O monstro dócil

A tralha

Em Il Mostro Mite, «o monstro dócil», um livro publicado em Itália pela Garzanti, o linguista e ensaísta italiano Raffaele Simone procura mostrar o que separa o ethos tradicionalmente «sacrificial» da esquerda daquele assumido por uma direita que, ao contrário do que acontecia no passado, toma hoje o partido do consumo, do luxo, do despesismo e da poluição desgovernada. A Itália de Berlusconi esteve na vanguarda da mudança, uma vez que terá sido aqui que começou a afirmar-se essa direita do divertimento, da frivolidade, da comunicação televisual, do menosprezo pela arte e pela cultura, da procura desenfreada da riqueza e do prazer. Pelo contrário, a esquerda tem-se conservado essencialmente avessa à lógica consumista, apontando para uma sociedade austera, de renúncia, de regresso ao mínimo. Pelo meio, no entanto, algo mudou, e a nova sociedade globalizada encontra-se dominada por um padrão de cultura afável, envolvente, consumista, indiferente à renúncia e ao altruísmo. É este precisamente «il mostro mite», a face sorridente e todavia sinistra e prepotente da nova direita que em alguns países da Europa vem empurrando o conjunto da esquerda para um beco aparentemente sem saída.

Algo aqui parece inevitável. Se à direita pouco importa alterar a organização injusta do mundo, valendo pois fruí-lo tanto quanto for possível, já a esquerda, principalmente aquela que não se vendeu ao realismo político e à ordem neoliberal, reconhece as desigualdades e tem como cenário de esperança e motivação essencial para o seu combate, uma expectativa de mudança. Não pode por isso deixar de viver com sofrimento e inconformismo a desigualdade, a disparidade de oportunidades, o exercício arbitrário do poder, o crime como fonte de autoridade e de privilégios. Essa é a sua condição natural, que não pode repudiar mesmo quando em momentos específicos assume «a festa» como espaço para recuperar energias e prosseguir o combate. Mas é justamente aqui que Simone encontra um problema (ele não projecta a cura, faz apenas o diagnóstico): enquanto a esquerda ortodoxa tenta conservar essa vertente sacrificial que desconfia dos prazeres e coloca «a luta» à frente da procura de uma alternativa, os socialistas no poder, afáveis e sorridentes coveiros do Estado-Providência, cientes da dificuldade congénita de manterem as suas posições sem concessões aos ímpetos lúdicos e consumistas do povo que os elege, assumem um rosto superlight, que os revela cada vez mais como uma fraca cópia dessa direita «divertida» que anuncia a desigualdade como Deus e o «monstro dócil» como seu profeta.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em Actualidade, Opinião

Imaginar o outro

Amos Oz

Da entrevista (excelente como quase sempre) a Amos Oz, conduzida por Alexis Lacroix, que saiu no Magazine Littéraire nº 494, deste mês de Fevereiro:

«Você tem insistido sobre o facto da maioria dos europeus ser incapaz de conceber a vulnerabilidade do povo israelita. Não será um exagero?

A Europa permanece incapaz, em larga medida, de imaginar sequer a insegurança existencial dos israelitas. No conflito israelo-palestiniano não há lugar apenas para os bons e para os maus como muitos europeus gostam de acreditar. Não se trata de um western, nem de um combate entre o bem e o mal. É uma verdadeira tragédia, um conflito entre duas reivindicações poderosas, convincentes e válidas. Dito de outra forma: um combate entre o justo… e o justo.

Em numerosas intervenções públicas (…) costuma deplorar o facto de a numerosos europeus repugnar a consideração do sionismo em toda a sua complexidade. É essa a razão pela qual você prefere definir o sionismo como um “apelido”?

Quando recorro a essa metáfora, quero dizer que existe, no interior do sionismo, uma gama muito variada de sensibilidades e de correntes ideológicas: há o sionismo telúrico e anexionista dos sionistas religiosos; há o sionismo “revisionista” de Jabotinsky e dos seus émulos do Likud, que era o do meu pai, Arieh Klausner; há enfim o sionismo humanista, anti-anexionista, do qual me sinto, justamente, um herdeiro, desde que, em plena revolta juvenil contra o meu pai, me tornei um condutor de tractores de esquerda…

Até que ponto a literatura pode favorecer a emergência de uma solução?

A literatura desempenha um papel indirecto: ela ajuda-nos a imaginar o outro. Imaginar o outro é um passo importante para a resolução dos conflitos (…), é uma etapa indispensável para se chegar a uma melhor compreensão mútua.»

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites

Carrossel

Carrossel

É nestas alturas que pessoas como nós, que cruzamos as cidades de sapatos confortáveis, circulamos pelas auto-estradas a ouvir mp3 no bem-bom do ar condicionado e nos indignamos com o cheiro a pipocas no cinema, que blogamos e tuitamos e feicebucamos, digitamos teclados virtuais ou bluetooth, sabemos distinguir um iPod de um iPad, vamos a concertos e a festivais, viajamos de avião, passamos por hotéis silenciosos e restaurantes onde ninguém levanta a voz, percebemos que continua a existir um país para o qual o jogo da vida se faz do futebol da «liga dos últimos», de iscas de cebolada, de circos manhosos, bailes dos bombeiros e umas voltas de carrossel ou carrinhos de choque. Eu nasci e vivi uma parte da minha vida a vinte quilómetros de Pedrógão Pequeno e não sabia que era essa a distância que me separava da «capital do carrossel». A medida exacta da minha ignorância e da minha miopia, que é a de todos nós que vemos aqueles homens e aquelas mulheres um pouco estranhos, todos com mais de quarenta anos, corpos flácidos, camisolas puídas, calçado cheio de lama, a reivindicarem que não lhes retirem o cabo do mundo onde ainda conseguem viver. A exigirem direitos que para eles marcam a distância entre a sobrevivência e uma vida pior ainda do que aquela que levam. A fazerem com que conheçamos o tamanho da nossa indiferença.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites

Insistir no óbvio

Quinta Vigia

Há quase trinta anos que por motivos familiares visito regularmente a Madeira. Apesar de em 1981, quando pela primeira vez desembarquei no Aeroporto de Santa Catarina, ainda se sentir na rua alguma relutância em relação ao «cubano» que chegava do Continente – eu era nitidamente um deles – salvo raríssimas excepções fui sempre bem tratado. E ainda que me desagrade a degradação da natureza e da paisagem urbana suscitadas ao longo destas três décadas pelo crescimento do asfalto e do betão, nunca deixei de me sentir bem na ilha. Gosto da Madeira, gosto da generalidade dos madeirenses, e, não fora detestar andar de avião e sofrer de uma certa «insulofobia», talvez nem me importasse de passar por lá bastante mais tempo.

Nunca fui ao Porto Santo mas conheço bem toda a ilha da Madeira. Sei por isso que, se retirarmos algumas áreas onde reside a população mais pobre e desamparada, por toda a parte se respira um ambiente de prosperidade: vias rápidas e eficazes, cidades organizadas, um serviço de saúde exemplar, excelentes instalações escolares, transportes públicos eficazes, um óptimo parque automóvel, pessoas geralmente bem vestidas, muitas lojas de artigos de luxo, bons hotéis e bons restaurantes. Uma prosperidade bem visível na vida e nas atitudes de muitas famílias. Como não se vê, nesta dimensão, em parte alguma do resto de Portugal. Hoje mesmo no Público Manuel Carvalho apresenta dados irrefutáveis: o rendimento per capita na Madeira é de 128 por cento da média nacional, e enquanto o rendimento nacional ronda os 76 por cento da média europeia, os madeirenses beneficiam de 97 por cento. Como lembra o subdirector do jornal, «no país mais desigual da Europa, só Lisboa está acima». Desta forma percebe-se que a maioria das pessoas continue a eleger e a adular o aparente arquitecto deste pequeno paraíso?

Só que ao mesmo tempo – não escrevo novidade alguma, mas convém relembrar – não existe no arquipélago, para além de um turismo de massas sazonal (o antigo, regular e «de qualidade», tem vindo a regredir), actividade económica que aparentemente pague uma situação que nenhuma outra região do país mantém. Não existe uma única indústria (não conta, naturalmente, a produção semi-artesanal de vimes e de bordados), o campo vive quase em regime de monocultura (a videira ou a bananeira ocupam a paisagem cultivada visível), não existe criação de gado significativa ou actividades derivadas, o comércio tradicional definha a olhos vistos. E, pior, não se pensa, não se fala, numa alternativa a este deserto económico. Há, sim, um consumo de bens elevado, condicionado pelo Governo Regional que é o principal empregador e o grande padrinho, e por uma política de subsídios que torna tudo – educação, saúde, transportes – muito mais barato do que em qualquer outra parte do país. Nestas condições, como não apelar em período de crise, à escala nacional, à contenção de quem se encontra em melhores condições para a aplicar? Justamente porque beneficiou da solidariedade forçada de quem manteve o cinto apertado enquanto a partir do palácio rosa da Quinta Vigia se abriam os cordões «à grande e à madeirense». A ser aplicada, a solidariedade não pode ter sentido único, por muito que o senhor que se sabe vocifere e estrebuche ou se faça passar por engraçadinho. Para o bem de todos, incluindo naturalmente os madeirenses.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em Actualidade, Olhares, Opinião

O ano que abalou o mundo

1989

Na manhã de 1 de Dezembro de 1989, a banda do Vaticano tocou de maneira vibrante A Internacional, logo seguida do hino papal. Mikhail Gorbachev, o líder do Partido Comunista da União Soviética, acabava de ser recebido por João Paulo II. Um encontro que sete ou oito meses atrás qualquer pessoa no seu juízo teria considerado impossível. Baseado numa longa experiência como repórter, em entrevistas e depoimentos de personalidades colocadas no centro dos acontecimentos, e ainda em material de arquivo inédito, o jornalista de origem húngara Victor Sebestyen descreve a sequência dessa meia dúzia de meses agitados e vertiginosos que mudaram o mundo de uma forma aparentemente inexplicável. Em Revolução 1989 mostra como toda esse imprevisibilidade se ficou a dever, em larga medida, à falta de informação, ou de reconhecimento público, de um conjunto de factores críticos que vinham cruzando já a realidade das «democracias populares», e como os factos se precipitaram bruscamente devido sobretudo ao processo da perestroika e ao desinteresse da nova direcção soviética pelos destinos dos Estados que os seus antecessores haviam tutelado ao longo de quase meio século.

A narrativa começa em Outubro de 1978, quando Yuri Andropov, então ainda só o dirigente máximo do KGB, foi informado da eleição papal do cardeal polaco Karol Wojtyla. Extremamente irritado, telefonou nessa mesma noite ao embaixador soviético em Varsóvia exigindo saber como fora possível a escolha para a cadeira de São Pedro de «um cidadão de um país socialista» desde há muito considerado «perigoso para nós». A premonição de que algo de muito sério poderia estar para acontecer iria rapidamente revelar-se certeira. A partir desse acontecimento-chave, Sebestyen procura então descrever os factores e os instantes centrais da mudança em curso, bem como as tentativas desesperadas dos regimes isolados e autoritários, atolados na corrupção e no descalabro financeiro, para a impedirem. Na Polónia em primeiro lugar, mas logo de seguida na Alemanha Oriental, na Checoslováquia, na Hungria, na Roménia e na Bulgária, sucederam-se então momentos críticos e de confronto, no decorrer dos quais se percebeu a total incapacidade de líderes isolados e cansados, como Honecker, Ceaucescu, Husak, Kadar ou Jivkov, para compreenderem a realidade mundial em transformação e actuarem em conformidade. Pior do que permanecerem fiéis aos princípios basilares da ortodoxia marxista-leninista, foi o facto de todos eles se mostraram incapazes de ultrapassarem o mais rígido imobilismo nas práticas de governação e no relacionamento com os cidadãos, tornando fatal a própria queda.

Revolução 1989 é uma obra objectiva, rigorosa e abrangente, que segue uma estrutura narrativa aliciante, pontuada por inúmeros episódios dessa «pequena história» que tantas vezes faz inflectir a sequência dos grandes movimentos políticos e sociais. Um instrumento de grande utilidade para quem pretenda compreender a velocidade, a dimensão e o eco da «primeira revolução televisionada da História». E um ano quente, de viragem, na nossa experiência colectiva.

Publicado na revista LER de Janeiro

Victor Sebestyen, Revolução 1989. A Queda do Império Soviético. Trad. de Alberto Gomes. Presença, 448 págs.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites

Biografia de uma não-pessoa

A. H.

No final da década de 1990, Ian Kershaw publicou uma biografia monumental de Hitler distribuída por dois volumes e 2.000 páginas. O primeiro acompanhava as origens remotas do «Führer do povo e do Reich alemão», a composição das suas certezas, o aperfeiçoamento gradual e premeditado da imagem pública, o caminho para a tomada do poder e o esforço de militarização da sociedade alemã indispensável para a afirmação dos seus objectivos. O segundo volume seguia-o nos anos do apogeu e da queda do regime nazi: os da mobilização para a guerra total, da apoteose do poder e da expansão da Grande Alemanha, mas também os da Solução Final, do recuo estratégico e da morte antecipada do «Reich de Mil Anos». Logo aclamada como obra de referência, devido sobretudo à quantidade de informação oferecida e à novidade de muitas das fontes de arquivo utilizadas, acabou por ser reeditada em 2008 num volume único e condensado, mais acessível ao leitor comum. É esta versão que as Edições 70 agora editaram. A estrutura da obra original mantém-se, embora as notas tenham desaparecido, a bibliografia final sido reduzida e o texto aparado de algum material do qual o autor aceitou prescindir.

É um estudo sobre a força acumulada e aplicada pelo líder nazi, nele se procurando mostrar como foi possível a um indivíduo aparentemente inepto ter-se apropriado do poder num país desenvolvido como a Alemanha, e, depois de o obter, como foi ele capaz de o conservar e de o alargar da forma que conhecemos. Ensaia também a compreensão dos motivos pelos quais uma sociedade moderna, culta e com alguma tradição democrática pôde mergulhar rapidamente na mais brutal e devastadora das barbáries. Nesta direcção, Kershaw, preocupa-se menos com a definição psicológica do biografado, o seu trajecto individual, gostos, vida familiar e amizades – praticamente invisíveis no livro –, do que com as condições que permitiram a sua irresistível ascensão. Considera mesmo o seu estudo como biografia de uma «não-pessoa», de alguém que, de facto, não parecia ter vida fora das organizações e dos acontecimentos nos quais se foi sucessivamente envolvendo. Assegura até que fora da esfera da política Hitler «teria permanecido indubitavelmente como um zé-ninguém», tendo sido apenas ela a potenciar as suas capacidades, a sua vontade e o seu trajecto como «autoridade carismática» – seguindo o conceito de Weber – capaz de apresentar aos olhos de um crescente séquito de seguidores, com recurso a uma imagem laboriosamente construída, capacidades únicas, extraordinárias e providenciais. Um oportunista soberbo e um péssimo estratego, «demagogo de cervejaria com poucas qualificações académicas», obcecado consigo próprio mas com inteligência suficiente para se adaptar às expectativas e às condições do seu tempo, que estava convencido de ter sido talhado para cumprir o destino histórico da Alemanha. Mais do que sobre Adolf Hitler, é pois sobre a época e as circunstâncias que permitiram a sua ascensão que o historiador britânico faz incidir o seu relato.

Publicado na revista LER de Janeiro

Ian Kershaw, Hitler. Uma Biografia. Trad. de Lídia Geer. Edições 70, 38 + 850 págs.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites

China-2040

China-2040

De acordo com um estudo da Academia Chinesa das Ciências, a China poderá tornar-se uma democracia em 2040, quando o país alcançar um nível de «desenvolvimento médio» e o seu PIB per capita ultrapassar os 20.000 dólares. Até lá mandam-se os dissidentes para a prisão e dão-se umas boas cacetadas em quem se manifeste que é para essa gente assimilar melhor a tradicional virtude da paciência.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em Apontamentos, Delírios, Olhares

Centenário na estrada

O Centenário

Cavaco destacou dos valores republicanos, como era de esperar, «o amor à pátria e a ética na vida política». Já Sócrates anotou como capital «a importância atribuída à educação». Para além do cerimonial da ordem e do folclore já a rodar em volta do centenário do 5 de Outubro, dois elementos fundamentais do ideário republicano – que a experiência da Primeira República em larga medida falhou ou distorceu – têm permanecido na penumbra. São eles a igualdade de direitos políticos encarada como uma necessidade (que no entanto excluía ainda as mulheres), e o valor emancipatório da laicidade do Estado, da sociedade e do sistema educativo. Será bastante mais útil e estimulante que nos concentremos na evocação destes – sobretudo numa reflexão colectiva que actualize a sua mensagem – mas duvido que as autoridades públicas ou algumas «comissões de festas» se sintam tentadas a fazê-lo. Vivemos tempos mais fáceis para as liturgias do que para as ousadias.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em História, Opinião

Uma desatenção da Lusa?

Passou quase despercebido um despacho publicado há dias pela agência Lusa. Não noticiava nada em particular, nem anunciava algo de novo, resultando o seu interesse de nele alguém naturalizar como aceitável ou mesmo necessária uma prática preocupante. A partir do anúncio, ainda mal esclarecido, de que a TAP teria sancionado pilotos com um «curso de ética» devido a conversas mantidas no Facebook, entrevistava-se um «especialista da empresa de recrutamento Michael Page» capaz de afirmar com a maior candura que na utilização das redes sociais os trabalhadores «precisam de estar atentos à forma como as utilizam, até para não prejudicarem a sua imagem perante futuros empregadores». Considerava-se mesmo que o trabalhador deve evitar informações «pouco abonatórias» para a empresa onde trabalha como forma de proteger o seu próprio trabalho. No referido despacho, Nuno Troni lembrava ainda, e aparentemente lamentava, que para as empresas seja «muito difícil controlar toda a informação que os colaboradores trocam entre si», quer num contexto de trabalho, quer ao nível social, com amigos ou familiares.

A partir da altura em que a expressão de opiniões e a troca de informações na Internet se universalizou, a partir da altura em que aquilo que cada um escreve passou a ser mais lido e a circular com uma cada vez maior facilidade, quando a velha e já quase esquecida netiqueta cedeu lugar ao abuso do anonimato e à frequente instrumentalização da rede como arma de arremesso, as consequências passaram a ser mais pesadas e, naturalmente, o grau de responsabilidade de quem fala por aquilo que diz tendeu a aumentar. Mas para moderar os efeitos negativos, nas redes de computadores como nos jornais ou na rua, agora como dantes, existem códigos éticos e instrumentos jurídicos, bem como regras próprias de cada um dos meios, que podem humanizar um pouco a lei da selva e alargar a própria noção de responsabilidade. Agora admitir como necessárias e naturais a vigilância e a autovigilância, a coacção da opinião, a anulação da liberdade de crítica, e até, implicitamente, a construção de bases de dados contendo as opiniões dos cidadãos-trabalhadores, tal como o fez o «especialista» da Michael Page, traduz-se num ataque público à liberdade de opinião e numa defesa do silenciamento da divergência. É inquietante que a Lusa, «Agência de Notícias de Portugal», tenha olhado com indiferença para estas declarações limitando-se a passar a mensagem.

||| Publicado também no Arrastão

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em Olhares, Opinião

O passado é agora [8]

Pós-degelo

E depois do Degelo.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em História, Imagem, Memória

O Holocausto afinal existiu

Tatuagens

Evoca-se hoje o Dia Internacional da Memória do Holocausto, celebrando a libertação pelas tropas soviéticas, ocorrida em 27 de Janeiro de 1945, do complexo de campos de Auschwitz-Birkenau. Ao contrário do que se passa com outros acontecimentos que o tempo vai diluindo, as representações do Holocausto têm permanecido activas, ainda que nem sempre pelos melhores motivos. Destaco dois: a desvalorização da shoah devido ao comportamento do Estado de Israel em relação aos direitos políticos do povo palestiniano, e a negação (ou a depreciação) do próprio extermínio em massa dos judeus levado a cabo pelos nazis, imposta por um certo padrão de revisionismo histórico inspirado pela extrema-direita e/ou pelo islamismo radical. São problemas complexos, sobre os quais tem sido muito fácil dizerem-se as maiores barbaridades, que começam quando se julga o passado apressadamente e, em função de certos combates do presente, se tomam as pessoas por estúpidas.

Entretanto pouco se tem escrito sobre aqueles cujos pais sobreviveram aos campos nazis. As consequências traumáticas para os próprios deportados são bem conhecidas, mas a presença do seu eco junto dos seus descendentes tem permanecido silenciada. Eu Não Lhe Disse Que Estava a Escrever este Livro (ed. Pedra da Lua) destaca treze testemunhos de filhos de judeus franceses sobreviventes de Auschwitz, todos nascidos nos finais da década de 1940, que desafiados pela jornalista Nadine Vasseur aceitaram comentar pela primeira vez a sombra que os acompanhou a vida inteira. Coincidem sem excepção num aparente paradoxo: se, por um lado, a experiência da deportação e da vida nos campos é intransmissível, dada a impossibilidade real de exprimir o sofrimento extremo e solitário dos que as viveram, por outro ela criou nestes uma capacidade para resistir e para sobreviver que os colocou acima das exibidas pela maioria dos humanos, tornando-os pessoas admiráveis mas obrigatoriamente «difíceis» no trato diário. Esta dificuldade encontra-se patente em atitudes que sempre perturbaram muito os seus filhos, que com elas tiveram de conviver desde crianças: a constante descrença («sempre disse ajuda-te a ti próprio, pois o céu não te ajudará»), uma secura imutável («podem ficar com o olhar húmido, mas não choram»), o silêncio sobre o passado («meteu a sua história dentro de uma caixa e pôs uma tampa»). Mas revela-se também numa grande capacidade para enaltecerem «o imenso valor da vida», evitando repisar um passado que preferiam manter no seu foro íntimo.

Este livro especial mostra-nos como foram os filhos dos deportados que sobreviveram a transportarem parte substancial do fardo dos pais. Ele dialoga sempre com a singularidade perturbante de cada testemunho, com a dificuldade sentida por cada um dos entrevistados de Nadine Vasseur em falar de pormenores simples apenas na aparência, como a forte lembrança dos gritos aflitivos dos pais escutados em noites de pesadelo ou a visão nunca comentada «daquela tatuagem no braço, que sempre lhe conheci». Um livro pequeno mas intenso e comovente, que ajuda a contornar a banalizante «indústria do testemunho» e a combater a revisão negacionista do Holocausto que nos tem enchido os ouvidos. Uma sugestão para este 27 de Janeiro.

Este post retoma em parte um texto que escrevi em 2008.

||| Publicado também no Arrastão

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites

Da importância da maçã

Maçã

Nunca me interessei muito pelos combates jurídicos entre a Microsoft e a Apple ou pela guerra de guerrilhas entre os seus adeptos. Desde os tempos do medonho MS-DOS que vinha com o meu primeiro computador, um pesado Schneider estranhamente movido a floppy-disk, sempre me servi mais de máquinas com o sistema operativo fornecido pela empresa de Gates, mas a escolha foi condicionada desde o início: os computadores da maçã eram bastante mais caros e o acesso ao software muito mais difícil. Com pouco dinheiro para investir, eu não tinha hipóteses de escolha. No entanto, sempre vi nos Mac aquilo que vêm muitos dos seus indefectíveis adeptos: computadores-objecto bonitos, quase sempre fiáveis e com um interface invariavelmente userfriendly. Nunca deixei de me servir deles ao longo dos últimos vinte anos, embora tenham sido só o iPod e o iPhone – com a revolução que introduziram na gestão diária do velho hábito de ouvir música e da nova mania de comunicar em rede – a aproximarem-me um pouco mais dos produtos da Apple. Tal como tem acontecido com tantas pessoas.

Hoje ao fim da tarde, Steve Jobs, o chief executive officer da empresa irá revelar o super-guardado segredo que poderá materializar, ao que consta, o arranque para a sua terceira vida: uma máquina, leve, fina e elegante, em formato tablet e a um preço razoável, que fará conjugadamente tudo aquilo que fazem agora netbooks, iPods, iPhones e sobretudo e-books, sugerindo uma nova viragem não só na utilização diária das próteses computacionais, mas principalmente na caracterização do hábito e do acto de ler. Nestas coisas, sabe-se como é difícil ser-se bruxo ou profeta, mas a cumprirem-se as previsões dos especialistas, os apóstolos da imortalidade do livro em papel e da vida eterna da galáxia de Gutenberg irão mesmo confrontar-se, talvez como nunca antes ocorreu, com a necessidade de reverem a sua visão dos mundos comunicantes. A sua forma, irrevogavelmente datada e condenada, de taparem o sol com a peneira perante as práticas e as expectativas adoptadas com entusiasmo pelas gerações mais recentes. Quem vo-lo diz vive os seus dias entre milhares de livros, de revistas, de jornais em cartão, cola e papel. Vive deles, precisa deles, snifa-os glosando muitos e até escrevendo alguns. Mas nem por isso aceita fazer de cego ou de avestruz.

Depois da coisa – Consumada a saída do iPad, no essencial as expectativas criadas parecem manter-se, com algumas objecções e outros tantos factores de entusiasmo. Leia-se a propósito o que escreveu Paulo Querido.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites

Fantasia reaccionária

Os bons velhos tempos

Desde que em 2006 entrou em vigor em Espanha a legislação destinada a reprimir o ancestral hábito de fumar, diminuiu o consumo do tabaco mas cresceu o número de fumadores. Em 2009, 31,5% dos nuestros hermanos afirmou fumar, no mínimo, de forma moderada, quando três anos antes a percentagem era de 29,5%. A diferença seria insignificante se não derrotasse os objectivos «profilácticos» da lei e não servisse agora de justificação para impor regras ainda mais severas e restritivas. A verdade é que ao longo destes anos elas se mantiveram razoavelmente suaves e de aplicação bem mais flexível do que aconteceu em Portugal, como qualquer cidadão pode constatar, entre três passas e outras tantas baforadas, de cada vez que cruze a linha de fronteira e avance até à distância de um tiro de bacamarte. Porém, se tudo for agora uniformizado pelo diapasão do antitabagismo furioso, deixaremos de distinguir o «mau vento» que a nicotina insinua e sofrerá rude golpe a castiça defesa da identidade dos nossos ares. Sejamos claros: lá no fundo, os defensores espanhóis de uma lei mais severa são iberistas disfarçados ou então ressabiados de 1640. Por isso, se os de Madrid aprovarem as suas normas mais limitativas, apenas nos restará, em nome da pátria dos Pereiras, dos Albuquerques, dos Mouzinhos e dos Coutinhos, um voluntarioso regresso ao uso liberal do Provisórios e do Três Vintes.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites

2010-1952=58


[os erros do francês são autênticos]

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em História, Memória, Olhares

Do outro lado do tempo

YouTube Preview Image

Durante anos, a guerra (a «Colonial», a «do Ultramar») permaneceu tema intocável para a maioria dos portugueses que nela participaram como combatentes. Enquanto durou, os militares não podia comentá-la sem correrem riscos. Depois, morto o império, começou a circular que todos a tinham travado contra a sua consciência. Parecia que todos haviam sido anticolonialistas, preferindo fazer-se de conta que o passado colonial estava morto e enterrado. Quem tentava falar do assunto, batia invariavelmente numa parede de silêncio que tornava impossível perceber o lado humano e não-oficial daquilo que acontecera. Pelos anos oitenta começaram então, timidamente, os almoços de confraternização, geralmente preenchidos com as épicas aventuras partilhadas aos vinte anos ou com fanfarronices sobre «turras» e «pretas». Só pelos meados da década de 1990 surgiram os primeiros estudos e recolhas de testemunhos, e só agora, quase quarenta anos passados sobre o fim do conflito, se tornou normal ouvir ex-militares, ou as suas famílias, a falarem de forma livre dessa experiência durante tanto tempo calada. Percebe-se finalmente que tudo foi menos simples, e menos insignificante para a vida das pessoas envolvidas, do que se pensava com o cheiro a pólvora ainda nas narinas.

Outro tema, porém, continuou oculto, ou pelo menos mascarado e entrecortado por longos silêncios: a vida dos civis portugueses que povoaram os territórios africanos foi provisoriamente apagada. E os muitos que voltaram à terra de onde haviam partido, ou de onde tinham saído os seus pais, foram, depois de marginalizados mais pela sua diferença cultural do que por uma eventual cumplicidade no sistema colonial – efectiva em alguns casos, muito relativa noutros –, forçados a integrarem-se para que pudessem ser reconhecidos como portugueses normais, e não como perversos «retornados». Tem sido elogiada a forma como foram incorporados na vida do país, muito mais rápida e supostamente indolor do que a vivida pelos franceses pied-noirs obrigados em 1962 a saírem da Argélia. Mas esse processo, aparentemente pacífico e «exemplar», foi feito à custa do apagamento de histórias de vida, de valores, de costumes, de recordações, que eram os daqueles que haviam regressado ou chegado pela primeira vez à «metrópole» em 1974-75. De certa maneira, foi uma violência o que se passou, e foi ela – associada, por vezes, à perda dos privilégios ou das facilidades que muitos tinham conhecido em África – que levou muitos desses portugueses de torna-viagem a romantizarem ou a fantasiarem a vida que um dia tiveram, ou imaginam que tiveram. Uma vida perfeita, feita de bem-estar, de praias, de caçadas, de bailes, de mariscadas, de sexo, de noites de convívio, numa sociedade dentro da qual tudo parecia ter o seu lugar predestinado e imutável, num cenário onde racismo parecia «invisível», camuflado em Angola ou naturalizado em Moçambique.

É por isso que um livro como o Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo (ed. Angelus Novus, 2009), se torna perturbante para muitas dessas pessoas, ou para aquelas que delas herdaram o discurso e os mitos. Elogiado por uma grande parte da crítica, com direito a grande destaque em diários e semanários, com um volume de vendas que fez esgotar a edição inicial, tem também sofrido o impacto de leituras sugeridas por quem vê nele algo capaz de colidir com a sua visão modelar e quase paradisíaca de um passado que prefere guardar como então o viu e como o gostaria de continuar a ver. Com os contornos de um tempo de prosperidade e de ordem social, sem confrontos visíveis, basicamente feliz. Mas ele não aconteceu assim – ou apenas assim – e o livro de Isabela Figueiredo, nascida em 1963 na cidade de Lourenço Marques, mostra-o com clareza. Acontece que existia, mas existia mesmo, um ambiente colonial complexo, no qual a paz das esplanadas escondia a violência latente ou explícita do quotidiano, e, sobretudo para os mais jovens nos anos da guerra, onde a aparente unanimidade podia camuflar a dúvida ou a busca de horizontes culturais mais livres e cosmopolitas, embora uma certa «nostalgia africanista» tenda a desvalorizar este lado.

Caderno de Memórias Coloniais não é um texto fácil para quem integre essa dimensão mais ou menos idílica e a technicolor do passado de muitos dos portugueses brancos que habitaram as antigas colónias, tornando menos agradáveis as imagens quase utópicas, de postal ilustrado, que abundam por aí. Além disso, resulta de um acto de coragem da autora, evidenciando, entre a ficção e não-ficção, um trabalho de exposição pessoal e familiar do passado (e também do presente que se lhe cola) que não deixará de ser pago com juros. Isabela Figueiredo faz notar, na conversa-entrevista que integra o próprio volume, que já houve quem lhe dissesse «que temos de ultrapassar o passado, que não vale a pena tocar em assuntos tão sensíveis», mas contrapõe ao argumento que, se temos realmente de ultrapassar esse passado, se os portugueses do outro lado do mar precisam mesmo de ultrapassar esse passado, «só o podemos fazer depois de o enfrentar». Nem que fosse apenas por este acto de enfrentamento, este livro incómodo mereceria sempre a nossa atenção. Os portugueses que povoaram o império colonial, ou «o nosso ultramar», não podem ver o seu passado apagado, esquecido, ou então pintado com as cores apenas agradáveis que a descolonização teria manchado. Ele conteve também experiências amargas, difíceis, perturbantes, por vezes únicas. Reconhecer esta diversidade só valoriza esse passado, não o degrada como julgam os mais cegos ou preconceituosos.

||| Publicado também no Arrastão

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites

Imperativos

Camus na Grécia
Camus na Grécia em 1958 (com Michel Gallimard, com quem morrerá dois anos depois)

Foram já distribuídos por cá os dois atraentes e úteis números do Magazine Littéraire e da Lire dedicados à vida e ao eco da obra e do pensamento de Albert Camus. Do segundo consta a transcrição do notável discurso pronunciado em 10 de Dezembro de 1957, quando, de fraque alugado para a ocasião, o autor de L’Étranger recebeu em Estocolmo o Prémio Nobel da Literatura. Traduzo um fragmento conservado sem uma ruga.

«O papel do escritor (…) é inseparável de imperativos difíceis. Por definição, ele não pode colocar-se ao serviço daqueles que fazem a História. Se o fizer, ficará só e privado da sua arte. Todos os exércitos da tirania, com os seus milhões de homens, serão então incapazes de libertá-lo dessa solidão, ainda que, e sobretudo se, marcharem ao seu lado. Mas o silêncio de um prisioneiro desconhecido, abandonado à humilhação do outro lado do mundo, bastará para retirar o escritor do exílio, de cada vez que, pelo menos, este consiga, recorrendo aos privilégios da liberdade, impedir que esse silêncio seja esquecido, fazendo-o ecoar pelos meios que a sua arte fornece.

Nenhum de nós é suficientemente grande para cumprir uma tal vocação. Mas, em todas as circunstâncias da sua vida, obscuro ou provisoriamente célebre, atirado às feras da tirania ou momentaneamente livre para se exprimir, o escritor pode reencontrar o sentimento de uma comunidade viva que o legitimará, na condição única de assumir enquanto puder as duas tarefas que fazem a sua grandeza: o serviço da verdade e o da liberdade. (…) Ele não pode acomodar-se à mentira e à servidão que, por onde quer que imperem, fazem proliferar as solidões. Sejam quais forem as nossas fraquezas pessoais, a nobreza da nossa actividade radica-se sempre em dois compromissos difíceis de manter: a recusa de mentir sobre aquilo que sabemos e a resistência à opressão.»

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites

Um pequeno caso de amnésia

Rommel no deserto

Se história e memória não são a mesma coisa, uma não existe sem a outra, uma vez que ambas têm como referente o passado e os ecos que deles nos chegam, influenciando-se reciprocamente no processo de construção e de apagamento. Sabemos, por exemplo, como a revisão da história, levada a cabo muitas vezes por políticos e historiadores, começa antes por uma manipulação da memória colectiva, criando-se as condições para que, de seguida, certos «técnicos do passado» executem o seu trabalho sombrio. Assim ocorre entre nós, por exemplo, com a recente «suavização» do salazarismo, que começou com a tentativa de injecção mediatizada, no imaginário colectivo, de um ditador de Santa Comba com um ar simpático ou até de playboy, e tem prosseguido com a produção de livros, artigos e eventos destinados a activar um certo processo de branqueamento do homem e da sua acção.

Este método é universal, e daí o cuidado que é preciso ter perante a manipulação do conhecimento histórico como cenário que legitima as escolhas do presente. Só o esquecimento desse lado ambíguo da história pode assim permitir, por exemplo, que os responsáveis da selecção argelina de futebol tenham escolhido como designação utilizada, pelos jogadores que em Angola disputam neste momento o CAN 2010, o qualificativo de «raposas do deserto». É verdade que estas são pequenos canídeos que habitam as regiões desérticas, semidesérticas e montanhosas do Norte de África, contendo por isso uma simbologia local própria. Mas para quem tem como referente histórico o conflito brutal que foi a Segunda Grande Guerra – e o CAN é já um acontecimento global, que por isso não pode ignorá-lo – a «Raposa do Deserto» era Erwin Rommel, o arguto e inflexível comandante-em-chefe do Afrika Korps, com qual Hitler procurou obter o controlo estratégico do Magrebe e do Egipto. Conhecido na época, entre muitos árabes, como «o Libertador», por ter combatido frontalmente a presença imperial inglesa na região. Trata-se, provavelmente, de um episódico caso de desconhecimento ou de amnésia. Não é grave e não vale uma tempestade, pois a Guerra é já, para a esmagadora maioria das pessoas, um acontecimento longínquo, quase de ficção. Mas não deixa de ser sintomático.

||| Publicado também no Arrastão

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em Actualidade, História, Memória

Os nossos «haitianos»

Para Camus, a humanidade do indivíduo afere-se, em parte, pela sua capacidade para se revoltar contra o mundo tal qual ele existe e contra os factos tal qual eles acontecem. Mas o acto de revolta apenas liberta enquanto não se vira contra quem o pratica. Em O Homem Revoltado, de 1951, o livro que esteve na origem da ruptura com Sartre e do desentendimento com grande parte da esquerda, o francês-argelino levantou-se simultaneamente contra uma «revolta poética», meramente verbal, artística, imaginada, que não passa de um diferimento, por via simbólica, da verdadeira insubmissão, e contra uma «revolta histórica», que remete a felicidade possível para amanhãs distantes, após uma fase higiénica, de servidão e de empenho numa destruição vista como redentora. «O revolucionário é ao mesmo tempo um revoltado, pois de outra forma não seria revolucionário», mas é também «um polícia e um funcionário que se levanta contra a própria revolta.» Todavia, se for autenticamente insubmisso, ele «acabará por voltar-se contra a revolução» que ajudou a erguer, tornando-se então «ou opressor, ou herético». Trata-se, evidentemente, de uma atitude céptica abominada – há cinquenta anos como hoje – por todos aqueles que se julgam depositários da verdade e, sejam quais forem as circunstâncias, se olham como agentes de um «instante revolucionário» superior capaz de a impor aos outros.

Penso nisto enquanto, por estes dias de espanto e de dor em volta da catástrofe imensa que se abateu sobre o já tão martirizado povo do Haiti, contra um mal supremo que ninguém pôde ou poderá evitar, existe gente – audível, por exemplo, em certos blogues – que coloca o seu cego ou infantil «desejo revolucionário» acima da capacidade humana para se revoltar contra tanto sofrimento. Fazendo alguma coisa para o amansar, para dominar o medo, para limpar as lágrimas que não param. Ajudando quem, neste exacto momento, carece de tudo menos de um programa furiosamente anti-imperialista para se libertar de quem lhe estende aquela mão, qualquer mão, de que precisa para uma coisa tão simples e dura de obter como conseguir sobreviver. Reconhecê-lo, agindo em conformidade com este reconhecimento, será, ele sim, um acto de revolta. Contra o destino e contra a morte. Quanto ao resto, depois se verá.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites

A Hora-A

Cravos

Não tenho por Manuel Alegre uma admiração que vá para além daquela que ele me merece como cidadão com um passado de coragem cívica, e, no sentido dilatado do qualificativo, como homem de esquerda. Não o aprecio particularmente como poeta, apesar de reconhecer o valor simbólico ocupado pelas palavras de alguns dos seus poemas na disseminação de uma «cultura de oposição» ao regime derrubado em Abril. E não o considero por aí além como político com obra feita, apesar do recurso tonitruante da palavra, a que recorre, constar da minha memória individual das noites em que ouvia a Voz da Liberdade debitar pelas ondas hertzianas esperança e resistência. Nos últimos anos incomoda-me sobretudo a recorrente presunção de superioridade moral oferecida por um discurso demasiado datado e paternalista sobre Liberdade, Ética, Cultura, Pátria ou Democracia (assim mesmo, abusivamente pronunciados com maiúscula). Mas a verdade é que, perante as arengas vazias de humanidade, de emoção e de utopia dos amanuenses que nos têm governado, e face ao que Miguel Sousa Tavares qualifica hoje no Expresso como a ausência de «uma dimensão cultural e histórica exigível para o cargo que ocupa» comprovada por Cavaco, Alegre parece ser a escolha possível para ajudar a devolver a política à praça pública na qual, em Portugal, ela renasceu. A confirmar-se a candidatura (e a não existir mudança de projecto com o PS de Sócrates a exagerar o protagonismo, evidentemente), votarei em Alegre não porque o sinta como oráculo da Pátria, salvador do povo ou derradeiro avatar de D. Sebastião, mas porque o encaro como veículo para ajudar a exorcizar essa concepção puramente administrativista da política que nos tem subjugado. Já não será pouco.

||| Publicado também no Arrastão

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em Opinião

♪ ilha do tesouro|23

Anoitecer de Janeiro como num final de tarde em Junho.

Laura e Ethan

Laura Gibson & Ethan Rose
Younger [Bridge Carols]
PLAY

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em Música, Olhares

Haiti

«Haïti, la malédiction», um excelente artigo que nos ajuda a perceber melhor as circunstâncias em que a enorme catástrofe que se abateu sobre o Haiti se tornam ainda mais dramáticas, pode ser encontrado (em francês, naturalmente) na edição online do Le Monde (obrigado, MJP).

Entretanto, a Assistência Médica Internacional (AMI) lançou uma campanha para ajudar a sua missão de «reconstruir as vidas que ficaram destruídas». Para contribuir:

- Pode fazer uma transferência bancária através do NIB: 0007 001 500 400 000 00672

- No Multibanco basta seleccionar o menu “Pagamento de Serviços” e inserir Entidade 20909 Referência 909 909 909 e a quantia que escolheu doar.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites

Google China, Inc.

Google China
Imagem: Reuters

A Google, Inc. não é propriamente uma corporação de anjos. Passaram já os tempos juvenis e idealistas de Larry Paige e Sergey Brin, os dois ex-estudantes de doutoramento da Stanford University que em 1996 arrancaram com o inovador e eficaz serviço de pesquisa, e nos últimos anos, para crescer e se afirmar no universo empresarial, a companhia precisou estabelecer acordos com grupos económicos e com governos nem sempre interessados na livre circulação da informação. Mas paradoxalmente esta escolha acabou por aproximar um perigo que a pode aniquilar, e por isso há que agir com algum cuidado. Acontece que, dadas as suas características, os serviços da Google requerem uma relação de confiança, um compromisso, com a liberdade fruída pelo utilizador comum, sem a qual este deixará de confiar nos serviços que utiliza, acabando por trocá-los por outros. Não quero ser cínico – nem sou capaz, obviamente, de adivinhar aquilo que passa pela cabeça dos administradores da empresa sediada em Mountain View, Califórnia –, mas estou em crer que a constatação deste perigo terá pesado na atitude adoptada pelos seus responsáveis no conflito que mantêm agora com o governo chinês. A censura sofisticada e implacável da Internet em curso na China – cujo governo continua empenhado em combinar a face mais execrável do capitalismo selvagem, que inclui até a espionagem industrial por via informática, com a vertigem repressiva que traduz o lado mais negro do «socialismo de Estado» – preocupará os responsáveis da Google na medida em que, se estes fazem cedências excessivas ao limitar da liberdade de circulação da informação dentro do imenso território chinês, irão, muito provavelmente, perder a confiança dos utilizadores e clientes no resto do mundo. E não convém arriscar.

||| Publicado também no Arrastão

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites

Perda

Eric Rohmer

Sim, também eu perdi Eric Rohmer (1920-2010). Fica a memória das noites obscuras de cinema de província que me ensinaram a presença dos corpos e alguns jogos amorosos.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em Apontamentos, Cinema, Memória

Pereira segundo Fonseca

Tomás da Fonseca

A recente canonização de Nuno Álvares Pereira envolveu a publicação de um grande volume de opiniões e de trabalhos – uns mais criteriosos, outros bem menos – que de um modo geral tenderam a fazer renascer a fantasia de um Condestável inquestionavelmente heróico. Insistindo quase sempre na evocação de uma personalidade na qual a defesa da nacionalidade, o despojamento pessoal e a piedade cristã caminhavam a par na construção de uma personalidade exemplar. Estudos históricos, como os de António Borges Coelho, que haviam chamado já a atenção para o seu perfil violento de senhor feudal foram, no contexto mediatizado que envolveu a decisão papal de converter Nun’Álvares em santo, liminarmente ignorados.

A reedição deste opúsculo de Tomás da Fonseca, anarquista, livre-pensador, edificador da I República e opositor do Estado Novo, vem reavivar na memória colectiva este lado menos agradável do Conde de Ourém. Escrito em 1932 para uma conferência pronunciada em Coimbra, provocatoriamente no Centro Académico de Democracia Cristã, na época um viveiro da direita universitária, visou opor-se ao processo de canonização já então em curso e celebrar a imagem de um Nuno Álvares «de vida longa, farta», histórico e não lendário, revelando-o antes como «um arrogante e um poço de vaidade, um mestre na arte de matar e de triunfar» confirmado, segundo o autor, por «todos os cronistas». Face a tanto exemplar disponível de uma História parcial, beata e oportunista, vale a pena voltar a este texto. [Tomás da Fonseca, O Santo Condestável. Alegações do Cardeal Diabo. Prefácio de João Macdonald. Antígona, 112 págs.]

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites

O passado é agora [7]

Alfred Hitchcok durante as filmagens de Torn Curtain (A Cortina Rasgada, 1966).
Fotografia MPTV.net

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em Cinema, História, Imagem

Expectativa

Trotsky

Depois das biografias bastante controversas de Lenine e de Estaline, o historiador Robert Service voltou-se agora para o intelectual marxista e revolucionário bolchevique Lev Davidovitch Bronstein, e o resultado parece um pouco inquietante para a sobrevivência do Trotsky mítico. Para além do papel decisivo que teve na vitória militar da revolução russa de 1917, a sua dimensão lendária ter-se-ia ficado a dever a ser alguém que se opôs abertamente a Estaline mas jamais chegou a controlar o poder na URSS – logo nunca «sujou as mãos» –, e também a possuir um evidente carisma, favorecido pela capacidade oratória e por uma esteticização da própria imagem. Ao ponto de muitos trotskistas, em larga medida apoiados na monumental história de vida publicada por Isaac Deutscher entre 1954 e 1963, o terem transformado numa espécie de «proto-Che Guevara».

Robert Service procura pulverizar esta ideia: de acordo com a sua perspectiva, não só Trotsky jamais teve a possibilidade de chegar ao topo por ter sido sempre ultrapassado pela habilidade de Estaline, como a sua insuportável arrogância fazia com que a maioria dos camaradas com os quais tinha de conviver o detestasse. Lia ostensivamente romances franceses nas reuniões do Politburo sempre que um orador o aborrecia, por exemplo, o que não o tornava propriamente um ente querido. Além disso, nada indica que, se tivesse conseguido dirigir o país, fosse capaz de impor à experiência da construção do socialismo da URSS o tal «rosto humano» do qual alguns continuam a proclamá-lo o grande profeta, uma vez que muitas das atitudes arbitrárias que tomou enquanto teve alguma autoridade apontam justamente no sentido oposto. Service esforçou-se até por desenhar o retrato de um monstro, capaz da maior violência tanto na intervenção pública quanto na vida privada. De certa forma, como comentou Robert Harris no Sunday Times, terá assassinado Trotsky pela segunda vez. Os seguidores deste, claro, abominaram o livro logo após as primeiras páginas.

Estou agora à espera das seiscentas e tal páginas, já encomendadas e a caminho, para poder escrever alguma coisa mais substancial sobre a obra. Aquilo que fica é, para já, apenas a notícia e a expectativa. E a constatação reiterada de que não existem revolucionários «puros», seres providenciais capazes, depois de terem sentido nas narinas o cheiro a pólvora e experimentado um poder quase sem limites, de permanecerem perfeitos e irrepreensíveis. Pode parecer que não aos mais distraídos, mas há ainda quem persista nesta crença absurda. [Robert Service, Trotsky. A Biography. Macmillan, 2009. 624 p.]

||| Publicado também no Arrastão

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites

Eu, este blogue e o Arrastão

A partir de hoje faço parte – em conjunto com o Daniel Oliveira, o Pedro Sales e o Pedro Vieira, agora também com o Bruno Sena Martins, o João Rodrigues e o Sérgio Lavos – do septeto que concebe, produz e realiza o Arrastão. Um blogue de esquerda, com a batida cardíaca centrada no comentário de actualidade política, que passa a agregar uma maior diversidade temática e estilística.

Transitar de um blogue em solo absoluto, com uma média diária de 320 visitas, ampliada apenas em ocasiões especiais, para outro, colectivo e com doze ou treze vezes mais, irá impor um tom e uma argumentação um pouco diferentes daqueles que podem ser encontrados aqui. Mas acredito que possa ser uma boa experiência, assim eu aguente a pedalada, já que há mais (e muita) vida do lado de fora da blogosfera.

Sei que A Terceira Noite tem características particulares e um padrão de visitante que nem sempre gosta de espaços ruidosos e movimentados. Por isso, não só uma parte dos textos que irei publicando no Arrastão será reproduzida aqui, como outros – notas de leitura, apontamentos dolentes, delirantes ou entusiásticos, textos vindos de experiências menos colectivas – continuarão a ser editados apenas neste lugar nocturno. Descansem pois os visitantes certos, as obstinadas leitoras, que lhes não fugirei, assim queiram seguir-me neste subúrbio. Mas fica o convite para aparecerem pela nova morada.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em Novidades, Oficina

«Mau vento» de Espanha

Franco ponderou e preparou uma participação espanhola na Segunda Guerra Mundial ao lado da Alemanha e da Itália. O historiador Manuel Ros Agudo interessou-se há alguns anos pelo tema, tendo chegado a algumas conclusões originais, com impacto no conhecimento renovado da nossa história recente. Desde logo porque as provas que reuniu deitam completamente por terra o mito franquista de uma neutralidade não-beligerante que supostamente teria salvo o país de se ver envolvido numa nova guerra. A verdade, como documenta A Grande Tentação de maneira exaustiva e com recurso a informação inédita, é no entanto completamente diversa, pois Franco procurou entrar no grupo de potências agressoras do Eixo determinando, com esse objectivo em mente, a minuciosa planificação de quatro operações militares que levariam Madrid a ter um papel activo no conflito. Estas visariam um ataque, praticamente simultâneo e de surpresa, a lançar sobre Gibraltar, o Marrocos Francês, o Sudeste da França e Portugal. Os objectivos políticos da aventura parecem claros ao historiador: ela destinava-se a transformar a Espanha no terceiro parceiro dos alemães e dos italianos, conferindo-lhe «um peso e uma capacidade de decisão sem precedentes na Nova Ordem euro-africana que se preparava», para além de uma dimensão territorial consideravelmente alargada.

Esta tradução comporta um subtítulo – «Os Planos de Franco para Invadir Portugal» – que não consta do original castelhano mas realça o vector desse projecto belicista que nos dizia mais directamente respeito e que também mais nos pode perturbar, habituados de longa data a dar um grande crédito ao «Pacto de Amizade e Não-Agressão» luso-espanhol assinado em Março de 1939 e reforçado no ano seguinte com um protocolo adicional. Mas a verdade é que, por essa mesma altura, corria já a preparação da operação militar-relâmpago que deveria ter lugar nos primeiros meses de 1941 e envolveria só na fase inicial cerca de 250.000 homens. A sua justificação formal integrava a invasão de Portugal num conjunto de movimentações de natureza táctica destinadas a isolar e a enfraquecer o poderio militar britânico, mas assentava num profundo menosprezo pela capacidade militar dos portugueses, passando uma esponja sobre o apoio de Salazar aos insurrectos franquistas durante a Guerra Civil e visando uma mais do que provável reunificação ibérica. Em conversa com Ribbentrop, o ministro alemão das Relações Exteriores, o ministro franquista Serrano Suñer terá mesmo afirmado que «geograficamente falando, Portugal na realidade não tinha o direito de existir.»

Conta-se afinal uma história do que não aconteceu. Sem as contrapartidas diplomáticas e territoriais que esperava dos alemães, o Caudilho viria a desistir dos seus desígnios hostis, convertendo essa «grande tentação» expansionista, que durante alguns anos o animou, numa «grande frustração», praticamente limitada ao controlo político de Tânger. O conhecimento destes planos permite-nos entretanto aferir melhor da verdadeira natureza do regime franquista e das intenções do seu mentor. Num exercício de história virtual, podemos também conjecturar sobre o que seríamos hoje se as coisas tivessem seguido o caminho previsto.

Manuel Ros Agudo, A Grande Tentação Os planos de Franco para invadir Portugal. Tradução de Jorge Fallorca. Casa das Letras, 372 págs. [Publicado na revista LER de Dezembro de 2009]

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites

Mundo perdido

A passagem dos vinte anos sobre a queda do Muro de Berlim e o colapso brusco do comunismo na Europa Central e do Leste tem servido de pretexto para a divulgação de um volume impressionante de informações muito diferentes – e de diferente valia, naturalmente – sobre esse mundo que se esvaiu, que vão do testemunho de quem viveu directamente os seus episódios finais às análises de quem se serve deles para a crítica ou para a apologia das experiências do «socialismo real». A verdade é que até há pouco os ecos que chegavam ao Ocidente desse universo passado que a propaganda da Guerra Fria havia tornado particularmente estranho continuaram a limitar-se, quase exclusivamente, ao testemunho dos viajantes ocasionais e dos dissidentes de longa data que haviam sido marginalizados e perseguidos pelo sistema.

Só muito recentemente os relatos sobre o quotidiano da vida do outro lado da Cortina de Ferro começaram então a circular de forma sistemática, e O Mundo Perdido do Comunismo, do jornalista e produtor britânico Peter Molloy, representa um bom exemplo deste novo padrão de informação. O livro reúne depoimentos únicos de pessoas, comuns ou não, anónimas ou notáveis, adversárias ou próximas do poder, que viveram muitos anos na Alemanha Oriental, na Checoslováquia e na Roménia, e que relatam vidas padronizadas, mostrando como os três regimes, distintos sob certos aspectos mas idênticos na essência, se comportavam em relação aos que perseguia mas também àqueles que consideravam dos seus. Evocando humores, preocupações e experiências muito concretas, e com rosto, de um tempo que se perdeu.

[O Mundo Perdido do Comunismo. História do Quotidiano do Outro Lado da Cortina de Ferro. Trad. de Maria Filomena Duarte. Bertrand Editora, 280 págs.]

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites

Mercado de Janeiro

Dois blogues-bebé dos quais se espera, certamente, notáveis percursos de vida: o Córtex Frontal, de  Joana Amaral Dias e José Medeiros Ferreira, e o Albergue Espanhol, com muitos valores seguros (sem desprimor para os restantes, destaco António Figueira e Pedro Correia, de quem sou leitor). Quanto ao Arrastão, que anuncia Urbi et Orbi a passagem a septeto e uma renovação gráfica e de conteúdos, lá iremos.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em Novidades, Oficina

O inferno é o outro

No latim clássico tolerare significava «suportar», «aguentar», e para Voltaire era sinónimo de «indulgência» ou de «paciência». A tolerância impõe sempre alguma condescendência perante aquilo que se afigura deploravelmente diverso mas com o qual temos de conviver. Já a intolerância exclui esta possibilidade mínima, remetendo para a censura e a exclusão do que se rejeita. Anselmo Borges fala, no prefácio a Dança dos Demónios, da transformação desta repulsa em algo de poderoso e persistente quando se sistematiza a construção social do outro «como ameaça, bode expiatório, encarnação do mal e o inimigo a menosprezar, marginalizar, humilhar, e, no limite, abater e eliminar». Trata-se de um volume colectivo que promove um esforço pioneiro de explanação dos mais persistentes processos de intolerância perante grupos sociais, etnias, religiões, géneros e classes que têm materializado, na sociedade portuguesa, esse padrão excludente, fracturando-a ao longo do seu percurso histórico.

O esforço proposto é bastante completo, alargado a uma dezena de correntes excludentes que têm por objecto do seu rancor os judeus, os muçulmanos, a Igreja católica, os protestantes, os jesuítas, a maçonaria, o feminismo, o pensamento liberal, o comunismo e a influência americana. A diversidade temática foi entretanto alargada às escolhas metodológicas, resultando do facto trabalhos muito diferentes. Assim, enquanto a maioria deles se apoia no reconhecimento do conflito que se propõe abordar estudado em contexto nacional, outros apresentam uma perspectiva mais generalista na qual a especificidade portuguesa é observada de forma sumária. Alguns autores escolheram uma leitura essencialmente erudita, visando basicamente um público académico, mas uma parte significativa optou pelo esforço de integração da informação sólida e original num discurso vocacionado para um universo mais dilatado.

O leitor interessado na História de Portugal encontra em todos os artigos informação sistematizada e muitos motivos de atenção, embora para quem se preocupe mais com os factores de intolerância que persistem na actualidade os mais estimulantes possam ser os de Esther Mucznick (sobre um anti-semitismo com fundas raízes), de Ana Vicente (dedicado a um recorrente antifeminismo), de Miguel Real (tratando as formas agressivas de anticomunismo) e de Viriato Soromenho Marques (a propósito de um antiamericanismo menos reconhecido). Já o estudo de Faranaz Keshavjee sobre o anti-islamismo passa um pouco ao lado desse esforço, uma vez que se ocupa mais com a defesa da legitimidade do excluído do que com o entendimento das correntes que o marginalizam. Os restantes trabalhos, da autoria de Luís Machado de Abreu, João Francisco Marques, José Eduardo Franco, Rui Ramos e Ernesto Castro Leal, asseguram um volume de grande qualidade, imprescindível para quem pretenda compreender os factores de intolerância que têm atravessado a sociedade portuguesa nos últimos séculos.

Dança dos Demónios. Intolerância em Portugal. Coord. de António Marujo e José Eduardo Franco. Temas e Debates – Círculo de Leitores, 632 págs. [Publicado na revista LER de Dezembro de 2009]

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites

LER de Janeiro

Uma conversa de Carlos Vaz Marques com Rui Ramos a propósito da nova História de Portugal que coordenou. Um ensaio de Henrique Raqposo sobre o fim do «liberalismo kung fu». 50 livros de História para o dia-a-dia escolhidos por Rui Bebiano e Henrique Raposo. O exercício de história cirtual de Rogério Casanova, desta vez sobre Nabokov e Kafka. Um texto sobre a atribuição do Prémio Pessoa 2009 a D. Manuel Clemente. Ainda peças de/sobre José Riço Direitinho, Jorge Reis-Sá, Alberto Pimenta, Laurent  Gaudé, a arquitectura colonial de 1948-1975 em Angola e Moçambique, as gravuras de William Blake e a nova edição de Milton, traduzida e anotada por Manuel Portela. Mais as crónicas de Abel Barros Baptista, Pedro Mexia, José Eduardo Agualusa, José Mário Silva, Filipe Nunes Vicente, Francisco Belard, Eduardo Pitta, Inês Pedrosa e Onésimo Teotónio de Almeida. O «Diário de Ocasião» de Francisco José Viegas. E ainda as notas críticas de Filipa Melo, Dóris Graça Dias, José Riço Direitinho, Carlos Câmara Leme, José Mário Silva, José Guardado Moreira, Sara Figueiredo Costa, Rogério Casanova, Fernando Sobral, Rui Bebiano e Carla Maia de Almeida.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites

50 anos sem Albert

Apesar do aniversário ser quase ignorado pela nossa «imprensa de referência», passam hoje 50 anos sobre a morte trágica de Albert Camus, ocorrida na sequência de um acidente de automóvel. Logo com ele, que tinha medo da estrada. Um bom dia para evocar a vida e o esforço de um intelectual engagé – no sentido puro, zoliano, do termo – ao qual a História acabaria por dar razão, tanto no seu combate contra os totalitarismos como na dolorosa querela com o ex-amigo Sartre, suscitada pela publicação, em 1951, de O Homem Revoltado. Uma obra, editada há muitos anos em Portugal pela Livros do Brasil, na qual Camus questionava o terrorismo de Estado e o papel que a esquerda intelectual atribuía à violência revolucionária. A verdade, seja ela de direita ou de esquerda, eis o que contava para este «francês da Argélia» que teve um dia a ousadia de proclamar que a ter de escolher entre a justiça e a sua própria mãe optaria pela mãe.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites

Do Avatar

O argumento de Avatar é trivial, na linha de um certo cinema americano pós-sixties de bilheteira – agora já sem os tiques da Guerra Fria – para o qual a luta entre o bem e o mal traduz frequentemente um confronto directo entre pessoas comuns, lesadas nos seus direitos, e os agentes de uma qualquer tirania que procuram subjugá-las. Só que, no caso, essas «pessoas comuns» são os Na’vi, seres de pele azul e compleição esguia, que vivem em comunhão com o que o espaço e os animais que os rodeiam no distante e quase edénico planeta Pandora. O resto do filme de James Cameron tem contornos de western, fechando com o castigo do vilão e o transpirado herói a ficar de bem com a mocinha (ou a squaw, já não sei bem).

Trata-se de um aparatoso filme de entretenimento, com quase três horas de efeitos 3D que deixam qualquer espectador exausto, com o sentido da visão momentaneamente perturbado, mas feliz por isso. Eu, pelo menos, fiquei-o. Transcrevo, para não dizer mais ou menos o mesmo por outras palavras, aquilo que Jorge Leitão Ramos escreveu no Expresso: «Mesmo percebendo que há uma falta de textura, de peso, que retira aos eventos e à acção emoções profundas, a verdade é que os achados visuais são portentosos e não me refiro só aos seres fantásticos, ora insectos, ora árvores imensas, ora canídeos ferozes, ora criaturas dinossáuricas ou aos espaços da natureza de uma exuberância que roça o delírio. Refiro-me aos intérpretes, aos corpos dos Na’vi, aos seus felinos movimentos, a uma respiração sensual que habita todo aquele mundo mágico e espantoso.»

Merece entretanto um comentário um padrão de crítica que se compraz a depreciar o filme com argumentos bastante perversos. No Telegraph, Will Heaven fala de um «subtexto racista» que se fica a dever ao pormenor dos Na’vi usarem adereços e armas próximas das utilizadas por algumas etnias africanas. Mas principalmente ao facto da libertação da tirania ser trazida «de fora», de forma paternalista, por seres híbridos que tinham sido originalmente humanos e dispunham de sageza e tecnologia próprias da sua espécie de origem. Não importa se estes humanos tomaram o partido dos naturais e escolheram passarem a ser uns deles. A tolice repetitiva do remorso ocidental é ecuménica e, pelo lido, transportável também para Pandora. Para mim trata-se, insisto, de um filme belo e divertido que deixará nos espectadores uma marca de preocupação ecológica e de grande humanidade (sim, somos nós, humanos de não-ficção, que a escrevemos e lemos essa humanidade). E pontua o início de uma nova epopeia visual aplicada ao cinema que muito provavelmente repercutirá, como tem sido dito, uma alteração das expectativas plásticas do espectador idêntica à projectada em 1968 por 2001: Odisseia no Espaço, de Kubrick.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em Apontamentos, Cinema, Crítica

O som suave das palmas

Em Dia D – A Batalha da Normandia, Antony Beevor retoma ao seu estilo a tradição da historiografia militar britânica, quase perdida no sul da Europa durante a segunda metade do século passado, que se apoia numa narrativa capaz de combinar o depoimento dos sobreviventes – sempre quente, sempre épico ou azedo, sempre um pouco nostálgico, povoado de imagens que conferem às descrições um inevitável recorte cinematográfico – com a sequência dos factos e das decisões comprováveis. Um passo do livro documenta na perfeição o modo como o testemunho oral – e a inclusão do que podemos considerar o eco poético do vivido na memória de quem o transmite – oferece ao historiador (e ao leitor, claro) fragmentos do passado absolutamente únicos e que deixaram um rasto ténue mas indissipável.

«O comandante de uma companhia [de infantaria americana] descreveu uma estranha experiência, vivida enquanto avançavam ao longo de um trilho florestal [na Bretanha]. De repente, ele e os seus homens ouviram o som suave de palmas: “Quando nos aproximámos, conseguimos ver as formas indistintas de homens, mulheres e crianças franceses, a debruar o caminho, sem falar, alguns chorando baixinho, mas a maioria apenas a bater palmas ao de leve, estendendo-se por várias dezenas de metros de ambos os lados da estrada. Uma menina veio pôr-se ao meu lado. Era loura, bonita, talvez com uns cinco anos. Deu-me a mão, cheia de confiança, caminhou um pouco comigo e, depois, parou e disse adeus até termos desaparecido.” Mesmo cinquenta anos mais tarde, ainda conseguia ouvir o som suave das palmas numa floresta.»

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites

Tónico Verdi

Faço parte daquela minoria de extravagantes para os quais os desejos do réveillon não se esgotam na «paz no mundo», «saudinha», «muito amor» e «sorte no euromilhões». Claro que sou contra a guerra e a doença, completamente pró-amor e não me importava mesmo nada de ver a conta bancária reforçada. Mas tenho também a expectativa de uma vida mais digna que passa pela invenção de melhores pessoas. E o que há de melhor para operar a mudança que não seja a disseminação desse sopro, dessa brisa – de alguma forma, de um certo estado aurático da experiência estética – que a grande literatura ou a grande música permitem quando retirados dos seus templos, disseminados, democratizados? Foi do que me lembrei frente a este vídeo comovente e feliz.

YouTube Preview Image

«Un día cualquiera de mercado, la música empieza a sonar entre los puestos de frutas y verduras.» Fragmentos da Traviata, de Verdi, interpretados em pleno Mercado Central de Valência. [obrigado ao Elísio Estanque pelo link]

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em Actualidade, Música, Olhares

Cepticismo

No último dia do ano, o Zé Neves deixou no Cinco Dias uma citação de John Holloway que exaltava a dimensão não-heróica do projecto comunista-radical no qual acredita. Nela se proclama que «o objectivo da revolução é a transformação da vida comum, quotidiana, e é certamente dessa vida comum e ordinária que a revolução deve surgir». Claro que a revolução da qual se fala aqui não é a messiânica (a dos tontos e dos exaltados) ou a golpista (a dos leninistas e dos oportunistas), ambas com R maiúsculo, que apenas valem pela transferência do poder e pela instauração posterior de uma liturgia sacralizadora do «acto fundador» e dos seus intérpretes. De forma diversa, Holloway fala antes da possibilidade de conceber e de instaurar uma ordem do mundo que exige uma perspectiva solidária e uma iniciativa radical em condições de ultrapassar essa «gestão do possível» da qual tanto gostam os reformistas. E que se não esgota na festa da vitória sobre a ordem velha. De acordo. Agora aquilo que não vislumbro é a possibilidade desse gesto refundador emanar naturalmente da vida de todos os dias, e das mãos de pessoas comuns, sem a intervenção de protagonistas organizados e mesmo de heróis que, como todos os heróis, ignoram a hesitação e a dúvida. Como ideia acho-a linda, embora como mapa do tesouro me pareça um tanto fantasiosa. A gestão da fantasia também faz parte da acção, bem sei, só que funciona mais como um pauzinho na engrenagem ou como balanço para o impulso. Não chega para tudo e dura muito pouco. Infelizmente, admito.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em Apontamentos, Opinião

Página virada

Ao contrário daquilo que aconteceu há dez anos atrás, ninguém parece agora preocupar-se muito com o facto de a segunda década do século XXI se estrear esta noite. Entretanto alguma coisa mudou neste país, mas nem sempre a mudança foi para melhor. Um dado parece certo: a maioria das pessoas compreendeu já que o cômputo dos anos – como os conta-quilómetros, os cronómetros, os taxímetros, os termómetros ou os meses dos bebés – parte realmente do zero e não do um. É um progresso, e nele alguma quota-parte terá, há que reconhecê-lo, o resplendor de modernidade high-tech insuflado pela maioria absoluta dos últimos anos.

A passagem do ano trará consigo novas conquistas sociais imediatamente perceptíveis, como a entrada em funcionamento em Setúbal de milícias populares compostas por maiores de 65 anos pagos a 2,60 euros à hora e destinadas a perseguir os grafiteiros, ou a espectacular extensão do limite máximo para o uso do Cartão Jovem, que é transferido dos 25 para os 30 anos e «passará inclusive pela mudança do antigo logótipo para um novo». Mas é de temer que os mal-intencionados e os derrotistas atribuam fraca importância a tais medidas, preferindo insistir em temas negativos, como a corrupção, o desemprego ou a redução real dos direitos dos trabalhadores. Para estes e para outros, pessoas positivas, combativas ou cépticas que por aqui passam – aos indiferentes nada desejo, respeitando a sua indiferença –, os votos autênticos de um feliz 2010. E, se possível, sem a fantasia de antecipar desde já um duplo plano quinquenal, a vontade sentida de uma segunda década melhor do que esta. Para todos.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em Actualidade, Delírios

Havana Style

Folheio Havana Style, um daqueles álbuns de 8 €uros da série de bolso «Icons», da Taschen. Carrega dezenas de fotografias de ruas, prédios e interiores – belas, estranhas, incómodas – de uma Havana Velha olhada de fora como ilha dentro de uma ilha e território de caça do exótico e do kitsch retro. Na realidade, um engodo turístico para advogados de província, cabeleireiras de sucesso e pequenos empresários, desembarcados em fluxo no Aeroporto Internacional José Martí, que sobrevive apoiado em doses compactas de nostalgia e de propaganda de uma pobreza honrada. Para muitos dos que chegam após consulta os folhetos da agência de viagens, com a música rebobinada dos anos cinquenta a partir do trabalho peregrino de Ry Cooder, trata-se da demanda e do reencontro com um tempo imaginado de sol, suor, cocktails e sémen. Para os que perseguem o rastro deixado pela pureza revolucionária dos barbudos da Sierra, é antes um lugar de culto, de consumação imaginária da igualdade, de preservação de uma «democracia avançada» essencialmente anti-ianque. Mas para quem observe sem preconceitos, pondo de parte o ruído dos habitantes que se beijam, bailam, bebem e fazem por viver ruidosamente de costas para as ondas no Malecón, é sobretudo esse lugar triste, pobre, decadente, sem esperança, que os escritores cubanos contemporâneos não se cansam de descrever. No qual a ferrugem, o mofo, o cheiro a gasóleo e a decrepitude, nada têm de sedutor.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em Imagem, Memória, Olhares

Os vinte

Nunca me deu para fazer, por vontade própria, balancetes dos «melhores» livros (ou discos, ou filmes, ou espectáculos, ou exposições) do ano. Não porque tivesse alguma coisa contra o ritual – praticado por outros, ele já me foi útil por diversas vezes –, mas porque não me pareceu interessar a alguém um rol que iria forçosamente retomar sugestões alheias. Fui alinhando apenas, por encomenda, umas quantas listas publicadas em blogues e jornais mais ou menos obscuros. Mas neste final de 2009 apeteceu-me mudar. Aqui segue então – desordenada e descomprometida –, a lista dos 20 títulos, maioritariamente de não-ficção, que mais me feriram ou me ampararam ao longo do ano. Independentemente da língua em que os li, da categoria que me deixa arrumá-los ou desarrumá-los, e até do ano da publicação.

O Resto é Ruído. À Escuta do Século XX, de Alex Ross (Casa das Letras) | 2999, de Roberto Bolaño (Quetzal) | Tumbas sin Sosiego. Revolución, Disidencia y Exilio del Intelectual Cubano, de Rafael Rojas (Anagrama | Revolução 1989. A Queda do Império Soviético, de Victor Sebestyen (Presença) | Os Desaparecidos, de Daniel Mendelsohn (Dom Quixote) | Barroco Tropical, de José Eduardo Agualusa (Dom Quixote) | História de Israel, de Martin Gilbert (Edições 70) | Portugal – Ensaios de História e Política, de Vasco Pulido Valente (Alêtheia) | Teoria da Viagem. Uma Poética da Geografia, de Michel Onfray (Quetzal) | Utopias Piratas, de Peter Lamborn Wilson (Deriva) | O Século XX Esquecido. Lugares e Memórias, de Tony Judt (Edições 70) | Across the Territories. Travels from Orkney to Rangiroa, de Kenneth White (Birlin) | Outras Cores, de Orhan Pamuk (Presença) | A Loucura de Deus. Do Combate dos Três Monoteísmos, de Peter Sloterdijk (Relógio d’Água) | A Máscara do Comando, de John Keegan (Tinta-da-China) | Comunismo e Nacionalismo em Portugal, de José Neves (Tinta-da-China) | A Morte da Utopia e o Regresso das Religiões Apocalípticas, de John Gray (Guerra e Paz) | Salónica. Cidade de Fantasmas, de Mark Mazower (Pedra da Lua) |The Burden of Responsability. Blum, Camus, Aron and the French Twentieth Century, de Tony Judt (Chicago U. Press) | La Décadence des Intellectuels. Des Législateurs aux Interprètes, de Zygmunt Bauman (Actes Sud) | Homo Poeticus, de Danilo Kis (Fayard).

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em Livros & Leituras

Retornado

Saído de um Natal apressado (seja lá isso o que for) e passado longe da rede mundial de computadores (coisa estranha para mim nestes últimos quinze anos) – e após uns quantos dias de imperativos que me deslocaram daquilo que é importante –, estou finalmente de regresso aqui ao blogue. A promessa de novidades que deixei no ar, no ar permanece, mas a sua materialização fica adiada para os primeiros dias de Janeiro. O efeito de surpresa tem mais piada e como A Terceira Noite não tem caixa de comentários – definitivamente, jamais voltarei a dizer «para sempre» – posso dar-me ao luxo de desafiar os pacientes leitores / as complacentes leitoras a esperarem um pouco mais.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em Oficina, Olhares

Querem apagar a memória

Dois posts publicados hoje – este e mais este – descrevem o inqualificável expediente utilizado pela GEF-Gestão de Fundos Imobiliários, SA para supostamente cumprir a obrigação de repor, no prédio que foi sede da antiga PIDE-DGS, a placa evocativa das últimas vítimas do regime caído em Abril de 1974. Um gesto de completo menosprezo pela memória colectiva, apenas possível porque o Estado e os partidos institucionais continuam sem dar importância nas suas preenchidíssimas agendas à construção de uma consciência cívica que seja capaz de integrar o exemplo dos que um dia se bateram, sofreram ou morreram pela democracia que os alimenta. Também um gesto ostensivamente ofensivo que não pode passar impune.

Adenda: O blogue Caminhos da Memória está a publicar algumas das mensagens endereçadas à GEF (gef@gef.pt), a empresa imobiliária responsável pelo prédio da Rua António Maria Cardoso.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites

Meio-gás

Durante alguns dias este blogue vai funcionar a meio-gás. Talvez mesmo a um quarto de gás.  Os posts serão em  número reduzido e (em princípio) necessariamente curtos. Retomar-se-á a aparente normalidade no final de Dezembro. Nessa altura com umas quantas novidades para fãs, amigos e assinantes.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em Novidades, Olhares

O antiexistencialista

Liberdade, liberdade

Mal sabia eu, quando falava ontem numa aula sobre os processos de emancipação diante dos grandes sistemas doutrinários e de afirmação da liberdade individual colocados em movimento depois da Segunda Guerra Mundial, e enquanto recordava essa «cultura da antidisciplina» nascida nos anos 50-60 que enforma ainda parte do nosso tempo, que antes de adormecer leria uma frase destas: «temos assistido a uma deriva libertária que vai no sentido de que eu desejo pura e simplesmente, eu quero assim e isso é razão e quase que moral suficiente para seguir independentemente do que os outros pensem ou do que as instituições me peçam, sem ter de dar satisfações a ninguém.» Felizmente assim passou a ser. E assim vamos basicamente vivendo dentro do universo imperfeito e cada vez mais complexo, mas apesar de tudo mais livre e geralmente mais feliz do que aquele que o precedeu, erguido ao longo dos últimos sessenta anos. Esqueci-me de dizer: quem pronunciou a frase e se lamentou de tal estado das coisas – numa entrevista de tonalidade retrógrada, defensiva e moralista publicada hoje pelo Expresso – foi Manuel Clemente, bispo da Igreja católica e Prémio Pessoa 2009.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites
Arquivado em Actualidade, Apontamentos

Nada acontece por acaso

Aminatu

Para quem acha – inclusive na blogosfera engagé, onde é tão fácil tomar partido, ou calar-se, ou aborrecer-se e passar adiante – que não vale a pena lutar por causas que parecem não nos dizer directamente respeito, o fim feliz do difícil combate de Aminatu Haidar pelo seu regresso a casa será irrelevante. Para ela e para a luta do povo sarahui pela independência será mais um passo em frente.

  • email
  • PDF
  • Facebook
  • Twitter
  • Print
  • Add to favorites