Arquivo de Julho de 2008

Road Movie [2]

Banda sonora: Boy is Fiction – Tomorrow Not Today
[audio:http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2008/07/03-tomorrow-not-today.mp3]

Ingrid livre (epílogo)

Já foi divulgada a posição do PCP. Faço inteiramente minhas estas palavras. Abjecto será também um bom qualificativo.

PS – Esta posição é ainda mais explícita e sincera, como seria de esperar. Repare-se na nuance semântica: os prisioneiros das FARC não eram «detidos», mas sim «retidos». E a cidadã Ingrid apenas um vil «membro da classe dominante colombiana», que obviamente merecia a cela-modelo na qual teria estado «retida» sempre «em boa saúde».

História a duas vozes

Publicado originalmente em Caminhos da Memória

O número de Julho-Agosto do Magazine Littéraire transporta consigo, para além de um notável dossiê sobre as conexões entre humor e literatura, a reprodução de uma conversa – «L’Histoire, victime de la mémoire?» – entre o académico Pierre Nora, actual director da revista Débat e autor do incontornável Les Lieux de la Mémoire, e Élie Barnavi, professor da universidade de Tel Aviv e conselheiro científico do Museu da Europa, em Bruxelas. Mais do que a exposição de duas formas absolutamente opostas de olhar a relação entre memória e história, ela serve para ajudar a desmistificar a ideia segundo a qual esta última é um saber frio e unívoco, do qual os valores da subjectividade e da cidadania se devem manter desejavelmente afastados.

Traduzindo os destaques (que sugerem muito bem o tom de toda a conversa a duas vozes):

Barnavi: «A História tem sido notificada para se colocar ao serviço da memória. Esta apropriação da História parece-me uma das características mais graves da nossa época.»

Nora: «O tempo no qual os positivistas conservavam à distância a história contemporânea parece hoje completamente ultrapassado. Fazer História é fazer história contemporânea.»

Barnavi: «Um dos males que corrói a nossa época é a confusão de papéis entre o historiador e o ideólogo.»

Nora: «A memória incorpora doravante uma reivindicação particularista, subjectiva e peremptória, quando não é terrorista.»

Um debate que é para (e que deve) continuar.

Ingrid livre

2321 dias após ter sido capturada pelas FARC-EP – durante uma acção de campanha da sua candidatura presidencial ecologista em território que estas controlavam -, Ingrid Betancourt foi finalmente libertada. Numa acção da inteligência militar e não por iniciativa daquele movimento de guerrilha, especializado em sequestros e acções de intimidação, como se apressou erradamente a afirmar Evo Morales, o presidente da Bolívia: «es muestra clara de las FARC que libera a los detenidos». Aguardamos agora as reacções de todas as partes. Lá na Colômbia, mas por aqui também.

Uma notícia destas suscita um comentário como aquele que se segue, colhido dos comentários publicados pelo Portugal Diário. Vale pelo exotismo, mas também pela amostra do caldo de cultura alucinogénio do qual se alimenta.

Brincar à caridadezinha

Manuela Ferreira Leite, muito bem entrevistada para a TVI por Constança Cunha e Sá, acaba, enrolada em constantes contradições, de declarar que a forma de resolver os «problemas económicos das famílias» é, no actual contexto de crise, apoiar – «mas jamais com subsídios, que isso fazem os socialistas» – a actividade das «instituições de solidariedade social». Calculo que se referisse às misericóridas, aos orfanatos, aos lares de idosos, às «obras das mães», à sopa dos pobres e aos alcoólicos anónimos. Se tais instituições se não apoiam com subsídios, calculo que apenas o possam ser com rifas, leilões e peditórios. Eis uma política social de rasgo.

Uma tirania mais ou menos

É preciso dizer claramente que a forma como a generalidade dos dirigentes africanos presentes na cimeira da União Africana recebeu Robert Mugabe, com toda a afabilidade e sem referirem a ilegitimidade do título presidencial que resolveu ostentar, constitui uma vergonha que mancha a sua própria credibilidade. E é uma prova do enorme desprezo que têm pelas regras da legitimidade democrática que admitem apenas quando estas lhes servem para se manterem no poder. Uma vergonha que deve ser associada também à atitude das poucas forças políticas europeias que se recusam a condenar abertamente o tirano racista e cleptocrata e o actual regime zimbabweano. O PCP, infelizmente, tem sido uma delas.