Arquivo de Maio de 2007

Jack

Cap. Jack Sparrow

Em «Nos Confins do Mundo», o terceiro e talvez último episódio da saga Os Piratas das Caraíbas, quase desaparece o humor e o estilo velhaco e tremendamente desajeitado do Capitão Jack Sparrow (Johnny Depp). É pena, pois os melhores super-heróis serão sempre aqueles que se não revelem demasiado graves ou previsíveis.

Liberdade de expressão

Nunca vi uma emissão da Radio Caracas Televisión (RCTV). Sei apenas que se opõe ao populismo chavista, o que, não sendo em si necessariamente bom ou mau, jamais deveria ser crime punível por lei. Também não gosto das posições públicas de muita gente, da linha política de determinados partidos, do perfil e da publicidade de certas empresas, da cara de certos sujeitos que me entram em casa através do ecrã, e jamais me passaria pela cabeça tirar-lhes a voz ou mandá-los prender apenas porque me desagrada aquilo que dizem. Prefiro ignorá-los, mudar de canal, assobiar uma marchinha de Santo António ou dar um passeio de bicicleta. Acredito aliás – pelo menos desde quando dizê-lo poderia custar a liberdade ou a carreira a qualquer cidadão – que a aceitação integral da diferença, ou mesmo da afronta, é um elemento essencial da democracia. E que, quando elas colidem com os nossos direitos, existem tribunais próprios para tratar o assunto. Ou uma opinião pública livre para exprimir o seu próprio juízo. Por isso, considero inaceitável o encerramento do canal pioneiro da televisão venezuelana pelo simples motivo deste ser contra o governo legítimo do país e de o assumir de viva voz.

Sabe-se como grande parte da esquerda populista sul-americana é, no que toca ao respeito pela democracia, herdeira apenas levemente espúria de alguns dos princípios que alimentaram a triste experiência das «democracias populares», mas deveria esperar-se que a portuguesa, num contexto cultural e social muito diferente, e com a experiência de luta pela liberdade que detém no seu lastro, mostrasse outra atitude e, independentemente de defender uma ou outra das partes, assumisse uma posição de princípio sobre a censura imposta na Venezuela. Mas assim não é, como se pode ver: o Partido Socialista fecha-se em copas (diplomacia oblige, dizem), o Partido Comunista exulta e o Bloco de Esquerda limita-se a tomar nota. Afinal quem poderia, entre nós, defender a liberdade de expressão, a verdadeira, aquela sem adjectivos, se tal um dia fosse preciso? A «direita moderna»?

Nota: Fica prometida uma série de pequenos textos sobre a grande traição da nossa esquerda aos seus valores fundadores.

O Alves

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Era um senhor com um tom voz que vinha do passado e gravatas de nó minúsculo. Capaz de comentar um jogo declarando sem um piscar de olhos, para um país com quase quarenta por cento de analfabetos, que «os garbosos mancebos da Briosa executam com elevado pundonor, e quiçá a maior distinção, um futebol deveras estereotipado.» A frase encontrei-a ontem, copiada a lápis numa agenda de 1965.

Sobre os monumentos (3)

Lenine caido

Tal como todas as formas de poder são transitórias também o são o sistema de valores e o conjunto de códigos estéticos que as suportam. A prevista «imortalidade» das estátuas – talvez menos a dos edifícios, sempre recuperáveis com outras funcionalidades – acabará por defrontar um futuro que a irá contestar. O seu derrube consagra então, simbolicamente, os tempos da mudança. A Alemanha e a Itália do pós-guerra, o Portugal revolucionário, a Angola e o Moçambique da descolonização, os países do Leste europeu do período pós-queda do Muro, o Iraque after-Saddam, constituem, com as suas construções descaracterizadas pelos novos regimes e as suas estátuas apeadas e atiradas para lixeiras ou para museus privados, exemplos desse processo que permanecem razoavelmente nítidos na nossa memória. Aspecto igualmente acessório destes momentos de inversão são as mudanças bruscas, por vezes espectaculares, na toponímia local ou nas designações de países, cidades e regiões.

Blogues: (12) Para que servem os blogues?

Blogging

Se a Web possui uma alma ela encontra-se aqui, uma vez que pouco mais nela existe que não possa existir sob um outro formato. Tudo o restante é previsível e apenas torna mais fácil o acesso ao que poderia ser obtido de outra forma: edições electrónicas de jornais e revistas, entediantes frontdoors institucionais e empresariais, repositórios mudos de textos e imagens, catálogos de produtos rapidamente obsoletos, lojas onde tudo se compra e onde tudo se vende. Os blogues podem morrer – e vão morrer – mas com eles desaparecerá um mapa singular e uma língua irrepetível. Deles se dirá um dia que «a liberdade também passou por aqui».

[Último de um conjunto de doze posts usados durante uma conversa sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra]

Cinco blogues que fazem pensar

Thinking_B

Seguindo a iniciativa Thinking Blogger Awards, Pedro Correia, do Corta-Fitas, elegeu A Terceira Noite entre um dos cinco blogues que o fazem pensar. Agora é a minha vez, se bem que, provavelmente, tenha de insistir em blogues que outros já apontaram. (Bom) sinal de que não fazem pensar apenas a mim. Como têm mesmo de ser apenas cinco, aqueles que neste momento mais me provocam são…

O Água Lisa, de João Tunes – a mostrar como é possível ser-se ser militantemente de esquerda sem se ser estrábico (muitas orelhas a arderem)
O Ana de Amsterdam, da Ana (simplesmente) – vá-se lá perceber porque me tenho amarrado a este blogue (e até refere ainda menos livros que o Ípsilon)
O Legendas & Etcaetera, de Carlos Sousa Almeida – desconcertante e jamais conformista (apesar do fundo de página em tom brouillard)*
O Da Literatura, de Eduardo Pitta (ocasionalmente com João Paulo Sousa) – escrito sempre com atenção, sem emendas, como se fosse para o papel
A Natureza do Mal, de Luís Januário e André Bonirre – um pouco anárquico, desalinhado e nada distraído (com saudades da voz desaparecida da Sofia do Mal)

* Entretanto, o L&E migrou e ganhou um aspecto renovado. Menos brouillard portanto. [3/6/2007]

Memória do tango

Tango

Por considerá-lo imoral, em 1910 o governo argentino decidiu proibir o tango. Nessa época eram extremamente populares tangos com títulos másculos, como «Esta noche me emborracho» e «Metele bomba», ou bastante ordinários, como «Tocamelo que me gusta!», «Dós sin sacarla», «Dejamelo morir adentro» e «El 69», o que não é de admirar dado o local de eleição de tangueros e suas acompanhantes ser então a sala comum do prostíbulo. Devido aquela medida profiláctica, renovada algumas vezes até à década de 1950, foram muitos os dançarinos e orquestras de Buenos Aires e de Rosário que se viram forçados a emigrar, levando a música do bandoneón até Nova Iorque, Paris, Londres ou Berlim. Aí foi depurado, maquilhado, transformado em espectáculo de sociedade, retornando a casa mais maduro e asseado como «pensamiento triste que se baila». Mas jamais perdeu o odor canalha. Afinal, Carlos Gardel fez a maior parte da carreira a cantar com uma bala alojada num pulmão e essas coisas não se apanham com correntes de ar.

O caso DREN

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1. Nos sistemas de poder centrados na lógica dos aparelhos, esta tende a projectar para lugares de responsabilidade não aqueles (e aquelas) que são os melhores, mas aquelas (e aqueles) que melhor se movimentam por entre as suas complicadas engrenagens. Em Portugal a situação tem piorado na medida exacta em que o currículo político, em termos de filiação a causas, a convicções ou a programas, deixou de ser critério de valorização. Promove-se principalmente quem se movimenta melhor dentro dos organismos partidários e possua uma pequena «competência» adequada às funções. Se possuir alguma visibilidade mediática, tanto melhor.

2. Não existindo partido de poder inocente, o PS é, sem dúvida, aquele que melhor dá corpo a esta realidade. Existem no Partido Socialista lugares de responsabilidade intermédia sistematicamente atribuídos a gente incapaz de fundamentar politicamente o seu «socialismo», ou mesmo a sua formação democrática, e que por isso mesmo, fora das mais ou menos hábeis proclamações retóricas, jamais os levam em grande consideração. Com a agravante de, dada a origem social e a formação de muitos dos seus quadros, ser este o partido com mais condições para – ao lado da honestidade e da dedicação de muitos dos seus militantes – albergar o pior arrivismo e a mais abjecta arrogância. Os de gente que sobe porque precisa mesmo subir e que se apanhou a mandar de um momento para o outro. Depois dá no que dá.

3. Ainda ninguém foi capaz de explicar como é que a senhora directora soube da «insultuosa» frase do professor afastado. Existem no edifício da DREN microfones nas paredes? Ou será que a única pessoa que estava com o mesmo professor, e que este declarou ontem ser «um grande amigo», ouve vozes e fala sozinha? A delação também pode ser um critério de promoção pessoal. Vem nos livros. É feio, mas eles não se importam. It’s part of the game.

Escrito depois [25/5]: A coluna de Vasco Pulido Valente no Público de hoje refere-se também ao assunto. Nela se incorpora uma informação, diferente daquela dada de viva voz pelo professor visado, e que aponta para a existência de múltiplas testemunhas. Num caso ou no outro, o papel do denunciante é o mesmo. E o do sistema que o aceita também.

Strange weather

Estranho

Sobre os monumentos (2)

Stalin

Dotadas de traços figurativos mais explícitos, as estátuas são monumentos que possuem uma dimensão simbólica vigorosa, podendo facilmente funcionar como «lição». Aí, é o grande vulto (o rei, o chefe militar, o político, o intelectual), ou então o operário em luta, o soldado desconhecido, a mulher heróica, a agregar um conjunto de sentidos propostos sob a forma de mensagens a reter.

Os imperadores romanos e os monarcas absolutos utilizaram o processo, mas foi o romantismo, ao valorizar o papel histórico da nação e do indivíduo, a criar as condições para um recurso sistemático a essa estratégia. Estimulando a criação dos museus e dos memoriais urbanos, tornou igualmente possível a recuperação da dimensão exemplar de determinados momentos do passado, colocando a nostalgia ao serviço da política.

Os regimes totalitários do século passado levaram muito longe esse esforço, utilizando o monumento na tentativa de propagar as metas e as imaginárias conquistas dos seus programas políticos, de traçar o perfil físico e comportamental do «homem novo», de reescrever de cima para baixo a própria história. As artes monumentais fascista e socialista definiram a sua centralidade pedagógica, tornando-a uma prioridade da iniciativa política.

A Leitura e o Leitor (5)

o leitor atento
Leitor atentíssimo na Librairie Shakespeare & Co., em Paris.

O Quê? Onde?

Ainda o espectro do fundamentalismo antitabagista, pois um dado novo faz-me regressar ao tema. De acordo com um estudo divulgado hoje pela Comissão Europeia(*) e noticiado em publico.pt, 9 em cada 10 portugueses apoiam a proibição de fumar em espaços públicos fechados, com uma clara maioria (cerca de 91%) a defender que a interdição abranja restaurantes e bares, e um pouco menos (88%) a exigir que ela seja alargada a aeroportos, estações de metro e lojas. Muito acima da média europeia, segundo parece. O curioso é que o mesmo inquérito revela que os fumadores portugueses — um em cada quatro inquiridos (24%, quando na União a média é 32%) — são daqueles que mais fumam, já que a esmagadora maioria (97%) fá-lo todos os dias, e 38% fumam mesmo mais do que um maço de cigarros por dia (a média comunitária é de 26%). Conclusão lógica: ou uma grande parte dos portugueses prefere fumar em lavabos, vãos de escada, separadores das autoestradas, áreas arborizadas e jaulas do Zoológico, ou alguém andou a gozar os tarefeiros da TNS Euroteste. Não sei porquê, inclino-me mais para a segunda hipótese.

(*) Inquérito feito a 1.006 portugueses, num total de 28.584 cidadãos europeus.

Devaneios eleitorais

Santander

Uma bela ideia a do El País: a de intimar intelectuais originários de certas cidades, no contexto da campanha para as eleições autárquicas que se encontra a decorrer em Espanha, a declararem que coisas fariam eles se por impossível hipótese fossem eleitos alcaides. Não se trata de pedir que emitam propostas «razoáveis», mas sim de permitir que assumam a dimensão programática do seu próprio devaneio. Eis três fragmentos do testemunho da escritora Josefina Aldecoa (preservados num castelhano que sempre nos soa convenientemente estranho e um pouco mágico):

«Si yo fuera alcaldesa de Santander, cerraria sus entradas y obligaria a entrar desde el mar. La Isla de Mouro seria nuestra frontera. Los barcos llegarían llenos de gente y un edicto marcaría que navegaran de noche, cuando su belleza te impacta para siempre y te sobrecoge.

Mi despacho (…) lo instalaría en el Marítimo, rodeada de cartógrafos y navegantes que deseñarían nuevas rutas oceánicas entre Santander y los puertos más lejanos; rutas comerciales y exóticas al estilo veneciano que llenarían de visitantes la ciudad.

(…) Me responsabilizaría de regalar un cuadro de Eduardon Sanz a cada santanderino que viviera fuera, para que tuviera un trozo de mar y no lo olvidara nunca.»

Povo de zombies

dormir

Margaret Thatcher gabava-se de dormir apenas quatro horas por noite. Charles Dickens só conseguia adormecer se o seu corpo estivesse precisamente no centro do colchão, pelo que executava demoradas medições para descobrir o sítio exacto onde se deveria deitar. Marylin Monroe precisava, como é sabido, de muitos comprimidos para fechar os olhos. E, de acordo com a lenda, Ióssif Vissarionovitch Djugashvili velava no seu gabinete pelo destino dos povos, enquanto todo o Kremlin dormia. A maior concentração de insones, porém, encontra-se aqui mesmo: de acordo com estudos recentes, afirmou na televisão a neurologista Teresa Paiva, o povo que menos dorme em todo o mundo é o português. O que explicará, entre outros traços comportamentais, uma crescente tendência para a soturnidade e a depressão. Afinal, sejamos justos, o culpado não é apenas o governo.

Terceiro-mundismo

Nun

Informa o Diário Digital que um padre algarvio anunciou este domingo, na Igreja da Praia da Luz, «a realização de uma oração nacional pela menina britânica desaparecida há 17 dias.» De acordo com a mesma fonte, a Congregação das Irmãs Carmelitas, organizadora da iniciativa, terá entretanto enviado «um e-mail a todas as paróquias do País para se juntarem ao momento de prece.» Percebemos já que a cidadania britânica implica, neste país, formas de discriminação positiva no que respeita à agilidade observada pelos mecanismos de polícia e à atenção prestada pela comunicação social. Fica agora a saber-se que também a Igreja católica portuguesa decidiu abrir uma singular linha directa para tratar o assunto.

Adenda [21/5]: Todos os dias ocorre mais um lamentável episódio nesta infeliz história. Hoje foi a vez de «um minuto de silêncio e reflexão pela menina inglesa». As televisões mostram-no, em toda a silenciosa plenitude, nas filas formadas junto às caixas registadoras dos hipermercados algarvios. Não podemos saber para que servirá tal «reflexão», mas os familiares das muitas centenas de crianças portuguesas desaparecidas deverão tê-la sentido como uma afronta.

Sobre os monumentos (1)

Saddam

O historiador da arte austríaco Alois Riegl considerava o monumento como obra criada pela mão humana com a finalidade de conservar presente, na consciência das gerações futuras, a lembrança de determinada acção ou de uma existência passada que se deseja preservar como modelo. Porém, este objectivo enfrentou sempre uma série de condicionalismos. Desde logo, sendo uma obra de arte pública, o monumento é construído necessariamente por quem detém o poder político ou por um grupo que, mesmo não se encontrando no poder, tem capacidade para impor determinadas formas de reconhecimento do passado. Afinal são quase sempre os vencedores e os fortes os responsáveis pelos monumentos, pois são eles quem possui capacidade para os erguer e, acima de tudo, para os preservar. Os chamados «anti-monumentos», destinados a contrariarem aqueles que possuem uma origem oficial, e por esse motivo dotados de uma intenção subversiva, são inevitavelmente efémeros.

Les derniers condamnés de la cigarette

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Ainda a «terceira via»

Visao de Stalin

Acabei de ler Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via, de Raimundo Narciso, editado pela Ambar. O livro apresenta-se como narrativa pormenorizada de um episódio da trajectória pós-Abril do Partido Comunista Português. Começo por aquilo que nele me parece menos positivo. Retive, logo desde as primeiras páginas, a sensação de que este relato talvez merecesse ter sido publicado há mais tempo, contribuindo dessa forma para ampliar o combate político do qual o seu autor foi um dos protagonistas. Cerca de vinte anos depois dos acontecimentos aqui referidos, poderia também ser agora a altura para propor uma leitura interpretativa e historicamente contextualizada dos acontecimentos, o que aqui não foi feito. Além disso, perpassam por todo o volume vestígios de uma certa «língua de madeira», que nos fala ainda a partir de dentro do léxico comunista. E, como se sabe, o distanciamento crítico passa sempre pelo uso de uma linguagem diversa daquela utilizada no universo do objecto estudado. De qualquer forma, Raimundo Narciso incorpora no seu discurso um forte sentido da ironia, o qual tempera bastante a aridez.

O livro, sublinhe-se, é um testemunho notável, que permite reconhecer alguns dos meandros de um período importante da história interna dos comunistas portugueses. Uma história que, como sempre aconteceu, o aparelho do PCP se continua a esforçar por tornar opaca, repleta de silêncios e de silenciamentos, e de meias-verdades das quais será sempre prudente desconfiar um pouco e que a ninguém beneficiam. Ao longo destas duas centenas de páginas, que se lêem muito rapidamente, como quem lê uma boa reportagem, o leitor penetra num ambiente reconhecidamente «pesado», por vezes de cortar à faca, repleto de instantes de tensão e de desconfiança, vindos do interior de uma organização política que experimentava uma visível dificuldade em aceitar as regras de funcionamento dos partidos democráticos, e na qual a figura de Álvaro Cunhal se destacava ainda como árbitro e tutor, a um tempo inteligente e inflexível. A baixa intensidade de um efectivo debate político interno, essa apenas surpreenderá quem não conhecer a história dos partidos comunistas e a pesada herança leninista-estalinista do «centralismo democrático».

Dirão alguns que esta é apenas uma versão da história e que o seu autor, apesar da profusão de dados e de documentos que revela, estará, afinal, a contar as coisas à sua maneira. É verdade que todos os relatos de acontecimentos vividos pronunciados na primeira pessoa contêm algo de subjectivo e de parcial. Mas, neste caso, os críticos têm bom remédio: que contem então a sua própria versão e confrontem aquela que agora é tornada pública. Todos nós ganharíamos, pois ficaríamos assim a conhecer, de modo mais completo e mais complexo, um momento importante para a história da esquerda em Portugal. Nada acontecerá, muito provavelmente: o PCP já ultrapassou há muito a batalha da qual nos fala agora Raimundo Narciso e limitar-se-á a depreciá-la, enquanto parte dos seus actores vivem hoje outras vidas ou já cá não estão para contarem também como foi.

Adenda: Algumas úteis notas sobre este livro e as suas circunstâncias, escritas por João Tunes, podem ser encontradas aqui.

Blogues: (11) Tarzan e a selva

Selva de Pedra

A blogosfera pode também ser um território selvagem, não isento de logros e de perigos. Uma floresta que apenas ecoa a complexidade da vida que a antecede e permanecerá depois dela se eclipsar para sempre. Em breve, porém, os blogues desaparecerão e serão substituídos por um qualquer outro utensílio que já se encontra algures a ser preparado. Que passará necessariamente pela simplificação e pela massificação de novíssimas e surpreendentes tecnologias. Mas nesta selva ou naquela que vier – como acontecia com Tarzan no seu mundo problemático – serão ainda os humanos, e não bestas, andróides ou forças obscuras, a controlarem os acontecimentos.

[De um conjunto de doze posts usados durante uma conversa sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra]

A Leitura e o Leitor (4)

A possibilidade
Enquanto for possível. Algures nos arredores de Istambul.

Entre Marrocos e a Finlândia

A discussão sobre o «fenómeno de Fátima» permanecerá para sempre inacabada. Parece que tudo já foi dito a propósito das circunstâncias nas quais emergiu, do significado teológico da sua mensagem, do comércio organizado à sua volta, da fé ou da superstição de quem ali ocorre em peregrinações salvíficas ou a pagamento de promessas. O padre Mário de Oliveira tem abordado o assunto com seriedade mas também alguns tiques de prosélito do contra. Fina d’Armada ou Moisés Espírito Santo, no passado, foram muito mais longe na especulação e no delírio «científico». E nesta altura parece difícil falar do assunto sem repetir argumentos e banalidades. Deixo, por isso, apenas dois apontamentos.

Um de indignação, em relação à forma como a maioria das televisões e dos jornais têm tratado o «prodígio», referindo-se aos acontecimentos de 1917 como «aparições» que abordam como a um indiscutível facto histórico. A RTP1, em horário nobre e com o nosso dinheiro, passa mesmo The Miracle of Our Lady of Fatima (1952), de John Brahm, «baseado em factos reais» e que confunde os camponeses portugueses com balcânicos campesinos e os nossos galhardos republicanos com perigosos comunistas, arqui-inimigos bigodudos e ajuramentados da Santa Fé e das inocentes criancinhas.

Um segundo apontamento sobre as pessoas que vi nas reportagens e que fui encontrando por estes dias ao ritmo da condução. Homens de boina xadrez, mulheres de lenço, muitos jovens também, às centenas, aos milhares, a comerem farnéis de broa e chouriço à beira das estradas nacionais (sim, que as auto-estradas, velozes e assépticas, não são para eles). Sentados à sombra de velhas camionetas, de destoante e assertoado colete reflector, parecem saídos do país dual, a preto e branco e marcado ainda por um catolicismo velho e tridentino, de há quarenta anos atrás. E nós que nos imaginávamos já a mais do que metade do caminho entre Marrocos e a Finlândia!

Da memória dos anos do fim

Cracovia

Os períodos de declínio oferecem-nos sempre um rastro de obsolescência. As sombras de quando já nada era como foi, ou se esperou que fosse, e nada é ainda aquilo em que talvez algum dia possa tornar-se. Fica-nos uma sombra de tristeza e de inércia, de teimosia inútil que alguns dos seus sobreviventes continuam a tomar como um resto de grandeza. Vestígios daquela vida-que-o-não-era de Kathrin Sass, a mãe de Alex que recuperava do coma em Good Bye Lenin!, o filme de Wolfgang Becker. Ao mesmo tempo, um sentimento de perda, como quando se reencontra, coberto de pó e das marcas do nosso próprio desleixo, o brinquedo da infância que afinal não havíamos esquecido.

Assim podem percorrer-se, em Windows through the Curtain, as fotografias de David Hlynsky. Ruas sóbrias mas desoladas, a estética pobre das montras das lojas e dos armazéns do povo, as enfadonhas entradas dos nichos da burocracia ou de restaurantes que jamais recomendaríamos a um amigo em viagem, pessoas anónimas e que nos parecem errar por cidades como Moscovo, Sófia, Praga, Budapeste ou Cracóvia. Emergindo, longe dos desfiles nas praças centrais, de uma outra era, daqueles anos de fronteira que preencheram a leste a longa década de 1980. A do fim da utopia que já o não era.

Prazeres roubados

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Cigarette in your Bed [My Bloody Valentine]

Bon vieux B.

Boris Vian

«Dizer idiotices, por estes dias em que toda a gente reflecte profundamente, é a única forma de provar que temos um pensamento livre e independente.» Para lembrar que anda pelas livrarias Boris Vian por Boris Vian, uma compilação de aforismos – este de 1951 –, alguns deles conhecidos, outros dispersos por manuscritos avulsos, daquela pessoa que se fazia passar por um tal de Vernon Sullivan. Seleccionados por Noel Arnaud, traduzidos por Sarah Adamopoulos e editados pela senhora dona Fenda, convém que se diga. A conservar sobre a mesa de trabalho, numa prateleira acessível da despensa ou no porta-luvas do carro.

A grande traição

Turca

Fora das iniciativas que não possam fracturar o «domínio imperial», um sector significativo dessa velha esquerda que se presume remoçada esquece ou despreza muitas das causas que, afinal, poderiam integrar o lado mais nobre e essencial da sua própria tradição. Aquela que não sucumbiu aos crimes sem remissão do estalinismo e dos seus substitutos mortos-vivos. O combate pela liberdade de expressão e de pensamento, pela justiça social como valor indiscutível, pela efectiva aproximação entre povos e nações, a luta pela emancipação face à opressão e ao obscurantismo, tornam-se assim «bons» ou «maus» apenas na medida em que se revelem úteis no cerco à América ou possam servir para enfraquecer aqueles que a combatem. Tudo o mais é irrelevante e pode ser manipulado, como acontece quando se procura transformar seres agressivos e autoritários como Mahmoud Ahmadinejad ou Hugo Chávez em paladinos mundiais da justiça entre as nações.

Um último exemplo desta atitude hipócrita é-nos oferecido pelo silêncio diante do actual avanço dos islamitas na Turquia, na sua tentativa para destruírem os fundamentos do estado laico que Kemal Ataturk fundou em 1923 e instalarem um poder teocrático, inevitavelmente repressivo e, claro, «anti-imperial». As enormes manifestações de cidadãos comuns com uma aparência educada e moderna, de mulheres que se batem para preservarem direitos que não querem perder debaixo do véu islâmico, o medo e a revolta que se instalam entre eles, aqui mesmo às portas da Europa, não parece colher grande simpatia, nem ímpetos solidários, nem palavras emocionadas, desse lado de uma esquerda esclerosada que, cada vez mais, tende a deixar para a nova direita os combates por essa «coisa relativa» que é liberdade individual e o direito à diferença. A alma intolerante e autoritária de muitos dos órfãos de Lenine, o legado da sua matricial obsessão com a dimensão estritamente táctica da iniciativa política, sobrepõem-se à capacidade de indignação diante da iniquidade e às velhas bandeiras da liberdade e do laicismo, pelas quais tantos dos seus, num passado agora longínquo, um dia se bateram. Acontece que «isso agora não interessa nada.»

Marcar a diferença

Nada de espantar no novo slogan proposto pela SIC-Notícias: «Cumprimos integralmente o nosso mandato.» É a isto que se chama marcar a diferença.

A Leitura e o Leitor (3)

Reading Women
Lee Miller e Tanja Ramm, por Theodore Miller (1872-1971)

Ainda Talin

Aquilo que posso responder ao texto de João Tunes, a propósito das conjecturas sobre os acontecimentos de Talin que deixei um pouco mais abaixo, é que concordo inteiramente com ele sem negar aquilo que afirmei. Mas admito que possa não ter sido suficientemente claro. Ou que tenha parecido demasiado ligeiro.

Concordo com o facto de, se isolarmos o que se passou em Talin e aquilo que aconteceu em Santa Comba, depararemos com dois casos historicamente bastante distintos. Seria absurdo negá-lo. Por outro lado, também me parece irrecusável, no que se refere à essência dos dois momentos referidos, o facto de não existir, nem poder existir, «um corte entre a reprodução desejada e a recriação celebrada». Em um e outro dos casos, o passado não foi meramente inventado ou manipulado por quem desceu à rua. Ele existiu, deixou um rastro na memória, e, ademais, vive ainda na condição actual de parte significativa das gerações que dele receberam determinados legados.

Aquilo que pretendi dizer foi que, para grande parte dos que não viveram aquele tempo, ele é em larga medida idealizado e, de alguma forma, reproduzido de acordo com fórmulas simplistas, as quais não integram toda a informação e reagem a estímulos dos media, sobrevalorizando aquilo que parece momentaneamente «útil» em termos políticos. No caso estoniano, os descendentes dos russos são convidados a subvalorizar o horror estalinista, ao qual muitos dos seus antepassados de modo algum permaneceram imunes, em detrimento de um revanchismo nacionalista que a imagem da resistência antinazi ajuda a definir e a legitimar no plano simbólico. No caso português, aqueles que nem os filmes a preto e branco sobre o Estado Novo viram, descem à rua, na sua rejeição da democracia, utilizando o rosto do ditador basicamente para concitar vontades e expectativas que são de agora.

Sobram os mais velhos, que possuem leituras mais complexas e transportam vivências de um passado que não podem esquecer. Mas não são estes quem, ressalvando certos casos que roçam a patologia e o mais profundo ressabiamento, vem para a praça gritar «vivas ao António». Em Talin, pelas imagens que me chegaram, também não são os octogenários que combateram Hitler a vir para a rua atirar pedras às novas autoridades democráticas, embora muitos dos antigos combatentes se possam também sentir indignados pela remoção simbólica de uma parte das suas vidas.

Não me parece que aquilo que defendo tenda a desvalorizar o impacto presente da memória do estalinismo ou do fascismo. Apenas tem em consideração a forma como as imagens do passado são decifradas na actualidade. As lunetas através das quais uma grande parte das pessoas que têm hoje menos de 30 ou 35 anos o observam. E, nestas «coisas da rua», agora são elas que contam.

Blogues: (10) Mangas de escape

Escape

Uma placa giratória erguida como ponto de partida para um algures visível e invisível. Podemos escrever sobre livros e filmes, discos ou concertos. Revisitar debates ou exposições. Falar de caminhadas ao ar livre, de idas à praia, de encontros casuais, de jantares de fim-de-semana. Conhecer causas, manifestos, preocupações privadas ou que atravessam ruas e praças. Ouvir e contar segredos. Em todos esses momentos, vínculos que se criam e definem uma segunda «vida real», situada algures do lado de lá do painel de comandos utilizado pelo blogger. A cliques de distância, nos monitores que permanecem iluminados dia e noite, mais vozes, outros ouvidos, caminhos a percorrer aos quais não seria possível chegar por um outro processo. Linhas de descoberta, certas vezes de aventura. Lugares etéreos de crença e descrença. Mangas de escape.

[De um conjunto de doze posts usados durante uma conversa sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra]

A Leitura e o Leitor (2)

Leitura e Leitor