Arquivo de Junho de 2007
Caramel, bonbon et chocolat
Por Rui Bebiano in Etc., Olhares em 30 de Junho de 2007

O Eduardo Pitta desafiou-me para esta espécie de corrente em formato de book crossing. Cinco livros recomendáveis para ler agora, o mais tardar para a semana.
1. Um pequeno ensaio de George Steiner, O Silêncio dos Livros, publicado originalmente na Esprit, que a Gradiva acaba de editar acompanhado do comentário Esse Vício Ainda Impune (a frase faz lembrar outra coisa, eu sei), de Michel Crépu. Sobre a ligação entre o anunciado fim do livro e a fragilidade, incontornável e eterna, da escrita.
2. A recente edição portuguesa, feita pela Antígona, da História das Utopias, escrita em 1922 por Lewis Mumford. Porque permite recordar que o seu horizonte não se limita à paisagem insuportável das sociedades harmoniosas. E porque nos sugere, ainda e outra vez, que «a nossa mais importante tarefa, no presente, é construir castelos no ar».
3. As Notas de Andar e Ver. Viagens, gentes, países, uma colectânea de artigos e intervenções escritos entre 1904 e 1937 por José Ortega y Gasset, lançada agora pela Fim de Século. Um livro que funciona como uma poderosa chamada de atenção para a viagem atenta enquanto «metáfora substancial da vida inteira».
4. Teenage. The Creation of Youth. 1875-1945, de Jon Savage (conhecido por uma história dos Sex Pistols e do movimento punk), publicado pela Chatto & Windus. A «condição juvenil» entre a literatura, a rua e a caserna, antes ainda dos anos cinquenta. Segundo a Rolling Stone, «the definitive history of youth in revolt, from the gaslight age to the dawn of rock».
5. Um relato familiar, em forma de álbum de fotografias, da autoria de Daniel Blaufuks. Sob Céus Estranhos, uma história de exílio é uma «meditação evocativa e poética sobre a experiência dos refugiados da Europa Central e sobre um sentimento de dispersão em trânsito na cidade de Lisboa e nos seus arredores». Da Tinta da China.
Chamo, mesmo sabendo que alguns não gostam muito de cadeias, a Ana de Amsterdam, o Eduardo Brito, o Luís Januário, o Lutz Brückelmann e, internacionalizando a coisa, o Marcos A. Felipe. Escuto.
A praga
Por Rui Bebiano in Apontamentos, Atualidade em 28 de Junho de 2007
A praga das televendas e afins acaba de ultrapassar a última barreira do inacreditável. Recebi há minutos, em casa, provinda de um número telefónico não identificado, uma insistente proposta – «mas se o senhor não pode agora, qual a melhor hora para podermos conversar?» – para me tornar sócio… da DECO!!! Sim, estou a falar do «Instituto Português para a Defesa do Consumidor». E agora a quem me poderei queixar?
Aproveito para relembrar este post, escrito há cerca de um ano, e que na altura passou quase despercebido.
Certa gente não entende
Por Rui Bebiano in Apontamentos, Atualidade em 28 de Junho de 2007

Este post insiste num tema aqui recorrentemente abordado. Trata-se apenas de (mais) um acto de legítima defesa.
Faço parte de uma minoria. Aquela que hoje é composta, pelo menos na metade ocidental do hemisfério de cima, pelas pessoas que têm o hábito de fumar. Mas dentro dessa minoria, pertenço ainda a uma outra. Uma subminoria, chamemos-lhe assim. Ela integra os que fumam sem ser por vício – queimo cinco ou seis cigarros por dia, mas sou perfeitamente capaz de passar dias sem fumar – e apenas o fazem por prazer ou por um hábito cultural. Sei que somos cada vez menos e não vejo mal algum nisso: ainda bem também há cada vez menos pessoas a fumar. Mas não posso deixar de lamentar a legislação pesada e autoritária (e um tanto fascistóide) que hoje mesmo a Assembleia da República vai aprovar. Porque ela implica com a minha identidade cultural e uma dimensão de liberdade individual que agora vejo coactada. Ainda que, naturalmente, aceite restrições razoáveis que favoreçam os não-fumadores (há uns bons dez anos, por exemplo, que deixei completamente de fumar em aulas e reuniões).
Por tudo isto me incomoda particularmente uma posição como aquela expressa por um articulista que o Público coloca hoje ao mesmo nível de Vasco Pulido Valente (partindo embora de um ponto de vista radicalmente oposto). Declara ele a dado passo que nada custará a um fumador prescindir do seu cigarro nos escassos 15 minutos em que possa parar algures para tomar um café. Para mim, porém, é mesmo aí que bate o ponto: acontece que existem pessoas que não «passam» apenas uns minutos por um café, entre duas tarefas de um quotidiano de permanente stress, mas que «vivem» horas em cafés. Para conviver, trabalhar ou, simplesmente, para olhar para anteontem, opção que me parece democraticamente aceitável e que os desempregados conhecem muito bem. Trata-se de uma marca cultural que o ocidente foi construindo pelos menos desde os inícios do século XVIII e que, em outras partes do planeta, mantém ainda alguma pujança civilizacional. Mas isto, certa gente, perdida nos seus intermináveis projectos e balancetes entremeados por «um cafezinho», simplesmente não entende.
Socialismo pelo esgoto abaixo
Por Rui Bebiano in Atualidade, Opinião em 27 de Junho de 2007

Há alguns meses atrás, da actividade de uma outra (ou seria a mesma?) comissão patrocinada pelo governo e financiada com dinheiros públicos, tinha transpirado a recomendação peregrina de fazer aumentar em flecha os descontos dos trabalhadores para a segurança social, diminuindo imenso os salários reais. Agora, a Comissão para o Livro Branco das Relações Laborais, ao fim de dois anos de reuniões devidamente remuneradas, concluiu «cientificamente» que a solução para o saneamento do mundo do trabalho se encontra em medidas como a redução das férias de 25 para 23 dias úteis, a simplificação dos despedimentos, o fim das diuturnidades e a transferência para os privados da responsabilidade pelas reformas dos trabalhadores. Não me espantará que o próximo passo seja sugerir que os funcionários que não recebam a classificação de «excelente» vejam reduzido o horário do almoço, usem um indicativo visual e/ou passem a auferir de metade do vencimento. Quanto aos deveres dos «empregadores», claro, nem uma palavra. Toda esta conversa de defensores da destruição selvagem do welfare state é patrocinada por um governo que nas últimas eleições ainda se declarou «socialista». Tudo isto com o silêncio dos defensores dessa sacrossanta «modernização» (tendência «Joe Berardo», presumo) que vale por si mesma, esmagando as pessoas que deveria servir. Será que esta gente quer mesmo recuperar a luta de classes dos confins da nossa história recente?
Adenda – Este post não é alarmista. Sei perfeitamente que governo não irá avançar, pelo menos nos tempos mais próximos, com medidas legislativas que possam dar seguimento a todas estas propostas. Mas o simples facto delas existirem, de serem produzidas no contexto da actividade de uma comissão de iniciativa governamental, e de, lamentavelmente, o Partido Socialista não ter aberto a boca sobre o assunto, parece-me muito preocupante.
Oskar
Por Rui Bebiano in Cinema, Olhares em 26 de Junho de 2007

Werner em 1966 com Julie Christie, «a mulher que tinha uma sósia em Lisboa»
Revi ontem Oskar Werner na RTP2. Como Fiedler, o judeu agente da STASI, ao mesmo tempo repugnante e idealista, que em O Espião Que Veio do Frio, o filme de Martin Ritt baseado no primeiro romance mundialmente conhecido de John Le Carré, tenta contrariar as manobras ardilosas de George Smiley e do MI6. É estranho como a presença cinematográfica deste austríaco, desaparecido em 1984, sempre me pareceu um tanto perturbante, provocatória mesmo. Tinha tudo para me desagradar: o olhar vítreo, a voz nasalada e metálica, um inglês incomodativo com uma vaga acentuação germânica, um aspecto de roedor que me provocava pele de galinha. E, no entanto, algo deste actor, hoje semi-esquecido, perdura como único na memória que preservo do cinema do século passado.
Hiper-realismo gatofedorentista
Por Rui Bebiano in Apontamentos em 26 de Junho de 2007
Os quatro cidadãos acusados de ter agredido Francisco Assis, o ex-presidente da distrital do Porto do PS, em Maio de 2003, declararam hoje no Tribunal de Felgueiras a sua inocência. De acordo com a Lusa, os arguidos Casimiro Sousa, alfaiate, Joaquim José Rodrigues, sapateiro, Agostinho Gonçalves Sousa, empregado de balcão, e Manuel Pereira de Sousa, vigilante, disseram ter sido mal compreendidos, uma vez que as suas poses de braço no ar ou punho cerrado junto ao agredido ficaram a dever-se «ao facto de terem sido empurrados e de se terem levantado com o braço estendido ou de estarem a tentar agarrar pessoas que se encontravam à sua volta». Afinal, coitados, eles «apenas queriam ver Francisco Assis» – como se sabe, praticamente todos os portugueses ainda hoje o desejam – e «queriam mesmo ajudá-lo a sair do meio da multidão».
O S. João e a broa de Avintes
Por Rui Bebiano in Apontamentos, Delírios em 25 de Junho de 2007
Lamento Tiago (Barbosa Ribeiro), mas nunca percebi, e continuo sem perceber, o que de especial, ou de particularmente democrático, tem a «folia» sanjoanina do Porto. Apesar de já a ter experimentado algumas vezes, chegando a madrugar sujo, suado e namorado em Matosinhos. Sempre a achei uma festa desenxabida e popularucha, com toda a gente a noite inteira a caminho de lado algum, a fazer de contas que está muito feliz e assaz contente. Por isso mesmo o Estado Novo a tolerava sem problemas. E agora, como dizia uma festeira raçuda entrevistada pela televisão, «divertimo-nos muito, senhor: damos umas marteladas e comemos sardinhas». A comparação com o Santo António lisboeta é inevitável: este é também um vestígio de um passado pouco edificante, ainda muito marcado pela intervenção folclorista do SPN/SNI, que de positivo tem apenas o facto de não ser apresentado, como acontece com o S. João no Porto, como «a festa de toda uma cidade». Quando vejo os assomos de «pimbalhismo» e de afirmação provinciana e palonça de uma dada identidade em que se transformaram estas paródias – aproveitadas, além do mais, pela pior demagogia eleiçoeira –, recordo sempre uma frase que ouvi há alguns anos numa estação regional de rádio: «Dizem que em Avintes só há broa, mas há mais, há muito mais do que isso: também há broa com chouriço».
Livro de memórias pouco comum
Por Rui Bebiano in Crítica, História, Livros & Leituras, Memória em 24 de Junho de 2007

Enquanto lia as 598 páginas e as 2.296 notas em letra pequeníssima de Pessoa Comum no seu Tempo, o livro de memórias de João Freire que a Afrontamento acaba de editar, percebi que partilhava com ele, sendo dez anos mais novo, muitas das referências da infância e da pré-adolescência. O conhecimento directo ou indirecto de muitas das figuras mencionadas, as primeiras e as segundas leituras, os hábitos comuns, determinadas imagens, valores ou maneiras de dizer, provam que, no Portugal das últimas décadas da vida biológica de Salazar, quase tudo permanecia imutável. Recordei também que, tal como o autor embora mais brevemente, passei pela experiência do serviço militar, da deserção, do trabalho operário, da militância na esquerda radical e da vida universitária. Só não estive exilado porque, in extremis, o 25 de Abril me poupou esse incómodo, quando a mala já se encontrava feita e alguns contactos estabelecidos. Estes factores determinaram, assim, uma abordagem do livro que jamais poderia ser «distanciada». Tentarei ser apenas justo.
Começo por anotar dois aspectos que conferem a Pessoa Comum no seu Tempo uma marca absolutamente peculiar. Por um lado, este é um relato de uma meticulosidade, de um pormenor, evidenciando uma tal capacidade de memorização, que, se não o tornam único, pelo menos o inserem no pequeno núcleo de textos memorialistas portugueses capazes de produzirem uma abordagem efectivamente exaustiva do passado vivido pelo autor. Ao mesmo tempo, existe aqui algo de igualmente raro, traduzido numa relação de aparente disparidade entre a vida invulgar que se descreve e uma escrita que se pode qualificar como conservadora, se não mesmo anacrónica, na sua relação com o lugar geracional e o percurso específico do autor. Para além de que lhe falta também um cuidado, no domínio do trabalho literário, que todo o texto memorialista deve conter, de forma a mais facilmente partilhar com o leitor os momentos singulares e os estados de espírito. Detecta-se em muitos momentos uma discursividade enfática, por vezes convencional e socialmente situada, certas vezes quase obsequiosa, que prejudica a fluidez da escrita e lhe retira alguma capacidade para absorver o leitor. Este é, porém, um aspecto que acaba por se revelar de reduzida importância.
Em tudo o mais, de facto, este volume revela-se absolutamente excepcional e, como se verá adiante, de uma grande utilidade. Estrategicamente, reúno os seus seis capítulos em três blocos, cada um dos quais é desenvolvido através de processos diferenciados de codificação semântica que lhe são próprios. O primeiro deles refere-se aos antecedentes familiares, ao meio social de origem, à infância e à adolescência do autor, à sua entrada no meio militar e à sua vida como oficial da Marinha, até ao momento em que decidiu desertar do teatro de guerra em Moçambique, bem como à sua carreira desportiva (capítulos 1, 2 e 3). O segundo bloco respeita à sua intensa vida como exilado político em França e ao percurso político que o haveria de conduzir ao anarquismo (capítulos 4 e 5). O último bloco reporta o trajecto de João Freire (JF) como sociólogo e professor universitário (capítulo 6).[Continua em Passado/Presente>>]
Jornalismo (este e o outro)
Por Rui Bebiano in Crítica, Opinião em 23 de Junho de 2007

A entrevista feita por Alexandra Lucas Coelho que saiu no último Ípsilon a propósito de mais um romance de Baptista-Bastos, retoma algumas questões recorrentes sempre que se fala deste (ou com este) jornalista e escritor. Começo por dizer que não sou um seu grande admirador: não aprecio particularmente o estilo da escrita (convém dizer que BB gosta muito de Agustina, Saramago e Mário Cláudio, três escritores portugueses que sinceramente dispenso dos meus planos de leitura), tal como não gosto do tom paternalista e auto-referencial da sua forma pública de falar com os outros e dos outros. Também me distancio de um certo “conservadorismo de esquerda”, marcado pelos requebros de casmurrice e de nostalgia que o caracterizam. Ao mesmo tempo, porém, concordo e simpatizo com algumas das suas posições públicas, nomeadamente com aquelas em que associa o lugar cultural do jornalista (e do jornalismo) a uma atitude de intervenção na vivência da cidadania.
É este aspecto que volta a ter um grande destaque nesta entrevista, ao ponto do suplemento incluir um depoimento de Miguel Sousa Tavares e um artigo de Adelino Gomes nos quais ambos, e particularmente o segundo, procuram contrariar a repugnância de Baptista-Bastos pela defesa do distanciamento e da «santa objectividade» (uma expressão utilizada positivamente por Mário Mesquita) como chaves do «bom jornalismo». Não chego ao ponto de dizer que concordo inteiramente com esta repulsa, pois reconheço que, muitas das vezes, sem um esforço de imparcialidade o jornalismo cai facilmente no panfleto ou, pior ainda do que neste, no território da asneira. Mas parece-me também que o jornalismo engagé e «de tarimba» – não apenas de escola superior, mas de formação, sensibilidade e experiência – faz muita falta para alimentar um nervo mobilizador do interesse (e da paixão) do público, ajudando este, ao mesmo tempo, a definir e a tomar posições. Preferia ler jornais onde um e outro dos estilos pudessem competir na captação de leitores e na diversificação da opinião. Não apenas o jornalismo padronizado, asséptico, «técnico», no qual já nem sequer a diferença determinada pelo estilo e pela personalidade do jornalista muitas vezes se percebe. É este jornalismo que Baptista-Bastos detesta, criticando-o em nome desse outro jornalismo do qual se sente cada vez mais a falta. Eu, pelo menos, sinto.
Perigo polaco
Por Rui Bebiano in Apontamentos, Atualidade em 22 de Junho de 2007
Os mesmo responsáveis polacos que querem fazer com que os outros países europeus paguem pelo facto da Segunda Grande Guerra os ter impedido de terem hoje o dobro da população e de serem uma potência de primeira grandeza na União Europeia (mais habitantes igual a maior força negocial), querem agora colocar 20.000 prisioneiros a trabalharem – presumo que não em regime de voluntariado – na construção de novos estádios, hotéis e acessos rodoviários para o Europeu de futebol que em 2012 a Polónia organizará em conjunto com a Ucrânia. E parece que não percebem a incoerência e a monstruosidade da proposta.
Sansão pode dormir descansado
Por Rui Bebiano in Apontamentos, Olhares em 22 de Junho de 2007
Não tenho na certeza de ser dos carecas «que elas gostam mais», como afirmava uma popular marchinha do Carnaval carioca. Ou, pelo contrário, de acordo com o velho anúncio de um restaurador capilar, se afinal já não é deles «que elas gostam mais». Ou mesmo se «elas» serão «eles», ou se «eles» serão «elas». Sabe-se hoje que a calvície de padrão masculino – conhecida por certos humanos um tanto excêntricos como alopécia androgenética – afecta cerca da metade da população dos homens maduros, e, para além disso, que determinadas máquinas eléctricas muito fáceis de utilizar e de manter podem agora transformar qualquer cabeça numa versão hermafrodita de Yul Brynner, o actor conhecido por, entre as décadas de 1950 e 1970, encarnar personagens cujo exotismo requeria uma cabeça inteiramente calva. Assim aparece Brynner numa fotografia, por sua vez retirada do filme homónimo, reproduzida na capa da edição que tenho de Tarass Bulba, a história ficcionada do herói dos cossacos do Don, que Nokolai Gogol escreveu, Mário Braga traduziu e a Portugália editou no distante ano de 1964.
Pelo menos na Europa e nas Américas, a ausência de cabelo já não pode agora ser associada à perda de poder e à submissão, ocorridas com os velhos, os prisioneiros e os soldados. Pode até ser instrumento de afirmação de um erotismo raro e energético. O novo Sansão deve temer a sua Dalila por outro motivo que não o inesperado corte cerce da sua indispensável guedelha. Mais do que nunca, o uso notório de cabeleira postiça passa por factor anti-higiénico de incómodo e de mau-gosto, que ridiculariza e marginaliza quem dele se serve. Inexplicavelmente, porém, um grande número de humanos continua a utilizá-las como recurso para esconder uma calvície que imagina incompatível com a imagem de eterna juventude ou de suposta virilidade que deseja preservar. Hoje, no ecrã de plasma que preenchia quase por inteiro uma das paredes do restaurante em que almoçava sozinho, fez-me pena ver o aspecto patético de Burt Reynolds – já sem o vigor dos tempos em que era Caine no filme Shark!, de Sam Fuller – exibindo em público um capachinho feiíssimo e, como todos eles, completamente fora do tempo.
Sobre os monumentos (6)
Por Rui Bebiano in História, Olhares em 19 de Junho de 2007

Cartaz estónio pré-1953
Svetlana Boym tem estudado a dimensão energética da nostalgia, ajudando-nos a entender melhor os processos de manipulação política da arte monumental. Em The Future of Nostalgia, distingue claramente a forma como o senso-comum encara aquela que chama de «nostalgia passiva» – marcada pela melancolia, observando o presente pela negativa e o passado como uma dimensão na qual é possível encontrar os melhores modelos – de uma «nostalgia dinâmica», capaz de olhar este mesmo passado «em tensão» e servindo-se dele para carregar sinais que alimentam as representações e as causas do presente. Num tempo em que o conhecimento histórico tem vindo a recuar ao mesmo tempo que cresce o interesse pelo passado, é cada vez mais fácil detectar momentos nos quais esta dimensão dinâmica da nostalgia emerge, armando muitos movimentos e correntes de opinião interessados em manipularem o passado para alcançarem alguns dos seus objectivos programáticos. E reparar na forma como uma parte importante da comunicação social morde o isco sem grandes problemas de consciência.
Wikipédia – modo de usar
Por Rui Bebiano in Atualidade, Cibercultura, Olhares em 17 de Junho de 2007
O suplemento Digital do Público divulgou um conjunto de artigos sobre o processo de construção e a forma de funcionamento da Wikipédia. Assim mesmo, com acento agudo, pois foi principalmente a versão em português da enciclopédia online que foi referida. Aspectos como a credibilidade, a originalidade ou a relevância dos contributos foram ali abordados e devem, sem dúvida, suscitar algum exame crítico. Mas prefiro falar do assunto a partir de uma outra perspectiva.
A experiência como professor tem-me permitido observar, a propósito do funcionamento da Wikipédia, três comportamentos que me parecem preocupantes: 1) um número crescente de alunos utiliza-a como fonte praticamente única de conhecimento em relação a determinados temas leccionados, situação que é agravada pela impreparação da maioria dos docentes para se aperceberem desta realidade; 2) são poucos os alunos que têm consciência do carácter incompleto, por vezes falacioso ou mesmo erróneo, de muitos dos artigos; 3) para piorar as coisas, a esmagadora maioria destes utilizadores serve-se apenas da versão em português, quase sempre incomparavelmente mais pobre do que as versões em inglês, em francês ou em castelhano (para referir apenas aquelas que consulto mais vezes).
Incentivo os alunos a utilizarem a Wikipédia. É um óptimo ponto de partida para o estudo e para a preparação de aulas ou de trabalhos, uma vez que se trata de um processo acessível, barato e que pode abrir inúmeras pistas em hipertexto a aprofundar posteriormente (os links oferecidos, por exemplo, são muitas vezes bastante mais interessantes e úteis do que o são as próprias entradas). Mas apenas como muleta, para se guiarem, ou para encontrarem referências que se cruzam com a informação que recolhem em sites mais fiáveis ou noutros suportes. E aviso sempre que, na correcção dos trabalhos ou das provas, estarei atento ao copy-paste desonesto que a curto ou a médio prazo se volta sempre contra quem dele se serve (não garantindo apanhá-los todos, naturalmente, mas isso eu não devo dizer). Tento desta forma evitar que este instrumento se transforme num factor de desastre, valorizando-o ao mesmo tempo, como ele efectivamente merece. Ignorar o assunto, ou fazer de contas que ele é irrelevante, é que me parece perigoso.
Irrelevância em Gaza
Por Rui Bebiano in Atualidade em 15 de Junho de 2007
Para quem – sempre mais ou menos os mesmos – se aplica tanto em mostrar-se imparcial perante a «luta de facções» que avassala o território da Palestina, parece ser irrelevante o facto de o Hamas, após ter tomado posse da faixa de Gaza, ali ter imediatamente instalado a sharia e começado a executar pessoas. Será apenas um pormenor? Um sintoma respeitável da multiculturalidade palestiniana? Uma lamentável desavença entre irmãos «moderados» e «radicais» suscitada pela intromissão ocidental e pelas iniciativas israelitas? É muito estreita a linha de fronteira que separa a teimosia, a cegueira e a má-fé.
Chamo a atenção para este post do Tiago Barbosa Ribeiro e para o comentário de Luís Januário.
O Diário de Maria Bashkirtseva
Por Rui Bebiano in Apontamentos, História em 15 de Junho de 2007

Maria Konstantinovna Bashkirtseva (1858-84), filha de uma família da nobreza russa, nasceu na Ucrânia mas passou grande parte da sua breve vida a viajar pela Europa. Estudou pintura em Paris, onde produziu uma obra notável, quase inteiramente destruída pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial. Sob o pseudónimo Pauline Orrel, também escreveu para o jornal feminista La Citoyenne. Mas foram as suas cartas, e principalmente o diário que manteve desde os 13 anos, que a tornaram uma figura única no seu tempo, levando Jon Savage, em Teenage, a considerá-la pioneira da emergência de uma nova consciência do lugar e do papel da jovem. Escreve ela no Diário: «Incendiar todas as coisas, exasperar-me, chorar, sofrer todos os dias, mas viver, e viver!». E mais adiante: «Estou cansada da minha própria obscuridade. (…) Definho na escuridão. O sol, o sol, o sol!» Maria insurgiu-se de forma consciente e solitária contra a vitoriosa ordem burguesa e a poderosa definição arquetípica de uma feminilidade assente na auto-repressão, na resignação e na vida confinada ao espaço doméstico. Hoje quase esquecida, terá sido uma das primeiras a fazê-lo.
Al Berto e a outra Coimbra
Por Rui Bebiano in Coimbra, Crítica, História, Olhares em 14 de Junho de 2007
«Vocês são mesmo ordinários, foda-se!». Foram as palavras de um Al Berto em «fúria controlada», quando, em 1992, foi vaiado por um grupo de estudantes universitários, soi-disant irreverentes e mais ou menos etilizados, durante uma sessão de leitura de poesia que decorria em Coimbra. A mesma Coimbra onde o poeta, morto há dez anos, nascera em 1948, e cuja Câmara Municipal proclama agora o «Museu da Irmã Lúcia» e o concurso local de Misses como parte integrante do seu roteiro cultural. A minha cidade tem também destas tonterias, mas o problema não é com ela, garanto. É (tem sido) apenas com alguns dos seus habitantes (verdadeiros ou putativos).
O lamentável episódio foi gravado e pode ouvir-se aqui (16m08s):
| [audio http://media.switchpod.com/users/jorgeppires/AlBerto17011992.mp3] |
A recordação do momento e esta gravação chegaram-me através d’A Origem das Espécies, de Francisco José Viegas, e foram inicialmente colocadas em linha, no blogue Frenesi – Livros, por Paulo da Costa Domingos.
O imenso adeus
Por Rui Bebiano in Delírios em 13 de Junho de 2007

De repente tornara-se invisível. Como acontecera com a sua própria sombra, também o olhar dos outros deixara de o perseguir. Podia agora sorrir, ou acenar, ou imitar o voar oblíquo dos pássaros, sem que lhe perguntassem porque o fazia.
A Grande Traição
Por Rui Bebiano in Crítica, Opinião em 13 de Junho de 2007

A pergunta parece gasta, mas não excedeu ainda o prazo de validade. Poderemos continuar a integrar, como instrumento do combate social e da representação contemporânea do mundo em mudança, o binómio esquerda-direita? A melhor forma de responder à questão talvez seja pensá-la colocando de lado os apriorismos que transformaram «esquerda» e «direita» em ídolos ou em meras etiquetas. Porque a identificação da «esquerda» e da «direita», e a actualização do seu perfil, são tarefas bem mais complexas que o simples enunciar de profissões de fé apoiadas na invocação de símbolos ou de tradições.
E são-no ainda mais neste presente fluido que relativiza práticas e valores, perturbando o universo mais simples no interior do qual as duas categorias historicamente se separaram. Afinal, Bush e Blair contestam a restrição dos direitos humanos e apelam à redução das desigualdades, ainda que tenham contribuído para as aprofundar. Ao mesmo tempo, Castro e Chávez praticam o autoritarismo e o silenciamento daqueles que se lhes opõem, apesar de serem apresentados por alguns como paladinos da democracia. O CDS fala de liberdade de expressão, enquanto o PCP relativiza constantemente o conceito. Os partidos socialistas e social-democratas permanecem erráticos, com programas repletos de expressões vagas utilizadas para fins eleitoralistas, rapidamente substituídas por atitudes pragmáticas na gestão do quotidiano, de acordo com aquela que consideram ser uma «perspectiva moderna» da política.
Foi-se, de facto, o tempo das barricadas, quando as bandeiras pareciam cravadas nas mãos certas e no seu lugar natural. Mas devemos fazer a crítica desta ambiguidade recorrendo a um processo de separação que nos ajude a compreender onde se distanciam ou começam a confundir-se a defesa dos princípios essenciais dos programas políticos e a prática da mais sórdida demagogia. Colocando o problema no campo do que é essencial, Norberto Bobbio considerava que, em última instância, a distinção entre direita e esquerda acaba sempre «por se converter na distinção entre sagrado e profano», dentro da qual se inserem outras diferenças, como «a que existe entre ordem hierárquica e ordem igualitária, e entre comportamento tradicionalista, favorável à continuidade, e comportamento voltado para o que é novo ou progressista, favorável à ruptura, à descontinuidade». Esta é, no fundo, a sobrevivência da tradição divisória que vem da Revolução Francesa e que, sem coagir em demasia a procura de novos caminhos, nos pode ajudar a separar as águas e a encontrar uma alternativa, questionando a traição aos princípios fundadores sem deles fazer territórios inamovíveis.
Procurarei abordar aqui – num conjunto de posts obrigatoriamente diferidos no tempo – o modo como, no campo da esquerda, essa grande traição se tem vindo a afirmar. Viajarei pelo processo de perversão de alguns dos seus fundamentos, apoiados nos ideais de liberdade, de tolerância, de igualdade, de laicidade, de emancipação ou de progresso. Justamente aqueles que, permanecendo marmóreos nas declarações de princípios, têm vindo a ser subvertidos pelos movimentos e pelas experiências que continuam a reivindicar a parte mais substancial da sua herança.
Sobre os monumentos (5)
Por Rui Bebiano in História, Olhares em 13 de Junho de 2007

Nos países sob regimes democráticos, onde se verifica algum respeito pela diferença de opiniões e pela transitoriedade dos valores, o mobiliário monumental tem começado a atenuar a expressividade simbólica que sempre incorpora. Os edifícios construídos são mais funcionais e voltados para um diálogo com as populações envolventes, a agressividade figurativa das estátuas é reduzida, ocorre uma maior preocupação com o reconhecimento social e com o confronto com a paisagem. Isto atenua o carácter demasiado afirmativo e panfletário, acentuadamente polémico, que estas construções assumem noutras circunstâncias. Porém, a suavização da mensagem dilui ao mesmo tempo o impacto do objecto, convocando um mais rápido esquecimento.
75 anos connosco
Por Rui Bebiano in Apontamentos em 12 de Junho de 2007

Sem ela não seríamos bem aquilo que somos. Nem os nossos dentes brilhariam da mesma forma. A fórmula da Pasta Medicinal Couto foi elaborada pelo gerente da sociedade Flôres e Couto, sediada no Porto, com a ajuda de um dentista amigo, visando evitar «nomeadamente as infecções das gengivas», e foi registada em 13 de Junho de 1932. 75 imperturbáveis anos de vida, se exceptuarmos, em 2001, o episódio da retirada da designação «medicinal», imposta por normas comunitárias. Também ajudou a defender o império servindo-se de «um artista português» que passou a integrar a nossa memória colectiva.
Bocejo em horário nobre
Por Rui Bebiano in Crítica, Opinião em 12 de Junho de 2007
Um dos pequenos dramas domésticos mais comuns consiste em desejar ardentemente cortar o som da televisão, ou mudar o canal, e não se saber onde raio poisámos o telecomando. Foi o que me aconteceu ontem, obrigando-me a ouvir em alta gritaria, durante alguns minutos, Notas Soltas, a entrevista de Judite de Sousa a António Vitorino que a RTP transmite todas as segundas-feiras. Calculo que este seja um dos programas com mais baixo nível de audiências da televisão portuguesa, apesar de ir para o ar em horário nobre, de anteceder o popular concurso Um Contra Todos, e de muitos cidadãos, em função do título da rubrica e do nome do entrevistado, poderem legitimamente pensar que a conversa verse os meandros da música erudita. A previsibilidade absoluta das ideias, que apenas repetem em modo afável o discurso oficial do governo, a incapacidade para ser-se convincente, mobilizador ou sequer, como Marcelo Rebelo de Sousa, um bom entertainer, transformam aquela meia hora num suplício a requerer medidas céleres de higiene doméstica. E é aí que entra (ou deveria ter entrado) o bendito telecomando.
Os meus «Seis Dias»
Por Rui Bebiano in Apontamentos, História em 10 de Junho de 2007

Com catorze anos de idade eu não podia ter uma posição política que se esforçasse por parecer coerente. Talvez por isso, ou graças às «leituras para rapazes» que ocupavam a maior parte do meu tempo, em Junho de 1967 ainda sentia um grande entusiasmo pela guerra e pelos guerreiros que imaginava a povoá-la. Não aquela guerra que sabia travar-se no «nosso Ultramar» e que já então me parecia soturna, sem vislumbre de finalidade ou de grandeza, mas as guerras que se assemelhavam às dos livros. Partilhei pois – na altura, com muitos outros portugueses comuns – uma certa atracção pela dimensão heróica da Guerra dos Seis Dias. Passei aquela semana agarrado à rádio, combinando a escassa informação que chegava através da Emissora Nacional e do Diário de Notícias com as proclamações indecifráveis e contínuas, acompanhadas de música marcial, que, através da onda curta, provinham, presumo, do Cairo ou de Tel-Aviv. Entrevi dias depois, em escassas imagens da televisão, o júbilo dos soldados israelitas. Mais ao longe, uma nuvem de poeira que o locutor de serviço dizia ser a infantaria egípcia em retirada. Lamentei que tudo tivesse acabado tão depressa. E rejubilei com a vitória militar daquele que era então – alguns dos que conservam alguma memória da época já o terão esquecido – um pequeno povo perseguido de «judeus imundos», confinado a uma língua de terra árida e demasiado ensolarada.
O rosto visível daquele delírio juvenil, que só depois soube tratar-se do prelúdio de um outro drama que nada teria de romanesco, era o do misterioso general Moshe Dayan. Com a sua inconfundível pala de pirata (substituindo o olho vazado no Líbano durante a luta contra os francesas colaboracionistas), um permanente mono-olhar de gozo e sobranceria, a mesma postura descontraída e operacional que vislumbrei depois nos muitos oficiais-generais do exército israelita que ganharam as suas estrelas dividindo o tempo entre o ar condicionado dos comandos e um quotidiano vivido em ininterrupto estado de guerra. Dois anos depois, já via a Guerra dos Seis Dias de uma forma crítica, percebendo como ela tinha incubado o ovo da serpente – e como o «espírito de aventura» preludiara afinal uma proeza extremamente perigosa – mas ficou-me, para sempre, sob o retrato daquele herói que não saía dos livros e do passado mas de uma realidade imediata que os imitava, a percepção vivida, da dimensão estética, inebriante e tremendamente perigosa da guerra. Da forma como ela pode catalisar tomadas de posição bruscas, irracionais e irreversíveis. Tal como, actualmente, o reconhece aquela parte da oposição política israelita que ainda é capaz de conceber uma paz que mais ninguém parece desejar.
Adenda: o homem «humanizado»
Palavras cruzadas (ainda os blogues)
Por Rui Bebiano in Apontamentos, Atualidade, Cibercultura em 8 de Junho de 2007

Aceito parcialmente a crítica de José Pacheco Pereira a certos malefícios do metabloguismo, particularmente aos vícios do «amiguismo». Não significa isto, porém, que seja contra a partilha de ideias e de cumplicidades entre escrevedores de blogues. Elas constroem solidariedades e ampliam a visibilidade daquilo que se publica, possibilitando uma interacção muitas vezes enriquecedora. Reconheço que também não gosto de ver livros referidos apenas porque a ou b sugere que o façamos. E depois ver o favor a ser pago à luz do dia. Como não aprecio banalidades de notáveis transformadas em memoráveis citações, enquanto textos bem escritos e de gente inteligente permanecem ignorados. Mas considerar que este tipo de situações traduz nesta altura um «significativo empobrecimento da blogosfera» – na qual ocorreram fases bem piores de maledicência e boataria que levaram até à desistência de excelentes bloggers – parece-me injusto e exagerado.
Um livro contra a fé
Por Rui Bebiano in Crítica, História, Livros & Leituras, Opinião em 7 de Junho de 2007

Não é fácil defender a importância de uma obra como esta. Quando se multiplicam os livros, discursos, colóquios, debates e números de revistas que pretendem colocar em diálogo islamismo e cristianismo, ou que intentam provar «cientificamente» que se completam, e quando a defesa da laicidade parece confinar-se à teimosia de uns quantos excêntricos fora do tempo, não é fácil declarar, e tentar demonstrar, que ambos são males transportando consigo, em quaisquer das suas múltiplas formas, a opressão e a guerra. Mas é isso que procura fazer o filósofo americano Sam Harris em O Fim da Fé. Religião, Terrorismo e o Futuro da Razão, recém-editado pela Tinta da China.
Um dos argumentos centrais deste livro aponta para o carácter negativo de um novo dogma, do qual são portadores os «crentes moderados» e também aqueles que, não sendo pessoas de fé, entendem a religião como uma área intocável e essencialmente positiva da experiência humana: uns e outros «imaginam que o caminho para a paz só será desbravado quando cada um de nós tiver aprendido a respeitar as crenças injustificadas dos outros». O que leva Harris a declarar, e a propor-se mostrar, que, ao invés, «o próprio ideal de tolerância religiosa (…) é uma das principais forças que nos arrasta para o abismo».
Numa recente entrevista ao suplemento Babelia, Fernando Savater afirma, reciclando o velho aforismo de Marx, que «mais do que ópio, a religião é cocaína». Isto é, ela não se limita a anestesiar, a entorpecer, mas é capaz de produzir estados psicóticos produtores de uma suspensão do tempo e de ilusões com um elevado potencial de violência. O livro de Harris parte também, de alguma forma, do entendimento da religião como uma doença, e como uma doença perigosa, cujo alastramento é favorecido por dois mitos que procura desarmadilhar: o primeiro associado ao facto da maioria de nós acreditar «que é possível retirar coisas boas da fé», o segundo vinculado à crença de que as coisas terríveis que por vezes se cometem em nome da religião «são produto, não da fé em si mesma, mas da nossa natureza mais ignóbil (…) em relação à qual as crenças religiosas constituiriam o melhor (senão mesmo o único) remédio».
Todo o volume se constitui então como um tentativa de destruição do mito da «moderação» religiosa e, ao mesmo tempo, como um enunciado do grau de inadequação ao mundo contemporâneo de todas as religiões do «Único Deus Verdadeiro», as quais, aliás, pressupõem sempre «uma ignorância enciclopédia da história, da mitologia e até da própria arte» e impelem o outro, a todo o instante, para um lugar, tolerado ou combatido, de menoridade política e de inferioridade cultural. Se ele se afirmar como apóstata, então a solução será a exclusão ou a morte.
Particularmente examinados são, para além dos traços essenciais da matriz judaica, os fundamentos e as práticas, passados e presentes, do islamismo e do cristianismo. E aqui a crítica é impiedosa, procurando provar o seu carácter arcaico, o potencial de violência que integram, e a periculosidade das posições daqueles que buscam compreender, quando não aceitar, os seus mais terríveis excessos. A argumentação, que recorre constantemente aos textos sagrados, bem como aos discursos e às práticas dos líderes políticos que procuram na religião os fundamentos das suas opções, é verdadeiramente esmagadora, embora, frequentes vezes, bastante perturbante para aqueles que foram educados num universo laico mas tolerante em matéria de religião. Ao mesmo tempo, o recurso constante a factos do passado recente integra o debate em volta dos antigos mitos na discussão sobre os acontecimentos contemporâneos que os invocam e com os quais nos temos visto, e continuamos a ver, constantemente confrontados. Afinal, pergunta o autor, «quando será que nos iremos aperceber de que a indulgência do nosso discurso político em relação às crenças religiosas nos impede de mencionar, quanto mais de erradicar, a fonte de violência mais prolífica da história?»
A presença dos cristãos fundamentalistas na administração americana é mostrada em muitos dos seus assustadores detalhes, mas a crítica do Islão é, sem dúvida, a mais agreste. Tendo em linha de conta a tese proposta, afinal, de que outro modo poderia ser, se, como se sabe, é neste campo que as coisas têm agora ido mais longe? As palavras são duras: «Ao reflectirmos sobre o Islão e sobre o risco que ele representa para o Ocidente, deveríamos imaginar o que seria preciso para vivermos pacificamente com os cristãos do século XVI. Com homens ainda desejosos de perseguir as pessoas por crimes como a profanação da hóstia ou a bruxaria. Estamos hoje na presença do passado. Conseguir estabelecer um diálogo construtivo com estas pessoas, convencê-las dos nossos interesses comuns, incentivá-las a seguir o caminho da democracia e a celebrara diversidade mútua de ambas as nossas culturas, é tudo menos uma tarefa simples.» Tarefa esta que o autor não enjeita, ainda que não se mostre muito optimista em relação aos seus possíveis resultados.
O argumento de Harris faz também cair por terra a ideia de acordo com a qual, resolvidas as desigualdades ao nível da distribuição da riqueza e do desenvolvimento económico, as contradições religiosas desapareceriam, ou, pelo menos, os extremismos que actuam neste campo ver-se-iam isolados e reduzidos a uma expressão residual. O autor mostra como estes aspectos pouco interessam às massas ignorantes de crentes e como os líderes religiosos que lhes alimentam a credulidade e a ferocidade frequentam um universo quase invariavelmente protegido, informado e próspero.
No final do livro, dois capítulos mais densos mas não menos polémicos debruçam-se sobre a essência do fenómeno religioso e sobre o valor positivo de uma espiritualidade liberta da religião. Outro tenta enunciar uma posição positiva no sentido da definição e alargamento de um grande campo de combate cultural à presença e à influência das religiões. Um interessante posfácio procura ainda rebater algumas das principais e previsíveis críticas, muitas delas com um recorte de grande violência, que foram feitas após a saída da primeira edição deste livro, vencedor do Pen Award para a não-ficção de 2005 e grande êxito de vendas. No mundo onde é possível editar livros destes e debater estes temas, evidentemente.
Femme fatale
Por Rui Bebiano in Cinema, Delírios, Olhares em 7 de Junho de 2007

A femme fatale, avisam os livros, é atraente e sedutora. Um pouco intimidante também. Com um charme capaz de enredar amantes e vítimas, sem remissão possível, numa teia de situações comprometedoras e sempre razoavelmente perigosas. A deusa suméria Ishtar já revelava os atributos, marcando o nascimento histórico do mito masculino que envolve sentimentos misturados de medo e desejo. De Dalila e Salomé a Mata-Hari e a Gilda (uma inesquecível Rita Hayworth no filme de Vidor), o trajecto foi longo e bastante complicado para uma longa lista de homens apenas brevemente felizes, irremediavelmente perdidos.
O mascarado e o da triste figura
Por Rui Bebiano in Apontamentos, Opinião em 7 de Junho de 2007

Tendo-lhe sido perguntado, em entrevista da revista Sábado, se se identificava com o Zorro ou com D. Quixote, José Sá Fernandes, o protagonista da «candidatura alface» do Bloco de Esquerda à Câmara de Lisboa, afirmou, como era de prever num candidato partidário a alguma coisa, «com o Zorro porque tinha os pés na terra». Sendo grande a minha simpatia pelo herói mascarado – mais ousado até do que Sá Fernandes o pinta (sobretudo na versão de Isabel Allende) – sinto principalmente a falta de Quixotes. Um dos problemas de algumas das forças que a dada altura pretenderam renovar a política activa e a participação dos cidadãos talvez advenha mesmo destas não lhes darem grande atenção. O espectro gélido de Lenine paira ainda em muitos horizontes.
Voz no deserto
Por Rui Bebiano in Atualidade, Opinião em 7 de Junho de 2007
Admito que a afirmação do ministro Mário Lino a propósito do «deserto» situado abaixo do habitat das senhoras tágides tenha sido, para além de politicamente controversa, uma valente gaffe. Mas já deu para entender que ML habita, ele próprio, um outro deserto: o dos «homens públicos» com sentido de humor e alguma propensão para a introdução de critérios de subjectividade no sempre previsível discurso de Estado. Considero isso extremamente saudável e até lhe agradeço a singularidade. E, claro, não deve pedir desculpa coisíssima nenhuma por ter dito aquilo que disse e como o disse. Será bom até, para a saúde mental da Lusitânia, que o faça mais vezes. Ainda que depois se veja forçado a corrigir o tiro. Se mais políticos agissem com este estilo, talvez a opinião pública lhes prestasse uma maior atenção. A maioria deles, porém, simplesmente não é capaz de o fazer. Ou então vive de mãos atadas e de língua presa.

