Arquivo de Março de 2007
Blogues: (5) Espalhem a notícia
Por Rui Bebiano in Cibercultura, Etc. em 31 de Março de 2007

As novidades correm depressa. Circulam informações que os jornais ou as estações de televisão omitem ou ignoram. Esclarece-se aquilo que permanece obscuro. Divulgam-se acontecimentos, frases, projectos, descobertas. Ao mesmo tempo, os meios convencionais recorrem às notícias veiculadas pelos blogues, ao seu estilo, às suas preocupações, o que não deixa de ser um sintoma. O hipertexto, como ferramenta de bricolage, perfura então o espaço hiper, colocando a notícia numa linha infinita. Pela mesma via, porém, também o erro circula, dissimulado, sob a forma de fraude ou de boato. Mas tal como nasce, assim se dissolve, mediado pelas vozes que o questionam e depuram.
[De um conjunto de doze posts usados durante uma conversa sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra]
A útil paisagem
Por Rui Bebiano in Apontamentos em 31 de Março de 2007
Snob, habituei-me desde cedo a desgostar de paisagens compostas e demasiado bonitinhas. Panoramas suíços de folheto turístico, tresandando, como os jardins barrocos, a uma natureza antinaturalista. Propaganda new age, wallpapers cintilantes, landscapes supostamente relaxantes nas paredes de restaurantes chineses ou salas-de-espera de dentistas dos subúrbios. Sempre algures entre a pieguice ultra-romântica e o kitsch pequeno-burguês. Até conhecer hoje, através do Público, aquilo que, se o pudesse fazer, a um cego apeteceria fotografar: «uma paisagem com o mar ao fundo, com o pôr-do-sol a reflectir na água».
Chovendo no molhado
Por Rui Bebiano in Opinião em 31 de Março de 2007
Aceito que não deva atribuir-se, às iniciativas do Partido Nacionalista Renovador, uma importância maior do que aquela que os seus militantes, nos seus melhores sonhos (se é que não têm apenas pesadelos), alguma vez puderam ter. Não se deve atiçar sobre os seus militantes uma matilha de cães raivosos ou mandar a polícia de choque de bastões levantados e gritos de intimidação, coisa que, obviamente, apenas ajudaria aquela gentinha a sair por instantes do gueto dentro do qual vai vegetando. Mas, tal como acontece com qualquer quadrilha de criminosos, a polícia e os tribunais devem agir sobre quem viola a lei. Neste caso, aquela que se encontra inscrita na democrática e tolerante Constituição da República Portuguesa. Tão só e nada mais.
Um soco
Por Rui Bebiano in Opinião em 27 de Março de 2007
Portugal, um retrato social, de António Barreto, com a realização de Joana Pontes, é um programa sobre as mudanças ocorridas na sociedade portuguesa ao longo dos últimos 40 anos, do qual a RTP1 transmitiu hoje o primeiro de sete episódios. Um soco no estômago dos esquecidos e dos ignorantes – os verdadeiros salazaristas, esses são duas dúzias e meia e já não contam muito – que se não recordam ou não sabem do que falam. Uma série que o mesmo «serviço público de televisão» poderia e deveria ter começado a passar, pelo menos, um par de semanas antes da lamentável petite finale dos Grandes Portugueses.
Música de intervenção
Por Rui Bebiano in Música, Novidades em 26 de Março de 2007


Parte significativa da música popular dos EUA oferece-nos aproximações a universos incompatíveis com os valores individualistas e conservadores que parecem omnipresentes no quotidiano do cidadão americano comum. Raramente panfletárias, elas indiciam uma diversidade que parece sempre conter indícios de mudança. Dois álbuns magníficos, acabados de sair, permitem-nos observar, ouvindo, esse lado minoritário, habitualmente desconsiderado, ou suavizado, pelos grandes media. My Name is Buddy, de Ry Cooder, conta uma viagem de ida e volta, no tempo e no espaço, até às origens da contemporaneidade americana, aqui situadas nos anos da Grande Depressão: «the days of labor, big bosses, farm failures, strikes, company cops, sundown towns, hobos, and trains». Já Laura Viers, fala-nos, em Saltbreakers, das suas preocupações com o agravamento dos problemas ambientais e perante a cegueira política com a qual todos os dias vai deparando no seu «país inconsciente». Um par de caixas-de-óculos recomendáveis e música da boa.
Blogues: (4) Dating
Por Rui Bebiano in Cibercultura, Etc. em 24 de Março de 2007

O tímido revela-se expansivo, o solitário sociável, o misógino conquistador: como em todos os processos de sedução, também aqui a metamorfose acontece. Na blogosfera fazem-se amigos e conhecem-se pessoas, flerta-se, namora-se, engata-se. Imaginam-se aproximações a homens belos e magníficos, a belíssimas e magníficas mulheres, todos eles aparentemente perfeitos, aparentemente próximos. Tão sensíveis e tão logo ali. Combinam-se encontros em pracetas ou em bares obscuros. Alguns falham, outros permanecem. E a vida de cada um segue o seu caminho. Ou não.
[De um conjunto de doze posts usados durante uma conversa sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra]
Os católicos contra a ditadura: a vez da voz
Por Rui Bebiano in História, Livros & Leituras, Memória em 21 de Março de 2007

Só recentemente se começaram a reconhecer de um modo sistemático as formas da oposição ao salazarismo organizadas à margem da actividade do Partido Comunista ou dos seus aliados tácticos e companheiros de jornada. A capacidade de organização e a tenacidade combativa dos comunistas, associadas às consequências da demonização que deles fazia o regime anterior, contribuíram em larga medida para fazer passar à condição de figurantes as outras formas e os outros espaços de resistência. Sem questionar a importância decisiva do PCP no combate contra a ditadura, é preciso reconhecer que se encontra ainda por estudar, por exemplo, a definição de uma «oposição cultural» crescentemente alargada e diversificada ao longo dos últimos vinte anos do Estado Novo, capaz de definir vivências e imaginários alternativos traduzíveis numa desafectação crescente de parte importante da juventude universitária e urbana, dos sectores artísticos e intelectuais e de muitos elementos das profissões liberais e da classe média. Por sua vez, a dissidência individual, inevitavelmente menos notória, permanece em larga medida por reconhecer, se exceptuarmos referências pontuais surgidas neste ou naquele obituário, ou então em homenagens públicas mais ou menos tardias.
Os grupos organizados têm também permanecido quase na penumbra. A corrente socialista ainda não possui um estudo detalhado sobre a sua génese e desenvolvimento (um livro de Susana Martins constitui uma primeira tentativa). A esquerda radical só recentemente começou a ser objecto de estudo sistemático (principalmente com José Pacheco Pereira e Miguel Cardina), enquanto a actividade dos sectores católicos de oposição, apesar de recorrentemente mencionados e hoje publicamente «representados» na intensa acção cívica de muitos dos seus antigos activistas, continua por conhecer. Se exceptuarmos alguns textos de António Alçada Baptista e de João Bénard da Costa, a importância deste grupo tem sido recordada apenas em evocações episódicas, por vezes de pendor algo nostálgico, como aconteceu na comemoração dos quarenta anos da fundação da revista O Tempo e o Modo.
Um contributo novo e relevante para alterar este estado de coisas acaba, entretanto, de ser proporcionado por Joana Lopes, autora de Entre as brumas da memória. Os católicos portugueses e a ditadura, publicado pela Ambar. [continua em Passado/Presente]
Depressão
Por Rui Bebiano in Apontamentos em 21 de Março de 2007
De acordo com dados fornecidos pelo Infarmed, em 2006 os portugueses gastaram cerca 82 milhões de euros em sedativos, hipnóticos e ansiolíticos. Acontece porém que a depressão, por estes lados, parece ser um factor cultural e uma doença crónica. O mínimo que o Estado pode então fazer, em tais circunstâncias, será aumentar a sua comparticipação neste tipo de fármacos. Permaneceremos sedados, é verdade, mas com mais uns quantos euros no bolso.
Comunismo descartável
Por Rui Bebiano in Opinião em 19 de Março de 2007
A Assembleia Nacional Popular chinesa aprovou, após 14 anos de debates, uma lei que garante idêntica protecção à propriedade privada e à pública. Nada de surpreendente, tendo em conta que a primeira – para Proudhon e Marx, a essência da desigualdade social – passou a ser considerada, desde os tempos de Deng Xiaoping, um instrumento fundamental para o desenvolvimento e uma fonte legítima de enriquecimento individual. O problema é que a política externa da China também se adaptou a uma espécie de realpolitik, tendo desde há muito atirado os sempre obscuros «inalienáveis princípios internacionalistas» para umas quantas notas de rodapé nos livros de história. A dúvida que fica é apenas esta: o que resta então, no «Império do Meio», do socialismo e da utopia comunista? A repressão brutal do pluralismo político e da diversidade cultural em nome do proletariado e do Estado? O sistema penal feroz e inflexível «ao serviço do povo»? A inexistência de sindicatos e de uma comunicação social independente? As coreografias mecanizadas dos desfiles militares e dos espectáculos desportivos? As recepções cerimoniais às delegações dos «partidos irmãos»? Os stands na Festa do Avante? A igualitarização pelo silêncio?
Blogues: (3) Quarto dos brinquedos
Por Rui Bebiano in Cibercultura, Etc. em 17 de Março de 2007

Convivendo todos os dias com a elasticidade dos novos processos da comunicação, muitos dos utilizadores dos blogues desinibem-se e começam a escrever pelo prazer de falar, sem hesitações, por vezes de uma forma quase automática. Ultrapassam os processos morosos da reflexão e da escrita da era pré-Internet, que trocam por respostas rápidas, concebidas como um jogo, transformadas em jogo: a permuta de frases inesperadas, o alarde das pequenas descobertas, a provocação, o ruído repentista, as private jokes, instalam-se como um hábito, como uma linguagem.
[De um conjunto de doze posts usados durante uma conversa sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra]
O regresso das power ballads
Por Rui Bebiano in Apontamentos em 17 de Março de 2007

C. fumava em público e orgulhava-se de não pagar licença de isqueiro. Para o provar, exibia durante cinco segundos um daqueles encendedores espanhóis, de cordão em fibra de algodão, que se guardavam ainda em brasa no bolso das calças. Creio que a chama se extinguia pela rarefacção do oxigénio. E, que me lembre, o único problema detectado consistia, principalmente para os outros, num intrigante cheiro a tecido queimado. Por mim, sempre preferi os fósforos. Até ao dia no qual fiz o upgrade para o meu primeiro isqueiro de usar e deitar fora.
Eu e C. seguimos caminhos muito diferentes. Encontrei-o há dias num almoço revivalista: próspero, continua fumador, mas serve-se agora de um caríssimo Bugatti. Por mim, fiel às origens e para me prevenir das consequências da actual fúria proibicionista, comprei hoje uma dúzia de vulgares acendedores em plástico. Se os novos fiscais dos isqueiros me apanharem, posso sempre inventar que sou fã dos Scorpions e que apenas me sirvo deles para acompanhar power ballads em concertos ao vivo.
Uma cabra, dizem
Por Rui Bebiano in Apontamentos em 16 de Março de 2007

Um livro de Steven Bach, Leni: The Life and Work of Leni Riefenstahl, pretende acabar de vez com a desculpabilização histórica da realizadora de O Triunfo da Vontade, falecida em 2003 aos 101 anos de idade. Para além da sua intensa ligação com o nazismo e com o próprio Hitler (bastante íntima mesmo, é o que consta), Riefenstahl terá sido muito mais – e para pior – do que a sua dimensão plástica nos fez acreditar. Nestes dias de humanização de gente sinistra à custa de muita maquilhagem e de bastantes falhas da memória, parece-me bem que alguém como Bach, um antigo vice-presidente da United Artists, afirme com todas as letras, e procure prová-lo, que Leni «era uma cabra». Pelo menos, para que se não continue a dizer que era apenas uma esteta levemente distraída.
Antifascistas
Por Rui Bebiano in História em 15 de Março de 2007
Um post de Tiago Barbosa Ribeiro sobre a caracterização do «fascismo português», ao qual respondeu João Tunes alargando-se depois a discussão, fez regressar uma polémica que não é tão velha quanto a nossa democracia: é mais velha do que ela, pois vem do próprio pré-Abril. A oposição ao regime nunca se entendeu verdadeiramente a propósito da essência deste, e o labéu de fascismo passou a servir para designar uma ordem que foi «coisas diversas» entre 1926 e 1974. Neste sentido, e sem querer servir aqui de mero «conciliador» – serei suspeito, pois prezo os dois envolvidos – acredito sinceramente que ambos têm razão. Dito de outra forma: com TBR aceito que a experiência autoritária do salazarismo nunca teve a configuração heróica, popular, razoavelmente laica e essencialmente urbana do fascismo italiano (JT também não o negou); com JT reconheço a identificação de numerosos traços do regime, particularmente salientes a partir de 1933, que o aproximam das marcas comuns às diversas «quimeras fascistas», naquilo que de mais radical (e de sórdido, já agora) elas detiveram (TBR também não contestou esta ligação). Uma boa aproximação a esta «unidade na diversidade», capaz de temperar tipologias demasiado lineares, pode ser obtida na leitura de um livro recente mas que, por razões obscuras (mil páginas de texto cerrado também não ajudam a crítica…), tem permanecido na penumbra: Labirintos do Fascismo. Na Encruzilhada da Ordem e da Revolta, de João Bernardo (Afrontamento, 2003).
Em 1976, em O Fascismo Nunca Existiu, livro que gerou imediata polémica apenas porque um certo número de pessoas levou à letra a frase que lhe servia de título, Eduardo Lourenço esclareceu que o regime recém-derrubado poderia «entrar, como outros similares, nessa necrópole histórica etiquetada de fascismo». Julgo ser por aqui que, de alguma forma, se pode encontrar uma justa medida para começar a resolver, sem preconceitos, este aparentemente irresolúvel imbróglio. Para a memória histórica das gerações futuras, como para aqueles que viveram a resistência aos diversos regimes de «tipo fascista», o fascismo perderá a sua referência ancorada num determinado modelo – o italiano, talvez, mas porque não o alemão? (pois que coisa será afinal o nazismo?) – e designará aquela época longa, interminável, de noite e de nevoeiro, no qual as botas ferradas e os cânticos em louvor do Chefe e da Nação, tiveram como única resposta possível uma luta tenaz, constante, corajosa, pronunciada em diversas línguas, pela utopia da liberdade. Todos eles – e poderíamos começar a fazer as contas pelos milicianos e pelos brigadistas da Guerra Civil de Espanha – foram acima de tudo, e independentemente dos cartões partidários (ou da ausência deles), antifascistas. Em Portugal foram muitos, muitos milhares. Contra quê?
Canto gregoriano
Por Rui Bebiano in Opinião em 15 de Março de 2007

Acabava de ler o recém-publicado livro documental e autobiográfico de Joana Lopes sobre a experiência dos «católicos progressistas» durante os últimos quinze anos do Estado Novo (Entre as brumas da memória. Os católicos portugueses e a ditadura, da Ambar). O livro – falarei dele mais adiante – transpira optimismo, por vezes algum humor, tanto mais modelares quanto se sabe dos «tempos difíceis» aos quais se refere. No entanto, fecha com uma espécie de balanço, através do qual a autora nos dá a entender o quanto a falência de um conjunto de propostas que mobilizaram tantas pessoas, de tão diversas gerações, criara em milhares de consciências um sentimento de desilusão, de desesperança e, de certa maneira, de desistência.
Posso, por isso, dizer que me fez bem encontrar no DN as palavras do Padre Anselmo Borges, declarando ser a teologia a «teologia das religiões empenhadas na libertação» e que «o horizonte do diálogo inter-religioso é a libertação-salvação enquanto experiência radical de sentido frente ao sem sentido dos explorados, dos humilhados, das vítimas e da morte.» Relembrou-me Anselmo Borges que, afinal, permanecem entre alguns sectores católicos os horizontes da esperança e da identificação com as causas que aspiram a um mundo melhor e mais solidário. E que, se deles já não faz parte a maioria das pessoas que Joana Lemos recorda no seu livro, outras existem que mantêm algo dessa utopia humanizada que, contaminada pelo espírito da época, instigou tanto entusiasmo durante os anos 60 e 70. Permito-me acreditar que, muitas delas, terão tomado, quase com horror, conhecimento do recente texto de Bento XVI (Sacramentum Caritatis), no qual este renova a desafectação da Igreja em relação ao problema do celibato dos padres (uma velha luta dos sectores «progressistas»), acentua a exclusão dos divorciados da comunidade eclesial, sugere uma complexificação da liturgia e propõe o regresso em força do latim, ou ainda, pasme-se, do canto gregoriano.
Bonsoir, tristesse
Por Rui Bebiano in Recortes em 14 de Março de 2007
«– Qual foi a pessoa que o Mário mais amou na sua vida?
– Infelizmente parece que foi a mim…»
Da «Infografia» (de M. Cesariny), por Miguel Gonçalves Mendes
Blogues: (2) Café
Por Rui Bebiano in Cibercultura, Etc. em 14 de Março de 2007

Qualquer blogue pode ser um lugar de encontro. Recanto de café no qual um grupo de amigos, mais alguns convidados, mais uns quantos desconhecidos, se sentam (ou dele se retiram) sem pedir autorização. Juntos trocam ideias, contam algumas piadas, zangam-se um pouco, partilham as novidades, combinam almoços, idas a um concerto, ao futebol, a uma manifestação. Não jogam partidas de sueca, uma vez que o verdadeiro blogger não pode «perder tempo», pois vive em estado de permanente frenesim. Bebem, fumam, escutam, proclamam, sob/sobre os códigos de uma sociabilidade que simula uma outra.
[De um conjunto de doze posts usados durante uma conversa sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra.]
Oom
Por Rui Bebiano in Apontamentos em 13 de Março de 2007

Contaram-me hoje um episódio triste e lindo, que desconhecia. Pedro Oom morreu em 26 de Abril de 1974, com a emoção de ver libertar os presos políticos da cadeia de Caxias.
Phala
Por Rui Bebiano in Novidades em 13 de Março de 2007

Uma boa notícia o ressurgimento d’A Phala (1# 2007) que promete ser para manter. Formato novo, mais facilmente manipulável, num número que é em larga medida dedicado a Cesariny (incluindo fragmentos irrepetíveis de uma «autografia» e um original de Herberto Hélder). Mais um mesa-redonda e um conjunto de depoimentos notáveis sobre o tema jamais esgotável – e para sempre insolúvel – da tradução. E ainda dois textos, um de São Jerónimo e o outro de Benjamin, pronunciados a propósito do tema.
Info.com
Por Rui Bebiano in Apontamentos em 13 de Março de 2007
O Portal Zone informa-me. ÚLTIMA HORA: Irmã de Oliveira libertada. Calculei logo os horrores pelos quais havia passado uma idosa irmã do realizador, ou a matrona nortenha de bigode, accionista minoritária da Olivedesportos. Afinal tratava-se da mana de um avançado brasileiro do Milan. Não o conhecia, mas admito que a sua existência seja vital para um grande número dos clientes da Optimus.
Antigamente now
Por Rui Bebiano in Apontamentos em 13 de Março de 2007
É Março e um homem dormita, exausto, sentado ao volante de um Fiat 127. Pela janela do carro, um leitor de cassettes soletra para quem passa um velho fado da Maria da Fé.
Homem-borboleta
Por Rui Bebiano in Delírios em 13 de Março de 2007

Chamei alguém de caterpillar. Acontece que o alvejado, para além de ser de vez em quando uma pessoa um pouco agreste, é também um erudito. E explicou-me com toda a calma que aquilo que eu lhe queria chamar não resultava bem, como até aquele momento eu pensara, da sinédoque que em inglês aproxima a lagarta do tractor. Entre os aborígenes australianos – ou, pelo menos entre os que ainda confiam nos seus mitos mais ancestrais – caterpillars, disse, são aqueles que voluntariamente voam até aos céus para descobrirem o que existe para além da morte, regressando depois à Terra sob a forma de borboletas.
Blogues: (1) O eremita
Por Rui Bebiano in Cibercultura, Etc. em 12 de Março de 2007

No princípio o blogger é um solitário. Escreve num registo antigo, vizinho dos velhos diários íntimos, mas destinado a ficar aberto sobre a mesa, a ser visto, a deixar-se devassar. Esta característica assegura a preservação daquele que permanece o tom dominante num grande número de blogues. Uma escrita confessional, pautada sempre pelos códigos do grupo, mais ou menos disseminado, mais ou menos irregular, visível ou invisível, ao qual o seu autor acredita dirigir-se. O blogger é, sob esta perspectiva, um eremita. Habita um ermo, mas com vista para a cidade e visto pela cidade.
[Este é o primeiro de uma dúzia de «postas» que utilizei, de forma aleatória, durante uma conversa pública sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra. Surgem aqui com algumas (pequenas e pontuais) alterações.]
Ebulição
Por Rui Bebiano in Apontamentos em 12 de Março de 2007
Por razões que não sei explicar, um post que se encontrava mais abaixo, levianamente intitulado «That’s entertainment!», evaporou-se e levou sumiço. Com ele foram-se também os comentários de alguns leitores. Mistérios de um backup com o qual a WordPress me ameaçara horas antes. Por via das dúvidas, relembro que apontava ali para um texto de José Medeiros Ferreira sobre os motivos pelos quais este não assinou a declaração pública de alguns historiadores a propósito do concurso Grandes Portugueses. Ah, e declarava também a minha concordância com JMF.
Simulacro e realidade
Por Rui Bebiano in Crítica em 11 de Março de 2007
Parece-me um tanto imoral a utilização recorrente, por parte das empresas de publicidade, de simulacros de notícias – entendendo-se aqui por «simulacro» esse «real», projectado por modelos sem origem na realidade, do qual falava Baudrillard – destinados a produzirem efeitos meramente comerciais. Para além de desviarem desnecessariamente a atenção das pessoas que se interessam pelo que acontece à sua volta, produzem um efeito de banalização que tenderá a depreciar, junto de um segmento significativo do público, o próprio valor do acto de noticiar. Se fosse jornalista, ou chefe de redacção, ou administrador de um grupo económico com interesses na área da comunicação social, preocupava-me um pouco com anúncios tão inócuos, mas apenas na aparência, como este sobre um tal Joaquim qualquer coisa, o «primeiro turista espacial português», que tem vindo a passar nas televisões.
Sulfúreo
Por Rui Bebiano in Apontamentos em 10 de Março de 2007
Segundo Luis Bassegio, responsável por uma organização ligada à Confederação Nacional de Bispos do Brasil, deverá ser espalhado enxofre pelas áreas pisadas por George W. Bush durante a sua actual visita ao país, de modo a «exorcizar o diabo». O hiperactivo e sagaz Hugo Chávez já havia, aliás, relacionado Bush com o capeta: na Assembleia-Geral da ONU, o caudilho venezuelano declarou há algum tempo que a tribuna na qual discursava, utilizada pouco antes pelo presidente dos Estados Unidos, cheirava a enxofre. O mineral amarelado que, de acordo com as descrições bíblicas do Inferno e os sermões exaltados de uns quantos pregadores fundamentalistas, o diabo deixa ficar por onde passa. Sabe-se como a esquerda latino-americana é, em regra, profundamente maniqueísta. Mas torna-se difícil concebê-la assim, medieval.
Um estranho rosto da paz
Por Rui Bebiano in Opinião em 9 de Março de 2007

Nos anos sessenta, a larga maioria das pessoas que, neste país, se importava com aquilo que acontecia para lá das fronteiras marítimas e terrestres – a oposição de esquerda, mais atenta e politizada – acompanhava o conflito na Irlanda do Norte tomando, sem pestanejar, o partido dos «bons» e dos pobres, que eram necessariamente «os católicos». É, aliás, interessante verificar hoje como a maior parte da imprensa portuguesa da época, indefectivelmente católica mas avessa, acima de tudo, à guerrilha urbana do IRA, tomava o partido dos «maus». Isto é, dos ricos «protestantes». Ninguém, de um lado ou do outro, falava então do rosto simpático do Sinn Féin. Como não se falava de um comportamento civilizado dos unionistas.
De entre estes destacava-se, nas primeiras páginas, o perfil rude e colérico do reverendo Ian Paisley, hoje com 80 anos de idade e desde há décadas a voz mais conhecida dos partidários de um Ulster sob o domínio da coroa britânica. Paisley, o inflexível provocador, era, para a esquerda europeia, o arqui-vilão irlandês, a figura do demo em traje de pastor presbiterano, uma chaga na ilha de S. Patrício. Por este motivo, é ainda quase impossível, para muitas das pessoas que possuem uma «memória à esquerda» desse tempo, imaginá-lo agora como o chefe de um governo da Irlanda do Norte capaz de partilhar o poder com Gerry Adams, Martin McGuinness e os antigos «iristas» reconvertidos ao fato e à gravata. Mas parece que é isso mesmo que vai acontecer. Mudam-se os tempos e também as vontades.
Boxe e badminton
Por Rui Bebiano in Apontamentos em 9 de Março de 2007
No mesmo número do mesmo jornal da manhã. Vasco Pulido Valente, na sua reconhecida vertente Caterpillar, demole a RTP (que «sufocou, censurou e suprimiu o Portugal inconformista e moderno») e a sua festa do 50º aniversário («não devia comemorar, devia chorar».) Já Laurinda Alves, na consabida versão Aspilia foleacea que se lhe aceita, afaga a estação cinquentona («foi na RTP que comecei a trabalhar») e elogia a celebração (com «muitas pessoas muito comovidas»). É em momentos assim que dou valor ao facto de não ter de viver na República Democrática Popular da Coreia.
Baudrillard
Por Rui Bebiano in Apontamentos em 9 de Março de 2007

Na morte de Jean Baudrillard (1929-2007), aquilo que de melhor sobre ele se poderá dizer talvez tenha sido resumido num parágrafo do Libération:
«Baudrillard era a própria curiosidade. Não falhava nada, nenhum livro, nenhum artigo, nenhum gesto, nenhuma paisagem, uma exposição, um filme, uma expressão num rosto, uma postura, um fato, um lenço, um logotipo, uma sombra, um ecrã de televisão, um candeeiro a gás, o asfalto molhado da chuva, uma peça de teatro, um conflito político, uma guerrra. Parecia errar, vagabundear num passo preguiçoso, roçar o olhar por tudo, sempre pronto a sorrir de tudo.»
Chama-se a isto viver, parece.
A luta continua
Por Rui Bebiano in Etc. em 8 de Março de 2007

Celebrar, lembrar, relembrar, proclamar, murmurar, calar. Em toda a parte, num dia desigual.
A Torre de Tatlin
Por Rui Bebiano in Etc. em 8 de Março de 2007

Aço, cristal, ferro. Erguendo-se altiva, perturbante, como um manifesto, sobre a cidade de Pedro. A Torre desenhada pelo arquitecto Vladimir Tatlin – uma grande espiral circundando uma pirâmide, um cone e um cilindro rotativos e concebidos para alojar escritórios e salões – deveria ter representado, em 1919, um signo visível da modernidade soviética. E da actividade de um Comintern que, nesse tempo de socialismo primevo, se propunha ainda unificar «todos os meios disponíveis, inclusive armados, para derrubar a burguesia internacional e estabelecer uma República Soviética internacional como um passo transitório à completa abolição do Estado». Recém-instalada em Petrogrado, a futura Leninegrado, a IIIª Internacional detinha uma missão grandiosa e imprevisível que a Torre, de uma forma assombrosa, deveria projectar junto daqueles que a pudessem observar. Jamais foi construída. Como o não foi também a revolução mundial que então se anunciava aos céus e à terra. Em breve os tempos revelar-se-iam outros, menos propícios para magníficas quimeras.

