Meter os pés ao caminho

Não fazendo parte do seu núcleo impulsionador e redator, fui dos primeiros signatários do «Manifesto para uma Esquerda mais livre». No momento em que escrevo, o número de pessoas que assinaram o documento, muitas delas de trajeto e méritos publicamente reconhecidos, já vai em cerca de 1.400. A sua localização política é muito plural e a leitura que cada uma delas faz do documento será, por isso, com toda a certeza muito diferenciada. É natural que assim aconteça, dado não se tratar de um programa partidário, de uma plataforma eleitoral ou de um plano para a tomada do poder, mas antes de um conjunto de princípios maleáveis, razoavelmente consensuais para diversas áreas da esquerda não dogmática, destinados – é essa a minha leitura, e foi nessa perspetiva que assinei – a colaborar na procura de estratégias de aproximação e de renovação para uma esquerda dividida. Uma esquerda demasiadas vezes entrincheirada nas suas diferenças e absolutas certezas, como tal sem hipóteses de enfrentar com êxito uma direita que sabe unir-se e de aplicar a estratégia de mudança que a atual situação do país e da Europa requer. É o princípio de algo, não se saberá ainda bem do quê. Mas em relação a uma coisa podemos desde já ficar com alguma segurança: não servirá para dividir, mas sim para unir, como não servirá para enquadrar, mas para pensar. E não é «contra os partidos», embora admita que eles por si só não cheguem para encontrar vias para a mudança. | Clique para continuar a ler este texto »

Na rota de Kolyma

Como Auschwitz na rede de campos instalados pelos nazis, Kolyma é sinónimo de morte e sofrimento extremo no interior do universo concentracionário da antiga URSS. O complexo, instalado no glacial extremo-nordeste siberiano, detinha e conserva uma particularidade que marcou o seu destino: o de principal território de mineração do ouro da Rússia. Daí o interesse de Estaline em enviar prisioneiros para as suas minas. Estima-se que entre 1932 e 1956 foram mais de 2 milhões os deportados para o complexo instalado na região. E muito poucos regressaram. Varlam Shalamov foi um dos que sobreviveu e nos intensamente autobiográficos Contos de Kolyma, escritos entre 1953 e 1963 mas reportando-se a uma experiência que vinha dos anos 30, deixou-nos reflexos desse lugar terrível. Décadas depois, relatos e reportagens fotográficas testemunham de uma forma perturbante o silêncio e a desolação desse espaço imenso, um dos mais hostis da Terra, no qual tantas vidas foram rapidamente consumidas, deixando um rastro de dor e sombra que ainda se não extinguiu. Foi por isso que o escritor e jornalista polaco Jacek Hugo-Bader resolveu percorrer de mota os 2 025 quilómetros da rota de Kolyma, que vai de Moscovo a Vladivostok. Ao longo do trajeto, relatado no seu Dziennik Kolymski (Diário de Kolyma), editado na Polónia no ano passado e recenseado na revista francesa Books, todas as pessoas com quem falou conservam uma qualquer ligação familiar ou emocional com aquelas minas que continuam malditas. Quem já leu na íntegra diz que o relato do longo e gélido périplo de Hugo-Bader é espantoso. E principalmente uma reflexão sobre a humanidade num lugar que já foi o da mais impiedosa desumanidade.

um outro post relacionado com o tema

Para uma Esquerda livre

Já pode ler, conhecer os signatários e, se o desejar, assinar também, o Manifesto “Para uma Esquerda livre”. Trata-se de um apelo à mobilização dos cidadãos para três objetivos: uma esquerda mais livre, um Portugal mais igual e uma Europa mais fraterna. A partir desta plataforma aberta, serão organizados encontros de forma aberta e transparente, recorrendo a práticas de democracia através do uso das redes para a elaboração de documentos com diagnósticos e propostas concretas. Claro que não se trata de um programa ou de um caderno reivindicativo, mas de uma via para pensar soluções para a esquerda e a sua intervenção a partir dos contributos de muitas pessoas que não se revêm apenas nos seus partidos.

O regresso do fascismo

Lê-se num instante este pequeno livro do filósofo e ensaísta holandês Rob Riemen. Com ele passamos em revista, de forma clara e informativa, como num manual de instruções, o modo insidioso como o fascismo – tomando outros nomes, invocando até a liberdade, a igualdade de oportunidades e a democracia – se tem vindo a instalar nas nossas consciências narcotizadas pelos média, preparando o terreno para novas formas de sujeição. Mais traiçoeiras, menos espetaculares, mas não menos escravizantes e violentas do que aquelas que na primeira metade do século passado foram aplicadas pelos protótipos italiano e alemão. Lembra a dada altura Riemen que o fascismo con­temporâneo «resulta, mais uma vez, de partidos po­líticos que renunciaram à sua tradição intelectual, de intelectuais que cultivaram um niilismo com­placente, de universidades que já não são dignas desse nome, da ganância do mundo de negócios e de mass media que preferem ser ventríloquos do público em vez de o seu espelho crítico», notando serem justamente estas elites corrompidas que alimentam o vazio espi­ritual que serve de caldo de cultura à sua expansão. O Eterno Retorno do Fascismo é um brado de alerta e um estímulo à crítica do acriticismo que vai chocando o ovo da serpente. Deve por isso ser lido com a etiqueta de urgente.

Rob Riemen, O Eterno Retorno do Fascismo. Bizâncio. Trad. de Maria Carvalho. 78 páginas. Ver também uma recente entrevista dada pelo autor ao ionline.

O day after

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A primeira reação foi de alegria, a segunda de ceticismo, a terceira de esperança. Como pessoa de esquerda, adversário da transformação da realidade europeia num laboratório para a produção de meros exercícios de gestão financeira no interior de um capitalismo retornado ao estado de barbárie, custem eles o que custarem em termos sociais e humanos, não pude deixar de me sentir momentaneamente feliz com a vitória da esquerda francesa reunida em torno da candidatura de François Hollande. Nem com os avanços que essa esquerda anti-austeritarista, projetada à margem das cartilhas dogmáticas pré-Queda do Muro, foi capaz de obter na Grécia.

Já como alguém que sabe não serem só os problemas colocados que são complexos e reconhece que as soluções para os superarmos o podem ser ainda mais, não posso deixar de despertar rapidamente do estado de graça e de perceber que o que aí vem irá defraudar muitas das expetativas dos eleitores. Hollande não é propriamente a mola de uma frente unitária contra a ditadura dos mercados, a desigualdade social e o recuo do Estado-providência. Dentro do sistema que domina a economia europeia, as suas tímidas propostas reformistas poucas hipóteses terão de ser aplicadas e de produzir efeitos duradouros. Já o Syriza, é, no contexto grego, um partido do protesto, do descontentamento, o que não assegura capacidade para afirmar aquilo que não tem: uma estratégia de governo e uma saída à vista para os problemas mais dramáticos dos gregos.

No entanto, a esperança nasce também das maiores dificuldades. A perceção de que é necessário encontrar uma solução e a pressão dos cidadãos para que tal se faça de forma rápida e com uma gestão de recursos que não seja cega, irão criar condições para que, em França, na Grécia e noutros teatros da crise, novos e melhores caminhos possam ser visados, preparados e percorridos. Não os que levam a Pasárgada, a cidade-ideal da vida boa projetada no conhecido poema de Manuel Bandeira, mas os que alimentam essa dose de esperança necessária a toda a regeneração.

Média

Outra das entradas escritas para o Dicionário das Crises e das Alternativas lançado pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, de parceria com as Edições Almedina, a revista Visão e o Jornal de Letras. Ainda em alguns quiosques.

Até à década de 1960, média designava um campo integrador dos «meios de comunicação de massas» enquanto instrumentos de propaganda destinados a impor uma mensagem de natureza política ou publicitária. Nos anos 70 essa perspetiva foi alargada, percebendo-se que a dimensão instrumental não indicava apenas aos públicos o modo como estes deveriam pensar, mas incorporava também a aptidão para impor aquilo em que eles deveriam ou não pensar. Neste sentido, os média têm funcionado como aparelhos de subordinação dos cidadãos a formas de perceção do real social e do curso da História que escapam à intervenção da crítica, não sendo acidental que as piores formas de opressão, instaladas nos regimes de pendor totalitário mas também nas fissuras das democracias, recorram a eles para impor o seu domínio e eliminar a divergência. A ideia de «indústria cultural», proposta por Adorno e por Horkheimer, referia já o modo como a instauração de um dado fluxo de informação servia de instrumento de propagação da ideologia dominante, dando lugar a uma uniformização dos quadros de pensamento e dos comportamentos, no sentido da aceitação ordeira do capitalismo. Para Baudrillard, o peso do signo na «sociedade de consumo» irá, por sua vez, suscitar uma vertigem de natureza opressiva. A vulgarização da televisão, e depois a disseminação da Internet, crescentemente dependentes da intervenção dos grupos financeiros e também dos governos, irão reforçar este papel de manipulação e controlo, impondo, perante o recuo do jornalismo de combate, um ruído que ao mesmo tempo silencia. No presente contexto de crise, este tende a difundir a convicção de que não existe escolha perante os desmandos do sistema, o qual poderá quanto muito ser reabilitado. A capacidade da rede mundial de computadores integra, porém, uma forte dimensão democrática e libertária que tem servido a circulação de informação (veja-se o caso Wikileaks), o debate político, a mobilização do protesto e a perceção da possibilidade de uma mudança mais profunda, contornando os média tradicionais, eles próprios forçados a repensar-se.

Mulheres com M

Tem sido boa a repercussão pública do ensaio Humilhação e Glória, de Helena Vasconcelos. Sendo inteiramente merecido, esse eco deve, no entanto, ser confrontado com algumas dúvidas que a leitura da obra levanta. É desde logo evidente a intenção da autora de conceber o livro como uma introdução à história das mulheres, concebida de forma atraente e vocacionada principalmente para o leitor comum. Ele vem preencher, aliás, na linha do que fez em Espanha Rosa Montero com o seu Histórias de Mulheres, uma lacuna na edição nacional. Ao mesmo tempo, a autora propõe um importante trabalho de resgate efetuado sobre os feitos e os trajetos públicos de um conjunto de mulheres, principalmente portuguesas, com papéis na literatura, nas artes, nas ciências ou na intervenção cívica que têm permanecido injustamente esquecidos ou na sombra. Se a Marquesa de Alorna é, pelo menos nos meios académicos, razoavelmente conhecida, poucos terão ouvido falar, por exemplo, de Teresa Margarida da Silva Orta, apesar de esta ter sido a primeira portuguesa a escrever um romance (As Aventuras de Diófenes, de 1752). Atravessa também o livro uma brisa de otimismo que contribui, sem dúvida, para ampliar o seu papel de instrumento destinado a sublinhar a importância de um trajeto histórico de combate pela emancipação e de afirmação positiva da voz das mulheres.

Uma leitura crítica levanta, porém, algumas perplexidades. Anoto três. Em primeiro lugar, a consideração de eventos e práticas originários de distintos tempos e lugares como se inscritos num percurso único, visando uma espécie destino trans-histórico comum. Em segundo lugar, a falta das propostas, dos problemas e dos combates que se levantaram, a partir da década de 1980, no contexto do chamado feminismo de terceira vaga, ficando as alusões canónicas pelas pelas autoras de segunda vaga (Simone de Beauvoir, Elaine Showalter, Betty Friedman e outras). E em terceiro o tom quase celebratório, em relação à situação atual de uma «tendência para a igualdade» que estudos no campo da sociologia e da ciência política têm vindo a desmontar, revelando, ao invés, que este padrão de discurso pode validar subordinações reais, aparentemente invisíveis. Pode ainda, entretanto, levantar-se uma última objeção que parecendo apenas formal, de facto o não é. A designação de um enquadramento do ensaio, enquanto género, no campo dos estudos «femininos» – e não «sobre as mulheres», ou «feministas», como são catalogados dentro de um universo hoje já bastante alargado, inclusivamente em Portugal, que se dedica ao seu estudo nos domínios da investigação de ponta e do debate teórico – advém de uma escolha da autora que sendo inteiramente legítima, respeitável, pode também ser questionada por dar a impressão de advir de uma noção essencialista sobre o «belo sexo» derivada de um modelo cultural dominantemente masculino. Um livro bastante útil e recomendável que convirá ler com alguma vigilância crítica.

Helena Vasconcelos, Humilhação e Glória. O acidentado percurso de algumas mulheres singulares. Quetzal. 328 págs.Versão revista de nota saída na LER de Abril.

Nem só de pão

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A propósito das cenas violentas e completamente degradantes provocadas pela campanha de descontos do Pingo Doce, não parece justo culpar apenas a atitude canalha da empresa de Jerónimo Martins, ao servir-se do feriado do Primeiro de Maio para desencadear a sua campanha de publicidade agressiva, manipulando as carências das pessoas e provocando os seus próprios trabalhadores. Como não será correto culpar os largos milhares de famílias que para sobreviverem à crise foram até à selva das prateleiras lutar corpo a corpo por escassas centenas de euros. Para sermos justos, e entendermos o que aconteceu de um modo mais completo, precisamos olhar também para a atitude continuada dos partidos políticos e de muitas organizações sindicais que têm desenvolvido a sua ação exclusivamente centradas numa política de interesses, na gestão economicista do deve e do haver de todos e de cada um. Fazendo-o sem atenderem à defesa da consciência cívica como princípio de solidariedade, da honra individual como eixo da vida coletiva, da (voltemos sem medo à palavra) ideologia como instrumento de mobilização e de mudança. Marx dizia que a consciência política do operário – alarguemos: do trabalhador, do cidadão – não se mede apenas pelo tamanho do porta-moedas. Talvez o que aconteceu se deva, em boa parte, ao esquecimento de que nem só de pão vivemos.

A bela palavra

Mantenho uma relação difícil com a palavra «camarada». Houve um tempo no qual a pronunciei vezes sem conta. Para mim significava então um destino, uma missão. Uma vontade de partilhar a redenção dos que a história havia empurrado para a humilhação e a pena. A certeza de que esse resgate chegaria. E por isso um sinal de futuro. Era essa a palavra bonita, «c’est un joli nom, tu sais», que Jean Ferrat, comunista e artista de variedades, proclamava em 1968. Aquela que combinava o sabor da cereja e o da romã com os perfumes do maio. Mas na mesma canção Ferrat rompia com o PCF e acusava os tanques russos: «Ce fut à cinq heures dans Prague/ Que le mois d’août s’obscurcit/ Camarade Camarade». Porque a palavra serviu também, no dobrar das décadas, para perseguir e delatar, para marcar um grau de pureza («amigo, companheiro, camarada»), para torturar e abater («porque desejas, canalha, matar o Camarada Estaline?»), deixando manchar o brilho matinal que estava na sua natureza. E, no entanto, sobreviveu. Porque nenhum mal foi capaz de expulsar a centelha que contém. A fraternidade que invoca, que espera, que procura. «Camarada» permanece uma palavra linda. Por isso necessária.

Um Quixote português

Por hábito ou falta de atenção, a figura de Henrique Mitchell de Paiva Couceiro (1861-1944) tem sido algumas vezes associada de um modo injustamente exclusivo às incursões monárquicas nortenhas de 1911 e 1912, lançadas contra a Primeira República sem efetivo poderio militar e outras consequências que não o reforço do regime que pretendiam combater. Surge também ligada à sua condição de Presidente da Junta Governativa do Reino, assumida quando da efémera experiência da Monarquia do Norte – essa «Traulitânia» tão rebaixada no campo republicano – proclamada no Porto em janeiro de 1919. O estrondo da sua atuação durante esses anos bastou, no entanto, para que em torno da memória que dela sobrou se fosse construindo uma «lenda negra», que os republicanos facilmente ergueram, e outra de sinal inverso, que os adeptos da antiga ordem monárquica fizeram por manter, transformando-o em paladino e símbolo de uma causa que não queriam dar por perdida. Para evitar a perspetiva parcial, o impacto da sua intervenção pública deve por isso ser procurado dentro de um arco temporal mais alargado. O resultado final será o reconhecimento de um Quixote português, batendo-se, como o original, por idealismo e uma certa noção de honra, em nome de um Portugal que a corrente do tempo empurrava já para o passado. | Clique para continuar a ler este texto »

LER de Maio

LER de Maio

A revista LER de Maio já nos quiosques e livrarias. Para além das habituais colunas e notas críticas, este mês a capa identifica de imediato os principais temas.

História, memória e política

Enzo Traverso

O passado, modos de usar, de Enzo Traverso – saído em 2005, antes de L’Histoire comme champ de bataille –, trata principalmente daquilo a que Habermas chamou «o uso público da história». O trabalho deste historiador e cientista político italiano tem vindo a ser preenchido com o estudo de épocas e de temas contemporâneos com os quais conflituam interesses atuais e que por esse motivo permanecem perturbantes, como acontece com a «questão judaica», o Holocausto, o totalitarismo, o fascismo, a violência nazi, o comunismo ou o eurocentrismo. Em conexão com todos eles, Traverso tem-se ocupado com os problemas difíceis mas incontornáveis que levanta a conexão entre história e memória. Aquela proximidade com o presente torna entretanto o tratamento destes assuntos algo que não pode deixar de dialogar – independentemente do rigor inerente à intervenção própria dos historiadores – com as suas escolhas políticas, com as repercussões do seu trabalho entre os outros profissionais do mesmo ofício e, acima de tudo, com o impacto junto dos setores da opinião pública que vão acolhendo os ecos do que dizem ou escrevem. | Clique para continuar a ler este texto »

Lemkin e o genocídio

Lemkin

Veio há dias parar-me às mãos um ensaio do jurista francês Olivier Beauvallet sobre a vida e a obra de Raphael Lemkin (1900-1959). O nome do advogado polaco de origem judia não me era totalmente estranho, mas jamais o seu trabalho me havia surgido como algo que justificasse uma atenção especial. Todavia, o conteúdo do ensaio veio provar-me a injustiça de um desconhecimento generalizado. Acontece que Lemkin foi «apenas» o fundador do conceito de «crime bárbaro», que na qualidade de procurador público na Polónia apresentou em 1933 a um comité jurídico da Sociedade das Nações reunido em Madrid. Escusado será dizer que a iniciativa, associada à sua condição de judeu polaco, lhe causou problemas na década e meia de escuridão que se seguiu. Começou por perder o cargo e, após ser ferido ao participar na defesa de Varsóvia perante o avanço das tropas alemãs, viu-se forçado a fugir para a Suécia e depois para os Estados Unidos. Entretanto quase toda a sua família havia perdido a vida nos campos de extermínio. Já na América, foi em 1948 um dos impulsionadores, agora no âmbito das Nações Unidas, da Convenção para a Prevenção e o Castigo do Crime de Genocídio, conceito do qual fora também, quatro anos antes, o criador, estabelecendo nessa altura um dos fundamentos jurídicos sobre os quais assentou o trabalho da acusação nos julgamentos de Nuremberga. Se é verdade que o padrão de prática que conseguiu criminalizar no domínio do direito internacional não deixou de prosseguir o seu caminho depois da Segunda Guerra Mundial – a fúria genocida fez ainda, continua a fazer, muitos milhões de vítimas –, devemos a Lemkin a consideração, no campo da culpa pública e da sua penalização, dessa modalidade extrema de violência que durante a maior parte da história humana ocorreu num registo de normalidade.

Donos de Portugal

Um documentário de Jorge Costa.

Um adeus sentido e combatente

Miguel Portas

Hesitei um pedaço antes de escrever algumas linhas sobre o desaparecimento triste e prematuro do Miguel Portas. Por diversos motivos. Desde logo, porque muitas outras pessoas, mais próximas dele, mais e melhor conhecedoras da sua jornada de vida, escreveram de maneira informada sobre episódios, dificuldades, alegrias e projetos partilhados. Fizeram-no, em diversos casos, de forma muito sábia, justa, comovida e magnífica. Jamais o poderia ou saberia eu fazer com idênticos atributos. Hesitei depois porque falei com o Miguel apenas uma meia dúzia de vezes desde que o conheci, tardiamente, no ano 2000. O Bloco de Esquerda nascera há pouco e na altura sentia-me suficientemente perto para participar como orador numa iniciativa pública. Recordo que sendo o penúltimo a falar me vi interrompido pela chegada de uma equipa de televisão com pouco tempo para gravar o discurso principal, da responsabilidade do próprio Miguel. Fiquei, claro, um tanto irritado com a situação, mas horas depois, já no comboio, recebi um telefonema caloroso e gentil, explicando detalhadamente o sucedido e pedindo um milhão de desculpas. Gesto definidor de um modo de agir raro no universo, tantas vezes brutal e cheio de prioridades trocadas, do ativismo profissional de todos os quadrantes. Mas hesitei ainda porque não queria, nem quero, servir-me de um acontecimento tão infeliz para travar o meu próprio combate político. Não posso, no entanto, deixar de recordar, uma vez que nestas horas tem permanecido omisso nos obituários, a luta do Miguel que conheci contra o sectarismo de todos os matizes e pela ampliação da crítica e da autocrítica dentro da «esquerda da esquerda». Opção difícil pela qual se bateu, mesmo até ao final do caminho, com perseverança e equilíbrio, por considerá-la a única forma de somar forças e ideais para o combate, cada vez mais urgente, cada vez mais imprescindível, por um país melhor e por um mundo mais justo. E do novelo de tantas hesitações resultou este acanhado post, que não passa de um adeus sentido e combatente.

O Segundo Século Vinte (2) | Casas p’ró Povo

O Segundo Século Vinte é um ciclo de debates e apresentações relacionado com temas da história recente de Portugal. A iniciativa, uma organização do Centro de Documentação 25 de Abril e do Teatro Académico de Gil Vicente, é de periodicidade bimensal e tem mais uma sessão nesta quinta-feira, dia 26 de abril, pelas 18 horas. Será em Coimbra, no TAGV. Nesta sessão, «Casas pró Povo. O Projeto SAAL antes e agora», falar-se-á da experiência e do exemplo deste projeto pioneiro de habitação social criado em Julho de 1974 e desarticulado a partir de Outubro de 1976. Participarão os arquitetos Alexandre Alves Costa e José António Bandeirinha, sendo a moderação de Natércia Coimbra. Pode ver e copiar aqui o cartaz do ciclo.

25 de Abril

25 de Abril

O processo de transfiguração do país que o 25 de Abril de 1974 abriu foi descrito como «Revolução dos Três D» (Democratizar, Descolonizar, Desenvolver). Este é o fundamento comum dos projetos políticos com os quais nos confrontámos por mais de três décadas e meia. A expressão pode parecer hoje algo redutora por não englobar as enormes mudanças que estavam para ocorrer no campo da vida privada, das relações de trabalho e das práticas culturais, mas não deixa de verbalizar princípios programáticos e uma linha de rumo que cruzaram os anos e os diferentes governos. Democratizar supunha assim abrir a gestão da coisa pública e do coletivo à voz e à vontade livremente expressa dos cidadãos, o que até ali era impossível. Descolonizar significava alijar o fardo da ideia de império e do domínio dos povos colonizados, o que até ali era impraticável. Desenvolver impunha encontrar e expandir novos ritmos para a criação de riqueza e o bem-estar das populações, o que não constava das perspetivas do velho «país habitual», idealizado por Salazar como quieto, naturalmente desigual e indiferente às tentações da vida moderna.

A memória partilhada do 25 de Abril guardou esse rastro, que até há pouco governo algum se propôs contrariar. À esquerda ou à direita do bloco político que tomou conta da gestão do Portugal pós-revolucionário, com ou sem cravo ao peito, fosse qual fosse a posição diante da Constituição aprovada em 1976, programas e orçamentos jamais ousaram afastar o horizonte de um país melhor, habitado por portugueses mais felizes, tendencialmente «livre, justo e solidário». Só o atual contexto de crise pôs travão a esta orientação, definindo uma nova realidade na qual a ditadura dos mercados parece impor, com a complacência de quem governa, o retorno a uma paisagem na qual os processos da democracia e os caminhos do desenvolvimento são confrontados com um enorme recuo e uma subalternização neocolonial. Nos anos 80, referindo-se a Portugal, João Martins Pereira falava da «singular intensidade do seu passado recente». No presente, perante o cenário de resignação e pessimismo que emana da atuação das autoridades públicas, o recurso a estratégias de alternativa passa pelo exercício de uma intensidade democrática em ação, de uma dinâmica do possível, da qual o 25 de Abril permanece um sinal.

A terceira das entradas escritas para o Dicionário das Crises e das Alternativas lançado pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, de parceria com as Edições Almedina, a revista Visão e o Jornal de Letras. Ainda nos quiosques.

De 24 para 25

De 24 para 25 de Abril – emissão histórica em direto. Uma iniciativa do Centro de Documentação 25 de Abril e da Ideias Concertadas. Na página Facebook do CD25A, das 22 horas de 24 às 22 de 25, a Revolução dos Cravos passo a passo, relatada e documentada.

Ideologia

Outra das entradas que escrevi para o Dicionário das Crises e das Alternativas lançado pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, de parceria com as Edições Almedina, a revista Visão e o Jornal de Letras. Ainda nos quiosques.

Com o «fim das ideologias» projetado nos anos 60 por Daniel Bell, resultante do facto de a «sociedade de bem-estar» haver exaurido o dinamismo e as capacidades de instigação de uma teleologia da História propostas pelo liberalismo, pelo nacionalismo e pelo socialismo, ter-se-ia desembocado numa era pós-ideológica. Desta emergiu um pensamento consensualista, expurgado das contradições, alimentando-se do realismo do possível e de um pragmatismo alheio a qualquer lógica transformadora e emancipatória. A derrocada das ideologias significa, no entanto, não o seu suposto fim mas a imposição, na condição de hegemónica, de uma ideologia incorpórea, insidiosa porque auto-ocultada, apresentada como única forma de pensamento possível, feita de unanimidades e de valores universais tomados como absolutos, associados a um imutável senso comum. Esta não-ideologia imporia uma mistificação das assimetrias e dos conflitos, apresentados como dirimíveis apenas dentro de uma lógica de estabilidade que seria a do capitalismo e a de uma democracia de baixa densidade.

É neste quadro que o «fim das ideologias» produziria esse «fim da história», sugerido no imediato pós-Queda do Muro por Fukuyama, no âmbito do qual presente e futuro passariam a ser inteligíveis apenas na medida do «realismo conformista do possível». Todavia, a crise atual e as suas circunstâncias têm vindo a revelar a inadequação desta atitude às necessidades sociais e à ação política, determinando uma gradual revalorização do «realismo revolucionário do impossível» (S. Dias). Este surge então como possibilidade e projeto político que faz sentido. Porém, o impossível não é aqui sinónimo do irrealizável, projetando antes uma oportunidade teórica capaz de dialogar com a construção prática de iniciativas transformadoras, implicando um retorno à essência da ideologia tal como Marx – o filósofo da revolução, não o monstro criado pela dogmática – a concebeu. Enquanto complexo de ideias instigador de uma «ciência falsa» meramente instrumental (Althusser), mas também capaz de projetar uma sociedade-outra. No presente, em condições de inverter a lógica destrutiva do capitalismo, soltando a imaginação do futuro e expulsando o perigoso logro da não-ideologia. Pois, como sustenta Zizek, a ideologia está em toda a parte.

Futebol e desencontros

Como no amor, existem, na história da literatura, das artes ou da filosofia, desencontros que poderiam ter sido belos encontros. Possíveis que se revelaram impossíveis. Karl Marx e Charles Darwin tiveram uma reunião prevista, marcada por um amigo comum, mas esta acabaria por não acontecer. Soljenitsine e Nabokov falharam por muito pouco uma prometida conversa. E nos anos quarenta Orwell marcou um encontro com Camus em Saint-Germain-des-Prés, mas como este se atrasou um pouco, aborreceu-se e foi-se embora. Conhecendo o percurso de ambos, as causas que partilharam, as marcas que deixaram, aquele poderia ter sido o princípio de um belo entendimento.

As suas vidas tiveram, de facto, muito em comum. Ambos lutaram contra o fascismo, Orwell em Espanha e Camus na Resistência francesa. Ambos sofreram de tuberculose e morreram cedo, aos 47, em janeiro, se bem que com a diferença de uma década. Mais importante: os dois permaneceram intérpretes de uma esquerda democrática e independente, combatendo o totalitarismo em todas as suas formas e sofrendo por isso o isolamento e a derrisão por parte de alguma intelligentsia. O Homem Revoltado (1951), de Camus, é, aliás, um ensaio que parece encapsular posições e pontos de vista de Orwell. A diferença mais notável acabou por se centrar nos géneros literários que cada um deles praticou.

No entanto, onde jamais se teriam entendido nesse hipotético encontro seria ao conversarem sobre futebol. É que, se Orwell chegou a escrever que já existem «suficientes motivos de conflito» entre as pessoas comuns, não precisando nós, portanto, «de lhes juntar mais um, incentivando alguns jovens a darem caneladas uns aos outros, por entre os urros dos espetadores em fúria», Camus, antigo guarda-redes de primeiro plano no futebol da sua Argélia natal, pensava rigorosamente o contrário. Insistiu aliás, por diversas vezes, em que devia «seguramente ao futebol» tudo aquilo que aprendera sobre a essência do sentido ético e do compromisso humano. Por causa dele iriam provavelmente discutir e talvez a hipotética amizade acabasse logo ali, antes de começar.

Grécia

O Centro de Estudos Sociais da  Universidade de Coimbra, de parceria com as Edições Almedina, a revista Visão e o Jornal de Letras, acaba de lançar um Dicionário das Crises e das Alternativas que reúne, em 222 entradas escritas por 113 investigadores, informação destinada a esclarecer o cidadão, de uma forma tanto quanto possível despojada do jargão técnico, sobre muitos dos conceitos, palavras e acrónimos que invadem atualmente os noticiários. Uma das quatro entradas que escrevi: Grécia.

Antigo «berço da democracia» e espaço matricial da identidade europeia como lugar ao mesmo tempo integrador e excludente de povos, crenças e culturas, a Grécia é parte de um passado amplamente partilhado. Nas atuais circunstâncias é também um indicador de futuro para os países e as populações que mais carregam o peso da crise económica e política. O mundo da finança quis fazer dela um exemplo, e na tentativa de punir o Estado da zona euro que lhe parecia mais frágil empurrou-a para uma situação dramática, mas transformou-a também no território onde começa a definir-se a alternativa. A Grécia encontra-se pois no centro da tormenta, mas também na vanguarda do combate contra a ditadura financista que está a destruir o Estado social, a ameaçar a sobrevivência de milhões de pessoas, a propagar o desespero, o medo e a guerra de todos contra todos. Nas ruas e praças, como nos espaços de informação, organização e debate, ao lado da cólera emocional desencadeada na tentativa de destruir os símbolos imediatos da opressão, desenvolve-se uma ira lúcida: a dos que resistem a deixar-se espoliar em benefício da lógica implacável dos especuladores.

Perante o descrédito dos partidos institucionais que têm dominado a democracia parlamentar instalada no país após a queda em 1975 do «regime dos coronéis», associada a um clientelismo endémico e a uma corrupção num grau extremo, sucedem-se as assembleias de democracia direta, as formas de desobediência civil, as primeiras experiências de autogestão, preludiando um sistema possível que rejeita a tirania dos mercados em nome do humano. Ao mesmo tempo, a situação promove um cenário mais vasto, capaz de enquadrar novas possibilidades: o verdadeiro desafio não é já a preservação da identidade de um Estado, mas sim a da Europa. Se todos os olhares se voltam para Atenas, para escapar à crise é necessário escolher a Europa que se quer reerguer. Nas ruas helénicas, como nas dos Estados que serão o cenário imediato da perda de soberania, tem lugar um combate pela construção de uma alternativa justa e democrática. A mais recente tragédia grega não passa pela derrocada da democracia como conceito, mas pela épica da sua refundação.

A IS, a esperança e a falta dela

Em Homage to Catalonia, publicado em 1938 na ressaca da presença combatente na Espanha da Guerra Civil, George Orwell sublinhava que o que atrai as pessoas comuns, ou pelo menos muitas delas, para o socialismo, e «as deixa dispostas a arriscar a pele por ele», é a ideia de igualdade. Até há pouco diríamos que a hipótese de arriscar a pele por uma causa corresponderia, nesta Europa descrente mas em aparente expansão que saiu do termo da Guerra Fria, a um círculo muito restrito de combates e de lugares, marcados por um extremismo socialmente isolado ou pelo regresso do nacionalismo. A reinstalação da desigualdade à qual assistimos nos últimos tempos pode, porém, inverter rapidamente esta situação: perante o colapso dos mercados, do capitalismo e da democracia parlamentar tal como a conhecemos, o retorno da política dos extremos pode conduzir à reemergência dessa atitude-limite que transforma uma causa no sentido de uma vida vivida no fio da navalha. Como escreveu Tony Judt num dos seus derradeiros livros, «sociedades grotescamente desiguais também são sociedades instáveis», dividindo-se através de conflitos internos, cada vez maiores e mais insanáveis, que terminam geralmente «com desfechos não democráticos». | Clique para continuar a ler este texto »

Simetria semiológica

Reparará quem segue este blogue que em seis anos quase não se publicaram fotografias de políticos portugueses no ativo. Chegou o momento de proclamar urbi et orbi os três motivos pelos quais isso sucede. O primeiro prende-se com o mais genuíno snobismo: este blogue vive da e para a polis, mas não é um blogue de politiquinha, daqueles que se ocupam quase a full-time (e fazem bem, cumprem a sua função) dos rodriguinhos de São Bento, das fífias de Belém e atividades afins. Por isso, quando fala deles, gosta de relativizar o seu papel nas preocupações do leitor. O segundo é de natureza meramente estética: A Terceira Noite pode ter alguns posts fraquinhos (ou até o podem ser praticamente todos), mas esforça-se por ser um prazer para os olhos, um lugar visualmente incitante, ou então tão relaxante quanto uma massagem ayurvédica acompanhada pelo som de vagas marítimas. A maioria das imagens pessoais disponíveis destruiria esse equilíbrio, como um par de peúgas brancas usadas com um fato escuro. O terceiro motivo é o mais fácil de expor: o blogue preparava-se para este breve momento de simetria semiológica, esgotando de uma vez a quota para os próximos seis anos.

[fotografia extorquida à página facebook de maquinistas.org]

Günter, Israel e os outros

Günter

«O que deve ser dito», o «poema» na origem da polémica é, de facto, confrangedoramente mau para alguém com a sua responsabilidade literária. Desqualificado como decrépito e apodado de insensível antissemita, Günther Grass declarou entretanto à Associated Press que se pudesse reescrevê-lo teria evitado usar o termo «Israel» e referido expressamente o atual governo de Benjamin Netanyahou. O episódio conta-se em poucas palavras: revoltado com o facto de a Alemanha vender a Israel um submarino com capacidade para lançar mísseis armados com ogivas nucleares, Grass publicou o referido «poema», no qual, num arremedo estético da cartilha do velho realismo (socialista ou não), acusa o governo israelita de «ameaçar a já frágil paz mundial». A peça vai mais longe, condenando «o suposto direito de um ataque preventivo» contra as «supostas» ameaças de um Irão empenhado, também ele, reconhecidamente, em desenvolver armamento nuclear. Em consequência, o governo militarista de Israel declarou o escritor persona non grata, impedindo-o de regressar a um país que, como convidado, visitou já por diversas vezes.

A posição do governo israelita é, obviamente, escusada e bastante condenável, apenas possível porque este se encontra nas mãos de alguns dos setores mais conservadores e agressivos do país. É contraproducente, do ponto de vista da imagem global de Israel, e incompreensível até para quem gosta, sem estar de todo desprovido de razão, de se gabar de ser «o único Estado democrático da região». Bernard-Henri Lévy, que também não é um anjo, aproveitou para desancar nos esquecimentos do escritor alemão, lembrando-lhe que, já agora, podia falar do que ao mesmo tempo se passa na Coreia do Norte, na Rússia de Putin, na Síria e no Irão ali mesmo ao lado. Mas aquilo que realmente impressiona é o facto de a esquerda antissemita ocidental – a mesma que ainda há pouco tempo apontava o dedo a Grass pelo seu longínquo e por longo tempo escondido passado filo-nazi – passar a incensá-lo como se de um herói se tratasse. Vale tudo para ser «contra Israel», independentemente das circunstâncias históricas e políticas do seu trajeto, seja o que for que possa desenhar-se no horizonte da região. Uma atitude que indicia a ausência de uma «política de princípios», justa e democrática, que é, afinal, cada vez mais necessária. Entre outras coisas para obter para aquelas paragens uma paz duradoura, sem vencidos e vencedores.

Coimbra: a cidade e a luta estudantil

coimbra_c

Disponível em formato pdf um texto que escrevi em 2007 sobre «Coimbra: a luta estudantil e o património identitário da cidade». Poderá servir de munição, ou de contrapeso, no debate atualmente em curso sobre os usos e os abusos da praxe estudantil. E também para uma apreensão mais completa do papel dos estudantes na vida e na história deste lugar diferente. Uma apreensão menos passadista sem por isso promover o esquecimento. Pode baixá-lo aqui.

Declaração programática

rivoluzione

shhhtttt!, Nostalgia Futura

Durante algum tempo o ritmo de A Terceira Noite irá diminuir um pouco. Aliás, já se nota que está a diminuir. Nada de especial a acontecer, para além de excesso de trabalho e um problema com os dias que não esticam. Mas leram bem: apenas «um pouco». Nada de dramático, sendo provável que por vezes nem se note a quebra. Em alguns momentos, no entanto, ela acontecerá.

Entretanto, para todos/as mas em especial para os/as leitores/as que me acompanham desde o início desta e de outras aventuras, aqui fica a ligação para uma experiência nova, composta basicamente por recortes, colagens e inspirações resultantes de trabalho alheio que vou guardando e tenho vontade de partilhar.

São, shhhtttt!, o contos da Nostalgia Futura.

Isto é muito sério

Vida noturna

Robert Doisneau

O publicista e escritor irlandês Richard Steele escrevia em 1710, na revista satírica The Tatler, que tinha ido visitar um amigo chegado do campo para viver em Londres. Mas este encontrava-se já deitado quando, às 8 da tarde, Steele se apresentara em sua casa. Voltou na manhã seguinte, pelas 11 horas, para lhe dizerem que o amigo ia começar a jantar: «Rapidamente descobri que o meu amigo seguia religiosamente os seus antepassados e respeitava os horários usados na sua família desde a época da conquista normanda.» Dei algumas vezes exemplos análogos enquanto falava a turmas de alunos sonolentos sobre o imaginário aldeão dos tempos que antecederam a abertura das estradas e a chegada da eletricidade. Ali, como todos trabalhavam desde a alvorada, e o trabalho doía, todos se deitavam «com as galinhas», ficando os ruídos e as sombras da noite a cargo dos espetros e das bruxas, dos quais aliás ninguém duvidava. Mesmo nas nas cidades, as coisas não se passaram de forma substancialmente diferente até ao surgimento das festas aristocráticas e à abertura dos cafés por volta do século XVII, começando então a noite a ter uma animação inteiramente nova. Com o aparecimento da iluminação urbana e a multiplicação dos teatros o processo foi completado, alterando-se profundamente o uso social e as representações simbólicas da vida noturna. A noite fugaz mas persistente «das paixões recusadas, das paixões descabidas», gravadas a canivete nas mesas dos bares, Lins dixit, chegou bastante tarde mas para ficar.

O passado é agora [20]

Sous les pavés la plage

Sous les Pavés, la Plage

[Retomo a série O passado é agora usando o título do meu primeiro blogue. RIP]