Arquivo de Junho de 2007

Os dias da rádio

Radio Days

Sobre os monumentos (4)

Salazar
Salazar em Santa Comba nos idos de 70, decapitado e florido

Se a valorização positiva de determinados sinais é transitória, é-o também a sua negação. Muitas das vezes, a destruição dos velhos símbolos é posta em causa por sectores da sociedade a quem um determinado passado suscita um efeito de sedução. Pode então acontecer que determinados grupos – menos conformados com a ordem vigente, mais identificados com algumas causas – evidenciem uma vontade de recuperação dos monumentos destruídos. São formas de pensamento nostálgico que suscitam esse tipo de retorno, e a nostalgia pode afectar tanto as pessoas que viveram um dado passado como aquelas que o não viveram mas que aceitam, muitas das vezes sem qualquer intervenção da crítica, as imagens que dele lhes são oferecidas. O combate pela afirmação identitária – política, cultural, religiosa, étnica, geracional – determina então a vontade, mediada pela intervenção do simbólico, de um «regresso ao passado».

Riso kafkiano

Conta John Banville, no seu livro sobre Praga, que quando Kafka começou a ler excertos de O Processo a um grupo de amigos, foi acometido de um tal ataque de riso, logo à primeira página, que acabou por desistir da leitura. Algo me terá escapado na história soturna de Joseph K.

Vidros partidos

Rostock

Protestos como os de Rostock, contra a cimeira do G8 a decorrer na estância balnear de Heiligendamm, são sem dúvida perturbantes. Mas, de alguma forma, são também úteis e necessários. É difícil perceber o sentido que podem tomar, tal a heterogeneidade das correntes que se manifestam, das suas formas de organização, dos seus objectivos específicos, das suas (por vezes) estranhas cumplicidades. É difícil também aceitar sem problemas a violência extrema que encorajam, ou a presença inquietante dos grupos proto-terroristas que os penetram. Mas funcionam, na tradição de uma «rua europeia» ampliada pela caixa de ressonância dos media, como um sinal de resistência perante uma ordem política mundial incubadora de excluídos, aos quais apenas oferece vagas possibilidades de requalificação e a imprevisibilidade do amanhã. Importa, apesar de tudo, que ao conforto climatizado das salas da reunião, ou à quietude adormecida dos nosso lares, chegue, de vez em quando, o fragor de uns quantos vidros partidos.

A ucronia depois da utopia

Depois das Utopia
Moscovo, 1990. Fotografia de David Hlynsky.

Ver para respirar

Kapuscinski

Quando, em nome de uma «objectividade» asséptica ou de uma lógica de amanuense, a escrita jornalística foge a alta velocidade do compromisso e da emoção – esquecendo, ou ignorando, legados como os de Reed ou de Orwell – apetece-me recomendar, e sem reservas, a leitura de um livro de Ryszard Kapuscinski editado há cerca de dois anos pela Campo das Letras. O volume possui um título, O Império, que o aproxima das estantes áridas da ciência política, e foi precisamente numa delas que o encontrei.

Entre 1989 e 1991, o jornalista polaco-bielorusso fez uma série de viagens por uma União Soviética já moribunda. Recuperando a sua própria memória de textos mais antigos, e associando-lhe a observação arguta e sensível de um mundo a mover-se à sua frente em rápida espiral, Kapuscinski deambulou por territórios muito diversos, cuja efervescência a acção uniformizadora soviética apenas escondera. O resultado final foi uma obra próxima do soberbo, sobre um mundo imenso que desaba, por entre tremores de cólera e vestígios de esperança. Poucos jornalistas são capazes de captar, e de descrevê-lo com arte como Kapuscinski o faz, tantos e tão sucessivos instantes de um realismo intenso e de pura poesia. Como neste instante arménio: «Volto para o hotel. É uma tarde suave e cálida dos princípios de Outono. Multidões de pessoas passeiam. Estas ruas, esta cidade, exalam um ar benévolo. Num dos recantos, na maior escuridão, brilham umas brasas incandescentes. Junto a um forno de ferro está sentado um rapazinho. Prepara shashlik, o churrasco de carneiro. Os seus grandes olhos negros olham fixamente o fogo. O seu olhar fascinado, quase ausente, como que longe do lugar e do tempo.»

Cinema noir-engagé

Film Noir

Segundo o Correio da Manhã, João Botelho está a preparar, em conjunto com a jornalista Leonor Pinhão, um filme que será uma adaptação livre do best-seller Eu, Carolina. De acordo com o realizador, o título provisório é Corrupção, «uma homenagem a Fritz Lang, que dirigiu Big Heat», e pode definir-se desde já como «um filme negro, ao estilo dos policiais americanos dos anos 40». Pinto da Costa e Carolina Salgado estarão, como será de calcular, no epicentro da trama. Conhecendo-se o «ultra-benfiquismo» do realizador e da sua mulher, é de esperar uma obra de cinema noir-engagé.

Música nocturna

Radio Head

Na década passada fiz muitas e longas viagens de condução nocturna tendo como banda sonora a música encantatória da Íntima Fracção e a voz poética, ocasional, do seu autor, Francisco Amaral. O programa, no ar desde 1984, andou pela Antena 1 e pela TSF, recebeu diversos prémios, perdeu o sinal nacional quando passou para a Rádio Universidade de Coimbra e a ESEC Rádio online, e regressa agora a todo o país na grelha de um renovado Rádio Clube Português. Mantém um blogue próprio, através do qual é possível fazer-se o download integral dos programas em formato mp3. Com esta versão podemos, aliás, viver a experiência rara de mergulhar na noite à luz do dia. Em directo, a Íntima Fracção passa todas as semanas de domingo para segunda-feira, entre a meia-noite e as duas da madrugada. Nem se pergunta se recomendo.

[audio= http://www.esec.pt/radio/programas/intimafraccao/if_audio/IF280507p2.mp3]

As frequências: Aveiro 94.4 – Beja 106.4 – Braga 92.9 – Coimbra 98.4 – Faro 106.1 – Leiria 96.4 – Lisboa 104.3 – Portalegre 106.7 – Portimão 107.1 – Porto 90.0 – Sabugal 94.8 – Santiago do Cacém 107.5 – Vila Real 97.4

A sete chaves

O governo do Irão acaba de proibir os académicos do país, todos eles, de contactarem cidadãos estrangeiros. Os motivos invocados são explicados de um modo muito directo: «os nosso docentes estão expostos a ameaças de espionagem», diz uma fonte governamental, e além disso «qualquer cidadão estrangeiro que estabeleça contactos não é de confiança». A paranóia instalada como eixo da razão de Estado não é uma experiência nova. Há mais disso por aí. Mas as lições do passado recente não deveriam ter caído assim tão facilmente no esquecimento.

A Leitura e o Leitor (6)

comboio
O comboio das 18H10.