase “Viva la Muerte!” foi bradada, em 12 de Outubro de 1936, durante um confronto público com Miguel de Unamuno, por José Millán-Astray – aliás, hoje recordado quase exclusivamente por estas palavras assassinas –, e não por Queipo de Llano.

Pode parecer uma bizantinice, mas vale a pena encarar a questão levantada por Pedro Correia – de quem cordialmente ‘dissido’ neste particular (e por vezes noutros) – a propósito da palavra ‘dissidente’, quando considera que o termo não deve ser utilizado para referir opositores ou contestatários isolados dos regimes de Pequim ou de Havana. Para sustentar a sua opinião, refere que ele foi cunhado na antiga União Soviética «para designar todos quantos se afastavam da ‘normalidade’ política e social, insinuando uma espécie de doença psíquica». Se o regime dizia representar todo o povo, quem não se sentisse representado por ela só poderia então ser ‘dissidente’. Ou seja, anormal, louco e criminoso.
É parcialmente verdadeiro este referencial histórico, mas não o é inteiramente. Na verdade, a palavra surgiu de início, no ocidente, para se referir aos intelectuais soviéticos que se opunham, quase sempre isoladamente e de forma ilegal, a um regime totalitário que remetia a diferença, a divergência em relação ao pensamento único e a um sistema que se considerava a caminho da perfeição, para a esfera da marginalidade e da doença. Como era possível alguém em seu perfeito juízo, e para mais um cidadão supostamente informado, membro da intelligentsia, divergir do cientificamente determinado e comprovado, do tão indiscutivelmente justo que nem precisava ser sufragado? Foi o eco do combate desses homens e dessas mulheres – nem sempre com idêntico sentido, uma vez que agiam isoladamente ou em pequenos grupos e não constituíam propriamente uma associação com objectivos programáticos – que os revelou como… dissidentes. E para cunhar o qualificativo não foi preciso ir longe: bastou recorrer à velha palavra dissidentia, que em latim significa oposição, antipatia, desarmonia. E hoje lá vem no dicionário dissidência como o «acto de separar-se (de uma parcela de um grupo, agremiação, partido, etc.) em virtude de divergência de opiniões». Em qualquer tempo ou lugar.
Sim, Hu Jia ou Wei Jingsheng, como Guillermo Fariñas ou Yoani Sánchez, podem ser considerados dissidentes. E até o devem ser, uma vez que os antecedentes históricos do qualificativo apenas enobrecem o seu combate pelo direito a pensarem por si e a comunicarem aos outros aquilo que pensam. O direito a dissidir, o imperativo moral de viver e actuar em dissídio. Ainda que se enganem mil vezes.

Um artigo «de opinião» saído hoje no Público, assinado pelo tenente-coronel piloto aviador Brandão Ferreira («A democracia e o casamento entre géneros idênticos»), constitui um dos exercícios mais retrógrados, intolerantes, violentos e sobretudo demagógicos que tenho lido nos últimos tempos. Não se trata de um texto que exprima uma posição da qual discordemos mas que possamos respeitar: este arrazoado execrável e rancoroso ultrapassa em muito o nível do ensaio argumentativo para se transformar num exercício proto-fascista de agressão à própria democracia. Pode ser lido na íntegra num post publicado no Jugular.
Publicado originalmente no Arrastão

Acaba de chegar às livrarias a tradução portuguesa de Prisioneiro de Estado (ed. Casa das Letras), o diário secreto de Zhao Ziyang, antigo primeiro-ministro chinês e secretário-geral do PCC entre 1987 e 1989, forçado a retirar-se e viver em prisão domiciliária os últimos anos da sua vida por ter demonstrado uma atitude de compreensão perante as reivindicações estudantis e os protestos de Tienanmen. «Um olhar íntimo sobre um dos regimes mais compactos do mundo», escreve-se na badana. Resultado de 30 horas de gravação clandestina – guardadas em cassetes de baixa qualidade escondidas entre os brinquedos dos netos – mostram a permanente luta de facções, de interesses e de vaidades que se esconde por detrás do aparente monolitismo do regime. Roderick MacFarquhar, o prefaciador, recorda que na China de hoje, Zhao, morto em 2005, «é uma pessoa que não existe», mas quando um dia os chineses puderem ler estas páginas e perceber o seu lugar na história do país conhecerão o perfil tolerante e o esforço renovador deste comunista tranquilo que gostava de rir, de comer e de ouvir os outros.
Bastante útil, e também bastante impressionante, a Pordata, autodefinida como «um projecto destinado a todos, pensado para um vasto número de utentes que comungam do interesse em conhecer, com confiança e rigor, mais sobre Portugal». Um serviço público excepcional, a visitar regularmente por quem trabalha ou escreve sobre os últimos cinquenta anos da nossa vida colectiva.
À embaixada de Cuba em Portugal:
“Nós, cidadãos de um país que conquistou a sua liberdade há 36 anos, solidários com a resistência a todas as formas de imperialismo, críticos do bloqueio injusto e injustificável a Cuba por parte dos Estados Unidos da América, vimos através deste abaixo-assinado protestar contra morte do activista Orlando Zapata Tamayo depois de uma pena de prisão absurda e de uma greve de fome pelos seus direitos civis. E, através deste protesto, manifestar a nossa solidariedade empenhada para com todos os presos políticos cubanos e para com todos aqueles que em Cuba lutam por valores que, para quem, como os portugueses, viveu meio século de ditadura, são bens preciosos: a democracia, a liberdade e o direito a autodeterminação dos povos e dos indivíduos. Não há verdadeira independência de um povo sem democracia. Não há revolução que valha a pena sem liberdade.”
Pode assinar aqui. Divulgue através das redes sociais e do seu blogue.

O historiador e ensaísta cubano Rafael Rojas publicou no México, onde vive e trabalha por não poder retornar à sua ilha, Tumbas Sin Sosiego, um livro sobre a experiência da relação revolução-dissidência entre os intelectuais cubanos do exílio. Aí escreve a dada altura que a religiosidade política da ideia cubana de Revolução «não radica tanto na escatologia do marxismo-leninismo quanto na mitologia do nacionalismo revolucionário», o qual possui, como se sabe, um grande lastro histórico em toda a América Latina. É em parte por esta razão que todo o dissidente é equiparado a um traidor, traindo não propriamente a classe operária, que aliás mal existe em Cuba, mas sim «a Pátria». É por isso, inevitavelmente, um «mercenário» a soldo do inimigo externo, cujo «crime» – divergir e expressar a sua divergência, pedir uma ordem política que aceite a expressão de alternativas – é da ordem do delito comum, um a vez que atenta contra a unidade que presumivelmente garante a independência face ao inimigo imperialista.
Este é um dos grandes paradoxos do regime cubano: sustenta, desde 1959, um combate sem tréguas contra os Estados Unidos da América – contra aquilo que eles representavam nos primeiros tempos da Revolução, e depois contra o injusto e desnecessário bloqueio que têm mantido – mas precisa desse combate para justificar a repressão contra os «desordeiros sabotadores». Assim se compreende que as autoridades castristas tenham agora deixado morrer Orlando Zapata Tamayo, um canalizador de origem humilde, membro da organização de defesa dos direitos civis Directório Democrático, preso em 2003 quando foi apanhado numa vaga repressiva contra a oposição em que dezenas de pessoas foram acusadas de «conspirar com os Estados Unidos para derrubar o regime», sendo então quase todas condenadas a penas pesadíssimas, que chegaram aos 28 anos de prisão. A sua morte é «lamentável», como o próprio Raúl Castro acaba de reconhecer para estrangeiro ver, mas para a clique gerontocrática que governa a ilha ela é compreensível e, de certa forma, necessária. No final do excelente artigo disponível online («2009: El año en que se desvaneció el raulismo»), é ainda Rafael Rojas quem recorda:
«Esses anciãos sempre viveram em guerra, real ou imaginária, e as suas mentes acomodaram-se à lógica do confronto. Como guerreiros que são, compreenderam que quaisquer reformas, ainda que limitadas e controláveis, serão a porta de entrada para uma mudança maior que não querem viver. Qualquer decisão que tomem em política interna ou externa, nos próximos anos, reger-se-á por esse cálculo biológico: o tempo que lhes resta de vida deve ser invertido na perpetuação do sistema político, não na sua transformação, problema que diz respeito apenas aos jovens. É a isso que chamam “vitória”: morrer sem mudar.»
O mais difícil de entender é a existência, esparsa mas visível, fora de Cuba, de alguns rebentos serôdios seduzidos por uma Sierra Maestra de fantasia. Que medem a sua têmpera revolucionária em função da fidelidade a um modelo histórico que permanece «firme», inalterado, e que não foi democraticamente referendado em mais de meio século de regime. Que bradam sem hesitações «Patria o Muerte. Venceremos!». Para defenderem a sua quimérica e envelhecida Revolución, aceitam, justificam e fazem eco de todas as afirmações do governo de Havana contra os supostos traidores. Cuja prova de traição é facílima de identificar: não acreditam na perfectibilidade do regime, consideram a hipótese de o submeter à lógica «burguesa» e «reaccionária» do voto, e, calcule-se a suprema insolência, esforçam-se, com risco da sua liberdade, do seu emprego e até da própria vida, por declará-lo publicamente.
Três posts sobre o tema que publiquei num passado mais ou menos recente: A imensa tristeza (já de 2003), Do Caddilac ao Trabant e Relógios cubanos – 50 anos depois. Leia-se também este texto de Joana Lopes com o qual me solidarizo inteiramente.

Saiu este mês e ainda pode ser encontrado em alguns quiosques um número especial da revista Philosophie Magazine que tem o Corão como tema unificador de um leque alargado de documentos, citações, entrevistas e artigos. O ponto de partida é o único que possibilita uma leitura aberta e produtiva: considera-se que não existe uma leitura exclusiva do livro sagrado, reconhece-se a ambiguidade de muitos dos seus passos e aceita-se a possibilidade de uma crítica laica do seu conteúdo. Justamente os três aspectos que o islamismo radical rejeita em absoluto. Discutem-se assim, de uma forma aberta e com depoimentos contraditórios, temas como a liberdade, a sharia, o lugar das mulheres, a jihad, o papel da razão, e apresentam-se testemunhos que nos permitem humanizar e diversificar uma vivência religiosa por muitos associada a barbudos hirsutos com os olhos injectados de ódio anti-ocidental e o polegar no detonador. Um bom contributo para sobrepor riqueza analítica e compreensão aos juízos primários que, pró ou contra, têm naturalizado, e por vezes legitimado, a dimensão violenta das controvérsias políticas e religiosas envolvendo o Islão.

Fotograma de Rocco e i suoi fratelli (1960).
Tenho, como o terá qualquer pessoa que não considere os Médicos Sem Fronteiras e a AMI organizações não-governamentais ao serviço dos bárbaros do ocidente, um enorme apreço pela actividade de Fernando Nobre no campo da medicina humanitária. Pessoas de diferentes quadrantes que o conhecem garantem-me também tratar-se de uma pessoa afável, simpática, honesta e trabalhadora. Não me parece, porém, que só por si tais habilitações o qualifiquem especialmente para poder tornar-se em 2011 o próximo PR. A sua experiência política é, no mínimo, sinuosa e ininteligível, já que em 2002, com Durão Barroso no Governo, participou na convenção do PSD, em 2006 fez parte da comissão política da candidatura de Mário Soares, nas últimas eleições para o Parlamento Europeu foi o mandatário nacional do Bloco de Esquerda, e meses depois, nas autárquicas, integrou a Comissão de Honra de António Capucho, candidato do PSD à Câmara de Cascais. Além disso, declarar candidatar-se por um «imperativo moral e de consciência para Portugal», falando em abstracto de «valores» que é necessário retomar, é afirmação oca, vagamente «à la PRD» (para quem se recorde ainda do falecido), que nada declara para além da presunção de um papel moralizador e messiânico, e que nada significa em termos de qualificação para um cargo que supõe uma relação de confiança com parte significativa dos cidadãos, uma linha de intervenção previsível, experiência política e um estilo afirmativo e mobilizador. Existir, aparentemente, uma fracção da esquerda que se deixa entusiasmar por esta possibilidade de levar ao poder «a bondade em pessoa» e de assim derrotar Cavaco é, por tudo isto, uma situação que se afigura de recorte esotérico. É preciso não se gostar mesmo nada de Manuel Alegre. Ou ter-se um sentido táctico que toca o absurdo. Ou ainda experimentar uma certa nostalgia pela figura amável de Gandhi, o mahatma, a «grande alma». Só que a missão aqui é outra.
| Publicado também no Arrastão

A Plataforma Cidadania Casamento, em consórcio com a Confederação Nacional das Associações de Família – duas organizações cuja designação só por si evoca, por certo, os melhores sentimentos –, resolveu passar à fase de guerra de trincheiras e, na pessoa do general Garcia dos Santos, vem dizer-nos que um grupo de «25 militares de Abril», aberto a novas adesões (e provavelmente a novas experiências), escreveu uma Carta Aberta contra a lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a qual consideram «uma aberração». Os senhores militares e ex-militares em causa têm todo o direito, felizmente, de escrever ou de dizer aquilo que pensam. Agora invocarem o 25 de Abril para uma manifestação pública de homofobia e intolerância é que não lembra a um soldado raso.
«Il a été le contemporain de Serge Gainsbourg et des juke-boxes, de John Lennon et des bals du samedi soir.» Aquilo que resta da chanson electrifica-se.

Christophe
Magda [Aimer ce que nous sommes]
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| Um obrigado ao Carlos de Freitas

Não, não vivemos na fronteira ténue de um regime despótico, açaimados por uma censura que actua na escuridão para esconder «a verdade» das pessoas comuns, cegando-as para as malfeitorias do nefando ditador e dos seus cúmplices de fato completo. Por muita pressão, manipulação, troca de favores da qual seja possível captar alguns ecos, ocasionalmente algumas provas (sim, parece bem possível), por muita arrogância, autismo, sectarismo, verborreia que nos cheguem diariamente (mais do que evidentes), nada indicia que se avizinhe uma democracia musculada de tonton-macoutes e «jotinhas», prontos a tomar posições de combate num cenário de pré-catástrofe. Gritá-lo às três pancadas – nos jornais, nos blogues, nas pracetas – é infantil, é ridículo, é inútil. E é também perigoso, pois desvia a atenção dos cidadãos para os problemas reais que têm a ver, de facto, com a redução da liberdade, a coacção, o medo.
Com estes sim, convivemos cada vez mais, todos os dias, sem feriados ou fins-de-semana, até à exaustão. Eles têm vindo a ser impostos, na administração pública como em muitas empresas, por decretos e regulamentos invariavelmente desumanizados, que em nome da sacrossanta «competitividade» minam a confiança entre as pessoas, reinstalam o autoritarismo, acentuam as desigualdades, sobrecarregam os horários, precarizam o trabalho e incitam ao individualismo cego do salve-se quem puder. Envenenam assim, lentamente mas sem descanso, o espaço para falar livremente e para criticar, enquanto premeiam o seguidismo e a cobardia. Não estou, como bem sabe quem tem o seu emprego ou o perdeu há pouco tempo, a falar de fantasias. Nem a arquitectar um cenário para revoluções salvíficas e perfeitas. Refiro-me à vida, em alguns casos à sobrevivência, de gente que vive ameaçada. Isto sim, justifica a vigilância, a denúncia, a resistência.
| Publicado também no Arrastão

Acaba de sair em Espanha uma colectânea de cartas dirigidas a Estaline pelos escritores Mikhail Bulgakov (1891-1940) e Evgueni Zamiatine (1884-1937). Resultando de investigações feitas nos arquivos da Lubianka, a sede moscovita do KGB, após o fim da URSS, elas trazem de volta o terror puro de quem vivia diariamente entre o silêncio imposto e a possibilidade da prisão ou do fuzilamento, o destino definitivo de tantos outros. Falam pois da morte em vida. As vítimas omitem aqui a pobreza, o frio, as privações que lhe foram destinadas pelo facto de não serem autores alinhados com a política e a estética do regime, e apelam tão-somente a que lhes seja concedida a possibilidade de sobreviverem como autores e como pessoas. Zamiatine conseguiria ir morrer em Paris. O autor de Margarida e o Mestre viveu até ao fim silenciado e na miséria.
Nós, a mais conhecida obra de Zamiatine, precursora do Admirável Mundo Novo (1930) de Huxley e de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (1948) de Orwell – concluída em 1921 mas cuja primeira edição em russo só pôde sair perto de sessenta anos mais tarde –, abre assim:
«Limito-me a transcrever textualmente o que hoje mesmo veio publicado na Gazeta do Estado:
Dentro de cento e vinte dias ficará completo o Integral. Aproxima-se a hora insigne, histórica, em que o primeiro Integral se levantará no espaço cósmico. Há mil anos, os nossos heróicos antepassados submeteram todo o globo terrestre ao domínio do Estado Único. Hoje assistiremos a um feito ainda mais glorioso: a integração, por meio do Integral, feito de vidro, eléctrico, ígneo, da eterna igualização de tudo o que existe. Ficarão sujeitos ao benéfico jugo da razão todos os seres desconhecidos, os habitantes doutros planetas que porventura vivam ainda no estado selvagem de liberdade. Se acaso não percebem que nós lhes levamos a felicidade matemática e exacta. É nosso dever forçá-los a serem felizes. Mas, antes de puxarmos das armas, tentaremos recorrer à palavra.
Em nome do Benfeitor, todos os números do Estado Único ficam notificados do seguinte:
Todos os que se sentirem capacitados deverão compor tratados, poemas, odes e outras composições sobre a beleza e a grandeza do Estado Único.
Eles constituirão o primeiro carregamento do Integral.
E viva o Estado Único. Vivam os números. Viva o Benfeitor!
Escrevo estas coisas e sinto o meu rosto a arder. Sim… há que levar a cabo a integração, proceder à grandiosa e infinita igualização de tudo o que existe. Sim, há que distender a curva selvagem, reduzi-la a uma tangente… a uma assímptota… a uma linha recta! E isso porque a linha do Estado Único é uma linha recta. A grande, a divinal. A exacta, a sábia linha recta – a mais sábia de todas as linhas!»
Trad. a partir do inglês por Manuel João Gomes (Edições Antígona, 1990)
Esta imagem do fotojornalista italiano freelancer Pietro Masturzo acaba de vencer o prémio máximo da World Press Photo 2009. Captada em Teerão durante os protestos originados pela reeleição do presidente iraniano, nela podem ver-se algumas mulheres que da açoteia de uma casa gritavam a sua indignação. O impacto cénico e o contraste dos gestos dão a ver, retirando-as da sombra, a cólera dos manifestantes e a violência do regime que os leva a manifestarem-se. E o perigo que correm aquelas mulheres pela circunstância simples de terem sido fotografadas.

Em Espanha, na frente de Huesca (Março de 1937)
A memória pesa, mesmo quando ela é a memória da mentira e da calúnia. Como aquela, ecoada desde há anos, que refere um George Orwell «traidor», «bufo», cujo delito – a suposta denúncia ao governo britânico de 38 compagnons de route comunistas – foi forjado pelos neo-estalinistas, seus acusadores públicos, na tentativa de desacreditar um dos intelectuais europeus que, no campo da esquerda, mais cedo e de forma pública divergiu das posições do Kremlin e do seu sistema de terrorismo de Estado. Mais de setenta anos depois, esta gente continua a replicar o modelo insidioso e bárbaro, utilizado nos anos trinta durante os Processos de Moscovo, que manipula, descontextualiza ou fabrica informação com vista a denegrir o acusado e a abatê-lo sem piedade.
A verdade, porém, conta-se em poucas palavras. Celia Kirwan, funcionária do Foreign Office trabalhista e cunhada de Arthur Koestler, o autor de O Zero e o Infinito (Darkness at Noon, de 1940), organizou em 1949 em Inglaterra um ciclo de conferências sobre o estalinismo e dirigiu-se a Orwell – na altura internado num sanatório e a dez meses apenas da morte – pedindo-lhe alguns nomes de pessoas que poderiam participar. Este respondeu-lhe com uma lista de figuras que lhe parecia não valer a pena convidar, pois dadas as suas relações com os soviéticos, e a possibilidade de alguns deles serem até agentes seus, jamais aceitariam. Foi esta relação – divulgada em 1982 na biografia do escritor britânico da autoria de Bernard Crick – que os caluniadores passaram a considerar «prova de delação». A perseguição a Orwell, essa vem muito de trás, pelo menos desde os anos da Guerra Civil de Espanha e da escrita de Homage to Catalonia (1938), quando a sua crítica do comunismo soviético e a denúncia militante do terror estalinista começaram, sob influência de algumas das alegações dos anarquistas e dos trotskistas, a ganhar forma. A derradeira gota de água seria a distopia projectada em Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (1949). Este caso da lista apenas serviu de pretexto para desenterrar um velho ódio.
| Leituras diferentes aqui e aqui.
| Uma abordagem parcial mas útil das posições políticas de Orwell aqui.

A Babelia agora todos os dias. No blogue Papeles Perdidos. Já está na minha via-sacra (não dolorosa contudo).

Em Machine de Vision, de 1988, Paul Virilio anunciava a instauração de uma democracia-espelho capaz de fazer regredir as antigas formas de reflexão colectiva. Escrevia aí que «o exibicionismo e o voyeurismo, reforçando-se mutuamente, passaram a determinar o fetichismo da imagem opticamente correcta, na qual o padrão das aparências integra e remata a opinião pública». Baudrillard falava também da «condenação à morte» de toda a referência exterior à própria imagem, determinada pela sua exuberância e proliferação. Isto não me apavora, apesar de ser um rato dos papéis. Não encontro aqui ameaça alguma. Vejo só um imenso repto à nossa capacidade para projectar e ampliar mundos comunicantes. Não uma megacatástrofe, mas uma viagem desafiante em mar revolto.
| recuperado por acaso de um post publicado há seis anos

Em Il Mostro Mite, «o monstro dócil», um livro publicado em Itália pela Garzanti, o linguista e ensaísta italiano Raffaele Simone procura mostrar o que separa o ethos tradicionalmente «sacrificial» da esquerda daquele assumido por uma direita que, ao contrário do que acontecia no passado, toma hoje o partido do consumo, do luxo, do despesismo e da poluição desgovernada. A Itália de Berlusconi esteve na vanguarda da mudança, uma vez que terá sido aqui que começou a afirmar-se essa direita do divertimento, da frivolidade, da comunicação televisual, do menosprezo pela arte e pela cultura, da procura desenfreada da riqueza e do prazer. Pelo contrário, a esquerda tem-se conservado essencialmente avessa à lógica consumista, apontando para uma sociedade austera, de renúncia, de regresso ao mínimo. Pelo meio, no entanto, algo mudou, e a nova sociedade globalizada encontra-se dominada por um padrão de cultura afável, envolvente, consumista, indiferente à renúncia e ao altruísmo. É este precisamente «il mostro mite», a face sorridente e todavia sinistra e prepotente da nova direita que em alguns países da Europa vem empurrando o conjunto da esquerda para um beco aparentemente sem saída.
Algo aqui parece inevitável. Se à direita pouco importa alterar a organização injusta do mundo, valendo pois fruí-lo tanto quanto for possível, já a esquerda, principalmente aquela que não se vendeu ao realismo político e à ordem neoliberal, reconhece as desigualdades e tem como cenário de esperança e motivação essencial para o seu combate, uma expectativa de mudança. Não pode por isso deixar de viver com sofrimento e inconformismo a desigualdade, a disparidade de oportunidades, o exercício arbitrário do poder, o crime como fonte de autoridade e de privilégios. Essa é a sua condição natural, que não pode repudiar mesmo quando em momentos específicos assume «a festa» como espaço para recuperar energias e prosseguir o combate. Mas é justamente aqui que Simone encontra um problema (ele não projecta a cura, faz apenas o diagnóstico): enquanto a esquerda ortodoxa tenta conservar essa vertente sacrificial que desconfia dos prazeres e coloca «a luta» à frente da procura de uma alternativa, os socialistas no poder, afáveis e sorridentes coveiros do Estado-Providência, cientes da dificuldade congénita de manterem as suas posições sem concessões aos ímpetos lúdicos e consumistas do povo que os elege, assumem um rosto superlight, que os revela cada vez mais como uma fraca cópia dessa direita «divertida» que anuncia a desigualdade como Deus e o «monstro dócil» como seu profeta.

Da entrevista (excelente como quase sempre) a Amos Oz, conduzida por Alexis Lacroix, que saiu no Magazine Littéraire nº 494, deste mês de Fevereiro:
«Você tem insistido sobre o facto da maioria dos europeus ser incapaz de conceber a vulnerabilidade do povo israelita. Não será um exagero?
A Europa permanece incapaz, em larga medida, de imaginar sequer a insegurança existencial dos israelitas. No conflito israelo-palestiniano não há lugar apenas para os bons e para os maus como muitos europeus gostam de acreditar. Não se trata de um western, nem de um combate entre o bem e o mal. É uma verdadeira tragédia, um conflito entre duas reivindicações poderosas, convincentes e válidas. Dito de outra forma: um combate entre o justo… e o justo.
Em numerosas intervenções públicas (…) costuma deplorar o facto de a numerosos europeus repugnar a consideração do sionismo em toda a sua complexidade. É essa a razão pela qual você prefere definir o sionismo como um “apelido”?
Quando recorro a essa metáfora, quero dizer que existe, no interior do sionismo, uma gama muito variada de sensibilidades e de correntes ideológicas: há o sionismo telúrico e anexionista dos sionistas religiosos; há o sionismo “revisionista” de Jabotinsky e dos seus émulos do Likud, que era o do meu pai, Arieh Klausner; há enfim o sionismo humanista, anti-anexionista, do qual me sinto, justamente, um herdeiro, desde que, em plena revolta juvenil contra o meu pai, me tornei um condutor de tractores de esquerda…
Até que ponto a literatura pode favorecer a emergência de uma solução?
A literatura desempenha um papel indirecto: ela ajuda-nos a imaginar o outro. Imaginar o outro é um passo importante para a resolução dos conflitos (…), é uma etapa indispensável para se chegar a uma melhor compreensão mútua.»

É nestas alturas que pessoas como nós, que cruzamos as cidades de sapatos confortáveis, circulamos pelas auto-estradas a ouvir mp3 no bem-bom do ar condicionado e nos indignamos com o cheiro a pipocas no cinema, que blogamos e tuitamos e feicebucamos, digitamos teclados virtuais ou bluetooth, sabemos distinguir um iPod de um iPad, vamos a concertos e a festivais, viajamos de avião, passamos por hotéis silenciosos e restaurantes onde ninguém levanta a voz, percebemos que continua a existir um país para o qual o jogo da vida se faz do futebol da «liga dos últimos», de iscas de cebolada, de circos manhosos, bailes dos bombeiros e umas voltas de carrossel ou carrinhos de choque. Eu nasci e vivi uma parte da minha vida a vinte quilómetros de Pedrógão Pequeno e não sabia que era essa a distância que me separava da «capital do carrossel». A medida exacta da minha ignorância e da minha miopia, que é a de todos nós que vemos aqueles homens e aquelas mulheres um pouco estranhos, todos com mais de quarenta anos, corpos flácidos, camisolas puídas, calçado cheio de lama, a reivindicarem que não lhes retirem o cabo do mundo onde ainda conseguem viver. A exigirem direitos que para eles marcam a distância entre a sobrevivência e uma vida pior ainda do que aquela que levam. A fazerem com que conheçamos o tamanho da nossa indiferença.

Há quase trinta anos que por motivos familiares visito regularmente a Madeira. Apesar de em 1981, quando pela primeira vez desembarquei no Aeroporto de Santa Catarina, ainda se sentir na rua alguma relutância em relação ao «cubano» que chegava do Continente – eu era nitidamente um deles – salvo raríssimas excepções fui sempre bem tratado. E ainda que me desagrade a degradação da natureza e da paisagem urbana suscitadas ao longo destas três décadas pelo crescimento do asfalto e do betão, nunca deixei de me sentir bem na ilha. Gosto da Madeira, gosto da generalidade dos madeirenses, e, não fora detestar andar de avião e sofrer de uma certa «insulofobia», talvez nem me importasse de passar por lá bastante mais tempo.
Nunca fui ao Porto Santo mas conheço bem toda a ilha da Madeira. Sei por isso que, se retirarmos algumas áreas onde reside a população mais pobre e desamparada, por toda a parte se respira um ambiente de prosperidade: vias rápidas e eficazes, cidades organizadas, um serviço de saúde exemplar, excelentes instalações escolares, transportes públicos eficazes, um óptimo parque automóvel, pessoas geralmente bem vestidas, muitas lojas de artigos de luxo, bons hotéis e bons restaurantes. Uma prosperidade bem visível na vida e nas atitudes de muitas famílias. Como não se vê, nesta dimensão, em parte alguma do resto de Portugal. Hoje mesmo no Público Manuel Carvalho apresenta dados irrefutáveis: o rendimento per capita na Madeira é de 128 por cento da média nacional, e enquanto o rendimento nacional ronda os 76 por cento da média europeia, os madeirenses beneficiam de 97 por cento. Como lembra o subdirector do jornal, «no país mais desigual da Europa, só Lisboa está acima». Desta forma percebe-se que a maioria das pessoas continue a eleger e a adular o aparente arquitecto deste pequeno paraíso?
Só que ao mesmo tempo – não escrevo novidade alguma, mas convém relembrar – não existe no arquipélago, para além de um turismo de massas sazonal (o antigo, regular e «de qualidade», tem vindo a regredir), actividade económica que aparentemente pague uma situação que nenhuma outra região do país mantém. Não existe uma única indústria (não conta, naturalmente, a produção semi-artesanal de vimes e de bordados), o campo vive quase em regime de monocultura (a videira ou a bananeira ocupam a paisagem cultivada visível), não existe criação de gado significativa ou actividades derivadas, o comércio tradicional definha a olhos vistos. E, pior, não se pensa, não se fala, numa alternativa a este deserto económico. Há, sim, um consumo de bens elevado, condicionado pelo Governo Regional que é o principal empregador e o grande padrinho, e por uma política de subsídios que torna tudo – educação, saúde, transportes – muito mais barato do que em qualquer outra parte do país. Nestas condições, como não apelar em período de crise, à escala nacional, à contenção de quem se encontra em melhores condições para a aplicar? Justamente porque beneficiou da solidariedade forçada de quem manteve o cinto apertado enquanto a partir do palácio rosa da Quinta Vigia se abriam os cordões «à grande e à madeirense». A ser aplicada, a solidariedade não pode ter sentido único, por muito que o senhor que se sabe vocifere e estrebuche ou se faça passar por engraçadinho. Para o bem de todos, incluindo naturalmente os madeirenses.

Na manhã de 1 de Dezembro de 1989, a banda do Vaticano tocou de maneira vibrante A Internacional, logo seguida do hino papal. Mikhail Gorbachev, o líder do Partido Comunista da União Soviética, acabava de ser recebido por João Paulo II. Um encontro que sete ou oito meses atrás qualquer pessoa no seu juízo teria considerado impossível. Baseado numa longa experiência como repórter, em entrevistas e depoimentos de personalidades colocadas no centro dos acontecimentos, e ainda em material de arquivo inédito, o jornalista de origem húngara Victor Sebestyen descreve a sequência dessa meia dúzia de meses agitados e vertiginosos que mudaram o mundo de uma forma aparentemente inexplicável. Em Revolução 1989 mostra como toda esse imprevisibilidade se ficou a dever, em larga medida, à falta de informação, ou de reconhecimento público, de um conjunto de factores críticos que vinham cruzando já a realidade das «democracias populares», e como os factos se precipitaram bruscamente devido sobretudo ao processo da perestroika e ao desinteresse da nova direcção soviética pelos destinos dos Estados que os seus antecessores haviam tutelado ao longo de quase meio século.
A narrativa começa em Outubro de 1978, quando Yuri Andropov, então ainda só o dirigente máximo do KGB, foi informado da eleição papal do cardeal polaco Karol Wojtyla. Extremamente irritado, telefonou nessa mesma noite ao embaixador soviético em Varsóvia exigindo saber como fora possível a escolha para a cadeira de São Pedro de «um cidadão de um país socialista» desde há muito considerado «perigoso para nós». A premonição de que algo de muito sério poderia estar para acontecer iria rapidamente revelar-se certeira. A partir desse acontecimento-chave, Sebestyen procura então descrever os factores e os instantes centrais da mudança em curso, bem como as tentativas desesperadas dos regimes isolados e autoritários, atolados na corrupção e no descalabro financeiro, para a impedirem. Na Polónia em primeiro lugar, mas logo de seguida na Alemanha Oriental, na Checoslováquia, na Hungria, na Roménia e na Bulgária, sucederam-se então momentos críticos e de confronto, no decorrer dos quais se percebeu a total incapacidade de líderes isolados e cansados, como Honecker, Ceaucescu, Husak, Kadar ou Jivkov, para compreenderem a realidade mundial em transformação e actuarem em conformidade. Pior do que permanecerem fiéis aos princípios basilares da ortodoxia marxista-leninista, foi o facto de todos eles se mostraram incapazes de ultrapassarem o mais rígido imobilismo nas práticas de governação e no relacionamento com os cidadãos, tornando fatal a própria queda.
Revolução 1989 é uma obra objectiva, rigorosa e abrangente, que segue uma estrutura narrativa aliciante, pontuada por inúmeros episódios dessa «pequena história» que tantas vezes faz inflectir a sequência dos grandes movimentos políticos e sociais. Um instrumento de grande utilidade para quem pretenda compreender a velocidade, a dimensão e o eco da «primeira revolução televisionada da História». E um ano quente, de viragem, na nossa experiência colectiva.
Publicado na revista LER de Janeiro
Victor Sebestyen, Revolução 1989. A Queda do Império Soviético. Trad. de Alberto Gomes. Presença, 448 págs.

No final da década de 1990, Ian Kershaw publicou uma biografia monumental de Hitler distribuída por dois volumes e 2.000 páginas. O primeiro acompanhava as origens remotas do «Führer do povo e do Reich alemão», a composição das suas certezas, o aperfeiçoamento gradual e premeditado da imagem pública, o caminho para a tomada do poder e o esforço de militarização da sociedade alemã indispensável para a afirmação dos seus objectivos. O segundo volume seguia-o nos anos do apogeu e da queda do regime nazi: os da mobilização para a guerra total, da apoteose do poder e da expansão da Grande Alemanha, mas também os da Solução Final, do recuo estratégico e da morte antecipada do «Reich de Mil Anos». Logo aclamada como obra de referência, devido sobretudo à quantidade de informação oferecida e à novidade de muitas das fontes de arquivo utilizadas, acabou por ser reeditada em 2008 num volume único e condensado, mais acessível ao leitor comum. É esta versão que as Edições 70 agora editaram. A estrutura da obra original mantém-se, embora as notas tenham desaparecido, a bibliografia final sido reduzida e o texto aparado de algum material do qual o autor aceitou prescindir.
É um estudo sobre a força acumulada e aplicada pelo líder nazi, nele se procurando mostrar como foi possível a um indivíduo aparentemente inepto ter-se apropriado do poder num país desenvolvido como a Alemanha, e, depois de o obter, como foi ele capaz de o conservar e de o alargar da forma que conhecemos. Ensaia também a compreensão dos motivos pelos quais uma sociedade moderna, culta e com alguma tradição democrática pôde mergulhar rapidamente na mais brutal e devastadora das barbáries. Nesta direcção, Kershaw, preocupa-se menos com a definição psicológica do biografado, o seu trajecto individual, gostos, vida familiar e amizades – praticamente invisíveis no livro –, do que com as condições que permitiram a sua irresistível ascensão. Considera mesmo o seu estudo como biografia de uma «não-pessoa», de alguém que, de facto, não parecia ter vida fora das organizações e dos acontecimentos nos quais se foi sucessivamente envolvendo. Assegura até que fora da esfera da política Hitler «teria permanecido indubitavelmente como um zé-ninguém», tendo sido apenas ela a potenciar as suas capacidades, a sua vontade e o seu trajecto como «autoridade carismática» – seguindo o conceito de Weber – capaz de apresentar aos olhos de um crescente séquito de seguidores, com recurso a uma imagem laboriosamente construída, capacidades únicas, extraordinárias e providenciais. Um oportunista soberbo e um péssimo estratego, «demagogo de cervejaria com poucas qualificações académicas», obcecado consigo próprio mas com inteligência suficiente para se adaptar às expectativas e às condições do seu tempo, que estava convencido de ter sido talhado para cumprir o destino histórico da Alemanha. Mais do que sobre Adolf Hitler, é pois sobre a época e as circunstâncias que permitiram a sua ascensão que o historiador britânico faz incidir o seu relato.
Publicado na revista LER de Janeiro
Ian Kershaw, Hitler. Uma Biografia. Trad. de Lídia Geer. Edições 70, 38 + 850 págs.

De acordo com um estudo da Academia Chinesa das Ciências, a China poderá tornar-se uma democracia em 2040, quando o país alcançar um nível de «desenvolvimento médio» e o seu PIB per capita ultrapassar os 20.000 dólares. Até lá mandam-se os dissidentes para a prisão e dão-se umas boas cacetadas em quem se manifeste que é para essa gente assimilar melhor a tradicional virtude da paciência.

Cavaco destacou dos valores republicanos, como era de esperar, «o amor à pátria e a ética na vida política». Já Sócrates anotou como capital «a importância atribuída à educação». Para além do cerimonial da ordem e do folclore já a rodar em volta do centenário do 5 de Outubro, dois elementos fundamentais do ideário republicano – que a experiência da Primeira República em larga medida falhou ou distorceu – têm permanecido na penumbra. São eles a igualdade de direitos políticos encarada como uma necessidade (que no entanto excluía ainda as mulheres), e o valor emancipatório da laicidade do Estado, da sociedade e do sistema educativo. Será bastante mais útil e estimulante que nos concentremos na evocação destes – sobretudo numa reflexão colectiva que actualize a sua mensagem – mas duvido que as autoridades públicas ou algumas «comissões de festas» se sintam tentadas a fazê-lo. Vivemos tempos mais fáceis para as liturgias do que para as ousadias.
Passou quase despercebido um despacho publicado há dias pela agência Lusa. Não noticiava nada em particular, nem anunciava algo de novo, resultando o seu interesse de nele alguém naturalizar como aceitável ou mesmo necessária uma prática preocupante. A partir do anúncio, ainda mal esclarecido, de que a TAP teria sancionado pilotos com um «curso de ética» devido a conversas mantidas no Facebook, entrevistava-se um «especialista da empresa de recrutamento Michael Page» capaz de afirmar com a maior candura que na utilização das redes sociais os trabalhadores «precisam de estar atentos à forma como as utilizam, até para não prejudicarem a sua imagem perante futuros empregadores». Considerava-se mesmo que o trabalhador deve evitar informações «pouco abonatórias» para a empresa onde trabalha como forma de proteger o seu próprio trabalho. No referido despacho, Nuno Troni lembrava ainda, e aparentemente lamentava, que para as empresas seja «muito difícil controlar toda a informação que os colaboradores trocam entre si», quer num contexto de trabalho, quer ao nível social, com amigos ou familiares.
A partir da altura em que a expressão de opiniões e a troca de informações na Internet se universalizou, a partir da altura em que aquilo que cada um escreve passou a ser mais lido e a circular com uma cada vez maior facilidade, quando a velha e já quase esquecida netiqueta cedeu lugar ao abuso do anonimato e à frequente instrumentalização da rede como arma de arremesso, as consequências passaram a ser mais pesadas e, naturalmente, o grau de responsabilidade de quem fala por aquilo que diz tendeu a aumentar. Mas para moderar os efeitos negativos, nas redes de computadores como nos jornais ou na rua, agora como dantes, existem códigos éticos e instrumentos jurídicos, bem como regras próprias de cada um dos meios, que podem humanizar um pouco a lei da selva e alargar a própria noção de responsabilidade. Agora admitir como necessárias e naturais a vigilância e a autovigilância, a coacção da opinião, a anulação da liberdade de crítica, e até, implicitamente, a construção de bases de dados contendo as opiniões dos cidadãos-trabalhadores, tal como o fez o «especialista» da Michael Page, traduz-se num ataque público à liberdade de opinião e numa defesa do silenciamento da divergência. É inquietante que a Lusa, «Agência de Notícias de Portugal», tenha olhado com indiferença para estas declarações limitando-se a passar a mensagem.
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E depois do Degelo.

Evoca-se hoje o Dia Internacional da Memória do Holocausto, celebrando a libertação pelas tropas soviéticas, ocorrida em 27 de Janeiro de 1945, do complexo de campos de Auschwitz-Birkenau. Ao contrário do que se passa com outros acontecimentos que o tempo vai diluindo, as representações do Holocausto têm permanecido activas, ainda que nem sempre pelos melhores motivos. Destaco dois: a desvalorização da shoah devido ao comportamento do Estado de Israel em relação aos direitos políticos do povo palestiniano, e a negação (ou a depreciação) do próprio extermínio em massa dos judeus levado a cabo pelos nazis, imposta por um certo padrão de revisionismo histórico inspirado pela extrema-direita e/ou pelo islamismo radical. São problemas complexos, sobre os quais tem sido muito fácil dizerem-se as maiores barbaridades, que começam quando se julga o passado apressadamente e, em função de certos combates do presente, se tomam as pessoas por estúpidas.
Entretanto pouco se tem escrito sobre aqueles cujos pais sobreviveram aos campos nazis. As consequências traumáticas para os próprios deportados são bem conhecidas, mas a presença do seu eco junto dos seus descendentes tem permanecido silenciada. Eu Não Lhe Disse Que Estava a Escrever este Livro (ed. Pedra da Lua) destaca treze testemunhos de filhos de judeus franceses sobreviventes de Auschwitz, todos nascidos nos finais da década de 1940, que desafiados pela jornalista Nadine Vasseur aceitaram comentar pela primeira vez a sombra que os acompanhou a vida inteira. Coincidem sem excepção num aparente paradoxo: se, por um lado, a experiência da deportação e da vida nos campos é intransmissível, dada a impossibilidade real de exprimir o sofrimento extremo e solitário dos que as viveram, por outro ela criou nestes uma capacidade para resistir e para sobreviver que os colocou acima das exibidas pela maioria dos humanos, tornando-os pessoas admiráveis mas obrigatoriamente «difíceis» no trato diário. Esta dificuldade encontra-se patente em atitudes que sempre perturbaram muito os seus filhos, que com elas tiveram de conviver desde crianças: a constante descrença («sempre disse ajuda-te a ti próprio, pois o céu não te ajudará»), uma secura imutável («podem ficar com o olhar húmido, mas não choram»), o silêncio sobre o passado («meteu a sua história dentro de uma caixa e pôs uma tampa»). Mas revela-se também numa grande capacidade para enaltecerem «o imenso valor da vida», evitando repisar um passado que preferiam manter no seu foro íntimo.
Este livro especial mostra-nos como foram os filhos dos deportados que sobreviveram a transportarem parte substancial do fardo dos pais. Ele dialoga sempre com a singularidade perturbante de cada testemunho, com a dificuldade sentida por cada um dos entrevistados de Nadine Vasseur em falar de pormenores simples apenas na aparência, como a forte lembrança dos gritos aflitivos dos pais escutados em noites de pesadelo ou a visão nunca comentada «daquela tatuagem no braço, que sempre lhe conheci». Um livro pequeno mas intenso e comovente, que ajuda a contornar a banalizante «indústria do testemunho» e a combater a revisão negacionista do Holocausto que nos tem enchido os ouvidos. Uma sugestão para este 27 de Janeiro.
Este post retoma em parte um texto que escrevi em 2008.
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Nunca me interessei muito pelos combates jurídicos entre a Microsoft e a Apple ou pela guerra de guerrilhas entre os seus adeptos. Desde os tempos do medonho MS-DOS que vinha com o meu primeiro computador, um pesado Schneider estranhamente movido a floppy-disk, sempre me servi mais de máquinas com o sistema operativo fornecido pela empresa de Gates, mas a escolha foi condicionada desde o início: os computadores da maçã eram bastante mais caros e o acesso ao software muito mais difícil. Com pouco dinheiro para investir, eu não tinha hipóteses de escolha. No entanto, sempre vi nos Mac aquilo que vêm muitos dos seus indefectíveis adeptos: computadores-objecto bonitos, quase sempre fiáveis e com um interface invariavelmente userfriendly. Nunca deixei de me servir deles ao longo dos últimos vinte anos, embora tenham sido só o iPod e o iPhone – com a revolução que introduziram na gestão diária do velho hábito de ouvir música e da nova mania de comunicar em rede – a aproximarem-me um pouco mais dos produtos da Apple. Tal como tem acontecido com tantas pessoas.
Hoje ao fim da tarde, Steve Jobs, o chief executive officer da empresa irá revelar o super-guardado segredo que poderá materializar, ao que consta, o arranque para a sua terceira vida: uma máquina, leve, fina e elegante, em formato tablet e a um preço razoável, que fará conjugadamente tudo aquilo que fazem agora netbooks, iPods, iPhones e sobretudo e-books, sugerindo uma nova viragem não só na utilização diária das próteses computacionais, mas principalmente na caracterização do hábito e do acto de ler. Nestas coisas, sabe-se como é difícil ser-se bruxo ou profeta, mas a cumprirem-se as previsões dos especialistas, os apóstolos da imortalidade do livro em papel e da vida eterna da galáxia de Gutenberg irão mesmo confrontar-se, talvez como nunca antes ocorreu, com a necessidade de reverem a sua visão dos mundos comunicantes. A sua forma, irrevogavelmente datada e condenada, de taparem o sol com a peneira perante as práticas e as expectativas adoptadas com entusiasmo pelas gerações mais recentes. Quem vo-lo diz vive os seus dias entre milhares de livros, de revistas, de jornais em cartão, cola e papel. Vive deles, precisa deles, snifa-os glosando muitos e até escrevendo alguns. Mas nem por isso aceita fazer de cego ou de avestruz.
Depois da coisa – Consumada a saída do iPad, no essencial as expectativas criadas parecem manter-se, com algumas objecções e outros tantos factores de entusiasmo. Leia-se a propósito o que escreveu Paulo Querido.

Desde que em 2006 entrou em vigor em Espanha a legislação destinada a reprimir o ancestral hábito de fumar, diminuiu o consumo do tabaco mas cresceu o número de fumadores. Em 2009, 31,5% dos nuestros hermanos afirmou fumar, no mínimo, de forma moderada, quando três anos antes a percentagem era de 29,5%. A diferença seria insignificante se não derrotasse os objectivos «profilácticos» da lei e não servisse agora de justificação para impor regras ainda mais severas e restritivas. A verdade é que ao longo destes anos elas se mantiveram razoavelmente suaves e de aplicação bem mais flexível do que aconteceu em Portugal, como qualquer cidadão pode constatar, entre três passas e outras tantas baforadas, de cada vez que cruze a linha de fronteira e avance até à distância de um tiro de bacamarte. Porém, se tudo for agora uniformizado pelo diapasão do antitabagismo furioso, deixaremos de distinguir o «mau vento» que a nicotina insinua e sofrerá rude golpe a castiça defesa da identidade dos nossos ares. Sejamos claros: lá no fundo, os defensores espanhóis de uma lei mais severa são iberistas disfarçados ou então ressabiados de 1640. Por isso, se os de Madrid aprovarem as suas normas mais limitativas, apenas nos restará, em nome da pátria dos Pereiras, dos Albuquerques, dos Mouzinhos e dos Coutinhos, um voluntarioso regresso ao uso liberal do Provisórios e do Três Vintes.
[os erros do francês são autênticos]
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Durante anos, a guerra (a «Colonial», a «do Ultramar») permaneceu tema intocável para a maioria dos portugueses que nela participaram como combatentes. Enquanto durou, os militares não podia comentá-la sem correrem riscos. Depois, morto o império, começou a circular que todos a tinham travado contra a sua consciência. Parecia que todos haviam sido anticolonialistas, preferindo fazer-se de conta que o passado colonial estava morto e enterrado. Quem tentava falar do assunto, batia invariavelmente numa parede de silêncio que tornava impossível perceber o lado humano e não-oficial daquilo que acontecera. Pelos anos oitenta começaram então, timidamente, os almoços de confraternização, geralmente preenchidos com as épicas aventuras partilhadas aos vinte anos ou com fanfarronices sobre «turras» e «pretas». Só pelos meados da década de 1990 surgiram os primeiros estudos e recolhas de testemunhos, e só agora, quase quarenta anos passados sobre o fim do conflito, se tornou normal ouvir ex-militares, ou as suas famílias, a falarem de forma livre dessa experiência durante tanto tempo calada. Percebe-se finalmente que tudo foi menos simples, e menos insignificante para a vida das pessoas envolvidas, do que se pensava com o cheiro a pólvora ainda nas narinas.
Outro tema, porém, continuou oculto, ou pelo menos mascarado e entrecortado por longos silêncios: a vida dos civis portugueses que povoaram os territórios africanos foi provisoriamente apagada. E os muitos que voltaram à terra de onde haviam partido, ou de onde tinham saído os seus pais, foram, depois de marginalizados mais pela sua diferença cultural do que por uma eventual cumplicidade no sistema colonial – efectiva em alguns casos, muito relativa noutros –, forçados a integrarem-se para que pudessem ser reconhecidos como portugueses normais, e não como perversos «retornados». Tem sido elogiada a forma como foram incorporados na vida do país, muito mais rápida e supostamente indolor do que a vivida pelos franceses pied-noirs obrigados em 1962 a saírem da Argélia. Mas esse processo, aparentemente pacífico e «exemplar», foi feito à custa do apagamento de histórias de vida, de valores, de costumes, de recordações, que eram os daqueles que haviam regressado ou chegado pela primeira vez à «metrópole» em 1974-75. De certa maneira, foi uma violência o que se passou, e foi ela – associada, por vezes, à perda dos privilégios ou das facilidades que muitos tinham conhecido em África – que levou muitos desses portugueses de torna-viagem a romantizarem ou a fantasiarem a vida que um dia tiveram, ou imaginam que tiveram. Uma vida perfeita, feita de bem-estar, de praias, de caçadas, de bailes, de mariscadas, de sexo, de noites de convívio, numa sociedade dentro da qual tudo parecia ter o seu lugar predestinado e imutável, num cenário onde racismo parecia «invisível», camuflado em Angola ou naturalizado em Moçambique.
É por isso que um livro como o Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo (ed. Angelus Novus, 2009), se torna perturbante para muitas dessas pessoas, ou para aquelas que delas herdaram o discurso e os mitos. Elogiado por uma grande parte da crítica, com direito a grande destaque em diários e semanários, com um volume de vendas que fez esgotar a edição inicial, tem também sofrido o impacto de leituras sugeridas por quem vê nele algo capaz de colidir com a sua visão modelar e quase paradisíaca de um passado que prefere guardar como então o viu e como o gostaria de continuar a ver. Com os contornos de um tempo de prosperidade e de ordem social, sem confrontos visíveis, basicamente feliz. Mas ele não aconteceu assim – ou apenas assim – e o livro de Isabela Figueiredo, nascida em 1963 na cidade de Lourenço Marques, mostra-o com clareza. Acontece que existia, mas existia mesmo, um ambiente colonial complexo, no qual a paz das esplanadas escondia a violência latente ou explícita do quotidiano, e, sobretudo para os mais jovens nos anos da guerra, onde a aparente unanimidade podia camuflar a dúvida ou a busca de horizontes culturais mais livres e cosmopolitas, embora uma certa «nostalgia africanista» tenda a desvalorizar este lado.
Caderno de Memórias Coloniais não é um texto fácil para quem integre essa dimensão mais ou menos idílica e a technicolor do passado de muitos dos portugueses brancos que habitaram as antigas colónias, tornando menos agradáveis as imagens quase utópicas, de postal ilustrado, que abundam por aí. Além disso, resulta de um acto de coragem da autora, evidenciando, entre a ficção e não-ficção, um trabalho de exposição pessoal e familiar do passado (e também do presente que se lhe cola) que não deixará de ser pago com juros. Isabela Figueiredo faz notar, na conversa-entrevista que integra o próprio volume, que já houve quem lhe dissesse «que temos de ultrapassar o passado, que não vale a pena tocar em assuntos tão sensíveis», mas contrapõe ao argumento que, se temos realmente de ultrapassar esse passado, se os portugueses do outro lado do mar precisam mesmo de ultrapassar esse passado, «só o podemos fazer depois de o enfrentar». Nem que fosse apenas por este acto de enfrentamento, este livro incómodo mereceria sempre a nossa atenção. Os portugueses que povoaram o império colonial, ou «o nosso ultramar», não podem ver o seu passado apagado, esquecido, ou então pintado com as cores apenas agradáveis que a descolonização teria manchado. Ele conteve também experiências amargas, difíceis, perturbantes, por vezes únicas. Reconhecer esta diversidade só valoriza esse passado, não o degrada como julgam os mais cegos ou preconceituosos.
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Camus na Grécia em 1958 (com Michel Gallimard, com quem morrerá dois anos depois)
Foram já distribuídos por cá os dois atraentes e úteis números do Magazine Littéraire e da Lire dedicados à vida e ao eco da obra e do pensamento de Albert Camus. Do segundo consta a transcrição do notável discurso pronunciado em 10 de Dezembro de 1957, quando, de fraque alugado para a ocasião, o autor de L’Étranger recebeu em Estocolmo o Prémio Nobel da Literatura. Traduzo um fragmento conservado sem uma ruga.
«O papel do escritor (…) é inseparável de imperativos difíceis. Por definição, ele não pode colocar-se ao serviço daqueles que fazem a História. Se o fizer, ficará só e privado da sua arte. Todos os exércitos da tirania, com os seus milhões de homens, serão então incapazes de libertá-lo dessa solidão, ainda que, e sobretudo se, marcharem ao seu lado. Mas o silêncio de um prisioneiro desconhecido, abandonado à humilhação do outro lado do mundo, bastará para retirar o escritor do exílio, de cada vez que, pelo menos, este consiga, recorrendo aos privilégios da liberdade, impedir que esse silêncio seja esquecido, fazendo-o ecoar pelos meios que a sua arte fornece.
Nenhum de nós é suficientemente grande para cumprir uma tal vocação. Mas, em todas as circunstâncias da sua vida, obscuro ou provisoriamente célebre, atirado às feras da tirania ou momentaneamente livre para se exprimir, o escritor pode reencontrar o sentimento de uma comunidade viva que o legitimará, na condição única de assumir enquanto puder as duas tarefas que fazem a sua grandeza: o serviço da verdade e o da liberdade. (…) Ele não pode acomodar-se à mentira e à servidão que, por onde quer que imperem, fazem proliferar as solidões. Sejam quais forem as nossas fraquezas pessoais, a nobreza da nossa actividade radica-se sempre em dois compromissos difíceis de manter: a recusa de mentir sobre aquilo que sabemos e a resistência à opressão.»