Michelangelo

Agora a morte de Michelangelo Antonioni (1912-2007), o realizador que nos ajudou a ver, como afirmou certa vez, «a realidade em termos que não são inteiramente os do realismo». Jamais esquecerei o trabalhador abandonado, infeliz e errante, de O Grito. Ou a paisagem industrial opressiva, mas ao mesmo tempo tão desmedidamente bela, de O Deserto [...]

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Uma tradução drôle

Li Drôle de Jeu há muito tempo. Numa edição francesa que um amigo me emprestou, convencido que a leitura do romance de Roger Vailland faria de mim – como o fez de muitas pessoas mais ou menos da minha geração – um verdadeiro militante das causas da esquerda e do antifascismo. Não foi o romance [...]

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Silêncio e solidão

Silêncio e solidão marcaram sempre, para sempre, a obra de Ingmar Bergman (1918-2007). Saindo do cinema numa noite de inverno, no país rectangular e pronunciado em surdina, seguia pensando – lembro-me muitíssimo bem – em silêncios mais remotos mas não menos difíceis. Em solidões menos impostas mas igualmente fatais e insuportáveis.

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Dois amores

Uma é loira e a outra morena, mas tomo à letra o delírio antemortem do Luís Januário. Também eu confundo muitas vezes a Anna Magnani e a Monica Vitti. O analista havia de gostar de saber desta associação, mas fica só entre nós.

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Tour de France

Dantes gostava de ciclismo. Às vezes com algum amigo, outras vezes sozinho, uma das minhas brincadeiras nas longuíssimas férias de verão consistia em fazer corridas com umas pequenas bicicletas de plástico colorido movidas a golpes de dados. As provas, que incluíam até um prémio de montanha, viviam principalmente dos duelos entre o sportinguista João Roque [...]

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«Hay que tenerlos»

Tão rápido no intento de humilhar os funcionários públicos reduzindo-os à condição de culpados de todos os males da nação, e aceitando que sejam afastados aqueles que em palavras ou actos desrespeitem a «nova ordem», o governo continua a condescender com o tom ostensivamente agressivo e provocatório usado pelo funcionário público Alberto João Jardim para [...]

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mundo_novo.mp3

Por muito que se desdobre em declarações ameaçadoras e incentive atitudes repressivas por parte dos governos, a indústria fonográfica tradicional está com a corda na garganta. Com a generalização da Internet e da banda larga, as capacidades áudio dos novos telemóveis e os versáteis leitores de MP3, a venda de música pelos processos tradicionais entrou [...]

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Geração rasca

Sem a repercussão do artigo de Manuel Alegre, passou quase despercebida a entrevista de António Arnaut ao semanário Visão. No entanto, desprovida do tom aparatoso e plangente de Alegre, ela parece-me muito mais pedagógica e, ao mesmo tempo, capaz de evidenciar o profundo desencanto da geração dos fundadores com os caminhos que vem seguindo o [...]

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Prokofiev revisto

Soube por João Tunes, sempre atento aos meandros da agitprop em curso no rectângulo pátrio, que na próxima festa do Avante! – a qual terá como original e actualíssimo tema «90 anos da Revolução de Outubro, a luta dos trabalhadores e dos povos pela Paz, a Democracia, o Progresso e o Socialismo» – diversas iniciativas [...]

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Com que voz

Liga-me aquilo que Manuel Alegre representa um conjunto de sentimentos contraditórios. Não aprecio o estilo grandiloquente (que já apreciei, aliás, quando ouvia os mesmíssimos tom e timbre de voz na Rádio Voz da Liberdade). Não gosto dele como poeta (embora reconheça a importância simbólica e patrimonial da sua «poesia de combate»). Não sinto grande empatia [...]

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Fases

Nessa época era muito magro, naturalmente tímido, e só lhe apetecia ver filmes franceses a preto e branco, com sequências filmadas em manhãs de inverno (de preferência chuvosas) e actores de estatura mediana que usassem camisolas de gola alta como Jean-Louis Trintignant.

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O carvão, «futuro da humanidade»

Apesar das naturais incompatibilidades da atitude surrealista original perante a moral e a estética do leninismo e do comunismo soviético – as quais levaram Aragon, Pierre Unik, Éluard e Tzara, a abandonarem as suas convicções originais para deixarem de ser simples compagnons de route e se tornarem militantes – é conhecida a fugacidade da aproximação [...]

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Edmund e a memória

O Foguetão foi um semanário juvenil de grandes dimensões, impresso a cores e com o caderno exterior em papel couché, fundado e extinto em 1961. Foi a primeira publicação portuguesa a divulgar tiras do Astérix, preludiando a avalancha da BD franco-belga que chegaria a seguir. Lembro-me que tinha uma particularidade da qual gostava muito: utilizava [...]

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A Leitura e o Leitor (10)

Reading, part 2.

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Mais distante que a Índia

O programa de rádio Antena Aberta, de Eduarda Maia (Antena 1), resolveu esta manhã colocar em debate as recentes declarações públicas de Saramago propósito da utopia, ciclicamente retomada por uns quantos quixotes, de uma Ibéria una e plural. Para que não existam dúvidas, declaro que, nas suas linhas mais gerais, a ideia do escritor colhe [...]

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Sapatos vermelhos

Diante do recém-editado livro autobiográfico de Zita Seabra (ZS) é muito difícil sustentar um registo de equidade crítica quando a maior parte do que lemos insinua uma rejeição que nem sempre é boa conselheira. Como seria de esperar, a recusa apriorística da possibilidade de ler o livro instalou-se, de imediato, entre pessoas mais ou menos [...]

Nostalgia de Sexta de manhã

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Deselogio das aspas

Crónica publicada em 2002 na revista electrónica NON!, aqui retomada com pequeníssimos retoques. Não é fácil sinalizar a escrita. Arrumar as palavras, separando-as com pontos, vírgulas, pontos & vírgulas, hífenes ou travessões, mais dois pontos, parênteses, colchetes… reticências. Mas também com aspas (« »), esse adorno – análogo às comas duplas ou vírgulas dobradas (” [...]

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Circo-Maravilhas

Na Europa e nos Estados Unidos, onde existe uma menor necessidade política de erguer fictícias grandezas, mas também no mundo islâmico, no qual o próprio conceito de grandeza se mede por diferentes padrões (e o acesso aos grandes media é muito condicionado), a maioria das pessoas pouca ou nenhuma importância atribuiu à «eleição» das 7 [...]

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A vida em rosa

O mais bem-humorado título relacionado com a apresentação dos novos equipamentos cor-de-rosa do «clube da águia» – e que brinca também com os comentários, de tonalidade explícita ou veladamente homofóbica, que sobre o tema têm circulado sobretudo na blogosfera – saiu no Inimigo Público desta semana. Sugere apenas o lamento desesperado e triste – «Ai [...]

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O sumiço da utopia

Existe um livro de João Martins Pereira – No Reino dos Falsos Avestruzes, editado em 1983 pel’A Regra do Jogo – que, apesar de visivelmente datado sempre que refere determinados aspectos da vida política portuguesa da época, merece ser revisitado com alguma atenção, suscitando o reencontro com um padrão de reflexão política hoje praticamente inexistente. [...]

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Gina, a Lollo

Nascida em Subiaco, uma aldeia perdida do Lázio interior, e filha de um pacato carpinteiro local, Gina Lollobrigida teve uma vida mais luminosa e movimentada que a das suas amigas de infância. Em 1947, com 19 anos, foi dama de honor, ao mesmo tempo que Gianna Maria Canale, num extraordinário concurso de Miss Itália ganho [...]

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Sem vergonha

Num passado ainda recente, na prática dos grandes partidos institucionais, certas coisas pensavam-se e faziam-se, mas não se diziam. Existia, ao nível do menor denominador comum da opinião pública, uma ética que descriminava quem verbalizava ideias, quem propunha atitudes, que contrariavam os fundamentos da vida democrática. Esses tempos passaram, e, como todos eles, foram substituídos [...]

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A Leitura e o Leitor (9)

Born in USA.

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Demofobia

Através do João Tunes, cheguei a este texto do Marcelo Ribeiro. Uma espécie de carta-aberta, e um testemunho muito pessoal, exprimindo uma indignação e uma preocupação que democraticamente partilho. Embora ainda considere mais indigna, e mais preocupante, a sórdida legitimação da «bufaria», por parte de diversos responsáveis do partido do governo, que a repetição deste [...]

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