Arquivo de Dezembro de 2006

Inacção

O lugar-comum sugere a repetição, o movimento que se ausenta. «A ideia de se instalar nos lugares, lugares tranquilos», escreveu uma vez Olivier Rolin. Vales sombrios de longo cativeiro e de torpor. Distantes de outros vales, de margens nunca vistas, de hábitos ignorados, de horizontes que permanecerão por descobrir.

Anamneses 1

Presidente Mao

Presidente Mao

Amigos da Floribella

Já passaram alguns dias desde que saiu, mas aponto ainda para a crónica de José Pacheco Pereira editada no Público de 30 de Novembro (e acessível aqui em versão revista). Falava ela dos «Sentimentos Misturados» que lhe parecia poder partilhar com Jorge Silva Melo. Sobre as franjas juvenis, urbanas e insatisfeitas que se movimentavam nos nossos anos 60 e das quais possui uma perspectiva que contrasta abertamente com o habitual discurso auto-celebratório dos seus sobreviventes: «Havia muita paranóia, mas, descontada toda a obsessão pela perseguição, sobrava um grão imenso de realidade violenta, bafienta, claustrofóbica, mesquinha e provinciana, que contaminava tudo».

Por sobre esse cenário pairava, inabalável, a crença na capacidade salvífica do povo. Crença que hoje, sem dúvida, a ambos deixará cépticos: «os filhos dos deserdados das cheias, os filhos dos operários do Barreiro, os filhos das criadas de servir, os filhos dos emigrantes de Champigny, os filhos da “canalha” anarco-sindicalista e faquista de Alcântara mandam no consumo e o mundo que eles querem é muito diferente». E, de novo, o desencanto: «Queríamos que “eles” tivessem voz e agora que a têm não gostamos de os ouvir (…) Queríamos que eles desejassem Shakespeare e eles querem a Floribella, os Morangos e o Paulo Coelho. E depois? Ou ficamos revoltados ou pedagogos tristes e ineficazes, ou uma mistura das duas coisas». A diferença, fica implícito, está na pertença a uma esquerda incapaz de o reconhecer. Ou que, quando o faz, tende a desculpabilizá-los dizendo que a culpa não é deles. Nem dela.

Kramer vs. Bin Laden

Cosmo Kramer
Não terão sido as tiradas de Michael Richards numa sessão de stand-up comedy na Laugh Factory, no mínimo «politicamente incorrectas», a condicionarem a mudança. A decisão já estaria tomada. Mas existe algo de intrigante no facto de a TV-Cabo se preparar para, no pacote de canais que entra em vigor no próximo Janeiro, trocar a SIC-Comédia – que até ocupava a décima posição nas audiências – pela Al-Jazeera. Não acredito que seja a previsão de audiências a justificar a medida. E ficamos, literalmente, com menos razões para rir.