Arquivo de Agosto de 2008

Skógafoss

Último dia antes da volta, e mais um dia a comer coisas que nem sei o que são mas geralmente sabem a peixe. Como a caminhada prevista e a excitação da novidade exigem alimento, é preciso fazer um esforço. Pão, sopa e frutos silvestres servem sempre de conchego.

De manhã um salto até Borgartún com passagem pela casa Höfði, onde, em 1986, Reagan e Gorbatchov, apesar das divergências, puseram termo à Guerra Fria. O mais interessante não pude ver, pois foi guardado noutro local: talvez calculando erradamente que de futuro pouco serventia tais objectos iriam ter, os agentes do KGB deixaram no terreno cabos, microfones, câmaras, munições e alguns papéis.

À tarde, tempo para ir mais longe, numa jornada pelas colinas em volta das quedas de água de Skógafoss, a 5 quilómetros da antiquíssima aldeia de Skógar. Terá sido este o lugar no qual os primeros vikings se sedentarizaram na ilha, e, claro, aqui as lendas multiplicam-se sem necessidade de prova. Prefiro caminhar um bom pedaço ao longo de toda esta solidão verde-negra, ouvindo apenas os meus passos e o rumor da água que se despenha. No ar uma humidade salgada que se sente na língua. Um odor intenso.

Som do silêncio

Viagem curta de 10 quilómetros até Hafnarfjörður, onde encontro o que me parece ser uma microcultura para turismo New Age feita da banalização da tradição viking. Não me agrada e ando umas centenas de metros. Entro numa loja cheia de música do mundo, imprevisível neste fim do mundo. Da Islândia, muito pouco para além das bandas locais herdeiras dos filhos dos já longínquos Sugarcubes. Agradou-me no entanto a capa de um CD que comprei sem ouvir um acorde. Horas depois, no quarto, o som tristíssimo de Jóhann Jóhannsson recorda-me onde estou.

[audio http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2008/08/johann-johannsson-englaborn-16-odi-et-amo-bis.mp3]

13 minutos

08H35. A ligação wireless do hotel jamais nos deixa sozinhos. Está-se aqui e em toda a parte.

. A encenação dos democratas foi muito americana, naquilo que isso tem de bom e de mau. O discurso de Obama foi forte, comovente, elegante, brilhante, com propostas num tom de campanha que se não ouvia desde Roosevelt. Se forem concretizadas em vinte por cento – mais que isso será impossível –, o mundo e a América talvez fiquem um pouco melhores.

. Os republicanos escolheram como candidata à vice-presidência uma ex-vice-Miss Alasca que se auto-define essencialmente como «esposa e mãe». Criacionista, militante antiaborto (inclusive em casos de rapto ou violação), opositora do sexo fora do casamento, caçadora praticante e defensora da liberalização do porte de armas. Após uma decisão destas, ainda é menos possível ser-se indiferente ao resultado das eleições americanas.

. Numa outra ilha, em Cuba, o músico punk Gorki Águila foi de novo preso e uma pequena e pacífica manifestação pela sua libertação foi abafada com uma pesada carga da polícia. Dois detidos e alguns feridos. Entre estes a blogger Yoani Sánchez. Gorki não é apenas um crítico do sistema, é um seu adversário. Sim, e daí?

08H48. E agora vou-me à realidade lá fora. Está um dia seco mas muito bonito.

A norte com Ligeti

Ir a um concerto com um programa composto apenas por obras de György Ligeti, um dos meus contemporâneos favoritos, era coisa que não julgava possível. Muito menos aqui, tão longe da Roménia ou de qualquer outro lugar. Mas foi o que me aconteceu hoje no Kjarvalsstöðum, uma espécie de casa da cultura da cidade de Reiquiavique. Searching for Ligeti propôs-nos quatro peças do compositor pelo Kammersveitin Ísafold. Sala cheia, ambiente tranquilo e uma tarde magnífica.

À noite

É tardia aqui, a noite. Mas chega sempre, como é próprio da noite. Voltei um pouco cansado. Sobre a pequena mesa do quarto um quadradinho de papel azul. Com letras em azul.

Dalabóndinn í óþurrknum

Hví svo þrúðgu þú
þokuhlassi
súldanorn
um sveitir ekur?
Þér man eg offra
til árbóta
kú og konu
og kristindómi.

Dizem-me ser um poema de Jónas Hallgrímsson. Que nos fala de como por um pouco de sol pode um homem sacrificar uma vaca, a sua esposa e a própria fé.

Luz

Manhã cedo na rua Odinstorg, Reiquejavique.

O que eles querem (ou: o poder do amor)

Um exercício fácil e recorrente, praticado por muitos bloggers, consiste em procurar saber quais são as palavras ou frases que por mediação dos motores de busca fazem chegar até aos seus blogues pessoas que neles não entrariam de outra forma. Há já muito tempo que o não fazia, aqui n’A Terceira Noite. Eis pois o top-30 actualizado dos termos mais invocados desde o seu arranque.

amor - purga em angola – sexo – sexo oral – garganta funda – anos 60 – rui bebiano – gina lollobrigida – pornografia com crianças – pornografia – leitura – gianna maria canale – folclore regional – sofia loren – ciclopes – boletim meteorologico – colunex – vicio – rosalind franklin – pernas – che guevara – rabos – lindas – tango – mulheres vadias – kamasutra – puta – óculos para a noite – smoking – sapatos vermelhos

Apenas por esta amostra, temo que os futuros arqueólogos da blogosfera possam ficar com uma impressão um pouco estranha a meu respeito. Espero que após lerem este post procedam à crítica das fontes e reconheçam a minha idoneidade.

[audio http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2008/08/09-amor.mp3]

Sem tabus

O Movimento Mérito e Sociedade, esse que «não é de esquerda, direita ou centro» e se pretende constituir como «um fantástico indutor de desenvolvimento equilibrado e sustentado de uma sociedade», acaba de propor medidas para combater a actual vaga de criminalidade que um conhecido penalista julga «inconstitucionais» e «bárbaras». Entre outras sugestões fáceis e demagógicas – como a de definir mecanismos processuais onde a vítima tenha uma palavra a dizer sobre a pena a aplicar ao arguido –, considera que as armas de fogo «não devem ser tabu na nossa sociedade» e precisam ser usadas pela polícia com maior frequência. Presumo que a valorização do mérito individual dos agentes da PSP passe, pois, por exercícios regulares de tiros ao alvo com fogo real. E que o MMS possa entender estas propostas como essencialmente técnicas e desprovidas de qualquer carga política, capazes de estimularem aquele que considera ser «o espírito de conquista e desembaraço dos portugueses». Um tiro para o ar e outro no pé, para começar.

Esparta vs. Cocanha

Também eu um dia admirei Louis Antoine de Saint-Just (1767-94). Da Grande Revolução, pouco sabia. Mas entendia, das revoluções modernas, o suficiente para me manter convicto de que elas só poderiam vingar enquanto permanecessem nas mãos dos obstinados e dos que não cedem à compaixão. Aqueles para quem os princípios e os objectivos que norteiam a acção se destinam a impedir todo o retrocesso que não favoreça um novo assalto às posições do inimigo. Para quem, quando se combate pelo poder, apenas existe a vitória total ou a mais peremptória derrota: «Esse homem deve reinar ou morrer», proclamou o filho do capitão de cavalaria de Niévre quando votou na Convenção a favor da execução de Luís XVI, pois aquilo que constitui uma República «é a destruição total do que se lhe opõe».

Além do mais, Saint-Just era jovem e eloquente, lendariamente belo e teatral, e um exaltado, o que só poderia reforçar a cintilação que exibiu, apenas em dois anos de vida pública, numa época pouco propícia à segurança, à moderação e à prevalência dos valores do passado. E prometia um mundo novo, no qual o poder pudesse ser exercido pelo povo, os magistrados fossem desprovidos de orgulho, os cidadãos vivessem sem vícios, a fraternidade prevalecesse nos relacionamentos, o culto da virtude fosse um princípio, a simplicidade dos modos e a austeridade de carácter pautassem a vida social. O caminho para tal utopia seria, na sua opinião, aberto pelo Terror. Pelo apagamento violento e sem piedade daqueles que a entravavam.

Combatido pelos sectores moderados e traído por muito dos seus, morreu aos vinte e seis anos, sem direito a julgamento, na guilhotina que ajudara a erguer. Tendo, ao que dizem, ou seguindo a lenda, sido o único do grupo preso na manhã de 10 do Termidor a avançar sereno, a passo firme e em completo silêncio, para o cadafalso que o esperava.

Afirma-se que Danton terá dito certa vez, a seu respeito, não gostar nada «daquele extravagante» que pretendia implantar em França «uma República de Esparta» quando era de «uma República da Cocanha» que os franceses precisavam. O «anjo da Revolução», ou «da morte», ainda sobreviveu praticamente três meses a Danton, mas o combate entre os que se batem, na evidência de um indeclinável pathos, por arquétipos que situam acima do indivíduo e no campo das paixões, e aqueles outros que longe de quaisquer perigos, apelando a um previsível e racional logos, apenas preferem navegar por calmos rios de vinho e de leite, sobreviveu-lhes. Continua a ser ciclicamente renovado, ciclicamente alimentado. Jamais se entenderão, uns e outros. Jamais desaparecerão também.

Fim de festa

Os Jogos de Pequim fecharam e, antes ainda dos balanços, é hora de repousar das emoções. A cerimónia de abertura trouxe um instante de frescura a contrastar com os últimos discursos dos engravatados e hirtos «poupas altas»(*): a entrada no relvado do gigantesco Ninho de Pássaro de Boris Johnson, o mayor conservador de Londres – conservador, repare-se – que se apresentou descontraído, de fato amarrotado e casaco sem os dois primeiros botões apertados(**), para receber com um gesto nada protocolar a bandeira olímpica que a sua cidade sustentará até 2012. Entretanto, na capital britânica, uma multidão preparada mas informal contrastava com as rígidas coreografias que qualquer cidadão atento terá notado terem sido mantidas, mesmo durante as provas, nas bancadas e nas ruas preenchidas com sempre risonhos e embandeirados chineses, que muitas vezes pareciam saber exactamente em que momento iam ser focalizados pelas câmaras. As democracias não são capazes de alardear tal perfeição nas exibições de capacidade de organização e mando, e essa é uma qualidade sua que devemos preservar.

(*) Como eram conhecidos, por parte significativa da população da antiga República Democrática Alemã – e até por agentes menores da STASI -, os altos dignitários do Partido e do Estado. Existia, em diversos edifícios oficiais, um serviço de cabeleireiro destinado a conservar a «rigidez de Estado» das cabeleiras dos dirigentes, ou, se possível, a disfarçar-lhes calvícies precoces. A petite histoire por vezes é muito útil.
(**) JCE ter-se-á revolvido no túmulo.

Ainda sobre os comentários

Vai-me perdoar o Eduardo Pitta, mas um comentário negativo sobre a minha decisão de encerrar os comentários, vindo da parte de alguém que os não mantém no seu blogue, é coisa que não entendo muito bem. Já agora: quem ler com cuidado o meu anterior post sobre o assunto notará que a última discussão que nele teve lugar – a qual, apesar do equívoco gerado, até foi razoavelmente interessante e civilizada (sim, gosto da palavra) – não foi aquilo que determinou a minha decisão. A opção foi amadurecida, as causas foram explicadas e não quero, pelo menos por agora, ir mais longe. Aproveito para agradecer as mensagens de compreensão, uma dezena, de discordância, duas, ou de perplexidade, uma só, que entretanto tenho recebido. Bem como as referências, quase todas elas amáveis, que diversos blogues fizeram à minha escolha.

Minutos depois…: Eduardo Pitta juntou uma nota ao seu post que me levou a relê-lo com maior atenção. Tresli apressadamente aquilo que ele tinha escrito, e vejo agora que estamos de acordo no mais importante. Aqui fica a correcção do tiro e obrigado pelo esclarecimento.

Spitting Leaders

Please enable Javascript and Flash to view this VideoPress video.

Quatro dos mais notáveis déspotas de todos os tempos – Luís XIV, Hitler, Estaline e Franco – foram reunidos no conjunto público de estátuas-cuspideiras Spitting Leaders, da autoria do escultor madrileno Fernando Sánchez Castillo, que acaba de ser instalado na já nossa conhecida localidade galega de Caldas dos Reis. Carlos Jiménez, no Babelia, define-o como parte de uma estratégia colectiva proposta por um conjunto de artistas espanhóis que têm vindo a questionar o «imaginário residual do franquismo». Artistas que, elegendo como temas do seu trabalho os Balcãs, as Torres Gémeas, Guantánamo ou Francisco Franco, resistem «a ver a arte reduzida a um espectáculo de massas ou a vê-la confinada ao silêncio das salas». Para quem o ser humano «será o Homo ludens reivindicado por Johann Huizinga, mas nem por isso deixou de ser o Zoon politikón de Aristóteles». Este conjunto parece merecer uma visita. Particularmente aconselhável aos nossos autarcas que enchem praças e jardins de insossos mamarrachos.

Marco

Terei sido dos primeiros a atirar uma pedra a Marco Fortes, o nosso lançador de peso que, após ter sido eliminado da sua prova olímpica com uma marca muito inferior a outras que já havia obtido, nos falou de como de manhã «está bem é na caminha». Ouvi a frase bem cedo – bem mais tarde em Pequim, como é sabido – enquanto seguia de carro, e pouco depois escrevia um post servindo-me dela. Porque me parecia a cereja no topo do estranho bolo cozinhado com todo um conjunto de desculpas esfarrapadas das quais se serviram diversos atletas portugueses. A frase propagou-se por diversas vias e, por causa dela, Marco viu-se expulso da comitiva, forçado a regressar a Portugal e crucificado por meio mundo.

Só depois disso ouvi entrevistas de Marco Fortes, anteriores e posteriores ao momento da tirada. Li algumas notícias e vi reportagens, percebendo que Marco é uma pessoa de origem humilde, a quem o atletismo tem servido como espaço de valorização social, e que utiliza com frequência o humor e a ironia como forma estar no seu mundo. Aquilo que disse, parece-me agora claro, pode ter sido uma forma de se desculpar, mas foi também uma forma de ironizar consigo próprio. Foi um pouco infeliz? Foi-o, sem dúvida, como o próprio atleta reconheceu pedindo que lhe perdoassem a gaffe. Mas quem nunca pronunciou uma frase infeliz? Peço desculpa a Marco Fortes pela leviandade. Há já três dias que apaguei o referido post e mesmo assim fiquei com alguns remorsos.

O bom homem, a beldade búlgara e o cavalheiro

Posso? A direcção do Expresso que não leve a mal a intrusão mas penso – sinceramente e sem ponta de sarcasmo – ser um grande equívoco a inclusão da coluna perpétua de João Carlos Espada na secção Editorial & Opinião, devendo esta transitar para uma página par do suplemento Única. O seu «tema de Verão» de hoje ilustra na perfeição a pertinência do alvitre. Apenas para quem esteja menos treinado no pensamento social do referido autor aqui vai um aviso: esta é só mais uma pequena peça do seu assombroso cubo mágico. Resisti a sublinhar algumas frases extraordinárias.

Um dos mais difíceis temas de Verão é o da influência da temperatura no código de vestuário. O assunto terá perdido alguma premência com a nova moda masculina de prescindir da gravata – uma tendência entusiasticamente promovida pelo actual Presidente do Irão, cujo nome me escapa. Mas a gravidade do tema está ainda presente nalguns sectores.

É o caso do Oxford & Cambridge Club, em Londres. Todos os anos a «newsletter» de Julho inclui uma nota sobre o calor e o traje. Recorda ela, basicamente, que as altas temperaturas não anulam o «dress code» do Clube, embora algumas atenuantes sejam concedidas. Estas incluem a não obrigatoriedade de gravata até às 11 da manhã, aos dias de semana, e ate as 18h, nos fins-de-semana. Mas o casaco continua a ser obrigatório a todas as horas, a menos que um dístico à entrada, nos dias mais quentes, assim o anuncie.

A nota prossegue recordando que, nestas excepcionais ocasiões, os cavalheiros sem casaco devem usar camisas de manga comprida abotoadas no punho. E adverte, em tom decidido, que «T-shirts e outras camisas sem colarinho, mesmo quando usadas com casaco, nunca são permitidas no Clube».

Tendo lido esta nota numa manhã de lazer, decidi promover um inquérito sobre o tema. No balcão do bar, interroguei o velho empregado, um imigrante grego há décadas instalado nesta área do Clube. O bom homem pareceu surpreendido com a minha pergunta sobre a razão de ser do «dress code». O assunto parecia-lhe óbvio: «Este é um ‘gentlemen’s club’, sir».

Resolvi insistir com a dúvida cartesiana: «por que razão devem os ‘gentlemen’s clubs’ dar tanta importância ao código de vestuário?». A resposta foi pronta, após ligeira hesitação: «Porque, caso contrário deixariam de ser ‘gentlemen’s clubs’».

Interroguei em seguida a jovem beldade que se encontrava na recepção do clube, logo à entrada do 71 Pall Mall. Chegara há uns meses da Bulgária, e gostava imenso de Londres, assim como de trabalhar no clube. Código de vestuário? É claro, disse-me ela, trata-se de um ‘gentlemen’s club’. E eu concluí, já instruído pelo grego do bar: se não tivesse código de vestuário, deixaria de ser um ‘gentlemen’s club’? Ela envolveu-me num amplo sorriso: «Esse é exactamente o ponto, sir. É como dar gorjeta: não pode dar gorjeta aos empregados, nem estes podem aceitá-la, num ‘gentlemen’s club’». Finalmente, com um novo sorriso envolvente, rematou: «Eu realmente adoro este vosso clube. Devíamos ter clubes destes, na Bulgária. Mesmo assim, eu preferiria Londres».

Sobre os comentários (ou a sua ausência)

A dilatação do universo dos blogues e do seu grau de centralidade na expressão pública de opiniões tem entrado muitas vezes em conflito com o funcionamento das caixas de comentários. Aquilo que num contexto mais restrito era nestas, até há pouco, a excepção, transformou-se entretanto na norma, passando a ouvir-se cada vez mais vozes de quem dispõe de tempo e estrutura mental para, em vez de debater com franqueza e abertura, investir no questionamento ou na parasitagem das escolhas dos outros, na agressividade e até na dissimulação. A expansão do proselitismo no meio apenas tem agravado a situação. Quando alimentado, este ambiente torna-se incómodo para muitas pessoas, desviando leitores e descredibilizando certos blogues. No meu caso tornando por vezes difícil de gerir aquilo que antevia apenas como um prazer e mais uma via para comunicar informalmente com os outros.

O facto de ter sido quase um dos pioneiros da Internet em Portugal, ligado a espaços de debate muitos anos antes de existirem blogues, não deixou de guiar a minha tentativa de contornar esta situação através de duas suspensões periódicas, e, mais recentemente, do recurso a algumas regras que durante certo tempo foram servindo. Mas como elas já não são suficientes, e eu pretendo continuar a frequentar estas paragens sem consumir grandes energias, em A Terceira Noite os comentários foram encerrados. Não se tratou de uma decisão precipitada ou motivada por alguma conversa recente, mas sim de uma vontade que vinha amadurecendo há largos meses. Conservaram-se os comentários existentes, pelo respeito que merecem aqueles e aquelas que dando a cara e o nome se foram servindo deles. Afinal, quem me segue aqui apenas terá de fazer aquilo que faz habitualmente com um jornal: lê e opina para si e para os seus, ou escreve ao autor, ou cita o que achar pertinente, ou abre um blogue para falar daquilo que lê ou do que lhe possa passar pela mente. O endereço de e-mail d’A Terceira Noite estará sempre aberto. E o meu, mais pessoal, é facílimo de obter. Em frente.

HC-B

Faria 100 anos hoje, Henri Cartier-Bresson. Longa estrada, viveu 95. Recordá-lo agora é também evocar parte substantiva da forma como somos hoje capazes de representar o século XX e de imaginar a nossa própria vida.

O álbum mais triste do mundo

Da autoria de Josef Koudelka e recém-editado pela Thames & Hudson, Invasion Prague 68 deve ser o álbum de fotografia mais triste do mundo. Em 1968, com 30 anos, Koudelka nunca tinha fotografado guerras ou revoluções. Chegara da Roménia, onde andara a perambular retratando ciganos, no dia anterior à invasão, e a partir da madrugada de 20 para 21 de Agosto não parou de disparar a câmara. Muitas das fotografias que então tirou foram divulgadas pela agência Magnum, mas foi apenas em 1986, quando os laços familiares no interior da Checoslováquia desapareceram pela morte do pai, que a sua autoria foi revelada. Quarenta anos depois, 250 dessas fotografias – uma grande parte delas mostrada agora pela primeira vez – foram seleccionadas para esta obra impressionante.

Não existem aqui imagens de horror, de ódio, de desdém ou de vindicta. Não encontramos desmesura de lágrimas, nem de sangue. Soldados e pessoas comuns permanecem imóveis ou parecem movimentar-se de uma forma que jamais deixa de ser ordenada e quase mecânica, mesmo quando sobrevém o confronto verbal com o invasor ou a visão ocasional da morte diante das balas do «exército irmão». Aquilo que nos deixa mudos de espanto é o rosto das pessoas, é principalmente o rosto das pessoas: a incredulidade estampada nas fisionomias, o olhar perdido, um sofrimento quase indizível, uma atitude corpórea que as mostra numa espécie de transe, traduzindo, com uma plasticidade levada ao extremo que Koudelka captou muito bem, uma dor verdadeira e sem fim.

Pareceu-me ver, ao percorrer Invasion Prague 68, a fantasmagoria de um 25 de Abril às avessas. As praças e ruas da cidade boémia do Vltava invadidas por uma mágoa imensa que se assemelha a um exacto negativo do incontido júbilo exibido, quase seis anos depois, nas ruas e nas praças de uma Lisboa fotografada já sem entraves. Em ambos os instantes podemos hoje «olhar» estados de espírito que se dirá irem ficar ali para sempre.

Praga – luz e sombras

Nos 40 anos do fim da Primavera de Praga

Originalmente em Caminhos da Memória

Allegro vivace. Conta Mark Kurlansky que em Julho e Agosto de 1968 muitos jovens europeus, tanto do leste como do ocidente, e alguns americanos também, fizeram as malas para irem até Praga ver em que consistia esse novo tipo de liberdade a que os checos chamavam «socialismo de rosto humano». As muralhas enegrecidas da cidade cobriam-se então de graffiti em diversas línguas. Os exíguos sete mil quartos de hotel disponíveis estavam permanentemente ocupados. Era difícil encontrar uma mesa livre nos restaurantes e quase impossível vislumbrar um táxi que não estivesse ocupado. O New York Times escrevia no princípio de Agosto: «Para aqueles que têm menos de trinta anos, Praga parece ser o sítio onde vale a pena estar neste verão». Na rua, um ambiente inusitado de ruído, alegria, companheirismo e descoberta. Nos jornais, na rádio, nas praças, nos cafés e nas sedes do próprio PC, os debates pareciam infindáveis. Vaclav Havel contará mais tarde que o actor Jan Triska, seu amigo, dizia então, no meio do entusiasmo geral, que aquele era um verão «lindo demais para acabar bem».

Adagio con variazoni. Esse incerto «rosto humano» pressupunha, naturalmente, um outro que para muitos o não era. A conhecida imagem do fotógrafo Josef Koudelka foi tirada exactamente às 6 da manhã do dia 21 de Agosto de 1968. Poucos minutos depois, os tanques do Pacto de Varsóvia entrariam a alta velocidade nas ruas de Praga, acabando com a tentativa dos comunistas renovadores checos, conduzidos por Alexander Dubcek, para porem termo ao regime de partido único e para abrirem a sociedade ao pluralismo cultural e político. Às ruas desertas da sua cidade de adopção, Koudelka sobrepôs o braço esquerdo e o seu próprio relógio, conferindo à imagem um sentido de simultâneo movimento e suspensão, e também de solidariedade para com os milhares de praguenses que naquele momento pareciam dormir ainda e em breve iriam acordar para o pesadelo.

Intermezzo I. «Ficámos meio atordoados; todos nós estávamos meio atordoados! Cada um falava para seu lado. Cada um se sentava, e levantava imediatamente. Seria possível? A União Soviética, a Pátria do Socialismo, como todos os que a amamos tínhamos o costume de chamar-lhe, (…) invadia um país amigo…! (…) Ficámos todos atordoados; continuámos todos atordoados com o que estávamos ouvindo (…). Seguimos imediatamente para o centro, em busca de informações. Era no centro que a batalha rugia: centenas de tanques rodavam barulhentamente, pesadamente, mas com uma agilidade incrível, pelas ruas calcetadas de Praga. Não se viam soldados, não se viam homens – apenas metralhadoras duplas e canhões compridíssimos. Naquela manhã de 21 em que atravessámos a cidade de automóvel não vimos uma farda soviética: tanques, tanques e somente tanques; carros blindados e metralhadoras; canhões de um verde cinzento – tudo de um verde cinzento. A cidade estava sem transportes colectivos; homens e mulheres caminhando apressadamente, viravam-se para um lado e para o outro; e quando passavam os comboios de tanques, paravam de olhos esgazeados. Voltei para casa a pé: 14 quilómetros. Mas não vinha sozinho. Muita gente vinha para os mesmos bairros; caminhando ao lado uns dos outros, com poucas palavras ou sem palavras. Tudo estava atordoado. Tudo continuava atordoado. Ninguém compreendia coisa alguma.» (Flausino Torres, Diário da Batalha de Praga, Afrontamento, 2008, pp. 19-20)

Intermezzo II. «Dois anos depois de ter deixado a Boémia, [Sabina] encontrava-se por acaso em Paris no dia do aniversário da invasão russa. Havia uma manifestação de protesto a que não pôde deixar de ir. Jovens franceses de punho erguido berravam palavras de ordem contra o imperialismo soviético. Eram palavras de ordem que lhe agradavam, mas constatou com surpresa que era incapaz de as gritar em uníssono com os outros. Só conseguiu aguentar a manifestação durante alguns minutos. Contou esta experiência a uns amigos franceses. Espantados, estes perguntaram-lhe: ‘Mas então tu não queres lutar contra a ocupação do teu país?’ O que tinha vontade de lhes dizer era que o comunismo, o fascismo, todas as ocupações e todas as invasões ocultam o mesmo mal fundamental e universal; para ela, a imagem desse mal eram as manifestações com gente a desfilar de braço erguido e a gritar em uníssono as mesmas sílabas. Mas sabia que não poderia explicar isso aos seus amigos.» (Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser. Dom Quixote, 1985, trad. Joana Varela, pp. 119-120)

Andante con moto. Finale. A vida entretanto continuara. Dubcek fora rapidamente neutralizado e a «ordem socialista» anterior à Primavera voltara, mais intransigente e repressiva ainda após subida ao poder, por imposição dos soviéticos, do sector ortodoxo minoritário dirigido por Gustáv Husák. Em Outubro desse ano – dando um sinal que descontentaria muitos comunistas portugueses, alguns dos quais se encontravam aliás em Praga, e assumindo uma posição que a generalidade dos «partidos-irmãos» hesitava ainda em tomar – o Avante! transcrevia uma declaração da direcção do PCP na qual se podia ler que «os marxistas-leninistas não podem contestar em princípio a legitimidade revolucionária de uma intervenção de países socialistas noutros países socialistas a fim de defenderem as conquistas do socialismo, impedirem a contra-revolução, assegurando ao mesmo tempo a defesa do campo socialista no seu conjunto». Impedida uma perestroika avant la lettre, viu-se então gorada a possibilidade de construir uma experiência de poder inteiramente nova dentro do quadro do chamado «socialismo real». E em 1989, durante os dias e as noites da Revolução de Veludo, aqueles que se manifestavam nas ruas já não tinham vontade alguma de verem instalado um «socialismo de rosto humano». Preferiam antes qualquer coisa – literalmente qualquer coisa – que simplesmente lhes não fizesse lembrar a sociedade bloqueada dentro da qual haviam sido forçados a viver todos aqueles anos.

Nocturno

Uma noite na rua Kneza Mihailova, em Belgrado.

Paradigma

Gosto deste perfil, João.

Por uma liga hanseática de livrarias decentes

Originalmente em Os Livros Ardem Mal

Um texto de Osvaldo Manuel Silvestre sobre a impossibilidade de encontrar um único título de Jorge Luis Borges nas livrarias de Coimbra, e depois dele o seu útil post-scriptum, suscitaram um comentário de João Diogo seguido de uma resposta do primeiro. Ficam os links para quem pretenda conhecer os seus argumentos – que se completam mais do que se contrariam -, pelo que me limito a abordar o problema principal que a ambos preocupou. Refiro-me à gestão dos stocks de livros na sua relação com um certo número de inquietantes alterações perceptíveis na fisionomia de boa parte das nossas livrarias e dos seus clientes. Um problema associado à crescente dificuldade que têm os grandes leitores, os verdadeiros e obstinados amantes dos livros, em encontrarem as obras que procuram ou que gostariam de poder descobrir quando deambulam pelo interior de livrarias que cada vez mais se banalizam. Confundindo-se, na disposição espacial e no modo de estar dos seus frequentadores, com os alegres e ruidosos corredores dos grandes centros comerciais e dos hipermercados. E nas quais esses leitores se não sentem bem.

Osvaldo Silvestre fala daqueles, e eles são cada vez mais, que estão a deixar de ir às livrarias, preferindo mandar vir os livros pela Internet, e sugere, a meu ver bem, que tal se fica a dever ao facto dessas pessoas acharem cada vez mais inútil, e quase sempre pouco agradável, o tempo que despendem a deslocarem-se a espaços nos quais apenas se privilegiam as obras e os autores divulgados em campanhas promocionais na televisão ou na imprensa sensacionalista, e onde os restantes títulos são empurrados para estantes remotas ou simplesmente ignorados, ao mesmo tempo que a antiga relação de cumplicidade com os leitores habituais é abolida. Fala daqueles a quem a disposição estratégica das grandes redes de livrarias e a capacidade financeira dos conglomerados editoriais não agradam porque impõem regras que condicionam as escolhas dos leitores, forçando-os a optarem entre os livros que lhes são colocados diante dos olhos sem terem sequer, muitas das vezes, a hipótese de saberem que se escreve e se edita muito mais. Sem terem a possibilidade de perceber que é possível comprar de uma forma diferente, menos condicionada e automática, como escolha cultural e momento de descoberta.

Já João Diogo compreende estas queixas mas fala de uma certa inevitabilidade dos processos de mudança que se relaciona com as características actuais do mercado livreiro e a necessidade deste recorrer a estratégias de venda idênticas às utilizadas para outro tipo de bens de consumo. Entende, por um lado, que o alargamento do número de títulos torna impossível, mesmo a um grande leitor e a um cliente endinheirado, a aquisição da maioria deles, revelando-se imprescindível a afluência de pessoas que, apesar de no máximo comprarem apenas dois ou três livros por ano, permitem, uma vez que são em grande número – fala-se aqui, naturalmente, de quem compra apenas os tais títulos que lhes são colocados diante dos olhos – equilibrar a contabilidade das lojas e aumentar o volume de vendas de determinados títulos. Mas anota, por outro, que o elevado número de livrarias existente na sua relação com o universo de potenciais leitores – e Coimbra é hoje, de facto, um caso típico – retira à maioria delas capacidade para poderem investir num stock muito mais alargado e diversificado de títulos, capaz de satisfazer um leque também ele muito mais amplo de leitores.

Mesmo sendo ainda poucos em termos europeus, dizem inquéritos recentes que os leitores que hoje temos são mais, bastantes mais, do que aqueles que possuíamos há cerca de dez anos ou quinze atrás. Porém, sendo verdade que se lê mais, também é verdade que se lê mais superficialmente, do que resulta, em parte, o impacto de um certo tipo de livros e a estagnação ou o recuo do interesse por outros, sobretudo por aqueles que requerem algum treino da técnica de leitura, algum lastro cultural e uma sensibilidade particular. Todavia, continua a existir para estes, principalmente nos principais centros urbanos, um público de leitores mais exigentes e com formação que se mantêm como grandes compradores de livros. E são estes que preferem as livrarias nas quais podem encontrar aquilo que procuram, onde podem deparar com espaços para a descoberta, onde gostam de se sentir bem, de serem reconhecidos, de saberem que não estão num lugar que vende livros tal como poderia vender sapatos, pipocas ou acessórios para computadores.

Atendendo às dificuldades reais que todos reconhecemos, a sobrevivência das livrarias que não cedem ao processo fácil de se deixarem reduzir à condição de entrepostos para títulos empurrados para os tops de vendas deverá passar por uma colaboração entre elas. Não será possível então criar-se uma espécie de liga hanseática de livrarias decentes, em condições de se dirigir a quem gosta mesmo de livros, de gerir stocks comuns, e, um pouco como acontece já com as redes de bibliotecas, de efectuar permutas em função dos interesses dos clientes, reduzindo dessa forma os condicionamentos financeiros impostos por um armazenamento disperso? Admito que chegar a tal disposição requeira imaginação, bastante iniciativa, algum tempo e muito trabalho. Mas todos nós, aqueles que amamos a leitura, que continuamos a encher as nossas casas com livros e mais livros, e que não pertencemos ainda a uma espécie em vias de extinção, agradeceríamos o esforço. E até pagaríamos por isso.

Road Movie [4]

Banda sonora: Arve Henriksen – Paralell Action
[audio http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2008/08/1-06-paralell-action.mp3]

Três revistas

Mesmo em tempo de Internet, as revistas especializadas de grande circulação publicadas em papel dão-nos imenso jeito como fontes de informação actualizada, veículos de opinião ou pontos de partida para aceder a determinados temas. As que circulam entre nós são quase exclusivamente estrangeiras, com um claro destaque, em campos como a história, a literatura, a filosofia ou as ciências sociais, para aquelas que se publicam em França. O que apenas será estranho se não considerarmos que a maioria dos seus compradores pertence a um segmento social e etário cuja formação conservou ainda o francês como segunda língua. São pois em francês os três números temáticos de revistas que aqui destaco e podem ser encontradas em alguns quiosques e livrarias.

A Philosophie Magazine é sobre um tema – XXe siècle. Les philosophes face à l’actualité – particularmente útil numa época de desvalorização do papel interventivo do intelectual e da sua revisão como conceito operativo. Comporta largas dezenas de fragmentos de intervenções públicas de importantes filósofos, colocando-os em confronto com as suas circunstâncias. De Bergson, Berdiaev, Kraus ou Benjamin até Baudrillard, Zizek, Enzensberger e Amartya Sen, sucedem-se intervenções participativas sobre temas como a guerra, a revolução bolchevique, a ascensão dos fascismos, o Holocausto, a questão colonial, os feminismos, os acontecimentos de 1968, a conquista do espaço, a queda do Muro, o neoliberalismo, o «choque de civilizações», a globalização ou o conflito real-virtual.

Já o Magazine Littéraire publica um número especial que tem como assunto La Passion – théâtre de l’existence. Aqui o objectivo é coligir cerca de três dezenas de artigos publicados na revista, ao longo de mais de vinte anos, tendo sempre em conta uma dupla abordagem da paixão, seja esta afirmada por um ser amado, por uma causa, por uma actividade ou por uma ideia. A primeira abordagem é talvez a mais antiga, e é associada a um certo desregulamento da personalidade, a uma forma de exaltação ou de doença. A outra, mais recente, aproxima-a do desejo, da vertigem, da exaltação. Flutuando sempre entre a melancolia e a acção.

Para fechar, o bimensário Manière de Voir, editado pelo Le Monde Diplomatique, preocupa-se na edição de Agosto-Setembro com De Lénine à Poutine: Un siècle russe. Esta será, sem dúvida, a mais controversa das três publicações. Por ser a única que oferece textos centrados num tema cujas ondas de choque permanecem, tanto ao nível das representações de um passado recente como no que diz respeito aos contornos do mundo contemporâneo, plenamente activas. Estes distribuem-se por três partes organizadas cronologicamente: a primeira vai da Revolução de Outubro à resistência perante os nazis, a segunda parte da Guerra Fria e fecha com o aparecimento da perestroika, e a última ocupa-se do tempo preenchido com as presidências de Yeltsin e de Putin. É na primeira parte, centrada nos fundamentos do regime soviético e na perversão do Gulag, que se torna possível detectar os textos mais polémicos. Mas os mais perturbantes são aqueles que revelam a Rússia actual como um território que se mantém perigosamente inflamável.

Dos malefícios do esperanto

«- Sou esperantista, compreende? Trata-se de uma linguagem universal. Para mim não é inglês básico. Foi por isso que fui condenado. Sou membro da Sociedade de Esperantistas de Moscovo.
- Você quer com isso dizer Artigo 5, Parágrafo 6? Espião?
- Obviamente.
- Dez anos?
- Quinze.»

Varlam Shalamov, Kolyma Tales

Em Abril de 1973 começava a cumprir o serviço militar quando fui por duas vezes interrogado por um inspector da PIDE. Tive sorte e não fui demasiado apertado: sei que a minha condição de militar no activo e o facto de os interrogatórios terem decorrido dentro do quartel e com conhecimento do comando me deram alguma protecção. O pide era do tipo paternalista, vagamente sorridente e na aparência cheio de tédio por estar a perder tempo com o que lhe parecia ser peixe miúdo. As perguntas foram vagas e nunca me pediu nomes ou moradas. Enquanto escutava aquilo que eu tinha a dizer sobre a minha própria vida – omitindo no questionário, por exemplo, quaisquer referências à organização na qual eu militava, o que confirmava uma certa dificuldade da PIDE no cruzar das informações – tomava apontamentos e ia-me dando alguns conselhos como «tenha juízo», «veja lá o que anda a fazer» ou «não estrague a sua vida». Em ambas as sessões, porém, um tema permaneceu recorrente: ele insistia em saber se eu conheceria alguém que estivesse ligado à divulgação do esperanto. Na altura não percebi muito bem os motivos da insistência, mas sei hoje algumas coisas sobre o movimento esperantista que me ajudam a entendê-la.

O esperanto surgiu em 1887, o ano da publicação de Unua Libro – o primeiro livro sobre o assunto, da autoria do judeu russo Ludwik Lejzer Zamenhof –, como uma língua franca, muito útil em viagem, na troca de correspondência, no intercâmbio cultural ou na organização de encontros internacionais, e teve particular divulgação durante primeiras três décadas do século XX. Foi sem dúvida a sua capacidade para derrubar fronteiras e para criar um universo de comunicação paralelo que instigou a desconfiança, e depois a acção repressiva, por parte dos regimes totalitários. Sob Hitler e Estaline foi mesmo proibido e inúmeros esperantistas foram perseguidos, detidos ou mortos. Entretanto, a nova língua começara a ser divulgada entre as correntes libertárias, que procuravam um meio capaz de facilitar as ligações entre organizações de trabalhadores de vários países, o que acabaria por levar a um aumento da suspeição por parte das autoridades.

Em Portugal, terá sido sobretudo por influência do anarco-sindicalismo que o esperanto obteve alguma influência, chegando a ser acolhido pelo PCP, na sua primeira fase, como instrumento de mobilização. Talvez fosse em parte por aí que o regime, como todos os regimes que temem a circulação sem barreiras da informação e da opinião, o tenha passado a olhar com desconfiança, se bem que nos inícios da década de 1970 – e daí a minha estranheza com a insistência do pide – ele parecesse estar bastante frágil e confinado a pequenos núcleos de entusiastas mais ou menos isolados. Mas até poderia ter acontecido que tudo aquilo resultasse de uma qualquer mania do indivíduo. Um tema que não me importaria de conhecer melhor e um pequeno mistério que gostaria de desvendar. Quem sabe se por esta via lá poderei chegar?

«Já o tinha afirmado o Génesis…»

Um artigo de opinião que saiu no Público, assinado por Pedro Vaz Patto, desenvolve mais uns quantos parágrafos em apoio da grande cruzada da direita católica contra a legitimação das uniões entre pessoas do mesmo sexo. Não vale a pena perder muito tempo com o essencial da argumentação, uma vez que esta apenas retoma os conhecidos clichés a propósito da impossibilidade, em tais uniões, de se consumar uma preconceituosa «função social do casamento» assente na actividade reprodutora do par. Este raciocínio primário já o ouvimos alto e em bom som pelo menos desde os idos de 1982, dando então lugar à memorável altercação de Natália Correia(*) com o deputado centrista João Morgado.

Mas aquilo que é particularmente grave neste artigo é que o seu autor avança numa direcção menos usual e que é inadmissível na boca de um jurista. Acontece «apenas» que ele deixa implícita, na forma ligeira como se refere ao assunto, a menoridade social e jurídica daquilo a que chama o «casamento de casais estéreis». Na sua cabeça claramente confinado a uns desventurados que devem ser olhados como pessoas incompletas. E deixa obviamente de parte a possibilidade da existência – sabe-se hoje cada vez mais presente na nossa vida colectiva – de uns quantos depravados que não têm filhos por lhes ser impossível educarem de forma estável uma criança ou simplesmente por opção de vida. A desumanidade destas pessoas de credo na boca é apenas brutal.

(*) Lateralmente mas a propósito: que jeito nos dariam hoje uns quantos deputados menos pusilânimes, assim da têmpera da Dona Natália!

A grande evasão

Entre 2000 e 2007 fugiram das cadeias portuguesas 502 reclusos. Nada de grave, parece, uma vez que de acordo com a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais existe uma «taxa de recaptura» (sic) de 90,6 por cento. Calculo que as verbas e as energias despendidas na referida recaptura, e na demanda dos outros 9,4 por cento dos evadidos, devam ser um tanto superiores àquelas que seriam gastas na melhoria das piores prisões e no reforço da sua segurança. Mas perdia-se por certo uma boa oportunidade para efectuar no terreno treino de corrida e exercícios de fogo real.

Outro episódio

De acordo com a edição electrónica do Expresso «um grupo de dança, que devia representar os 56 grupos étnicos da China, era afinal composto apenas por crianças da etnia Han.» Este é já o terceiro «momento» reconhecido como forjado na abertura dos Jogos Olímpicos. «Suponho que eles [as autoridades] pensaram que os miúdos eram mais naturais e simpáticos», notou Yuan Zhifeng, o director delegado do Grupo Artístico Infantil Galaxy, que actuou na cerimónia.

Nomadismo de bolso

Escrevia Kipling, citado por Bruce Chatwin, que «se virmos bem as coisas, não existem senão duas espécies de homens, aqueles que ficam em casa e os outros.» A invenção do turismo de massas e das férias pagas, seguida da revolução dos transportes e das comunicações, atenuou essa separação entre os que partem e os que preferem a imobilidade ou não conseguem afastá-la do seu horizonte. A partir da década de 1960, com o progresso das condições de vida de parte expressiva da população dos países industrializados, e com o aparecimento de um mercado de destinos turísticos, grupos cada vez mais numerosos de pessoas passaram a deslocar-se periodicamente para longe do seu lugar de residência, procurando outros cenários para uma vida que desejavam inabitual.

Já não se tratava apenas de soldados, de pregadores, de homens de negócios, ou de estudantes, saltimbancos e trabalhadores sazonais, que circulavam por força da sua ocupação. De repente, hotéis de preço médio e pensões de província deixaram de ser maioritariamente procurados por caixeiros-viajantes, professores deslocados ou pares ilícitos. Os parques de campismo e os albergues de juventude multiplicaram-se, proliferaram motéis e aparthotéis, as estações de caminho de ferro e as bombas de gasolina ganharam uma nova animação. Por toda a parte um novo viandante em busca de emoções ou em luta contra o tédio, que segue os guias e os desdobráveis e parece encontrar no seu trajecto uma forma de repouso ou de esquecimento das rotinas.

Gradualmente, a viagem como estado de permanente partida e como afirmação de uma recusa, da qual falava Rimbaud, foi-se perdendo, substituída por circuitos nos quais todos sabem já aquilo que os espera e que irão fazer, sempre em condições de conforto e de segurança. E até a escalada dos Himalaias ou o mergulho de profundidade no Índico se tornaram programáveis e susceptíveis de serem executados sem grande esforço, quase ao colo dos guias, até ao local no qual a melhor fotogenia e o efeito de maravilhamento se juntam na perfeição de um cenário previsível de turismo de «aventura».

Os próprios povos nómadas estão em vias de perder o seu lugar, uma vez que lhes estão a ser retiradas as rotas e os lugares tradicionais de repouso e de subsistência, ocupados pelas novas vias de partida e de chegada que rodeiam as cidades, por serviços de apoio aos habitantes sedentários que se deslocam de um lado para o outro, por empreendimentos turísticos que nunca bastam para as hordas de entediados cidadãos em busca de alguma coisa que não aquela que conhecem da vida de todos os dias. Mesmo a escrita daqueles que nos foram revelando a viagem como experiência estética e sensorial, capaz ao mesmo tempo de lhes permitir tresmalharem-se das suas circunstâncias, como a de V.S. Naipaul, de Paul Theroux ou do próprio Chatwin – ou ainda, recuando no tempo, a de Nerval, Flaubert, Isabelle Eberhardt e Blaise Cendrars, entre tantos outros -, foi gradualmente transformada num exercício de arqueologia, ou no mapear de mundos inconcebíveis para os novos viajantes providos de iPhone3G, sapatilhas Nike Air e jipes topo de gama, imunes a répteis, a insectos e a temperaturas extremas.

Por aqui, poucos se interessam já pela rudeza dos cenários que eles nos desenharam, bem diferentes daqueles que mostram os folhetos das agências, os roteiros que acompanham as revistas, os livros e os documentários dessa nova espécie de jornalistas «radicais», bem vestidos e de pele tratada, pagos para construírem sucessivos cenários de desejo. Ideais para aqueles que, contrariando Kipling, vão de viagem com a casa às costas ou integram no seu quotidiano uma evocação branda e domesticada, sem fulgor ou estranheza, dos lugares e dos rostos que chegam de outras latitudes. Cada vez existe menos espaço para um nomadismo que não seja de bolso e é provável que nada possamos fazer para o evitar. E também nada nos garante que o fim desse mundo seja um mal: provavelmente será mais aborrecido, mas talvez seja também menos desigual.

Iberismo do século XXI


 Documento recebido por e-mail – clique para ampliar

Cachez cette politique

Muito recomendável, na altura do campeonato em que vamos, este artigo lúcido de Martine Bulard sobre a China (em francês). Obviamente, e como sempre, nem tudo é branco-branco versus preto-preto. Outro texto de grande utilidade da mesma autora, desta vez em português, pode ser encontrado aqui.