Arquivo de Dezembro de 2006
Ano Novo de novo
Por Rui Bebiano in Recortes em 31 de Dezembro de 2006
Podemos, como sempre, repetir a receita de Carlos. Ou adiar. Só por mais um ano.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
O silêncio
Por Rui Bebiano in Opinião em 30 de Dezembro de 2006
Sem a expectativa de uma surpresa, mas esperando intimamente enganar-me, percorri hoje as páginas oficiais na Internet do PCP e do Bloco de Esquerda. Tão empenhadas na denúncia da política americana para o Iraque, nenhuma das organizações inclui ali uma palavra sobre a execução de Saddam Hussein, sobre a infâmia absoluta da pena de morte, sobre as consequências negativas para a paz na região – e para o próprio ajuste de contas com a história – que este acto bárbaro irá inevitavelmente suscitar. Preocupadas quase exclusivamente com o seu lugar simbólico na política autárquica e na actividade legislativa, ambas mostram, também por este indício, como para além da previsibilidade das suas agendas e das bandeiras do momento habitam hoje um deserto de causas. Como outras, igualmente esquecidas ou apenas ignoradas, até a campanha pelo sim no referendo sobre o aborto permaneceu no seu discurso, durante anos, em estado de semi-hibernação. O drama é que esse deserto tem secado tudo aquilo que poderia crescer fora dele. A indignação profunda perante a iniquidade, aquela que se não pode deixar atar pela lógica da oportunidade política, da contabilidade miserável das sondagens ou da ficção do pequeno poder, vive abandonada. Este caso é apenas um indício.
Pós-nota: tomo como minhas as palavras directas do Luís Mourão
Porquinhos e censurados
Por Rui Bebiano in Apontamentos em 29 de Dezembro de 2006
Segundo o Yorkshire Post, a directora de uma escola inglesa da região, preocupadíssima com a sensibilidade religiosa dos seus pequenos alunos, maioritariamente provenientes de famílias muçulmanas, resolveu retirar da biblioteca os livros que mencionavam a história de Prático, Heitor e Cícero, os conhecidos Três Porquinhos. Sempre achei as peripécias destes bichos humanizados – concebidas no século XVIII mas definitivamente popularizadas, a partir de 1843, com as Nursery Rhymes and Nursery Tales de James Orchard Halliwell-Phillipps – uma coisa desenxabida, piorada depois na versão moralista e um tanto apatetada de Walt Disney. O mais interessante da história era sem dúvida o seu vilão, o Lobo Mau, que surgia como referente simbólico de um dos grandes medos que durante séculos afligiram os europeus. Mas aquilo que terá incomodado a senhora foi antes a referência subliminar – que deveria ser omitida em nome de uma maneira servil, e um bocadinho patológica convenhamos, de entender a diversidade cultural – a qualquer coisa de comestível. Como carne de porco, por exemplo.
Nostalgia de um tempo por vir
Por Rui Bebiano in Delírios em 29 de Dezembro de 2006
As canções de vinte e dois minutos
não existem mais. As saias-calça de bratzuanza
desapareceram. Os sabonetes Ipogorum
não se encontram. Os pneus das naves não são mais
feitos de carbo-chips. Ninguém usa ventosas
na roupa para andar de rodaloz. Os painéis
de leitura já não abrem com o clique de voltagírio.
E as casas ai as casas deixaram de cheirar
a mengapuzes assados.
Originalmente em Sous les Pavés, la Plage!
Démodé
Por Rui Bebiano in Recortes em 27 de Dezembro de 2006

«Je suis d’un autre pays que le vôtre, d’un autre quartier, d’une autre solitude. Je m’invente aujourd’hui des chemins de traverse. Je ne suis plus de chez vous. J’attends des mutants.
[...]
Le désespoir est une forme supérieure de la critique. Pour le moment, nous l’appellerons ‘bonheur’, les mots que vous employez n’étant plus ‘les mots’ mais une sorte de conduit à travers lesquels les analphabètes se font bonne conscience.»
Léo Ferré, La Solitude
Little Italy, ali
Por Rui Bebiano in Apontamentos em 27 de Dezembro de 2006
A notícia chega de Vila do Conde e, como sabemos, apesar de situada numa região movimentada e de elevada concentração demográfica, Vila do Conde não é propriamente São Paulo. Mas o crime tomou ali uma configuração particularmente preocupante. Na zona industrial da Varziela, onde existe um grande número de lojas de imigrantes de origem chinesa, estas têm sido objecto de uma série de roubos e extorsões à maneira da velha Little Italy de O Padrinho II. Parece que os chineses que se dedicam ao pequeno comércio são, maioritariamente, para além de grandes trabalhadores, tão ciosos do seu dinheiro que preferem guardá-lo consigo a depositá-lo no banco ou a transaccioná-lo sob a forma de cheques ou de cartões de crédito. O resultado é tornarem-se alvos preferenciais de quem se dedica a apropriar-se daquilo que não lhe pertence. Foi justamente o que percebeu uma das quadrilhas da região, agora desmantelada, a qual ao longo de algum tempo se dedicou a espiar os hábitos diários dos chineses e a adaptar a sua mão-leve a esses hábitos, entrando-lhes nas casas enquanto se encontravam nas lojas. O que não deixa de parecer um tanto estranho, para a sociedade quase paroquial na qual ainda há pouco acreditávamos habitar, é que essa quadrilha era composta por imigrantes albaneses. Bem-vindos pois ao presente!
Pós-escrito – Parece-me claro que este post não integra intenções xenófobas. Constata apenas a emergência de uma forma de sociabilidade que ainda aparece entre nós – sugestionados durante décadas pela conversa dos «brandos costumes» – como uma originalidade.
Da sabedoria 5
Por Rui Bebiano in Recortes em 26 de Dezembro de 2006

Epicteto, 55–135 (Manual)
«De todas as coisas, umas dependem de nós e outras não. Aquelas que dependem de nós são as nossas opiniões, os nossos movimentos, os nossos desejos, as nossas inclinações, os nossos ódios. Numa palavra, todas as nossas acções. Aquelas que não dependem de nós são o corpo, os bens materiais, a reputação, as honras. Numa palavra, tudo aquilo que não dependa das nossas acções.
As que dependem de nós são livres pela sua própria natureza, nada pode impedi-las ou impor-lhes um qualquer entrave. Aquelas que não dependem de nós permanecem frágeis, escravas, dependentes, sujeitas a mil obstáculos e inteiramente estranhas.
Lembra-te, pois, que se tomares como livres as coisas que são por natureza escravas, e como próprio de ti aquilo que dependa de outro, apenas encontrarás barreiras, sentir-te-ás permanentemente aflito, perturbado, e queixar-te-ás a todo o instante dos deuses e dos homens.
Ao invés, se acreditares ser teu apenas aquilo que é próprio da tua natureza, e estranho aquilo que pertença a outro, jamais te poderá alguém forçar a fazer o que não desejas, ou impedir-te de fazeres o que pretendas. Desta forma, não terás razões de queixa de ninguém, não acusarás quem quer que seja, nem mesmo que pela mais pequena coisa, pessoa alguma te fará mal, e não terás inimigos.»
Solistício
Por Rui Bebiano in Recortes em 24 de Dezembro de 2006
De partida para a festa familiar e os comes do solistício (o meu não é de todas as culturas – é apenas meio-português – e exclui decididamente poemas à Virgem e ao Menino Jejuxe), leio no El País-em-papel de ontem uma crónica de Timothy Garton Ash. Só o título é um programa e um apelo à meditação diária: «Respeitar os crentes, não as crenças»:
«O ideal é que uma sociedade multicultural seja uma competição amistosa e aberta entre cristãos, sikhs, muçulmanos, judeus, ateus e até partidários do ‘dois mais dois igual a cinco’, para ver quem é capaz de melhor nos impressionar com o seu carácter e as suas boas obras.»
Não apenas hoje ou um dia destes. Mas hoje e sempre. Esta noite também, portanto.
Tédio e zeros
Por Rui Bebiano in Apontamentos em 23 de Dezembro de 2006
O Dia D, suplemento de economia editado pelo Público que pode ser folheado por leitores normais, costuma oferecer na última página a explicação do «dia mais longo» da vida pessoal – ignore-se agora a redundância – de certas e determinadas pessoas. Na escolha dos declarantes, o denominador comum reside na sua condição de figuras mais ou menos públicas. Como seria de esperar, as respostas são muito diversas, mas, invariavelmente, as piores são aquelas fornecidas por políticos e executivos directamente ligados ao universo empresarial. Por muito jet-lag que experimentem, números do The Economist que citem e tardes em Wimbledom ou Roland-Garros que tenham passado, raramente declaram algo de mais emocionante do que um dado dia no qual precisaram tomar, em poucas horas ou mesmo em minutos, decisões gravosas envolvendo um grande número de zeros. Não sei se os nossos gestores estarão entre os mais aborrecidos do mundo – insuspeitos, tal como os portugueses, de influências calvinistas, os japoneses serão, sem dúvida, muito piores – mas jamais nos convencerão a olhá-los como modelo.
A frase do mês
Por Rui Bebiano in Etc. em 20 de Dezembro de 2006

«It’s never wise to assume anything, my friend.» (Tony Soprano)
A hesitação
Por Rui Bebiano in Etc. em 18 de Dezembro de 2006

Do Tratado de Umbrologia, de José Carlos Fernandes e Luís Henriques (Devir: 2006)
Da sabedoria 4
Por Rui Bebiano in Recortes em 18 de Dezembro de 2006

Epicuro, 341–270 a.n.e. (Carta a Meneceu sobre a Moral)
«O prazer é o começo e o termo de uma vida feliz. Com efeito, é ele que nós podemos reconhecer como o maior dos bens, conforme com a nossa natureza, é dele que partimos para determinar aquilo que é preciso escolher e o que devemos evitar, é a ele que, finalmente, recorremos quando nos servimos das sensações como uma das formas de apreciar todo o bem que se nos pode oferecer.
Ora, precisamente porque é o prazer o nosso principal bem inato, jamais deveremos procurar usufrui-lo na totalidade. Assim, existem casos nos quais nós renunciamos aos grandes prazeres se, para nós, deles resultarem o tédio e a preocupação. E poderemos mesmo considerar certas dores preferíveis aos prazeres sempre que, a partir dos sofrimentos que nos foram edurecendo ao longo dos anos, delas para nós puder resultar um prazer mais elevado.
Todo o prazer é assim, pela sua própria natureza, um bem. Mas prazer algum deverá ser procurado só por si. Paralelamente, a nossa dor é um mal, mas não deve ser evitada a qualquer preço.
Em qualquer caso, convém decidir sobre tudo isto comparando e examinando com atenção o que é útil ou nocivo, uma vez que, muitas vezes, agimos diante de um bem como se ele fosse um mal, e diante de um mal como se ele fosse um bem.»
O meu problema com Leonard
Por Rui Bebiano in Etc. em 15 de Dezembro de 2006

Tenho um problema com Leonard Cohen. Ou, pelo menos, com a imagem de poeta intoxicado, de habitante da penumbra e de beatnick renitente que de Cohen fui construindo entre livros (Let Us Compare Mythologies, logo em 1956), discos soberbos ou um pouco menos, concertos ocasionais e fotografias a preto e branco invariavelmente tiradas em bares e quartos de hotel. O canadiano de negro sempre me fez acreditar que a vida é dura e que só nas mulheres – as que se amam, aquelas que passam ao longe, as que apenas nos sorriem – é possível encontrar algum consolo. O problema consiste em continuar a acreditar nele.
A voz do silêncio
Por Rui Bebiano in História em 14 de Dezembro de 2006

Memorial ao Holocausto em Budapeste
No epílogo a Pós-Guerra, o seu grande livro sobre a história da Europa a partir de 1945 (Edições 70, 2006), Tony Judt revolve as últimas décadas da nossa vida comum para sublinhar que a reconstrução se fez caminhando sobre as cinzas do Holocausto. Nos anos que se seguiram à derrota do nazismo e à percepção da dimensão do genocídio cometido sobre os judeus europeus, o silêncio tornou-se a atitude corrente. Havia muito para esquecer e a evocação da experiência dos deportados ou dos sobreviventes dos campos de concentração transformara-se rapidamente em qualquer coisa de incómodo, que convinha arrumar com discursos de circunstância e meia dúzia de lápides em mármore. Até porque, durante a guerra, se tinham desenvolvido teias de cumplicidade e de conivência com as perseguições, as quais conviria pôr de lado. Além disso, muitos dos honestos cidadãos dos países ocupados pelos nazis – como a Holanda ou a Polónia – haviam tomado conta das propriedades dos judeus em fuga ou desaparecidos, não tendo vontade alguma de as devolver aos legítimos proprietários ou aos seus herdeiros. De leste a oeste, de facto, o anti-semitismo continuou instalado por muito tempo, sendo o silenciamento uma das suas armas.
A informação à qual acedemos hoje, é preciso que se diga, não estava disponível, ou pelo menos não era divulgada de uma forma tão eficaz quanto o foi mais recentemente, e foram precisos acontecimentos como a Guerra israelo-árabe dos Seis Dias, em 1967, o assassínio de atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, e, principalmente, a partir de 1978, o impacto mundial da série televisiva «O Holocausto», para que o «problema judaico» ganhasse uma nova visibilidade. Colocando-se as coisas no seu devido lugar, a caça aos criminosos nazis desencadeada em 1947 pelo grupo de Simon Wiesenthal deve ser entendida como uma resposta a esse clima de impunidade que viria a permitir, menos de vinte anos mais tarde, que na própria Alemanha «desnazificada» antigos nazis como Kurt Kiesinger e Heinrich Lübke, tivessem chegado, respectivamente, a chanceler e a presidente da república.
Talvez por este motivo se possa tornar preocupante a forma como a generalidade dos meios de comunicação a ocidente, muitos dos herdeiros políticos do antifascismo e até uma boa parte do universo académico, têm aceitado, com relativa indiferença, os tenebrosos esforços de revisionismo histórico patrocinados pelo actual governo do Irão, no sentido de negar a dimensão do Holocausto e de transformar os herdeiros das suas «putativas» vítimas – os judeus, qualquer judeu que defenda a sua identidade étnica e histórica – em terríficos algozes. A crítica dos processos de instrumentalização do passado continua a confrontar-se com a voz do silêncio.
Publicado originalmente em Passado/Presente e no Diário As Beiras
Evidência
Por Rui Bebiano in Apontamentos em 14 de Dezembro de 2006
Sublinho duas frases de Giuseppe Granieri que chegam com a Geração Blogue: «Os blogues, no seu conjunto, são a parte habitada da Rede». Por detrás deles, sempre «um indivíduo e o seu ponto de vista sobre o mundo». Fora deles, neste território, nada de tão livre, simples e imprevisível.
Da sabedoria 3
Por Rui Bebiano in Recortes em 12 de Dezembro de 2006

Aristóteles, 384–322 a.n.e. (Ética a Nicómaco)
«Dado ser o espírito um atributo divino, uma existência de acordo com este espírito será, na sua relação com a vida humana, verdadeiramente divina. Não devemos, pois, escutar aqueles que nos aconselham, sob o pretexto de sermos homens, a não reflectir senão sobre as coisas humanas, e, sob o pretexto de que somos mortais, a renunciar às coisas imortais.
Contrariamente, devemos fazer todo o possível para nos tornarmos imortais e para vivermos de acordo com a melhor parte de nós mesmos, uma vez que o princípio divino, por mais pequena que possa ser a sua dimensão, se sobrepõe a tudo o mais, tanto pelo seu poder como pelo seu valor.
O mais próprio humano é, de facto, a vida espiritual, uma vez que o espírito constitui o essencial do homem. Uma tal vida é, por esse motivo, inteiramente ditosa.»
Esses não morreram na cama
Por Rui Bebiano in Apontamentos em 11 de Dezembro de 2006

Quando soube da notícia apenas lembrei aqueles a quem atiravam nas pernas, depois arrancavam os olhos à faca, de seguida os dentes com um alicate, e, ainda vivos, empurravam para dentro de helicópteros Puma para serem lançados ao Pacífico. Esses não morreram na cama.
Presságio
Por Rui Bebiano in Etc. em 10 de Dezembro de 2006
Conversa numa manhã de Dezembro, entre cachecoles, quispos e bonés de xadrez. «Estás melhor, pá?» «Quase fino. Ao menos morro de boa saúde.» A piada domingueira, antiga, resulta sempre. Já que não podemos fintar a morte, fazemos pouco dela.
Das casas dos mortos
Por Rui Bebiano in História em 9 de Dezembro de 2006

O subtítulo recorda uma certa literatura antisoviética do tempo da Guerra Fria. Mas Estaline – A Corte do Czar Vermelho, do historiador britânico Simon Sebag Montefiore (ed. Alêtheia, 2006), não é, de forma alguma, um livro de propaganda. Tendo ganho em 2004 o History Book of The Year Award, atribuído pelos British Book Awards, resulta antes de um trabalho prolongado, desenvolvido no terreno ao longo dos anos 90, época na qual Montefiore percorreu uma boa parte da ex-URSS, pesquisando e escrevendo ao mesmo tempo artigos para o Sunday Times, o New York Times e a Spectator. Ao estudo e à experiência que foi acumulando, juntou, a partir de 2000, um trabalho minucioso, e surpreendentemente rápido, sobre os arquivos pessoais dos antigos membros do Politburo do Partido Comunista, entretanto libertos para a consulta pública.
Não é mais uma biografia de Estaline, mas antes um relato, bastante pormenorizado, da vida íntima, ou daquela preservada da exposição pública, dos principais dirigentes da União Soviética e das suas famílias durante o período no qual o georgiano de Gori assumiu a direcção do Partido e do Estado. Tal qual essa vida decorreu nos espaços fechados – gabinetes, corredores e antecâmaras, alpendres de dachas, conclaves partidários, mas também salas de tribunal, câmaras de tortura, prisões e paredões de fuzilamento – de onde apenas saíam para executarem decisões, ou, como aconteceu a um grande número deles, para serem abatidos e apagados da história.
Trata-se pois de um relato à «huis clos», sobre um universo até há pouco tempo conservado impenetrável ou confinado aos testemunhos bastante parciais de quem apenas episodicamente o entrevira e pôde «viver para contá-lo». Desta vez, quem fala são também os relatórios mantidos ultra-confidenciais durante décadas, as cartas directamente dirigidas ao «pai dos povos», os bilhetes pessoais trocados durante as reuniões ou durante almoços e jantares, os telegramas urgentes, até mesmo as caricaturas naïf e as piadas brejeiras com as quais os dignitários do regime aliviavam a imensa tensão na qual viviam.
Porque é esse o traço mais terrível e evidente que emerge deste livro. Conhece-se hoje bastante bem a dimensão dos processos de Moscovo, das purgas internas constantes e discricionárias, das deportações em massa, da organização brutal e do colossal crescimento do Gulag. Mas, afora os testemunhos pessoais – que podem sempre ser acusados de parciais ou de episódicos (veja-se Bukharine, minha paixão, de Anna Larina Bukharina, traduzido por Ludgero Pinto Basto e editado em 2005 pela Terramar) – permanecia por reconhecer a dimensão da tensão, das sobrecargas de trabalho, da exigência constante, do medo sem fim, no qual estes homens – incluindo-se neles o próprio José Vissarianovich, gradualmente transformado num misógino e num maníaco da suspeita – permanentemente viviam, alimentando uma concepção paranóica do poder e da actividade política comum aos «grandes homens» que se elevaram dos restantes rodeando-se de salafrários e de yes men. Aqui, com a agravante de, como nos mostra este livro terrível mas também fascinante (apesar de alguns desagradáveis pormenores de tradução e da pavorosa capa escolhida para a edição portuguesa), serem todos eles, igualmente, semi-homens incapazes de colocarem a compaixão, e a capacidade para pensar pela própria cabeça, acima do destino colectivo, inexorável, e permanentemente vigiado, que acreditavam partilhar.
Ao sorriso, camarada!
Por Rui Bebiano in Apontamentos em 9 de Dezembro de 2006

Do encontro do Partido Socialista Europeu, no Porto, ficará um recanto da nossa memória visual. Uma tribuna na qual se destacava um tom de vermelho entremeado de fatos completos. Os participantes que se aproximavam em francês na segunda pessoa do singular. Uma vaga lembrança, presa na fala, da velha canção de Ferrat («C’est un joli nom Camarade / C’est un joli nom tu sais»). Ségolène Royale simpática, coqueta, coberta de flores, de mais flores e de muitos beijinhos. Da substância não me recordo muito bem: afinal já passaram dois dias.
Da sabedoria 2
Por Rui Bebiano in Recortes em 8 de Dezembro de 2006

Meng Zhu, latinizado como Mencius, c.372-c.289 a.n.e. (Livro dos Livros)
«Todo o homem possui um coração que reage ao intolerável. Suponham que algumas pessoas vêem uma criança prestes a afogar-se num poço: elas terão todas uma reacção de medo e de empatia que não será motivada apenas pelo desejo de se manterem de boas relações com os pais dessa criança, pela vontade de adquirirem uma boa reputação junto dos seus vizinhos e amigos ou pelo incómodo que lhes possam causar os gritos que ela solta.
Parece pois que, sem um coração que se compadeça dos outros, não se é humano; da mesma forma, sem um coração capaz de determinar a vergonha de uma má acção, não se é humano; sem um coração marcado pela humildade e pelo respeito, não se é humano; sem um coração que distinga o verdadeiro do falso, não se é humano.
Um coração que se compadece é o germe do sentido do humano; um coração que reconhece a vergonha é o germe do sentido do justo; um coração capaz da humildade e do respeito é o germe do sentido do religioso; um coração que distingue o verdadeiro do falso é o germen do discernimento. O homem possui nele estes quatro germes, da mesma forma que possui os seus quatro membros.
Porém, possuir estes quatro germes e dizer-se incapaz de os desenvolver é fazer mal a si mesmo. E todo aquele que seja capaz de os desenvolver ao máximo será como o fogo que abrasa ou como a fonte que jorra. Seja ele capaz de os desenvolver e poderá ver-lhe confiados os destinos do mundo; mas se for incapaz, nem mesmo os nomes do seu pai e da sua mãe poderá honrar.»
Little Groucho
Por Rui Bebiano in Etc. em 7 de Dezembro de 2006
Depois de ver na NBC a entrevista de Jay Leno ao Borat (na pele de Borat) mais convencido fiquei de que o último «fenómeno de bilheteira» do cinema americano procura vender aos amnésicos uma cópia barata de Groucho Marx (sem o charuto, naturalmente). Embora para muita gente que nunca foi apresentada a Mr. Marx possa de facto parecer uma novidade, sente-se na boca o sabor de uma refeição requentada.
Passados ausentes
Por Rui Bebiano in História em 7 de Dezembro de 2006
Não é nada saudável viver uma realidade que do passado apenas recolhe as referências mais assépticas e manipuláveis. Aquelas capazes de ilustrarem consensuais mitos fundadores, ou então de servirem de mote para actividades que qualquer autarquia gosta de apoiar para relevar o património, assim relevando também a sua própria existência. Ou ainda, como acontece tantas vezes, para incentivar o espírito de paróquia. A importante intervenção do movimento cívico «Não Apaguem a Memória!» contraria esta tendência, chamando a atenção para um lastro de combate e de resistência que marcou o nosso passado recente e sem o qual, muito provavelmente, não conheceríamos há mais de trinta anos esta democracia incompleta mas benévola. Um passado que uma geração mais recente de políticos dos mais diversos escalões, e outros mediadores de opinião consciente ou inconscientemente «desmemoriados», tem feito por esquecer. Como se nada lhe devesse. Não parece saudável, porém, reduzir essa luta pela preservação da memória aos espaços, aos eventos ou às pessoas que lhe foram definindo as matrizes dominantes, deixando de lado aqueles, malditos ou minoritários, que à esquerda ou à direita têm permanecido omissos dentro das diversas «histórias oficiais». O que José Pacheco Pereira (de novo) relembrou hoje no Público.
Da sabedoria 1
Por Rui Bebiano in Recortes em 6 de Dezembro de 2006

O número de Novembro-Dezembro do Le Monde des Religions integra um dossier sobre a construção de uma «espiritualidade laica» que emergiu, a partir da década de 1970, da decadência das ideologias de matriz política ou religiosa. Dele consta uma lista comentada e cronologicamente disposta de «dez textos fundamentais da sabedoria», acompanhada de fragmentos dos mesmos que me arrisco a traduzir. Capturando algumas pequenas pistas para um trajecto que poderá revelar-se luminoso. Ainda que longe do divino.
Buda, séc. VI a.n.e. (Cûla Mâlunkiya Sutta)
«Supõe tu, Mâlunkyaputta, que um homem tenha sido ferido por uma flecha fortemente envenenada. Os seus amigos e parentes chamam um cirurgião. E o homem diz: “Não deixarei que me retirem esta flecha sem primeiro saber quem me feriu: qual é a sua casta; qual é o seu nome, qual a sua família; se é grande, pequeno ou de média estatura; de que aldeia, vila ou cidade veio ele; não deixarei que me retirem esta flecha antes de saber com que espécie de arco me alvejaram; antes de saber que espécie corda foi usada nesse arco; antes de saber que pluma enfeitou a flecha; antes de saber de que material foi talhada a sua ponta.”
Mâlunkyaputta, este homem homem morreu sem saber aquelas coisas. Da mesma forma, se algum de nós disser “não seguirei uma vida virtuosa, na direcção do Bem-aventurado, sem que possua respostas a perguntas sobre se o universo é ou não eterno, etc.”, ele morrerá e esses problemas serão deixados sem resposta.
Qualquer que seja a opinião que possamos deter a respeito de tais questões, existem o nascimento, a velhice, a decrepitude, a morte, a infelicidade, as lamentações, a dor, a aflição, pelo que eu afirmo que deveremos ser capazes, nesta vida, de nem tudo pretender saber.»

