Arquivo de Março de 2006

Que é diferente dos outros

Tenho um problema com o desaparecido blogue Barnabé que é idêntico aquele que tive com os extintos sabonetes Nordika. Quando descobri o seu suave cheiro a pinho, a forma como me levantavam a moral sob o duche da manhã, já estes haviam deixado de ser comercializados. Percorri então, um tanto desesperado, pequenas mercearias de bairro, lojas vende-tudo de ignotas aldeias, dispensas esquecidas de familiares, conseguindo reunir um stock que me permitiu dois anos extra de saponácea felicidade. Ao Barnabé, a esse comecei a segui-lo tardiamente, quando os seus autores estavam já para – como se diz? – descontinuá-lo. Felizmente, andam por aí, nas livrarias, alguns títulos de Rui Tavares, talvez aquele dos barnabitas que, por assim dizer, mais me sussurrava ao sentimento. D’O Pequeno Livro do Grande Terramoto tem-se falado bastante: um livro de história que devia servir de exemplo para a desgraçada escrita – e, certas vezes, desbaratada investigação – que domina ainda a tribo dos historiadores a que pertenço. Vou recomendá-lo aos meus alunos, claro, para lhes reacender o interesse (e a admiração) pelo conhecimento do passado e as mil formas de o contar. Sai agora Pobre e Mal Agradecido, ainda na Tinta da China, que inclui, entre outros textos imperdíveis do RT, da melhor e mais inclassificável prosa que alguma vez percorreu a blogaria lusitana. Já tenho, para uns tempos, o meu suplemento de Barnabé.

A poesia também pode ser terrível*

Trabalhador adolescente em Magnitogorsk

La
technique
dans la période
de reconstruction
décide
de
tout

* De Magnitogorsk: Louis Aragon, 1932

Entretanto em Minsk

O Avante! considerou ser muito relevante «o facto da Bielorússia manter um sistema de auscultação popular alargado» e de no início do mês se terem «reunido pela terceira vez, milhares de delegados na Assembleia Popular de Toda a Bielorússia, na qual foram aprovadas as linhas de orientação socio-económica até ao ano de 2010». Mais adverte que, recentemente, o Presidente Lukashenko afirmou que «o nosso país segue com confiança na via do desenvolvimento escolhida pelo povo, na base da qual estão os ideais legados por Outubro: a paz, a liberdade, a igualdade e a justiça social». E assim sucessivamente.

Da servidão

Albert C
Começa assim O Homem Revoltado: «Há crimes de paixão e crimes de lógica. Com uma certa dose de comodidade, distingue-os o Código Penal pela premeditação. Vivemos no tempo da premeditação e do crime perfeito. Os nossos criminosos já não são aquelas crianças desarmadas que invocam o amor como desculpa. Hoje, pelo contrário, são adultos, e o seu álibi irrefutável é a filosofia, que pode servir para tudo, até para transformar os assassinos em juízes». Publicado em 1951, o livro de Albert Camus marca a sua ruptura com Sartre, vinculando o ideal existencialista de liberdade à afirmação da autonomia individual e não tanto à integração do sujeito no movimento do colectivo, a qual ele acreditava conduzir ao estado de servidão. Por este motivo, Camus foi acusado de se haver passado para «a direita». As posições no interior de uma esquerda de matriz maioritariamente leninista omitiam, à época, a possibilidade da existência uma tirania do colectivo. Quase vinte anos depois da queda do Muro, os sucessores dessa tradição procuram ainda fugir à questão, vitimizando, se preciso for, alguns dos piores algozes da liberdade de opinião. Ou relativizando o valor da sua acção.

Medidor de paisagens

Somos protagonistas da paisagem, que é sempre uma representação única para cada um de nós. Por isso ela pode ser tão sublime quanto terrível, tão desolada quanto tranquila, impressionante ou monótona. Desaparecidos de vez os territórios selvagens e inexplorados do passado, sucedem-se agora as áreas desflorestadas, preenchidas com culturas intensivas, as manchas irregulares da urbanização, as estradas que se prolongam, alargam e multiplicam. Como as paisagens industriais, os parques de diversões, os subterrâneos por onde a vida humana continua, os campos de batalha. Somos aí actores e espectadores, voyeurs da nossa própria existência. Filmamo-nos e fotografamo-nos apenas para não nos perdermos no labirinto que nos serve de consolo.

A Monte

Marisa
De repente, seis anos depois, o regresso feliz de Marisa Monte. E logo com dois cêdês, simultâneos e híbridos. Um, Infinito Particular, em fala pop que não é bem pop. Outro, Universo Ao Meu Redor, anunciado como disco «de samba» sem o ser propriamente. Em ambos, a música brasileira fora dos clichés habituais que nos chegam a cada mês. Bela, pujante e criativa – e inequivocamente contemporânea, sem todavia perder a identidade – tal como ela deveria sempre ser. Para ouvir sobretudo «quando a névoa toma conta da cidade».

Estado da arte

Young Molotov
Do Mausoléu de V.M. Molotov (1890-1986), erguido em 1975, ainda em vida do falecido, por Hans Magnus Enzensberger*:

O seu traseiro de ferro também já não é
o que era. Só o apara-lápis pendurado
da corrente do relógio relembra ainda os anos dourados
no politburo. Medita, dá estalos com os dedos.

* Trad. de João Barrento

Sinofilia

world
No princípio da década de 1970, entre Lisboa e Viena, uma horda de jovens sedentos de justiça deixava-se seduzir pelas imagens edénicas de um mundo que presumia igualitário. A revista Nouvelle Chine – a edição em francês era aquela que chegava a boa parte de uma Europa maioritariamente francófona – mostrava cenários coloridos que pareciam de papel pintado. Operários trajados de forma sóbria, que se presumia honesta. Raparigas de cabelos uniformemente curtos e olhares luminosos. Camponeses esquálidos mas sorridentes, as pernas mergulhadas no lodo em prol do socialismo. Os maoístas ocidentais – que o próprio Mao, sabe-se hoje, se esforçava por manipular – mimavam, ainda que sem idênticos meios, os inflexíveis Guardas Vermelhos. Sonhavam acordados com a sua Grande Revolução Cultural Proletária. A mesma que ergueria na terra o Paraíso do uno. Sem passado ou divergências, sem o indivíduo fora do colectivo, sem ricos e também sem riqueza. Fait accompli: a felicidade ali à mão, indestrutível e para sempre. O reverso da visão cinematográfica de uma China contemporânea, desafortunada, aberta, mesmo que de forma condicionada, ao múltiplo e ao incerto, ao conflito e à mudança, à transposição das fronteiras, que emerge de O Mundo (2004), o filme de Jia Zhang-ke agora nos cinemas.

Voz do povo

Numa nota de imprensa escrita em 1947 pelo SNI de António Ferro, proclamava-se ser pelo folclore «que um povo reencontra o potencial poético característico da sua raça na sua forma mais cristalina e pura». O regresso em força, aos ecrãs televisivos, aos palcos das praças, aos desfiles alegóricos, às políticas culturais de alguns municípios, do folclorismo mais artificial, das cantadeiras mais aberrantes, do azedo arroto a chouriço, caldo verde e «boa pinga», assusta. Já repararam nele? Na forma como estão de volta o acordeão, os ferrinhos, a pandeireta? Como se insinuam outra vez, mostrando ao povo que o povo existe e, a cantar e a dançar, não deve querer ser senão povo? É provável que este retorno ao passado tenha alguma coisa a ver com uma recuperação da rusticidade – e do kitsch que lhe é frequentemente associado – consubstanciada na presidência saloia que agora se inicia.

Sabedoria em Aphania

Em Petsetilla’s Posy, obra semi-obscura publicada em Londres no ano de 1870, Tom Hood descreveu Aphania, um reino imaginário da Europa central no qual existia um código penal para as ausências de estilo e onde o plágio era punido com três anos de exílio. Determinadas violações da sintaxe eram mesmo castigadas com a pena capital, em alguns casos executadas de imediato e no próprio local no qual haviam sido cometidas. Para preservar a pureza de estilo, os adjectivos encontravam-se guardados na biblioteca nacional e cada escritor apenas podia utilizar três em cada dia. Os decididamente incapazes de escrever um livro de qualidade mínima eram pagos pelo Estado para viverem na ociosidade e se absterem de o tentar fazer.

Mais no Dictionary of Imaginary Places, de Alberto Manguel.

Lawrence já não mora aqui

O abuso do conceito de aventura afirma-se sobre os escombros de vidas passadas, de episódios contados em crónicas antigas, de cadernos de viagem com nódoas e páginas amachucadas, de romances feitos de movimento e distância. Perde a sua dimensão como acto ilícito, subversor do corrente, construído como viático de liberdade e risco, procura de um alhures inatingível do qual jamais se regressará a salvo. No último número, temático, a revista Déserts ensaia a história idílica e o presente encantador das caravanas concebidas para turistas. Procura mesmo perturbar a narrativa paradisíaca do oásis, enunciando o sabor benévolo de um percurso ao sol, sobre as dunas, providos os seus viandantes de roupa e sapatos confortáveis, tendas climatizadas, bebidas frescas, navegação GPS e guias-hospedeiros disfarçados de tuaregues. No caravanserai dos mortos legendários, T. E. Shaw, Lawrence da Arábia, sentir-se-á perdido na sombra de um outro mundo, de um outro tempo.

Inútil paisagem

Pronunciando o indizível: é insonhável aquilo que nem mesmo em sonhos conseguimos ver.

A glória do fumo

fumar era fácil
Na década de 1950, recorda um apontamento do suplemento (do DN), a pose das figuras da televisão (e do cinema, acrescento) incorporava o cigarro «como sinal de requinte e sintoma de segurança». Talvez fosse interessante olhar um pouco – neste tempo de antitabagismo irracional (inexistente no mundo islâmico, tal como na maior parte da Ásia, de África e da América a sul de Ciudad Juárez) – para a história dos interditos e da valorização simbólica do tabaco. Reparar na forma como este funcionou enquanto sinal de emancipação (das mulheres, dos adolescentes, dos soldados, dos empregados e dos operários submetidos a cadências absurdas), marca de reflexão e de inteligência (entre os intelectuais ou aqueles que o ambicionavam ser) ou elemento-chave das estratégias de sedução social e amorosa.

Solidarinosc

«Nós somos impenetráveis», escreveu Unamuno. «Os espíritos, como os corpos sólidos, não podem comunicar-se a não ser pelo toque na sua superfície, não penetrando uns nos outros, e muito menos fundido-se.» Sem esta consciência, erram, de desconsolo em desconsolo, até ao abandono. Com ela, podem tornar-se solidários sem se sentirem hipócritas.