Príncipes das trevas

Ódio

O verdadeiro tema de L’Homme Révolté – publicado por Albert Camus em 1951, quando a linguagem inclusiva não era ainda uma arrelia para os autores – é a forma como o ser humano, em nome da revolta, se acomoda ao crime. Sobre o modo como a revolta colectiva levou ao surgimento dos Estados policiais e concentracionários do século vinte. Nele podem ser encontradas algumas páginas sobre Louis Antoine Léon de Saint-Just, o «arcanjo do Terror», que durante a Revolução Francesa defendeu a necessidade de os responsáveis pelo Estado serem totalmente implacáveis para com os seus inimigos, apagando, pela via das armas e do trabalho da guilhotina, aqueles que contrariassem uma acção revolucionária sem tréguas ou dela minimamente duvidassem. Vale a pena recordar um passo do texto de Camus, num tempo, este tempo, no qual figuras desta natureza, como príncipes das trevas à espera da sua oportunidade, ainda continuam a ser anunciadas como exemplos de uma coerência irredutível e necessária. Quanto ao «arcanjo», acabou, como se sabe, com a cabeça decepada por uma imperturbável lâmina, numa tarde seca do dia 28 de Julho, ou 10 de Thermidor, de 1794. Sem direito a julgamento, tal como pregou para os outros.

«Saint-Just, contemporâneo de Sade, aceita a justificação do crime, embora parta de princípios diferentes. Saint-Just é, sem dúvida, o anti-Sade. Se a fórmula do marquês poderia ser “Abri as prisões ou provai a vossa virtude”, a do conven­cional seria: “Provai a vossa virtude ou ide para a prisão”. Ambos, contudo, legitimam um terrorismo, individual quanto ao libertino; do Estado quanto ao sacerdote da virtude. O bem absoluto ou o mal absoluto, se em tal assunto se aplicar a necessária lógica, requerem o mesmo furor. Claro que, no caso de Saint-Just, existe ambiguidade. A carta que ele escreveu a Vilain d’Aubignv em 1792 possui qualquer coisa de insensato. Esta profissão de fé de um perseguido perseguidor termina por uma confissão violenta: “Se Bruto não matar os outros, matar­-se-á a si próprio”. Uma personagem tão obstinadamente grave, tão voluntariamente fria, lógica e imperturbável, permite ima­ginar todos os desequilíbrios e todas as perturbações. Saint-Just inventou a espécie de gravidade que converteu a história dos dois últimos séculos num tão enfadonho romance negro.»

Adenda - Muito bem, admito que este post possa parecer um pouco críptico. Mas como diria um filósofo português bastante popular na década de 1990, «vocês [ou pelo menos alguns de vocês] sabem do que estou a falar».

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Arquivado em História, Olhares, Pensamento

Tiros, marchas, desfiles & explosões

Operação de charme da República Democrática Popular da Coreia (do Norte) em canal próprio do You Tube. Um apreciável esforço para impressionar o mundo ao qual não falta uma banda sonora de invulgar qualidade.

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O homem por detrás do ícone

Trotsky

O perfil histórico de Lev Davidovitch Bronstein, Trotsky, incluiu sempre os estigmas do herói e do mártir. A luta contra Estaline e o estalinismo concedeu-lhe desde cedo – e não apenas entre os seus seguidores – uma certa imagem pública de bolchevique «autêntico», que não traiu mas foi traído. Isaac Deutscher descreveu-o como o «rebelde par excellence», justamente para se referir às características que o transformaram, a partir de 1921, num crítico do regime que de forma decisiva ajudara a estabelecer. Terá sido essa silhueta de «eterno revolucionário» a determinar o efeito internacional de sedução que projectou junto de sucessivas gerações de comunistas e outras pessoas de esquerda desconformes em relação aos rostos do paradigma marxista-leninista. O papel decisivo na Revolução de Outubro e na criação do Exército Vermelho, a aptidão como orador, o valor literário dos seus escritos, associados a um estilo pessoal elaborado que o aproximava mais do intelectual do que do duro combatente maximalista, contribuíram também para fixar a representação encantadora do homem de letras dedicado a uma causa pela qual viria a dar a própria vida. Porém, nada disto seria suficiente para lhe assegurar a imortalidade. O passo definitivo foi dado pelo projecto político próprio, fundado na defesa de uma revolução permanente lançada à escala mundial contra a perspectiva do «socialismo num só país», e na percepção de uma «crise da direcção do proletariado» que tornava imprescindível um combate sem tréguas contra a degenerescência burocrática. A repressão brutal destas ideias e dos seus partidários, imposta por Estaline, acabaria por acentuar a noção de exemplaridade, de pureza revolucionária, mais tarde revigorada por biografias de pendor intensamente elogioso e hagiográfico como a de Deutscher, editada entre 1954 e 1963, e a de Pierre Broué, saída em 1988.

A leitura heróica e apologética da vida e da obra de Trotsky enfrentou entretanto, nos últimos vinte anos, uma conjuntura delicada: a abertura dos arquivos soviéticos permitiu o lançamento de olhares mais detalhados e menos categóricos sobre o seu trajecto pessoal e político. Em consequência, duas importantes biografias procuraram refundar a sua imagem pública. Trostsky – The Eternal Revolutionary foi publicada em 1992 por Dmitri Volkogonov (ed. inglesa de 1996 pela Free Press), que usufruiu da posição privilegiada como director do Instituto de História Militar soviético para aceder a um grande número de documentos inéditos e ao testemunho de familiares e de ex-agentes do NKV, revisitando o caminho percorrido pelo biografado. Já Trotsky – A Biography, de Robert Service, saída em 2009 (ed. Macmillan), amplia ainda mais essa busca, acompanhando os momentos mais importantes da vida do revolucionário bolchevique mas prestando grande atenção a aspectos complementares da sua actividade privada. Sobretudo àqueles, relacionados com a formação e as leituras, as amizades e inimizades, os amores e a existência familiar, que possibilitam uma percepção mais completa do homem oculto por detrás do ícone.

Diferentes no conteúdo e no estilo, as duas obras coincidem na ampliação, com evidências esmagadoras, dos factores menos benignos do trajecto pessoal de Trotsky. Evoca-se assim o seu papel na justificação do terror revolucionário contra os primeiros dissidentes e todos os «inimigos de classe», na repressão sangrenta da revolta dos marinheiros de Kronstadt, na defesa da irredutibilidade do Exército Vermelho diante das populações civis, ao mesmo tempo que se denuncia a enorme arrogância pessoal, a insensibilidade nas relações humanas, o cuidado obsessivo com a construção pública da imagem, o esforço tenaz para esconder a origem judia, a incapacidade para gerir situações que exigissem atenção aos pormenores e às pessoas enquanto pessoas. A estes elementos pode ainda juntar-se um factor que contesta as asserções do «trotskismo cultural», assente na lenda de um Lev Davidovitch contrário aos cânones do realismo socialista: Service procura mostrar como o seu influente ensaio Literatura e Revolução, escrito em 1924, foi essencialmente «um trabalho de reducionismo político», criando as condições para aquilo que viria depois em termos de controlo da actividade literária e artística pelo Partido e pelo Estado. Destas duas biografias sobressai pois a sugestão de que se Trotsky tivesse levado a melhor sobre Estaline nem por isso a experiência totalitária, ainda que orientada num outro sentido, teria deixado de pesar sobre a União Soviética. Mas isto, claro, jamais poderá ser provado. E por isso será categoricamente negado por quem continua a encontrar inspiração nas suas palavras.

[Revisitação de um texto publicado na revista LER de Julho-Agosto de 2010]

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Papéis Roubados #3

Partes de um texto de reflexão crítica sobre a educação dirigida para o crescimento económico que subalterniza as humanidades e as artes. Publicado no TLS e reproduzido no Courrier Internacional (trad. de Ana Cardoso Pires). A autora é a filósofa e professora universitária norte-americana Martha Nussbaum.

Uma crise planetária da educação
Martha Nussbaum

Martha Nussbaum

Courrier Internacional, ed. portuguesa – No. 175, Setembro de 2010

Atravessamos actualmente uma crise de grande amplitude e de grande envergadura internacional. Não falo da crise económica mundial iniciada em 2008; falo da que, apesar de passar despercebida, se arrisca a ser muito mais pre­judicial para o futuro da democracia: a crise planetária da educação.

Estão a produzir -se profundas alterações naquilo que as sociedades democráticas ensinam aos jovens e ainda não lhe afe­rimos o alcance. Ávidos de sucesso económico, os países e os seus sistemas educati­vos renunciam imprudentemente a competências que são indispensáveis à sobrevivência das democracias. Se esta tendência persistir, em breve vão produzir-se pelo mundo inteiro gerações de máquinas úteis, dóceis e tecnicamente qualificadas, em vez de cidadãos realizados, capazes de pensar por si próprios, de pôr em causa a tradição e de compreender o sentido do sofrimento e das realizações dos outros.

De que alterações estamos a falar? As Humanidades e as Artes perdem terreno sem cessar, tanto no ensino primário e secundário como na universidade, em quase todos os países do mundo. Considera­das pelos políticos acessórios inúteis, nu­ma época em que os países têm de desfazer – se do supérfluo para continuarem a ser competitivos no mercado mundial, estas disciplinas desaparecem em grande ve­locidade dos programas lectivos, mas também do espírito e do coração dos pais e das crianças Aquilo a que poderíamos chamar os aspectos humanistas da ciência e das ciências sociais está igualmente em retrocesso, preferindo os países o lucro de curto prazo, através de competências úteis e altamente aplicadas, adaptadas a esse objectivo.

Procuramos bens que nos protegem, satisfazem e consolam — aquilo a que [o escritor c pensador indiano] Rabindranath Tagore chamava o nosso «invólucro» material. Mas parecemos esquecer as faculdades de pensamento e imaginação que fazem de nós humanos e das nossas interacções relações empáticas e não simplesmente utilitárias Quando estabelecemos contactos sociais, se não aprendermos a ver no outro um outro nos, imagi­nando-lhe faculdades internas de pensa­mento e emoção, então a democracia é vo­tada ao malogro, porque assenta precisamente no respeito e na atenção dedicados ao outro, sentimentos que pressupõem que os encaremos como seres humanos e não como simples objectos.

[continuar a ler...]

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Iuri nas Cidades #12

Odessa

Odessa
Colaboração de Iuri Bradáček

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Pode lá haver combate mais justo?

Sakineh

Como aconteceu em outras 110 cidades do mundo inteiro – para ser mais exacto, em 111 cidades daquela parte do mundo na qual as pessoas comuns se podem auto-organizar e expressar publicamente os seus protestos, alegrias e opiniões – decorreu ontem em Lisboa a manifestação contra a morte por lapidação de Sakineh Ashtiani e a pena capital praticada no Irão por crimes de natureza moral e religiosa. O número de participantes presentes varia segundo as diferentes fontes, mas pessoas em quem confio coincidem ao apontar para cerca de meio milhar de pessoas. Não é um mau número para uma tarde tórrida de um sábado de Agosto. Sabendo-se além disso que as lutas pelos direitos humanos – especialmente os dos outros – raramente são muito participadas, independentemente da latitude na qual se travam. No entanto, no caso do protesto de Lisboa, é possível detectar algumas forças que por omissão ou esforço de contra-propaganda concorreram para que a mobilização não fosse um pouco maior. São particularmente visíveis na Internet, sobretudo nos blogues nacionais e no Facebook, não sendo despropositado o termo de comparação uma vez que foi aqui que a iniciativa arrancou e foi por estas duas vias que indignação das pessoas foi mobilizada.

Detectam-se razões que têm a sua origem no sectarismo mais ortorrômbico («ah, mas foram fulana e beltrano que são do partido xiz a organizar aquilo!»), numa confusão desajustada das prioridades («há lutas bem mais importantes, camaradas»), numa incurável cegueira política («trata-se de uma intromissão na autonomia de um Estado soberano») ou no desvairamento mais completo e a precisar de tratamento urgente («foram a CIA e a Mossad que financiaram e organizaram esta miserável campanha»). Para além, claro, do silêncio dos partidos políticos, para quem o conceito de solidariedade para com a injustiça, de denúncia da perseguição política e de defesa dos direitos humanos dependem dos programas e não das pessoas. De sublinhar, a este respeito, a ausência completa de uma palavra ou de um gesto de apoio, ainda que informal ou a título individual, por parte de responsáveis do PCP. Ou o «esquecimento» público do governo português perante este caso. São factos bem evidentes, que importa anotar para sabermos com quem podemos contar sempre quando se trata de situações que têm a ver com a defesa de vidas humanas sob pressão ou em risco imediato. Nesta situação concreta com a vida de uma mulher em vias de ser punida, – e em primeiro lugar justamente por ser mulher –, da forma mais bárbara e atroz que é possível conceber-se. Pode lá haver combate mais justo, valor mais importante, «opção táctica» mais legítima?

Adenda a 31/8: Entretanto o PS (não o governo da nação com voz perante as nações) lançou um apelo ao governo do Irão, e um bloguista militante e vigilante do PCP (não um seu actual responsável) chamou a atenção para este caso e recorda-o dramaticamente urbi et orbi. Fazem bem, uns e outro. Não fazem, organização e pessoa, senão o seu dever.

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♪ ilha do tesouro|29

Blonde Redhead, colheita 2010. Pop agora que o verão está a fechar.

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Arquivado em Música, Olhares

Palavras que esclarecem

as palavras

Fora dos territórios controlados por regimes ou movimentos de inspiração autoritária, o direito de cada um a dizer aquilo que entenda é, em princípio, total. Como total é o direito dos outros a contradizê-lo, mesmo da forma mais frontal. Ou a responsabilizá-lo, se for preciso. Em democracia, o direito à palavra é inalienável, seja ela a do electricista, a da varina ou a do operador de guindastes. Isto aplica-se também, naturalmente, à recente polémica em redor das afirmações de António Lobo Antunes sobre a sua experiência da Guerra Colonial. Nelas o escritor referiu «factos» que declarou ter presenciado e que se traduziram em generalizações abusivas sobre o comportamento dos militares portugueses durante a Guerra Colonial. Nada do que Lobo Antunes contou se encontra provado, e nenhum outro testemunho, entre centenas de milhares de pessoas envolvidas no conflito, aflora sequer situações como aquelas que mencionou. Por isso, é muito natural que quem possua diferente perspectiva presencial da experiência da guerra se sinta incomodado pelos ecos de uma memória inventada e reaja com veemência. Podem fazê-lo outros ex-militares, antigos guerrilheiros, colonos de torna-viagem, jornalistas, historiadores e cidadãos informados. No que me toca, posso dizer que jamais me constou que pudessem ter ocorrido, de forma sistemática, apelos institucionais declarados à prática da chacina ou da tortura pelos soldados portugueses, embora, evidentemente, estas tenham acontecido em alguns momentos. Por isso, não tenho dúvida alguma em afirmar que o que Lobo Antunes referiu como experiência corresponde, no máximo, a situações pontuais a partir das quais fez generalizações desajustadas.

Mas a reacção de uns quantos militares portugueses, com maiores ou menores responsabilidades na condução da Guerra em África, é completamente desproporcionada e absurda, digna apenas de quem desconhece a essência da diferença de perspectiva e do direito à livre expressão próprios das sociedades democráticas. Ameaçar dar «um par de murros em público» ou «ir ao focinho» do escritor – a quem chamam aliás «bandalho» e… «atrasado mental» –, é, para além da bravata recorrente nos códigos de conduta de muitas dessas pessoas, algo de inaceitável e que configura um apelo à violência e mesmo ao crime. Alguém deveria explicá-lo a estes cidadãos, que no passado se limitaram a acatar ordens e, em muitos casos, a pactuar, activamente ou pelo silêncio, com uma guerra injusta que insistem em conservar «limpa». O coronel Carlos Matos Gomes, que escreve romances sob o pseudónimo de Carlos Vale Ferraz e não faz parte deste grupo, lembrou a propósito: «Há sempre uns patrioteiros que surgem assim no final destas coisas e penso que será também um sinónimo de senilidade. Penso que não faz sentido algum, nem da parte do Lobo Antunes, como ex-combatente, nem da parte destes militares». Juntando, com algum sentido crítico, que «na patetice estão bem uns para os outros». Realmente, a resposta de António Lobo Antunes, dizendo não ter «medo do confronto físico», e estar até em estado de prontidão para um eventual encontro cara a cara com os militares ressabiados, não ajuda muito e é desnecessária. A democracia não se funda na força dos punhos mas na energia das palavras que esclarecem. E isto aplica-se também a militares e a escritores.

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Arquivado em Actualidade, História, Memória

«Pseudo-intelectuais»

Lelouch, Godard e Truffaut em Maio de 1968

Não começou ontem o hábito de usar o qualificativo de «pseudo-intelectual» como maneira de desconsiderar alguém. Mas o costume vulgarizou-se nos últimos tempos, associado à depreciação pública do próprio conceito de intelectual. Numa sociedade na qual o nível de escolarização média e superior cresceu consideravelmente, mas onde o saber técnico é continuamente privilegiado em relação à cultura de base humanística, detecta-se um conflito entre aquilo que resta do antigo prestígio dos intelectuais – combatentes com voz por um saber engagé – e a atitude de um grande número de pessoas que ainda recolhe um eco desse prestígio mas é incapaz de o compreender. Por este motivo, tem alastrado um enorme equívoco capaz de levar a que alguém que ainda transporte consigo algumas das marcas desse antigo intelectual se transforme facilmente num «pseudo-intelectual», num ser caprichoso, especialista em pomposas futilidades. Ou seja, por definição, quem esgrime publicamente por ideias, quem cria e se esforça por fazer ecoar aquilo que criou, passou a ser para muitas pessoas de cultura mediana e standard um «falso intelectual». Com manias de sê-lo sem a percepção de que o será apenas para si e para uns quantos próximos. Se tanto.

Sem entrar no debate, já com décadas, sobre o hipotético fim dos intelectuais ou a indesmentível reformulação do seu lugar social, interessa aqui rememorar algumas banalidades fundadoras da sua condição resvaladiça. O Dicionário Houaiss destrata a palavra reduzindo-a à condição precária do adjectivo, aplicando-a apenas àquele «que vive predominantemente do intelecto» – e se opõe, portanto, a quem viva da actividade manual – ou então ao que demonstra «gosto e interesse pronunciados pelas coisas da cultura, da literatura, das artes». Exclui pois, ou pelo menos ignora, o sentido histórico e substantivo, que contribuiu para reforçar o prestígio original do intelectual, associando-o à experiência da cidadania, atribuindo-lhe um lugar central na agitação das ideias ou na legitimação das causas, assegurando um papel fulcral na vida cultural, não como simples espaço de devaneio e divertimento mas como território para a afirmação de um dever e de uma necessidade, fundamentais para a existência e o progresso das sociedades complexas.

Deste ponto de vista, André Malraux terá sido um protótipo do intelectual em estado bruto: escritor, resistente, aventureiro, teórico da arte, iniciador das «maisons de la culture» e inventor do primeiro Ministério da Cultura. Sartre foi-o também, como modelo do intelectual empenhado, defendendo que o escritor não é neutro frente à realidade histórica e social: «O escritor empenhado sabe que palavra é acção, sabe que desvendar é mudar e que não se pode desvendar senão fazendo por mudar». Para o filósofo existencialista, e durante algum tempo proto-marxista, no contexto da sociedade capitalista será aliás impossível manter o sonho da imparcialidade diante da condição humana. Na sua opinião, «a função do escritor é fazer com que ninguém possa ignorar o mundo e considerar-se inocente diante dele». O escritor pensa, fala, escreve então assumindo essa experiência como resultado de uma necessidade, de um impulso sem o qual não pode ser verdadeiramente escritor. E o intelectual é-o como expressão de um destino socialmente partilhado, indispensável para a mudança do mundo.

O uso indiscriminado da noção de «pseudo-intelectual» advém pois do recuo desta ideia. Não tanto de uma abordagem objectiva da relação justa ou injusta de alguém com uma criação projectada no social ou com o combate público por certas ideias. Nos últimos tempos, o abuso do qualificativo – e a blogosfera é particularmente rica neste particular – tem correspondido pois, quase sempre, mais a uma desvalorização do pensamento livre e livremente comunicado do que a uma crítica, que até poderia ser justa, aplicada directamente a quem, «pseudo», «falso», exponha ideias que são apenas um simulacro de reflexão, conhecimento, ousadia e convicção.

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notas & recados

Correio

#9 – A missão do site International Campaign for Human Rights in Iran é dar a conhecer os atentados contra os direitos humanos levados a cabo de forma sistemática pelo governo de Teerão e divulgar campanhas relacionadas com casos concretos de repressão de activistas e de pessoas comuns.

Relembro entretanto que para este sábado, 28 de Agosto, estão previstas concentrações de protesto em muitas cidades contra a execução de Sakineh Ashtiani. Em Portugal será em Lisboa, no Largo de Camões, pelas 18 Horas.

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O poder das palavras

Tony Judt

Nas últimas linhas de um dos derradeiros textos que ditou para a New York Review of Books, quando as palavras lhe corriam fluídas pelo cérebro ao mesmo tempo que sentia já dificuldade em pronunciá-las com a clareza que sempre procurou, Tony Judt ainda reflectia sobre os problemas da comunicação contemporânea: «Se as palavras se deterioram, o que poderá substituí-las? Elas são tudo aquilo que nos resta.» Não se referia, porém, ao seu problema pessoal, que sabia irrevogável: no artigo «Words» falava sobretudo da preocupação com o recuo do antigo modelo de educação humanista que tanto tem vindo a ser desacreditado pelos arrogantes campeões do «saber técnico». Falava da perda de voz dos que usam a língua, central nesse modelo que formou o seu e o nosso mundo, para conhecer sem coacções, para ocupar os espaços públicos do debate, para transformar a controvérsia num factor de dignidade e de liberdade. Falava da perda do lugar central da «fala pela fala», como processo de aproximação e de verdadeiro conhecimento. Dessa perda que, neste tempo que privilegia o o pragmático, o lógico, o eficaz, o «útil», muitos de nós sentimos, todos os dias, com dor e com preocupação. Dessa perda que observava mesmo em lugares, como as universidades, justamente concebidos para impedi-la de acontecer: «A “profissionalização” do discurso académico – e a deliberada apreensão por parte dos humanistas da segurança da “teoria” e da “metodologia” – favorece o obscurantismo.» Judt via nas palavras, no uso e no abuso das palavras, na sua troca sem compromissos, um espaço de resistência perante a incompreensão e o individualismo. E foi isso que, com elas já a fugirem-lhe, nos procurou ainda dizer.

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No/do gueto

cigano

As medidas tomadas em França por Sarkozy para repatriar um grande número de ciganos, rapidamente aclamadas e consideradas até insuficientes pelo governo italiano de direita, colocam-nos perante um problema real, desde há muito à nossa frente mas que insistimos em empurrar para um lugar invisível. Para a maioria dos gadje, os não-ciganos para os roma, estes são figuras incómodas, arrumadas sempre em último lugar numa possível ordem da inclusão social. Por muitas razões, umas com fundamento histórico, outras circunstanciais, outras ainda resultado do mero preconceito de natureza racial: são nómadas numa sociedade estruturalmente sedentária, vivem em larga medida de uma economia paralela e à margem de qualquer planificação, resistem a aceitar formas de autoridade que não a familiar, não se conformam com direitos e deveres que lhes são impostos, têm muitas vezes atitudes problemáticas em relação aos direitos das mulheres, à civilidade do quotidiano, à propriedade, à educação e ao trabalho. São diferentes e não o são apenas por razões de natureza genética. Mas essa diferença paga-se e os roma têm-na pago de forma constante e muitíssimo pesada. Perseguidos, escorraçados, encarcerados, massacrados ou simplesmente ignorados, como cães, desde que há cerca de mil anos atravessaram o grande planalto iraniano e entraram na Europa.

No entanto estimam-se actualmente em perto de dez milhões apenas nos Estados da União Europeia – 40.000 em Portugal e cerca de vinte vezes mais em Espanha – e são cidadãos de pleno direito, pois código algum estipula que essa cidadania seja cerceada por motivos de natureza racial ou condicionada pela forma como cada um ocupa o seu tempo. Nasceram aqui, em solo europeu, como aqui nasceram também os seus pais, avós, bisavós, trisavós, até uma época para «eles» e para «nós» imemorial. Por isso não podem ser tratados como intrusos aos quais se recusa um visto e que se empurram para as margens da História, do desenvolvimento e mesmo da sobrevivência. Existem graves problemas de inclusão social dos ciganos, sem dúvida, e não vamos dizer que a culpa é toda e apenas dos gadje, pois muitos ciganos insistem ainda na auto-exclusão como forma de salvaguardar uma identidade que consideram ameaçada. Ou então por mera inércia. Mas a forma de resolver esses problemas será sempre pela via da comunicação intercultural, privilegiando a iniciativa de mediadores válidos e credíveis, que procurem encontrar soluções e não apenas resolver desagradáveis incómodos. Não é, jamais será, pela via de um paternalismo emanado de uma cultura sedentária que se crê superior e modelar. E muito menos pelo caminho da «guetização» repressiva, seja ela feita no recanto de um subúrbio, em bairros isolados ou em áreas remotas de países periféricos. Falar é, neste caso, quase sempre difícil. Leva o seu tempo e dá trabalho. Mas é o único percurso possível. O outro apenas conduz ao desentendimento e à opressão.

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Norma, a leitora

Marilyn e Arthur Miller

Não se tratou apenas uma intuição, suscitada por uma ou outra imagem de uma sensualidade menos óbvia e nitidamente mais despojada de Marilyn. Sempre me pareceu que o estereótipo foi exagerado e deformante – como todos os estereótipos –, além de francamente injusto. Indícios aqui e acolá. Em entrevistas que não eram de promoção, poses menos condicionadas pelo fotógrafo, informações a conta-gotas e transmitidas por portas travessas, vindas de pessoas que com ela um dia se cruzaram. Agora parece que se confirma: a menina Norma Jean não tinha apenas os diamantes como os seus melhores amigos. Gostava muito de ler e não correspondia bem ao protótipo da loura burra das piadas de subúrbio.

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Causas selectivas

A pedra

O movimento internacional contra a lapidação até à morte imposta em muitos Estados islâmicos para «crimes» de natureza ética e religiosa envolvendo principalmente mulheres tem vindo a aumentar e a mostrar-se cada vez mais activo. A campanha em curso contra a execução da iraniana Sakineh Ashtiani, condenada «por adultério» após confissão sob tortura, integra essa vaga, dando corpo a um combate humanitário particularmente dramático e urgente. A maior parte desta mobilização é feita, como seria de esperar, em países com regimes democráticos, pois só nestes a informação pode circular com razoável liberdade e só nestes também os cidadãos se podem bater por causas como esta sem se verem igualmente perseguidos. A movimentação tem agregado sempre pessoas de diferentes partidos, distintas convicções, cidadãos e cidadãs com ou sem bilhete de identidade política, com ou sem religião. Pessoas unidas apenas, e não é pouco, pela repulsa e a indignação contra uma punição injusta e monstruosa.

Em Portugal tem sido assim também. De assinalar, porém, o silêncio do jornal Avante!, que apenas surpreenderá quem ande um pouco distraído. Não se trata sequer de justificar a escusa em participar, ou o desinteresse por referir minimamente a situação, com o decrépito e repisado argumento de que existem causas mais próximas e mais urgentes. Ou de avançar, uma vez mais, o triste raciocínio de acordo com o qual erguer a voz em situações deste género só beneficia os mais inconfessáveis interesses americanos ou a vil propaganda sionista. Trata-se de ocultar, de evaporar, de riscar da agenda política uma causa como esta, mostrando um frouxo sentido de justiça e de solidariedade, espartilhado pelo sectarismo e pelo preconceito. Na prática – quem cala, consente –, enunciando antes um pacto com a injustiça. Nada que espante um grande número de cidadãos com memória das «causas selectivas» apropriadas ou ignoradas pelo PCP ao sabor da sua agenda imediata e da sua astigmática visão de um mundo mais justo e igualitário. Mas convém ir anotando estas situações.

[Mais informação e links relacionados com esta campanha no post «Não é possíveis calar».]

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Desesperar é preciso

discussão

Sublinho Santiago López-Petit, em A Mobilização Global, enquanto penso nesta cultura do um contra o outro apresentada como único cenário do futuro sem esperança em nome do qual tudo nos é pedido.

«Estamos sós face ao mundo. Ou, o que é o mesmo, interiorizámos aquilo que os nossos governantes nos repetem incessantemente: ‘a vossa situação depende apenas de vós mesmos’. E acreditamos que é assim. Temos nós próprios que sair do atoleiro, o que dito pelas palavras próprias da cultura empresarial significa que temos de nos avaliar continuamente. Contra nós mesmos, contra os trabalhadores dos outros países que se esfalfam por conseguir a mesma produção cobrando menos. Incerteza que gera insegurança, insegurança que produz medo. Medo do outro que é como eu. Medo do outro, que é estrangeiro, porque não é como eu. (…) O [novo] estado de natureza alastra como um mar enfurecido até cobrir-nos por completo.»

E mastigo a certeza de que a esperança apenas pode nascer do desespero.

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Papéis Roubados #2

Segundo episódio desta série com palavras dos outros. Desta vez um pequeno texto de circunstância (e intervenção) do escritor, cronista e jornalista Manuel António Pina.

Pedras para o Irão
Manuel António Pina

M. A. Pina

«Opinião», Jornal de Notícias -19/08/2010

Cem cidades de todo o Mundo, entre elas Lisboa, serão no próximo dia 28 palco de protestos contra a selvajaria (como nomear o inominável?) das execuções por lapidação no Irão, onde, nas últimas décadas, 150 pessoas, a maior parte mulheres, foram apedrejadas até à morte e mais 25 aguardam actualmente idêntico destino, entre elas Sakineh Ashtiani, de 43 anos, mãe de dois filhos, acusada de adultério. A iniciativa «100 cities against stoning» é do International Commitee Against Execution e o protesto de Lisboa, nascido na Net, visa chamar ainda a atenção para as sentenças de morte aplicadas no Irão tanto a opositores políticos como a homossexuais ou adúlteros «por um sistema de justiça que não respeita os mais elementares direitos de defesa das suas vítimas». O protesto está marcado para as 18 horas, no Largo Camões. Eu teria preferido a sugestão do leitor de um dos blogues que divulgaram a iniciativa: levar à embaixada do Irão um monte de pedras conformes ao artº 104º do Código Penal iraniano, isto é, «não tão grandes que matem à primeira nem tão pequenas que não mereçam a classificação de pedras».

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Requiem marítimo

Sagres

Como a larga maioria dos portugueses, pouco andei de barco ou em meios de locomoção afins. Mesmo os trajectos africanos foram percorridos de avião. Recordo-me de umas quantas remadelas em lagos artificiais ou modestos riachos, de duas viagens de cacilheiro e de uma travessia do estreito de Gibraltar. Também andei algumas vezes de «gaivota». Ou melhor, pedalei com força para deslocar o veículo. Muito mais do que isso só a bordo do Kon-Tiki de Thor Heyerdahl, do Calypso de Jacques Cousteau, do Relâmpago do Corsário Negro e no paquete onde se desenrolou aquele enredo «anarquista» – que valeu uma proibição em diversos países – de Monkey Business, o filme dos Irmãos Marx. Para além, claro, de ter ido por diversas vezes ao fundo com o Titanic. Isto é, apenas andei embarcado em imaginação. Mas sei o suficiente de História e de caminhos marítimos para perceber que o navio-escola Sagres tem funcionado como definitivo avatar da nossa autorepresentação enquanto «navegantes». Por isso a proibição de atracar em Macau dada ao veleiro pelo governo chinês é particularmente humilhante. E por isso não é aceitável que as autoridades portuguesas se limitem a achar o facto mais ou menos normal. Sem um lamento, um protesto, um epitáfio. Restam-nos assim os ferry-boats fretados. E, a mim, realizar a adiada travessia do Atlântico entre Portimão e o Funchal. A bordo do indomável Volcán de Tijarafe.

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Não é possível calar

Salvem Sakineh Ashtiani

Já em curso um movimento internacional alargado contra a morte por apedrejamento praticada como punição em alguns países islâmicos e para salvar a vida da iraniana Sakineh Ashtiani. Sem preconceitos ou sectarismos e passando por cima dos partidários da justiça selectiva, para quem os direitos humanos possuem um valor relativo. Para este 28 de Agosto estão previstas concentrações de protesto em muitas cidades. Em Portugal será em Lisboa, no Largo de Camões, pelas 18 Horas. Se ainda não o fez pode assinar aqui a petição.

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A morte de Peter F.

Peter F

Completam-se hoje 48 anos sobre o assassinato de Peter Fechter, o primeiro cidadão de Berlim-Leste que tentou passar o Muro para o lado ocidental e foi impedido de o fazer pelo «argumento» das balas. Lembram-se aqui as circunstâncias e os factos.

Um estado de «alerta reforçado» foi instituído entre as tropas fronteiriças, em 13 e 14 de Agosto de 1962. No próprio dia 13, houve varias reuniões políticas em Berlim Ocidental, acompanhadas de ruidosos e por vezes violentos protestos de grupos, fundamentalmente constituídos por jovens, de cerca de 1500 «desordeiros» (como os alemães de leste sempre se referiam aos manifestantes ocidentais). A polícia de Berlim Ocidental recebeu ordens para não deixar esses grupos aproximarem-se a mais de uns 20 metros da fronteira. E nenhuma das manifestações se descontrolou verdadeiramente.

A verdadeira crise viria a surgir quatro dias mais tarde, a 17 de Agosto.

Peter Fechter, de 18 anos de idade, pertencia a um círculo de adolescentes rebeldes do Leste que tinham decidido formar um grande grupo de fuga para o Ocidente. Mas, previsivelmente, à medida que o dia combinado se foi aproximando quase todos perderam a coragem e desistiram, ficando apenas Fechter e um amigo.

Tendo conseguido iludir a vigilância dos guardas que patrulhavam a zona restrita por detrás da fronteira do sector, os dois jovens acabaram por se esconder, ao início da tarde de 17 de Agosto, num edifício abandonado junto ao Muro, o qual era agora uma barreira ou um conjunto de barreiras bastante mais temíveis do que haviam sido um ano antes. Do dito edifício avistavam o Checkpoint Charlie, o famoso posto fronteiriço norte-americano.

Reunindo toda a sua coragem, lá acabaram por deixar o abrigo e iniciar a muitíssimo arriscada corrida. Quando ultrapassaram a primeira barreira de arame farpado no lado leste, indo o amigo a frente e Fechter uns dois ou três metros mais atrás, os guardas fronteiriços abriram fogo com as suas armas automáticas, a uma distância de cerca de 50 metros. Eles continuaram a correr. O amigo chegou ao muro de dois metros e meio que marcava a fronteira com o sector norte-americano e conseguiu trepar e saltar para o outro lado, com balas a baterem no cimento, a poucos centímetros do seu corpo. Chegou, assim, a Berlim Ocidental, apenas com alguns ferimentos superficiais.

Mas Peter Fechter não teve tanta sorte.

Enquanto tentava seguir o amigo, subindo a ultima barreira, foi atingido numa perna e deixou-se cair para a terra de ninguém, onde ficou, a gemer e a pedir ajuda, a princípio em altos gritos e depois numa voz cada vez mais fraca e desesperada.

A bala tinha-lhe rasgado uma artéria da perna. Uma perturbadora fotografia mostra o jovem caído, meio morto, com os seus jeans apertados e a franja à moda da época ainda intacta, imóvel e com o sangue e a vida a esvaírem-se-lhe para o chão.

Imediatamente se juntou uma multidão furiosa de berlinenses ocidentais. E, entretanto, ninguém do Leste nem do Ocidente acudia ao fugitivo ferido. Os alemães de leste diriam mais tarde que, com as mortes dos soldados Göring e Huhn ainda frescas na memória receavam ser alvejados por gente mais exaltada do lado ocidental Ao mesmo tempo que a policia ocidental tinha ordens rigorosas para não entrar em solo da Alemanha de Leste.

Os soldados norte-americanos do Checkpoint Charlie também não fizeram nada. Disse-se até que um deles encolheu os ombros disse: «Não é nada connosco». Esse suposto comentário seria imensamente citado e estaria na origem de um antiamericanismo crescente em Berlim Ocidental e na Alemanha Ocidental.

Peter Fechter estava inconsciente e talvez até já estivesse morto quando um oficial superior da Alemanha de Leste chegou e incentivou os guardas a entrarem em acção e a levarem o jovem em braços do local. Foi feita uma tentativa gorada para ocultar a operação dos observadores ocidentais, através de uma cortina de fumo. Uma outra fotografia, tirada a partir do lado ocidental, mostra um soldado da Alemanha de Leste que fazia parte do pequeno cortejo furtivo a olhar para a lente da máquina fotográfica ocidental, revelando a sua face uma estranha mistura de medo, vergonha e desafio. Peter Fechter foi declarado morto à chegada ao hospital da polícia, alguns minutos mais tarde. Passara-se cerca de uma hora desde que tinha sido atingido. O comandante da patrulha e dois dos seus homens receberam um bónus pelo feito.

in Frederick Taylor. O Muro de Berlim. 13 de Agosto de 1961 – 9 de Novembro de 1989. Lisboa: Tinta-da-China (2007). Trad. de Francisco Mano. 582 págs.

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«Intelectuais moderados» e almofadas coloridas

almofadas

Islão. Passado, presente e futuro, de Hans Küng, é um livro magnífico. Mas deixa no leitor uma certa sensação de ambivalência. O teólogo mal querido da Cúria Romana fala da forma como, no mundo ocidental, após o fim da Guerra Fria se procurou por vezes trocar o comunismo pelo islamismo como representação do mal. Neste âmbito, o desenvolvimento de processos de compreensão do Islão e de laços de entendimento deste com o cristianismo e com o judaísmo parece-lhe imprescindível para evitar um anunciado «choque de civilizações». Produz por isso uma síntese de dimensões históricas e sistemáticas que oferece uma perspectiva ampla e multidimensional do Islão, estimulando uma resposta perante o rastilho de incompreensão e violência que tem vindo a ser ateado. Fá-lo com sabedoria, em nome de um efectivo diálogo inter-religioso que defende desde há meio século. O seu esforço de aproximação acaba, no entanto, por cair numa armadilha, ao alimentar a quimera, comum entre muitos ocidentais, que se traduz em ver nos «intelectuais moderados» do Islão a chave para um compromisso. Na realidade, testemunhos constantes têm revelado a enorme debilidade do lugar desse tipo de pessoas no interior do universo islâmico.

Um excelente contributo para o esclarecimento deste enredo é-nos oferecido no número de Agosto da edição portuguesa do Le Monde Diplomatique. O artigo «Os intelectuais árabes, entre Estados e fundamentalismo», da autoria de Hicham Ben Abdallah El Alaoui, incorpora um notável rastreio da situação e das expectativas de muitos dos intelectuais árabes na sua relação com o mundo actual e com a procura de um futuro mais justo e mais democrático para os Estados autoritários que têm o Islão como religião oficial. Ben Abdallah anota um conjunto de circunstâncias e de perspectivas para as quais vale a pena olhar.

[continuar a ler...]

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Quixotes

Quixote, Welles

Para Saul Bellow existiam dois tipos de pessoas: os beers e os becomers. Numa tradução razoavelmente livre, «os que são» e «os que hão-de ser». Os primeiros esforçam-se por não mudar, chega-lhes a vida que têm, confiam num destino previsível, num lugar certo e seguro para viver de forma habitual. Os outros não se conformam com o mundo tal qual ele é, preferindo a incerteza, o nomadismo – vivencial, não necessariamente geográfico – e, de vez em quando, uma certa dose de aventura. O nosso tempo é francamente dominado pelos cautelosos beers, enquanto os inconstantes becomers são empurrados para as margens, confinados a um trajecto que passa ao lado de um padrão de prestígio que deliberadamente ignoram. Claro que estes jamais compuseram maiorias, pois um mundo dirigido por becomers seria, na realidade, um mundo alucinante.

Em certas épocas, em algumas circunstâncias, em momentos precisos, o seu papel foi no entanto apreciado e até citado como exemplo. Sem a intervenção que protagonizaram, «os que são» ter-se-iam encarregado de coactar a criação e a iniciativa, padronizando o código genético de gerações de autómatos. Os iluministas, os românticos, os modernistas e os indisciplinados dos anos cinquenta e sessenta do século vinte procuraram contrariá-los. Durante algum tempo ergueram como dominante o modelo dos que perseguem uma vida feita de demandas, de equívocos e de interrogações. Uma vida de Quixotes, como a do herói anti-heróico para quem a presença no mundo se fundava na busca desse outro, viageiro e inconstante, que muitos de nós queremos ser. Na ignorância desses beers que, não por acaso, fazem do quixotismo uma opção depreciada, uma experiência na fronteira do inútil e do patético. Preferem o sabor do realismo e um tempo regulado, sem audácias ou perigos.

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♪ ilha do tesouro|28

Detektivbyrån (Göteborg, Sverige)

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As mãos da opressão

http://www.dailymotion.com/videoxa46w6

Sabemos alguma coisa sobre como podem as vítimas de um dia converter-se nos algozes do dia seguinte. Mas sabemos pouco, muito pouco, sobre como as mãos da opressão se podem transformar, num instante, ou em menos de um instante, nas das vítimas de uma outra opressão. Nada é fácil e tudo é complexo, como toda a gente sabe. Bem, quase toda.

Um obrigado à IC pela partilha. O título do post cita uma velha canção de LF.

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Pãozinho sem sal

pão

Procurando uma vez mais diferençar-se de Marrocos – desde a pré-época das «matrículas europeias» dos automóveis que nos deu para isto –, Portugal é a partir de hoje «o primeiro país do mundo ocidental a ter uma lei que impõe limites ao teor de sal no pão». De acordo com um diploma aprovado na Assembleia da República com os votos favoráveis de todas as bancadas (à excepção de votos contra do CDS-PP, um do PSD e uma abstenção), produzir e vender pão com mais de 14 gramas de sal por quilo passa a ser punido com coimas até cinco mil euros, se o prevaricador for uma empresa, ou 3.500, se for «pessoa singular». De fora ficam apenas os pães com «nomes protegidos», como a broa de Avintes ou o pão de Favaios. A lei é de tal forma precursora que, como disse ao Público o Prof. Jorge Polónia, da Faculdade de Medicina do Porto, só agora «os norte-americanos estão a debater a possibilidade de introduzir limites do teor de sal por via legislativa». «Estamos a servir de exemplo», orgulha-se também Luís Martins, cardiologista e ex-presidente da Sociedade Portuguesa de Hipertensão.

Nada tenho contra o trabalho mais do que louvável que trata de prevenir as doenças cardiovasculares e o cancro do estômago num país onde se abusa tantas vezes do sal. Mas um país com uma identidade gastronómica, perdoe-se o jargão, que passa justamente pelo uso de um certo tipo de temperos em quantidades bem medidas. Pão com sal não é o mesmo que pãozinho sem sal, como lembra a cultura popular. Tal como o pão da nossa infância não é já esse produto insosso e plástico, moldado na espessura e contido nos sais, que se vende por aí. Como muamba de galinha não é muamba de galinha sem uma boa dose de jindungo, abóbora, cebola e alho. Se, no estado indiano do Rajastão, fosse proibido o abuso culinário da noz-moscada e do açafrão, substituídos por um qualquer «aroma», o crime social não seria maior.

Uma vez mais, os fundamentalistas dos corpos normalizados, da saúde a todo o custo, atacam com a proibição, um expediente fácil para substituir as campanhas sistemáticas e imaginativas de prevenção. Uma medida antidemocrática que impede o cidadão de optar, de livre vontade, entre o tipo de alimentação e de condimento que quer ou não comer (ingerir, dirão «eles»), que deve ou não meter da mão para a boca. Assumindo, ao mesmo tempo, a responsabilidade da escolha. Eu, por exemplo, convivo hoje com um problema gástrico derivado da leitura compulsiva, associada a um uso incontido, dessa obra-prima da nossa literatura que é a Cozinha Tradicional Portuguesa. E não é por isso que deixo de assumir as minhas responsabilidades nos excessos, ilibando de qualquer culpa a Dona Maria de Lurdes Modesto. De livre vontade gozei o que gozei, para o mal e para o bem, com o grande «prazer da mesa» lusitana que esta gente moralista, reguladora e intrusa pretende que esqueçamos.

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Fazer a mala

Ruy Duarte de Carvalho

«Tem mesmo rumos que o destino impõe. Resta pois fazer a mala e precipitar um remate.»
[Desmedida. Luanda - São Paulo - São Francisco e volta, ed. Cotovia]
Ruy Duarte de Carvalho, 1941-2010

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This is what dreams are truly made of

Bebé

No Verão os sonhos acontecem. No mundo do futebol em particular. Djelmar transferiu-se para o Deportivo de Villanueva del Fresno e afirmou «viver um sonho». Britinho assinou por dois anos pelo F.C. de Mogofores e declarou à Trombeta das Beiras ser esse o seu «sonho de menino». Kadu passou do Libertadores do Ceará para o Recreativo de Mocoró e afirmou à torcida mocoroense ser a mudança um sonho feito verdade. Mas nada de comparável ao que aconteceu com Tiago Manuel Dias Correia, Bebé, o rapaz nascido no Cacém que ainda há um ano jogava futebol de rua e agora, praticamente sem experiência de futebol profissional, foi vendido pelo Guimarães ao Manchester United por 10 milhões de euros. Sem formação que não a obtida em ruelas empedradas, pracetas de subúrbio e campos carecas. Sem longos anos a dar cabo dos olhos com livros ilustrados e monitores magalhânicos para «adquirir competências». Presumivelmente sem saber inglês técnico. Claro que Bebé nos diz, deslumbrado, ser «um sonho» poder jogar de vermelho no relvado de Old Trafford. Quem somos nós para o fazer cair na realidade?

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Iuri nas Cidades #11

Paris

Paris
Colaboração de Iuri Bradáček

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Recordando Tony Judt

Tony Judt

Afectado desde 2008 pelo mal de Gehrig, uma doença neurodegenerativa incurável que enfrentou com a maior coragem, Tony Judt morreu hoje aos 62 anos. Foi um dos grandes historiadores da contemporaneidade. É, e permanecerá, um dos meus favoritos, cuja leitura tenho recomendado repetidamente em aulas e intervenções como ferramenta de conhecimento e exemplo do modo como a interpretação do passado nos pode ajudar a armar a cidadania. Se tivesse de o associar forçosamente a um campo do saber, classificá-lo-ia como historiador das ideias e dos intelectuais, habitante desse território da História, hoje relativamente pouco povoado mas essencial, que estuda de forma sistemática a expressão, a preservação e a mudança dos modos de representar o mundo no domínio do pensamento individual e das convicções partilhadas.

Em Portugal foram traduzidos dois livros de Judt, ambos por iniciativa das Edições 70: Pós-Guerra. História da Europa desde 1945 (Postwar. A History of Europe Since 1945, de 2005) e O Século XX Esquecido. Lugares e Memórias (Reappraisals. Reflections on the Forgotten Twentieth Century, de 2008). Se o primeiro é um relato exaustivo e monumental das transformações operadas no Velho Continente, e na sua relação com o resto do mundo, desde o final da Segunda Guerra Mundial até à actualidade, o segundo integra uma colectânea de escritos – inicialmente editados em publicações como a New York Review of Books – que projecta um esforço pessoal de regresso a formas de pensamento e de activismo social que têm sido esquecidas, desarmando o presente para um debate público substantivo e empurrando para o esquecimento temas tão centrais no trajecto humano como os desafios do mal, as sequelas da Guerra Fria ou a memória do marxismo. Estão por traduzir – e aqui fica a sugestão – outros três livros essenciais para compreender a intervenção do historiador inglês: Past Imperfect: French Intellectuals, 1944-1956 (1992), The Burden of Responsability. Blum, Camus, Aron and the French Twentieth Century (1998), e Ill Fares the Land, de 2010, este, já na impossibilidade de escrever, ditado por Judt, e que funciona como uma espécie de testamento político. Construído, como sempre, sob a perspectiva de quem observa o mundo como um continuum em perpétuo movimento, no qual passado, presente e futuro participam de um mesmo corpo.

Em O Século XX Esquecido, Judt escreveu: «o que o passado pode realmente ajudar-nos a compreender é a complexidade das perguntas». Uma sugestão que nos ajudará a retirar a História dessa teia de pseudo-certezas que apenas tem contribuído para lhe diminuir o interesse público, transformando-a tantas vezes nesse território rançoso no qual repousa um passado que serve apenas para contemplar ou para comemorar. História viva, como Judt nos ajudou a perceber, é obrigatoriamente, e sempre, questionamento a partir do presente. Num movimento de vaivém que é, justamente, aquele que a devolve à vida.

Ler aqui o obituário do New York Times

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Indiferença

mãos cubanas

Há três dias parei para beber um café e desentorpecer as pernas numa estação de serviço da A2. No restaurante, um pouco acima de um cartaz que anunciava ao preço de 9,55 Euros um prato de macarrão com pedaços de bacon provavelmente atingidos por uma granada de fragmentação, um enorme monitor de LCD espalhava a imagem e a voz de Raul Castro. De farda completa e boné militar, dirigia-se ao cordato parlamento instalado em Havana para anunciar que o seu governo jamais perdoará aos «inimigos da pátria». Assim designa o regime cubano todos aqueles que perturbem a «ordem revolucionária», sejam eles carteiristas reincidentes ou vendedores ocasionais de doces caseiros, blogueiros autónomos ou gays que digam que o são, intelectuais que defendam a liberdade de expressão ou gusanos com dentes de ouro e simpatizantes dos republicanos. Todos iguais, todos «bandidos» que instigam à desordem. Com a voz mais ameaçadora que consegue emitir, o Castro mais novo mostra como se governa em regimes de partido único: ameaçando as pessoas comuns com a voz mais ameaçadora que se consegue emitir, usando os mecanismos da propaganda sem concorrência, mostrando que não pode haver lugar para as razões de quem pensa de forma diferente da única «justa». Mas ninguém levantou os olhos para o ouvir Castro, ali na estação de serviço. Um grupo de turistas chineses ria de alguma coisa. Uma família portuguesa engolia sandes de mortadela enquanto conversava aos gritos. Duas raparigas passavam de mão dada e com headphones nos ouvidos. No aquário, os peixes continuaram em silêncio. Eu bebi o meu café e segui viagem, a pensar em como em Cuba até a indiferença deve doer.

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Alguns dias à toa

uns dias fora

É preciso encarar as férias sempre com o maior profissionalismo.
PLAY Summer Holiday

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Sublinhado

jornal

«Dêem-me um jornal onde se use hoje uma voz perifrástica ou tão só um tempo composto e onde o mais-que-perfeito não tenha sido soterrado sob o pau para toda a obra do perfeito simples.» A constatação foi feita por Manuel António Pina num JN dos idos de Maio de 2006. Entretanto estes quatros anos e picos de vida colectiva doideca e intensa trouxeram consigo a vitória de um outro contributo estilístico: a presentificação do condicional. Diria mesmo que me parece.

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Nós em números

ai portugal portugal

Quem pretenda reduzir em menos de cinco minutos à completa insignificância os comentários dos sobreviventes do antigamente, ou das criaturas dos pós-Abril que não sabem do que falam, sobre como era digna e «melhor» a vida no Portugal de Salazar e Caetano, deve ter por perto um pequeno livro que chegou há pouco às livrarias. Refiro-me a Portugal: os Números, de Maria João Valente Rosa e Paulo Chitas, uma edição de capa dura da Fundação Francisco Manuel dos Santos à venda por apenas 5 euros. Começa assim:

«Se por algum exercício de ficção os portugueses de hoje acordassem no ambiente do início dos anos 60, sobretudo junto ao litoral e nas grandes zonas urbanas, sentir-se-iam bastante desconfortáveis e, por certo, com uma enorme estranheza em relação a tudo o que acontecia em seu redor. Era o seu País – mas irreconhecível.»

O livro fornece números, mas apenas os essenciais. Existem dados mais completos disponíveis noutros locais e o objectivo dos autores não é repeti-los, mas sim «descortinar tendências globais da sociedade portuguesa». Aquilo que deixam à vista em pouco mais de 100 páginas é, de facto, um país radicalmente outro, incomparavelmente melhor e mais feliz. E um movimento de mudança que em menos de cinquenta anos – ou de quarenta dado o facto da maioria das transformações ter ocorrido já após o 25 de Abril – o transfigurou. Os dados reportam-se à evolução demográfica (incluindo a emigração e a imigração), ao crescimento do Estado social (com destaque para as alterações no campo da educação, do conhecimento, da cultura, da saúde e de protecção social), à evolução do trabalho e dos rendimentos, às alterações no campo da justiça, às novas tendências no domínio da família e dos modos de vida.

Alguns dados são particularmente esmagadores: entre 1960 e 2008 a permilagem da taxa de mortalidade infantil desceu de 77,5 (a pior entre os 27 países da actual União Europeia) para 3,3 (a sexta mais baixa); a esperança de vida subiu dos 60,7 e 66,4 (homens e mulheres) para 75,5 e 81,7; entre 1972 e 2008 o orçamento do Estado para as funções sociais passou de 1,9% do PIB para 16,4%; a população com 15 ou mais anos sem escolaridade passou de 65,6% em 1960 para 9,2% em 2001; o ensino médio e superior subiu em flecha; entre 1960 e 2003 o número de livros nas bibliotecas públicas passou de 5,4 milhões para 32,2 milhões, tendo estas passado de 89 para 1.018; sensivelmente pelos mesmos anos o número de museus subiu de 96 para 300; os médicos e enfermeiros de 188 para cerca de 900 por cada 100.000 habitantes; os pensionistas da segurança social passaram de 120 mil para quase 3 milhões; o público de espectáculos ao vivo subiu de 161 mil em 1960 para mais de 6 milhões em 2008.

Claro que muitas assimetrias e problemas se mantêm, sobretudo no plano dos rendimentos e da igualdade entre homens e mulheres, e nem todos os factores apresentados podem ser considerados necessariamente positivos – por curiosidade e sem qualquer juízo de valor, a percentagem de divórcios aumentou de 1,1 por cada 100 casamentos, em 1960, para os actuais 61%, enquanto os casamentos foram reduzidos a metade –, mas não existe comparação possível e, por isso, possibilidade alguma de pactuar com a mistificação lançada pelos vultos que habitam as sombras ou pelos seus ignaros herdeiros.

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Fiel ao touro

tourada

Das touradas consigo entender a embriaguez do sol a pique e da poeira à solta, dos cheiros acres e bestiais, dos trajes de luces, das mantilhas negras, amarelas, em tons de rojo. E o fulgor das verónicas, das compridas chiquelinas, dos olés, dos é-lás, da música vibrante do passo doble às ordens do inteligente. Creio que também consigo alcançar – sem com ela simpatizar – um pouco da afición que experimentou Hemingway, apenas sensível ao «ventre rasgado dos cavalos» e às solidariedades masculinas tecidas em redor da corrida. Mas mantenho-me fiel ao touro. Na expectativa da volúpia suprema da cornada com justa causa. E da vingança do oprimido.

Nota – O Parlamento da Catalunha aprovou hoje, por maioria, uma lei que proíbe as corridas de touros a partir de Janeiro de 2012. Desde 1991 que uma lei análoga está em vigor nas Canárias.

Quase 24 horas depois, três apêndices suscitados por algumas interpelações.

# Claro que não sou indiferente ao facto dos militantes e simpatizantes independentistas apoiarem entusiasticamente a nova lei catalã. Só se fossem tolos é que o não fariam, uma vez que o documento aprovado contraria a centripetia cultural castelhana e constitui um gesto de afirmação autonómica. Discutir sobre se isto é bom, mau ou assim-assim leva-nos a um tema diferente.

# A minha referência à solidariedade com o touro foi, evidentemente, irónica. Mas apesar de continuar a gostar de mastigar um bom pedaço de lombo e de não simpatizar com o fundamentalismo animal, mais preocupado com os bichos do que com as pessoas, não suporto o sofrimento desnecessariamente infligido a um ser vivo. Seja ele um touro ou uma truta. E defendo uma ética da anti-violência como factor de um avanço civilizacional construído também pelo exemplo.

# Sei muito bem que os apaixonados da tourada como «festa», «desporto» ou «arte» jamais aceitarão esta presunção. Por isso a resolução do problema nunca poderá resultar de um consenso. Passa pelo combate político. «Transversal», provavelmente.

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Um exemplo

abolir o capitalismo

Os antigos administradores do BCP que vão agora a julgamento, acusados de manipulação de dados e de falsificação de documentos – mas «ilibados da acusação de burla», uma subtileza de recorte jurídico cuja clareza talvez por ignorância me escape –, podem até escapar a uma qualquer pena ou ser absolvidos. Por obra e graça de advogados de primeiro escalão, pelo arrastamento do processo nos tribunais ou mesmo por ausência de provas e evidência de boa-fé. Todavia, o Tribunal de Instrução Criminal deixou claro «que os arguidos não pretenderam obter benefícios pessoais ou causar prejuízos ao banco», o que deixa implícito poderem ser de menor gravidade os danos provocados no património dos pequenos accionistas, dos depositantes e da coisa pública. Como seria de esperar, em declarações ao Público, Filipe Pinhal, um dos ex-administradores, vincou muito bem este aspecto. Uma noção de honra pessoal ou de amor a uma instituição – neste caso a um banco, género de sentimento que escapa à minha sensibilidade poética – que se traduz um completo menosprezo pelo interesse comum. Revelá-la desta forma, às claras e sem qualquer vergonha, serve para que não esqueçamos ser esta, independentemente da caução legal que foi sendo associada muitos dos seus actos mais danosos, a lógica mais essencial do, «com vossa licença», capitalismo.

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Devagarmente

summer in the city

Os seguidores mais vigilantes e as sectárias mais inflexíveis já repararam numa quebra apreciável no ritmo das actualizações deste blogue. Chegaram até mails sobre o assunto. Estou em condições de assegurar que não se passa nada que não possa relacionar-se com o Verão, este maldito calor e o inalienável direito dos trabalhadores a um pouco de preguiça. Assim seguiremos, devagarmente, até ao miolo de um Agosto previsível.

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Ambição

biblioteca portátil

Não sou um tipo venal. Não penso que «todos temos um preço», diferenciando-se os honestos apenas por serem mais caros. Mas a alguém que me ofereça uma coisa destas entregarei a alma sem exigir recibo. Sugere-me um salvo-conduto para a felicidade suprema – que, como se sabe, é leve e portátil  – e essa não tem preço.

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Arquivado em Apontamentos, Delírios

Ici se habla português

travessia

Uns dias longe dos blogues foram suficientes para chegar tarde ao debate sobre a inclusão da Guiné Equatorial nesse quase inútil organismo que responde pelo acrónimo CPLP. Para quem se recuse a ver neste uma simples agremiação de interesses, a proposta – para já adiada, devido a algum mal-estar que levantou em circuitos menos venais, mas que fica em aberto para uma oportunidade que se prevê próxima – é um perfeito absurdo. Não se trata apenas de dar cobertura política a um regime ditatorial que dessa forma compraria alguma credibilidade internacional – mesmo sabendo-se que Angola, um dos seus anfitriões, não constitui propriamente um exemplo de vigor democrático –, mas principalmente de assegurar a entrada de um país sem fundamentos históricos, culturais ou linguísticos que o aproximem minimamente daquilo que os países de língua portuguesa podem partilhar. Tal como acontecerá com outros que pretendem entrar no mesmo processo integrador: a Austrália, a Indonésia, o Luxemburgo, a Suazilândia ou a Ucrânia. Quiçá a Gronelândia (aportada em 1500-1501 pelos manos Corte-Real) ou as ilhas Vanuatu (visitadas pelo explorador Pedro Fernandes de Queirós em 1606), pois dentro de tais parâmetros porque não deixar correr a vertigem e conquistar meio mundo para uma CPLP planetária? Além disso, no caso da Guiné Equatorial, tal entrada consagraria um gesto típico de ditador: a decisão de impor a um povo, por decreto, que uma língua importada se torne «oficial». Absurdo, repito, e inaceitável. Como o é o silêncio de algumas forças políticas portuguesas perante as propostas de Teodoro Nguema Mbasogo, para a revista Forbes o oitavo governante mais rico do mundo. Cegas pelo borbulhar viscoso do petróleo ou comprometidas com propostas vindas de países lusófonos cujos responsáveis não pestanejam quando se trata de trocar os princípios «progressistas», que outrora arvoraram nas suas bandeiras, por dólares ou euros. Muitos milhões de dólares ou de euros.

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Arquivado em Actualidade, Olhares, Opinião

Iuri nas Cidades #10

Oslo

Oslo
Colaboração de Iuri Bradáček

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Mrs. Peel

Mrs. Peel

Diana Rigg faz hoje 72 anos. Nunca foi uma star, nove em cada dez, das que entravam em banheiras cheias de espuma para anunciarem o sabonete Lux, mas a partir de certa altura foi Emma Peel, a companheira pró-activa e multitarefas do agente John Steed na série de televisão The Avengers, Os Vingadores, rodada entre 1961 e 1969. Steed era um agente do MI6 com aspecto de inglês «típico»: chapéu de coco, fraque sem ruga, um inseparável guarda-chuva muito bem enrolado e a omnipresente dose de fleuma. Já Mrs. Peel destoava da tradicional ajudante, sedutora, um tanto tola e absolutamente secundária na trama das outras séries. Pelo contrário, o trabalho pesado – socos, cabeçadas, fugas impossíveis, activação de engenhos explosivos e uns quantos tiros bem aplicados – ficava sempre por conta da agente em roupa futurista de cabedal negro, dotada de vastos conhecimentos de karaté e praticante de elevado nível de boxe tailandês. Aqui residia, aliás, o ineditismo da série, a sua marca caracteristicamente sixtie e vagamente feminista (Barbarella, a série de BD e o filme de culto, foram contemporâneos dos Vingadores). Talvez por isto a série de televisão se tenha tornado rapidamente popular. Diana Rigg foi também uma fugaz «Bond girl» e a madrasta má numa versão da Branca de Neve, mas será para sempre a intrépida – e  por isso singularmente sexy – Mrs. Peel.

Duas adendas em vídeo: Mrs. Emma Peel + Emma Peel in tight leather catsuit…

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O véu e a lógica do zoo

véus
Fotomanipulação - ©2008-2010 LaHamletta

Falo do que me parece intuitivo, sem dar uma importância maior do que a necessária àquilo que o Senhor Sarkozy pensa sobre a matéria, às suas intenções veladas, às «grandes razões» que invoca. Caminho sobre um assunto tórrido, infelizmente recorrente.

Ao reconhecer a partilha de diferentes práticas, tradições e percepções do mundo num mesmo território, o multiculturalismo impõe a aceitação do diverso e o reconhecimento da sua autonomia. Mas sustenta também a edificação de uma realidade-outra, de uma metamorfose, proporcionada justamente pela convivência que sociabilidades partilhadas permitem e impõem. Na cidade multicultural a vida colectiva resulta da soma das partes e da interacção criadora de cada uma delas com cada uma das restantes mas também com o todo. Por isso, tudo aquilo que acontece nas suas ruas diz respeito a todos: o que cada um de nós mostra, exprime, oferece, existe apenas em nome do conjunto e de um diálogo infinito e criador. Desse processo de recomposição da consciência colectiva e das identidades ao qual se referem, entre outros, o filósofo Charles Taylor e o sociólogo Michel Wieviorka. Por isso ainda, não faz sentido a deriva relativista que tende a definir a integridade do «outro» e a legitimar a todo o custo a sua diferença, insulando-a, empurrando-a para um elogiável ghetto, por muito que esta possa colidir com a forma de estar no mundo dos restantes. Respeitar o outro é assim, e sempre, conviver com ele e com ele ir desenhando pontes, negociando limites. O contrário não é uma paisagem multicultural, mas sim a transposição para as sociedades humanas da lógica territorial da selva ou do zoo.

Penso ser este o cenário diante do qual podemos pensar, de uma forma positiva e razoavelmente dialogante, o problema do «véu islâmico», da sua admissão ou do seu constrangimento, fora ou dentro do seu território real ou supostamente original. Não me refiro ao uso do discreto hijad, que evidencia uma forma de vestir tão legítima e normal quanto qualquer outra, «diferente» em alguns espaços e vulgar noutros como todas as formas de vestir. Nem sequer do mais visível chador, que cobre o corpo mas não o rosto, e permanece ainda como um hábito, não mais indiciador de diferenças de género do que um quimono, um acanhado saiote zulu ou um rotundo decote. Refiro-me sim ao niqab, o véu que cobre todo o rosto, com excepção dos olhos, e da burka, que tapa o rosto, ocultando também os olhos e qualquer forma do corpo que confirme ser este o de uma mulher: aqui é-se mulher não pelo que se vê mas pelo que se supõe estar dentro do que é possível ver-se. E falo apenas destes dois tipos porque representam um obstáculo à construção partilhada de uma ética e de uma experiência multicultural.

Isto acontece, de um lado, porque instalam a desconfiança do outro. Não ver o rosto com o qual nos cruzamos, da pessoa com quem falamos, vê-la apenas através de uma máscara, de um disfarce, de uma gaiola, impossibilita a aproximação, aparta as experiências. No mundo actual, com o ascenso do terrorismo islamita, a situação reforça ainda a desconfiança, o medo, a leitura do outro como um perigo potencial. Segrega, em vez de avizinhar, instalando a clivagem em vez da partilha. Instiga o ódio e aponta justamente à destruição do convívio multicultural. Essa é, aliás, a intenção dos islamitas que pretendem impô-lo à força da lei ou da chibata. Mas o uso do niqab e da burka representa também um obstáculo àquela que é, justamente, um dos objectivos da comunhão planetária da diferença: a afirmação de um relacionamento igualitário entre homens e mulheres. Admiti-lo é pois aceitar, legitimar, uma marca de segregação que não vejo em que se possa fundamentalmente distinguir das sinetas dos leprosos medievais, das grilhetas dos escravos africanos ou da estrela amarela pregada pelos nazis nas roupas dos judeus.

Trata-se de um sinal de submissão ou de subalternidade, de um factor de imposição violenta da diferença, que contraria os fundamentos capazes de gerirem uma sociedade multicultural ou um planeta que tende cada vez mais a ser partilhado por todos. Por isso, onde for possível fazê-lo, deve ser liminarmente afastado da esfera do público. Tal e qual como os castigos corporais, as formas explícitas de tortura e todas as afrontas aos direitos humanos. Sem «ses» ou «mas» de espécie alguma. Negar esta necessidade, ainda que em nome de uma meta política julgada prioritária, não significa «reconhecer a diferença» em abstracto, «aceitar o outro» como ele supostamente «é», mas sim transigir com uma forma particular de opressão e de barbárie. Ser cúmplice, por omissão, dos processo dos quais se servem as «identidades assassinas» para as quais nos alerta Amin Maalouf. Adversárias juradas – em nome de uma «diferença» artificialmente construída e apoiada na manipulação dos sentimentos religiosos – da convivência multicultural e do secularismo, de um mundo mais igualitário, um pouco mais justo. E mais humano, não há que ter medo da palavra.

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Elementar, meu caro Hugo

Hugo Chávez suspeita que Simon Bolívar (nascido em Caracas, Venezuela) não morreu há 180 anos pela influência danosa do bacilo de Koch, tal como ardilosamente contam os livros de história, mas sim envenenado com arsénico, ou então baleado. Para confirmar a tese, mandou exumar «o esqueleto glorioso», como lhe chamou, e reuniu 50 especialistas da Fiscalía General e do Cuerpo Técnico de Policía Judicial. A televisão venezuelana filmou o solene momento e, célere como é seu dever, divulgou-o à escala do planeta. Mas claro que não existe suspeita de crime – elementar, meu caro Hugo – sem que se não pense logo no suspeito. E a primeira pergunta, a eternamente clássica, é… quem lucrou de forma mais óbvia com a morte do «Libertador»? A pessoa está já identificada e desta vez não foi o mordomo: trata-se do general Francisco de Paula Santander, que viu a luz do dia em Villa del Rosario, Colômbia, e enfrentou por diversas vezes os ímpetos belicistas de Bolívar, sucedendo-lhe em nome do sector civilista ao qual este se opusera. Não sei se estão a ver: pegamos na naturalidade dos dois generais, no seu trajecto secante, na crise política actualmente vivida na região, e depois… é só fazer as contas. O historiador venezuelano Elías Pino Iturrieta afirmou a propósito, ao El País, que «não existe o mínimo fundamento científico que justifique este espectáculo nocturno», mas que importa tal princípio face à suspeita e às necessidades do omnisciente coronel? Aguardam-se «conclusões» a condizer.

Duas adendas:
- Tudo isto se passou no dia 16 de Julho. Ontem mesmo na Wikipédia em português era já possível ler: «Pelo que se descobriu após uma autópsia de Simon Bolívar, sua verdadeira morte foi causada por um envenenamento na digestão da água, que possuíam altas doses de arsénio.» O artigo da versão em inglês não fala disto.
- Para quem se interesse por estes pormenores: Santander caiu gravemente doente e morreu de causa não esclarecida em 6 de Maio de 1840, no próprio dia em que fez o discurso de aceitação da sua recandidatura à presidência de Nova-Granada (futura Colômbia). Durante a autópsia encontraram-lhe ainda duas marcas de bala e uma de lança.

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Memória de um coxo

sapatos

Nas últimas noites tenho encerrado a jornada lendo algumas páginas da colectânea de crónicas de Manuel António Pina que acaba de sair (Por outras palavras, edição da Modo de Ler). A maioria delas já eu tinha lido, no exacto lugar ao qual foram originalmente destinadas. Sou, aliás, leitor contumaz de tudo aquilo que o escritor escreve, sempre na tentativa gorada de encontrar uma palavra, um juízo, uma atitude que me desgoste, que ache deslocada, ou da qual me sinta suficientemente distanciado para poder testar a vontade física, que mantenho desde que me conheço e já me apontaram (provavelmente com razão) como doentia, de descobrir defeitos na perfeição. Será, por isso, escusado dizer que recomendo, e muito, estas trezentas e tal páginas, garantindo que, se sinto os olhos a fecharem ao fim de uma dúzia delas, é só porque geralmente já passa das três da manhã.

Este post não é, porém, sobre o livro de Manuel António Pina. É sobre uma sua evocação, nele contida, que me tocou de repente a memória. Lembra Pina, numa crónica de 2003, a propósito de um encontro breve mas inesquecível com o poeta Ruy Belo, uma manifestação estudantil na Baixa do Porto «contra a Queima das Fitas». Não sei o que pensará hoje a maioria dos estudantes universitários de tal evocação e da importância que ela teve para um certo padrão de resistência ao velho Estado Novo. Admito que seja algo de estranho. Como alguém contar que um dia vibrou com os golos de Figueiredo ou que a sua primeira erecção oficial foi instigada por um fotograma de Silvana Mangano em Riso Amaro. Mas posso garantir que não se trata de sinal de confusão da memória: participei em Maio de 1972, mais a sul, numa manifestação contra uma tentativa de reposição da Queima das Fitas por parte de uns quantos cidadãos próximos da direita extrema. Como poderia esquecer-me se nessa tarde, ao fugir da polícia que carregava sobre os estudantes, perdi um sapato e tive de regressar a casa por becos ínvios, procurando esconder o melhor que podia aquela propensão súbita para coxear um pouco?

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Arquivado em Livros & Leituras, Memória

Aqui há fantasmas

Fantasma

Não diria que a profissão de ghost-writer é a mais velha do mundo. Parece que essa é outra. Mas será, com toda a certeza, uma das mais antigas: sabemos muitas vezes quem mandou gravar as tabuinhas sumérias, mas jamais conheceremos o nome dos pobres escribas que as produziram. Posso estar enganado, mas por muito ligada a uma genealogia longeva que esta actividade se encontre, ela parece-me particularmente deprimente. Dar forma, ainda que por uma soma razoável, a textos dos quais outros passam por autores, não será com toda a certeza uma experiência apaixonante e boa para a auto-estima. Sabendo, para mais, que muitas das pessoas a quem esse trabalho serve – futebolistas e actores famosos, treinadores da moda, políticos ou jornalistas de renome, cozinheiros consagrados, antigos espiões, gigolôs e socialites com muita lábia, esposas traídas ou ex-amantes com sentido de oportunidade – jamais teriam o engenho e a arte suficientes para assinarem um volume legível com mais de cinquenta páginas de memórias ou revelações ruidosas.

Trata-se, no entanto, de uma actividade legítima, e é a ela que, a propósito do novo filme de Roman Polanski, o quinzenário JL dedica o pequeno dossiê que vem com o número chegado hoje às bancas. Por momentos animei-me e comprei um exemplar, julgando que ali pudesse ser abordado também – penso que tal seria uma obrigação de um jornal «de Letras, Artes e Ideias» com responsabilidade cívica e cultural um lado bem menos lícito, e claramente imoral, dessa actividade que tem vindo visivelmente a crescer. Refiro-me àquele protagonizado pelos escritores-fantasma que compõem romances inteiros ao mesmo tempo que vendem a alma a supostos fazedores de «best-sellers», figuras ufanas na sua condição de «escritores» que nunca o foram. Ou, pelo menos, nunca o foram «daquela» maneira exibida e laureada. Não pedia rostos, não esperava por nomes, não queria que mencionassem casos – sei que, quando há muito dinheiro envolvido, a lei, não necessariamente justa, é sempre mais célere, e além disso não será fácil nestes casos obter provas – mas parecia-me devida a mera menção, num tema como este e que ali se pretendia inventariar, deste triste prodígio contemporâneo. Fui ingénuo: o assunto permanece tabu e o JL não gosta, como nunca gostou, de parecer inconveniente.

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Um preço a pagar

yes no

Publicado originalmente, por convite, no Delito de Opinião

A palavra vilipêndio quase desapareceu do nosso vocabulário. Chegou do latim vilipendĕre, composto de vilis, vil, e de pendĕre, considerar, estimar. Exprime uma atitude de menosprezo em relação a alguém. Quando tornada pública, deprecia a pessoa a quem se aplica. Não se limita a expor divergências, a contrariar opiniões: aplica-se ad hominem, contra a pessoa, servindo-se discricionariamente das palavras ou dos juízos que a possam diminuir perante os outros. Neste caminho, o vilipêndio é insulto e difamação, pois não existe qualquer intenção argumentativa. O objectivo é um só: apoucar, amesquinhar, retirar ao outro qualquer estatuto de dignidade. No limite, procurar que este perca todo o crédito, de modo a que se torne fácil isolá-lo, silenciá-lo, escondê-lo, fazendo com que muitas pessoas, honestas mas desavisadas, se recusem a lê-lo ou a ouvi-lo. «Ah, aquele tipo! Um sacana!».

Não se trata de uma prática recente, obviamente, mas ganhou maior destaque social a partir de Oitocentos. Associada à explosão da imprensa periódica pôde então ampliar o seu efeito, servindo muitas vezes para arruinar carreiras, motivar processos judiciais, forçar duelos com um final pouco feliz. O novo meio ajudou aliás a «impessoalizar» o vilipêndio, uma vez que o seu autor passou actuar por detrás de uma cortina, ou de uma almofada, fornecida pela publicação que acolhia os ataques pessoais. Já no século XX, os servidores dos sistemas totalitários e os sectores políticos que se presumiam detentores da verdade, fosse ela «histórica» ou «científica», recorreram de um modo sistemático a este processo, apoiados na impunidade que os sistemas lhes ofereciam e na impossibilidade de exercício do contraditório.

Na antiga União Soviética, o método foi aperfeiçoado e usado de forma contínua a partir do final da década de 1920, fundando-se nele o processo de diabolização e de apagamento de figuras que tinham sido determinantes na própria construção do poder bolchevique, como Trotsky, Radek, Zinoviev, Kamenev ou Bukarine. No Portugal de Salazar como no Chile de Pinochet, qualquer opositor era «comunista». Na Cuba do presente todo o acusado de dissídio é publicamente rotulado de «agente da CIA» ou, no mínimo, de «anti-social». E mesmo na Europa democrática o método foi recorrentemente aplicado na tentativa de isolamento e diminuição de figuras num dado momento consideradas pouco ortodoxas, como Léon Blum, George Orwell, Albert Camus, Hannah Arendt e Raymond Aron, cuja «lenda negra» ainda hoje perdura em alguns ambientes, tal o volume, a constância e o impacto das injúrias e manipulações das quais foram objecto.

[continuar a ler...]

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Os espectros não gostam de luz

Em Kampala, duas explosões – num restaurante e num clube desportivo cheios de pessoas que queriam ver a transmissão da final do Mundial de futebol – fizeram 74 mortos e mais de 50 feridos. Os ataques foram da responsabilidade do grupo radical islâmico Al-Shabaab, próximo da Al-Qaeda, que proíbe a música, a dança e a prática desportiva aos seus membros. Como crê ser seu imperativo, quer matar para castigar e tomar o poder, e quer tomar o poder para castigar em todos os espaços que for capaz de controlar. Um dia, esperam os seus membros, para em conjunto com os seus irmãos na fé, fazer regressar o mundo inteiro ao tempo de Trevas que todas as religiões do Livro, e a religião deles também – na sua ignorância, nem isso, tão pouco, eles sabem –, colocam nos primórdios da Criação que pôs fim ao Caos. Ou seja, na emergência do que afiançam ser a intervenção divina no mundo. «Es werde Licht, und es war Licht!», «Faça-se Luz, e fez-se Luz!», são as conhecidas palavras com as quais Haydn abre, triunfal, o oratório Die Schöpfung (A Criação). Música «divina» que estes perigosos infelizes jamais ouvirão, e que, do fundo das suas tripas, se os deixassem, gostariam de apagar para todo o sempre. Ficando a falar sozinhos com os espectros, as sombras da Morte, que procuram imitar.

Haydn, A Criação – William Christie e Les Arts Florissants
[atenção particularmente ao 1'21'']

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