Arquivo de Março de 2007
Costeando Kamchatka
Por Rui Bebiano in Etc. em 6 de Março de 2007

O velho professor de Geografia gostava imenso de gozar com a nossa ignorância fazendo-nos perguntas absurdas sobre formações geológicas, rios e linhas de costa situados para lá dos Urais. Por causa dele, fui seguindo com o dedo os mapas de um velho Atlas, procurando alguma bibliografia adequada e ganhando uma certa relação de proximidade com paragens ignotas para a maioria dos meus concidadãos. Tornei-me assim, com mais dois ou três colegas da turma, um quase-especialista em questões siberianas, com interesses que se estendiam até ao ao Círculo Polar Árctico e, descendo depois uns quantos milhares de quilómetros, à inóspita península de Kamchatka. Talvez por isso, tenho vindo a seguir, com enorme prazer, Polaris, uma expedição em linha de Eduardo Brito.
Para antes de morrer
Por Rui Bebiano in Crítica, Livros & Leituras em 6 de Março de 2007

Acaba de chegar às livrarias a tradução portuguesa de 1001 Livros para ler antes de morrer, de Peter Boxall. Esta edição, tal como outras que estão a aparecer em diversas línguas, surge corrigida – com alguns cortes e outras tantas adendas em relação à original – mas mantém a mesma intenção de propor «deveres de leitura» que poderão parecer um tanto «de almanaque» mas não deixarão de ter alguma utilidade. Neste caso, com o acréscimo de aqui se referirem as obras pelos títulos (e editoras) das suas edições em língua portuguesa, sempre que estas existam. De uma forma ligeiramente megalómana, declara-se na introdução que a lista apresentada «não procura ser um novo cânon», mas, já mais honestamente, que ela também «não pretende definir ou ser exaustiva acerca do romance» (assim mesmo, num português um tanto nebuloso que transparece aqui e ali). Trata-se, de facto, apenas de um conjunto de possibilidades a explorar. De um plano de hostilidades. Feitas as contas, das 1001 obras concluí haver lido 412. O que significa que me devo aplicar para atacar as outras 589 antes de passar para a banda de além. Ou então que devo manter na estante este volume peso-pesado e continuar a ler sem programa. Pensando bem, creio que será isso mesmo que irei fazer.
Uma verdade inconveniente
Por Rui Bebiano in Apontamentos em 6 de Março de 2007
Uma das formas de censura mais perigosas e perversas é aquela que é feita com o consentimento dos próprios censurados. Não posso deixar de condenar a forma como um determinado jornal diário resolveu ver-se livre de uns quantos colaboradores regulares, deixando no ar a vaga possibilidade de, pontualmente, poder recorrer a eles. Mas incomoda-me igualmente a forma como estes, para não enfrentarem a direcção do jornal e perderem essa eventual possibilidade, ou então por um certo dever de lealdade, entenderam silenciar o facto. Compreendo-os e, para ser sincero, talvez tivesse feito a mesma coisa. Mas como neste caso não tenho obrigação alguma para com a ingratidão e a fraqueza de carácter, aqui fica o apontamento.
Nota posterior: Uma excepção a este «pacto de silêncio» foi expressa por Vítor Dias. Independentemente de me agradar ou não o registo que VD ali exprimia, não posso deixar de destacar a sua atitude.
No ano dois
Por Rui Bebiano in Oficina em 5 de Março de 2007

Um ano. Um ano inteiro a escutar os rumores mais surdos. Cruzando a cidade que apenas dorme. Os médios ligados revelando sombras. Sobrevivendo assim, quase incólume. Quase azul.
Pós-escrito – A todos quantos deixaram comentários de felicitações, citaram o pequeno evento nos seus blogues ou enviaram mensagens pessoais de ânimo e carinho, um sentido obrigado. Tentarei não os (as) deixar ficar mal.
Estranho paraíso
Por Rui Bebiano in História em 4 de Março de 2007

Durante as décadas de 1880-1890, um grande número de judeus lituanos, empurrados pela fome, mas principalmente pelos pogroms promovidos pelas autoridades czaristas, resolveu embarcar rumo a uma prometida e distante América. A partir da experiência do seu próprio avô materno, conta Stanley Price na sua autobiografia (Somewhere To Hang My Hat, publicada em Dublin no ano de 2002) que muitos desses judeus, aportados a Waterford, na Irlanda, acreditavam, levados pelo cansaço da viagem, pela ignorância das distâncias ou pela ânsia de lucro dos seus transportadores, que tinham chegado à terra que lhes havia sido prometida. Anos depois, uma grande parte deles, fechada ainda na comunidade de origem e tendo como única língua o yiddish, continuava a acreditar que vivia na América. E por ali ficou, julgando habitar um paraíso algo estranho.
A OPA e eles
Por Rui Bebiano in Apontamentos em 4 de Março de 2007
Apesar do estrépito mediático, aquela OPA, como qualquer OPA, desinteressou-me de todo. Bem sei que jamais serei próspero e invejado por não ligar muito à vida financeira do país – ou à minha própria vida financeira –, mas talvez seja um pouco mais feliz assim, sem apertos de ventre por causa do valor das acções, diarreias determinadas pela oscilação dos preços do crude, náuseas impostas pelas sequelas de um qualquer golpe de Estado ocorrido no principado de Andorra. Por isso, pouco mexeu com a minha pacata existência a recém-concluída novela (será que foi?) a propósito da oferta pública de venda das acções da Portugal-Telecom. E, em princípio, nem deveria quer saber – como o não querem saber talvez uns 99% dos portugueses – se foi o dr. Granadeiro ou o eng. Belmiro quem ganhou a contenda. Mas, sinceramente, comecei a preocupar-me um pouco quando ouvi na televisão as entrevistas balbuciantes dos accionistas que em assembleia votaram contra as pretensões da Sonae. Soou-me muito a capitalismo «de patrões», e não a atitude «de empresários». A conservadorismo de quem deseja o lucro imediato e tem medo do risco e da ousadia que, tanto quanto ouvi dizer, serão a fonte da fortuna. Mas poderá ser impressão minha. Coisa de ignaro em questões de boa e de má moeda, um tipo que se esquece sistematicamente de abrir os suplementos de Economia.
Busca Fidel
Por Rui Bebiano in Opinião em 3 de Março de 2007

Tanto ou mais eficazes que os processos de censura directa, a manipulação e a sonegação da informação representam dois dos instrumentos centrais utilizados pelos regimes autoritários para controlarem a circulação de uma opinião livre e dos projectos capazes de os contrariarem. Impede-se deste modo o aparecimento e a afirmação de políticas ou de modelos culturais alternativos, criando-se as melhores condições para que a ordem das coisas possa ser perpetuada. Os Estados totalitários do século XX levaram ao limite essa tarefa de apagamento da diferença e de imposição do pensamento único, chegando ao ponto – tal como, de forma extrema, aconteceu no Camboja dos khmers vermelhos ou acontece ainda na Coreia do Norte – de se esforçarem por apagar do horizonte visível pela população toda a realidade não-controlada, situada para lá das fronteiras de um território insulado, vigiado, aterrorizado. Tivemos uma experiência desta natureza no Portugal de Salazar, que algumas vozes têm nos últimos tempos procurado descrever como moderada, e até, de certa forma, benigna.
Será este olhar benigno sobre o controlo das consciências que mantêm aqueles que insistem em conceber a Cuba actual como uma experiência de «democracia possível», de algum modo perfeita pois apenas exclui aqueles que dela não possuem uma perspectiva positiva, ou então que, pela via dessa mesma descrença, implicitamente servem o inimigo americano. A censura existe e os prisioneiros políticos também, mas estes seriam apenas aos «contra-revolucionários», aqueles que se atreveriam a questionar um governo de indiscutível bondade e de irrepreensível perfeição. Só que o pior, o mais duro e sufocante para quem se atreve a sentir-se desalinhado, ou, pior ainda, para as pessoas que não têm a possibilidade de conhecer o mundo para além do canal único de televisão e dos dois jornais controlados pelo Estado, é a omissão da informação. E mesmo a Internet, de acesso circunscrito e vigiado – como acontece também na «moderníssima» China – tem sido integrada neste processo de silenciamento e de controlo. Lembra-o hoje o Público, no novo suplemento Digital, ao revelar-nos o Buscador 2por3 (www.2por3.cu), o Google cubano, que apenas pesquisa nos sites patrocinados pelo Governo de Havana ou pelos media oficiais. Que mantém uma secção que se ocupa apenas com os discursos de Fidel. E que, por exemplo, tem como dez primeiros resultados, se digitarmos «Portugal», duas referências a movimentos de solidariedade portugueses pela libertação dos «cinco heróis cubanos» detidos nos EUA, três à actuação de Portugal no Mundial da Alemanha e cinco a discursos de Castro durante a sua última visita ao nosso país, ocorrida no já longínquo ano de 2001.
