Arquivo de Setembro de 2008

A natureza das coisas

Pois é, um dos problemas do marxismo-leninismo consiste em mostrar-se simultaneamente «contrário à dogmatização e à revisão oportunista dos seus princípios e conceitos fundamentais». Situação que poderá transformar-se numa pesada contradictio in terminis e em factor de bloqueio. Mas graças a Deus e à sua infinita Misericórdia que existe sempre um grupo de pessoas, vanguarda da «vanguarda da classe operária e de todos os trabalhadores», que apetrechado desse «instrumento científico de análise da realidade», desse miraculoso e quintaessencial «guia para a acção», combate a «ideologia social-democrata» e determina a todo o instante, «em ligação com a vida», qual a exactíssima curva da estrada na qual é possível moldar o dogma e qual essoutra onde começa a infame e criminosa revisão oportunista. (Ainda a propósito das Teses moicanas do PCP, naturalmente, que agora já li todinhas da silva. Nem tudo são rosas nesta vida de leitor.)

E porque não um spa em Auschwitz?

Só não é completamente inacreditável porque já todos estamos habituados à comercialização de tudo. Inclusive da vida privada, seja ela passada, presente ou futura. Mas o projecto que visa transformar o Forte-Prisão de Peniche em mais uma Pousada de Portugal, servindo-se do sofrimento de décadas de tantos antifascistas como factor de charme e de valorização comercial, ofende profundamente a nossa memória colectiva. Como ofensiva é a «naturalidade» com que o projecto se apresenta aos olhos dos responsáveis pelos organismos estatais e autárquicos que apadrinham ou facilitam esta iniciativa abjecta do Grupo Pestana. Ela será sempre, independentemente do formato que possa tomar, uma «suavização» do salazarismo e uma forma de apagamento da vida vivida e do combate daqueles que lhe resistiram.

Leia a propósito o texto que Irene Pimentel publicou nos Caminhos da Memória. E depois passe a palavra.

Revisto e aumentado

Versão de um texto publicado na revista LER de Setembro

Designar como nova uma biografia de Lenine publicada em 1994 suscita alguns equívocos. É verdade que esta reformula ou completa biografias anteriores, muitas delas concebidas num registo apologético ou difamante, pois recorre a documentos apenas disponibilizados após a derrocada da União Soviética. Mas não só o faz de forma moderada – estudos posteriores foram mais longe com a mesma informação – como recorre as estratégias argumentativas de teor a-histórico, abusando de movimentos fast-forward para explicar decisões e episódios ocorridos muitos anos antes. Mais do que propriamente «nova», esta biografia será antes uma revisão, e um ajuste de contas, com o passado do autor e com a sua aceitação inicial da figura tutelar do líder revolucionário russo.

Dmitri Volkogonov foi um general soviético que dirigiu durante anos o trabalho ideológico e político no Exército Vermelho, não tendo manifestado então grandes dúvidas em relação às orientações do regime ou ao papel axial do seu fundador. Terá sido apenas em 1991, quando, na sequência da frustrada tentativa de golpe que levou Ieltsin ao poder, passou a presidir à comissão nomeada para analisar os arquivos soviéticos, que encontrou no antigo edifício do Comité Central do PCUS perto de 4000 documentos não publicados de Lenine e começou a reconhecer, no rosto do homem que até então incondicionalmente admirara, traços bem diferentes daqueles que o regime apeado projectara.

Tal como fez com as biografias de Estaline e de Trotski, Volkogonov serviu-se de documentação inédita para reler o mito e ajudar a derrubá-lo. Procurou, desde logo, pôr termo à vulgar distinção, ainda hoje corrente, entre a doutrina política «benigna» do leninismo e a irrefutável bestialidade do estalinismo, denunciada em 1956, por Krushchev, como uma corrupção da primeira. Tentou então provar que, afinal, a génese do estalinismo se encontrava já contida na intervenção e no cinismo político do pai-fundador: estavam lá a criação da Cheka e do Gulag, a perseguição da Igreja ortodoxa, o crescente cerco à imprensa, o esmagamento da maior parte da intelligentsia, a repressão sobre uma larga fatia do campesinato, o controlo férreo dos sindicatos, e sobretudo a instituição de um aparelho político-partidário que viria a funcionar como um poder autónomo dentro do próprio Estado. Documentou ainda os antecedentes familiares judaicos e alemães de Vladimir Ilitch, um assunto que havia permanecido tabu durante décadas.

Uma escrita pobre e algumas afirmações tendenciosas atenuam um pouco o interesse desta biografia. Mas ela valerá sempre por ter sido uma das primeiras a divulgar o conteúdo de alguns dos muitos escritos que permaneceram na sombra e jamais integraram as Obras Completas de Lenine. As quais, por tal motivo, permanecem parciais.

Dmitri Volkogonov, Lenine: Uma Nova Biografia. Tradução de Hugo Chelo e Miguel Morgado. Edições 70, 590 págs.

Paul

Chegou a vez de Paul Newman (1925-2008). Mais um pedaço da vida vivida através do cinema que parte para sempre, deixando um buraco fundo e escuro. Paul Blue Eyes vai fazer-nos falta, muita falta. Vai ficar-nos na memória e na imaginação, mas até elas se diluem e se vão perdendo.

Guerra interminável

Versão de um texto publicado na revista LER de Setembro

A linguagem deste livro parecerá um tanto árida a quem não estiver familiarizado com a literatura sobre arte da guerra. O seu autor, Robert Smith, não é um historiador mas um militar de carreira, que remexe no passado da guerra principalmente para melhor a compreender e para preparar a sua condução no seu presente. No activo durante 40 anos, o General Smith ocupou elevados lugares de chefia nos conflitos do Iraque, da Bósnia e da Irlanda do Norte, entre muitos outros postos de responsabilidade. O ponto de partida, fundado no conhecimento da história e na experiência pessoal, é convicção de que a natureza da guerra mudou muito nas últimas décadas. Mas é também a certeza de que a nova realidade não é ainda devidamente apreendida, o que tem determinado decisões erradas e obsoletas. Sugere então a oposição entre dois paradigmas que cosnidera terem-se sucedido no tempo.

A Europa viveu séculos de campanhas militares pouco flexíveis. Através delas, governos e governantes limitavam-se a reorganizavar os mapas dos territórios, resguardando sempre o centro de um poder que deveria permanecer inatacável. Napoleão mudou profundamente esta realidade ao servir-se dos recursos humanos e morais da nação para destruir o opositor e instalar uma nova ordem, enquanto Clausewitz deu consistência teórica a esta nova forma de combater, e as reformas aplicadas pelo Estado prussiano lograram estabelecer um poder estável assente na «guerra industrial». Para Smith, esta ter-se-á fundado na procura de uma vitória absoluta, no conflito aberto e total entre Estados, na manobra flexível dos grandes exércitos e num apoio humano e material à actividade guerreira colocado pelos governos acima de quaisquer outros interesses.

Ao invés, o novo paradigma da «guerra entre o povo», emergente durante o período da Guerra Fria, funda-se, para o autor, na alternância entre o confronto aberto e o conflito localizado, independentemente do Estado enfrentar outro Estado ou um oponente de diferente natureza. Aqui não existe uma sequência pré-definida e a paz não é necessariamente o ponto de partida ou de chegada. Nenhum acto de força é agora decisivo, e a violência permanece disseminada no território, não distinguindo civis e militares, como ocorre hoje no Iraque, no Afeganistão ou no Kosovo. Pelo meio, Smith ocupa-se de situações no decorrer das quais o conflito entre os dois paradigmas, aquele que começava a revelar-se caduco e o que se anunciava emergente, redundou em operações que terminaram frequentes vezes – como ocorreu na China ou no Vietname, em Cuba ou em África, nos Balcãs ou no Médio-Oriente – com a vitória das forças tecnicamente pior preparadas.

Smith insiste em que, sob a nova forma de pensar e de fazer a guerra, o objectivo central passou a ser ganhar «a batalha das vontades». Não procurar o extermínio do inimigo mas uma mudança favorável na opinião pública. O que determina a alteração da conhecida tese clausewitziana sobre a guerra como a continuação da política: agora guerra e política confundem-se no tempo e nos modos.

Rupert Smith, A Utilidade da Força. A Arte da Guerra no Mundo Moderno. Tradução de Miguel Mata. Edições 70, 480 págs.

Renegados


  Gorki e Maiakovski segundo fotografia de Sergey Bratkov (2006)

Rumo ao inconcebível

[Antelóquio] Não, não vou escrever este post com prazer. Tudo isto me parecem pedaços de paisagem depois do incêndio. As últimas brasas, fumo no ar, o restolho que cheira ainda a queimada. O crepitar de uma distopia que se esforça por resistir. Marcos quilométricos de um caminho arriscado, à beira da ravina.

As pessoas e as organizações que se preocupam com a construção de um Portugal democrático e melhor – isto é, mais livre, mais transparente, mais justo e mais moderno -, devem agir com a maior prudência em relação à actividade do PCP, não se limitando a afastarem-se da sua esfera de acção ou a encolherem os ombros. Os fundamentos desta minha cautela, que não é de agora, dependem essencialmente de sete factores (para seguir a estrutura argumentativa linear tão do agrado dos militantes do partido, em regra adversos aos raciocínios elípticos): 1) da forma de actuação do partido, que tem perfilhado uma «política de trincheira» traduzida na tentativa de conquista de pequenas áreas de poder e da sua manutenção a todo o custo, sobrepondo inúmeras vezes os interesses partidários aos das pessoas; 2) do modelo de Estado e de sociedade que defende, assente na defesa da ditadura «da classe revolucionária» sobre o conjunto da sociedade, o qual em pouco ou nada difere daquele, historicamente funesto, que foi o do «socialismo real»; 3) da defesa como princípio orgânico da vida interna do próprio partido do chamado «centralismo democrático», que não é senão uma forma de legitimação da vontade de uma minoria dirigente que julga deter a «verdade científica»; 4) da sua cultura de dissolução do indivíduo no colectivo, contrária à promoção de um equilíbrio harmónico entre os dois factores; 5) da ausência de um modelo de sociedade que identifique claramente aquilo que propõe, para além dos combates pontuais, como horizonte de acção; 6) da manutenção de uma prática de «partido de vanguarda» sistematicamente apostado em dirigir os movimentos nos quais se envolve; e 7) da continuada justificação, como modelares, de experiências internacionais que se converteram em sociedades fortemente repressivas, bloqueadas e até atentatórias desses mesmos direitos que, na sua linha de combate dentro de portas, os comunistas declaram defender.

A conjugação destes factores tem servido de fonte de conflito e de desconfiança com forças que poderiam confluir em batalhas comuns. E tem servido para manter o PCP num lugar de crescente ambiguidade em relação à sua efectiva integração no jogo democrático.

A situação agravou-se nos últimos tempos e a instalação, na direcção do partido, de sectores obreiristas, representados desde logo pela figura do actual secretário-geral, com o seu discurso simplista e meramente proto-sindical, é um sinal importante da sua presença. Em paralelo, o retorno a uma mentalidade de seita, que parecia há alguns anos ter começado a perder-se, vê-se traduzido sobretudo nas palavras e nos actos de alguns sindicalistas e de muitos membros da JCP, atestando a presença de sectores maximalistas que, há décadas atrás, seriam facilmente qualificados como «oportunistas de esquerda». O conjunto poderá até, num curto prazo, obter alguns pequenos êxitos eleitorais, advindos do crescente descontentamento popular face ao governo do PS, mas jamais será capaz de congregar um projecto de poder realmente alternativo àquele protagonizado pelos dois partidos rotativistas gestores do regime.

Esta tendência superou agora a fronteira do inimaginável com a divulgação do «Projecto de Teses do XVIII Congresso», aprovado por unanimidade por 180 membros do Comité Central. Cinjo-me apenas, para já, a aspectos que vieram referidos nos jornais, como a desculpabilização do processo de degenerescência do aparelho de Estado e do modelo de sociedade vigentes na ex-URSS, cuja «destruição» se vê, nestas «teses», apenas como resultado da «traição» de alguns dirigentes, sem ser feito sequer um esforço de compreensão e de questionamento da herança estalinista, dos erros cometidos pelo sistema e dos dogmas e incapacidades que estiveram na origem de muitos dos desastres. Fala pois, o documento comunista, de uma panóplia de valores e de ideias-feitas, perfeitamente datados, que ali surgem isolados de toda a reflexão teórica produzida nos últimos cinquenta anos, de um «abandono de posições de classe e de uma estreita ligação com os trabalhadores», da «claudicação diante das pressões e chantagens do imperialismo», da «penetração em profundidade da ideologia social-democrata», da «rejeição do heróico património histórico dos comunistas», da «traição de altos responsáveis do Partido e do Estado», que «desorientaram e desarmaram os comunistas e as massas para a defesa do socialismo, possibilitando o rápido desenvolvimento e triunfo da contra-revolução com a reconstituição do capitalismo». Simples e sem mais, como requer uma compreensão pouco treinada no debate aberto e nas subtilezas da análise complexa de situações complexas. Com menor fôlego crítico que as conclusões do XX Congresso do PCUS, ocorrido no longínquo mês de Fevereiro do ano de 1956.

Depois, no topo do bolo, uma indicação, como expectativa, do que até hoje de manhã, ingenuamente, eu julgava inconcebível como posição colectiva dos comunistas portugueses, e imaginava confinada a sectores partidários activos mas não suficientemente representativos. Uma indicação, tenho a certeza disso, que exclui até uma espécie de consenso social construído, mesmo entre muitas das pessoas que têm votado no PCP, a propósito da matéria. Reproduzo sem comentários, que no caso em apreço se tornam completamente supérfluos: «Importante realidade do quadro internacional, nomeadamente pelo seu papel de resistência à ‘nova ordem’ imperialista, são os países que definem como orientação e objectivo a construção duma sociedade socialista – Cuba, China, Vietname, Laos e R.D.P. da Coreia.»

Estas pobres «teses» representam uma declaração de guerra do PCP à normal vida democrática, confirmando a sua afiliação a modelos ditatoriais e criminosos que as sociedades livres não só devem repudiar como precisam combater. Uma pergunta, apenas retórica pois não existe resposta possível para ela: o PCP qualifica o congresso que vai agora aprovar este terrífico monturo político como sendo projectado «Por Abril, pelo Socialismo, por um Partido Mais Forte»: Abril? Qual Abril?

PS – Estava a fechar este texto quando reparei num post sobre o mesmo assunto, e que aponta quase na mesma direcção, editado há poucas horas pelo Daniel Oliveira. Talvez eu me mostre só um tudo-nada menos defensivo, admito.

PS (2) – A «base teórica»

Interacção [2]

[audio http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2008/09/07-butterfly.mp3]

O princípio-jota

Ainda que com dois dias de atraso, recomendo a leitura deste post que Joana Lopes escreveu sobre a atitude tomada pela Juventude Socialista perante a decisão do Partido-Pai de não permitir que lei portuguesa passe a aceitar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

O Inspector das Tempestades

Henry David Thoreau (1817-1862), o poeta, naturalista e filósofo de Concord, Massachussetts – no tempo em que Massachussetts era o cu do mundo, e ainda por ali se mantinham visíveis e transitáveis as antigas pistas índias –, de quem estou a ler alguns escritos antigos chegados através do ecrã, foi professor e explicador, depois fabricante de lápis, preceptor, jardineiro e agrimensor. Gostava porém, de forma irónica e poética, de se apresentar publicamente como «inspector das tempestades». Vou lembrar-me dele no dia em que precisar de nomear um novo blogue. Queria poder lembrar-me dele todos os dias.

♪ Os Dias Felizes

Se existe cidadão comédien-cantor transversal à minha vida, um plaisir démodé ao qual regresso periodicamente, ele chama-se Shahnour Varenagh Aznavourian, Charles Aznavour. Não disse nada, nem me mexi do lugar, quando há uns quantos meses atrás, mais sábio que nunca e sem desafinar por um só segundo, esteve por cá no esplendor dos seus 84 anos. Mas agora apeteceu-me ouvir e dar a ouvir Les Jours Heureux. Aquela que será talvez a melhor, a mais inocente e a mais esperançosa das suas mais de mil canções.

[audio http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2008/09/18-les-jours-heureux.mp3]

Coragem, sim, mas apenas q.b.

O PS tem um problema para resolver. Por um lado, os seus deputados vão votar contra os projectos do Bloco de Esquerda e dos Verdes sobre os casamentos entre pessoas do mesmo sexo, ao que dizem alguns por tal matéria «não constar do programa eleitoral do partido». Sem que se permita sequer a opção pelo voto de consciência, precisamente num dos temas no qual este mais sentido faria. Por outro, sabendo-se que a oposição mais conservadora se servirá sempre do assunto para, com o acordo tácito das maiorias silenciosas e homofóbicas, retirar muitos votos ao PS, os seus responsáveis jamais inserirão tal matéria no próximo programa, ou fá-lo-ão sempre de forma ambígua e semi-invisível. Como resolver então o imbróglio? Surpreendendo com uma atitude de arrojo político, um forte sentido de equidade e empenho na mobilização cívica. Precisamente aquilo que não se espera da actual maioria no poder e da generalidade dos membros do seu cordato grupo parlamentar.

«Favores insignes» a baixo custo

Recebi na caixa do correio electrónico uma mensagem de publicidade que me deixou perplexo mas também, de alguma forma, repleto de confiança num amanhã promissor. Fazia até agora parte daquele conjunto de portugueses e portuguesas que vivia mais ou menos à deriva. Optimista céptico, ateu moderado e descrente do Portugal satisfeitinho que se mete em camionetas para ir aos comícios nacionais do PS, julgava viver já em estado de imunidade perante os grandes desígnios nacionais, órfão de exemplos e limitado a aguardar, sem réstia de esperança, pelo cumprimento do ciclo da vida, rumo à inexorável morte, ao pó e ao nada.

Eis senão quando me é proposta a aquisição de um exemplar de O Santo Condestável, contendo o fiel relato da vida de D. Nuno Álvares Pereira, esse antigo agente repressor dos camponeses alentejanos e extremenhos sublevados, e vitorioso chefe das agrestes contendas dos Atoleiros e de Aljubarrota, que um certo dia claro, à vista da luz divina, passou a ser «o Homem, o Herói e o Santo que estamos agora a ver elevado às honras dos altares por Sua Santidade Bento XVI, neste ano da Graça de 2008». Leio e releio a mensagem recebida, visito a página da Webboom que se refere a este livro da editora Planeta, e escuto os ecos de um apelo («Que o seu exemplo de Santidade nos leve a imitá-lo»), bem como os de uma promessa («Todos os seus devotos obterão, pela sua intercessão, favores insignes, de ordem espiritual e de ordem temporal»).

Na verdade, «na nossa época tão conturbada, quantos não são os que necessitam do seu socorro?». Inúmeros, sem dúvida: desde logo todos «aqueles que perderam a situação abastada e fácil em que viviam, os inebriados por êxitos inesperados», e depois «os que perderam o senso da medida e das elegâncias morais», o que julgo dizer-me directamente respeito. O apelo final dirige-se directamente ao mais inflexível ex-incréu, agora converso já às delícias do contacto espiritual com o «11º santo português»: «Faça, o meu caro leitor, uma boa leitura, bem como uma ainda melhor meditação ao ler esta breve biografia, e que as bênçãos de Deus, por intercessão do Santo Condestável, sejam derramadas em abundância no seu coração». Diante de tal proposta, como não desembolsar o putativo leitor os 12,60€ que lhe são solicitados como modesto óbolo destinado a custear uma tão promissora e edificante chave para a sua salvação material e espiritual? Como bónus, acrescente-se, recebe também o texto das Orações Marianas da devoção do Sto. Condestável e uma História do Carmo. Ainda há esperança para os Portugueses.

Road Movie [6]

Banda sonora: Hector Zazou – Sahara Blue
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Passado que não foi passado

Já se sabia há algum tempo que Julius Rosenberg, executado em Junho de 1953 na prisão de Sing-Sing em conjunto com a mulher, Ethel, ambos sob a acusação de conspiração e espionagem científica a favor da União Soviética, fora realmente um agente infiltrado. Após décadas de trabalhos e canseiras durante as quais procuraram provar a inocência dos pais, Michael e Robert, os órfãos do casal Rosenberg, aceitaram a nova versão do co-arguido Morton Sobell e acabam de reconhecer a verdade. O singular é que foram precisamente a presunção da sua inocência e a campanha pela sua ilibação que fundaram, na época de arranque da Guerra Fria, o reconhecimento de uma espécie de maldade natural do sistema penal americano junto da opinião pública dita «progressista». Este reconhecimento vem pois suscitar uma reescrita do lugar do episódio na memória profunda do antiamericanismo ocidental.

Quarta-feira em Macau

Se existe coisa que escapa facilmente ao autor é o destino dos textos públicos que este escreve. Cada leitor recorta o que lhe apetece recortar e tanto o pode afixar num placard de escola como passá-lo a um amigo ou transcrevê-lo num blogue. Refiro-me principalmente a fragmentos, que facilmente se emancipam dos textos originais.

Já me parece menos transparente o que acaba de fazer o diário Hoje Macau a alguns posts dispersos d’A Terceira Noite (e não só, ao que sei). Preenchendo com eles uma página inteira do jornal, e conferindo-lhes uma unidade que não tinham, deu a entender ao leitor comum que se trataria de uma colaboração formal do seu autor, o que não é verdade. Não é prática que ofenda por aí além e compreendo as aflições de quem com relativamente poucos colaboradores tenha de produzir diariamente um jornal, mas parece-me que teria sido correcto enviar por e-mail um pedido de autorização. Como teria sido igualmente avisado não abusar da obra alheia dando-lhe um formato que na origem esta não tinha. Divulgo o episódio por razões profilácticas, para prevenir eventuais recaídas. Ao Hoje Macau vou enviar, cordialmente, o link para este post.

Michelangelo, Jane e o trotskismo

Da primeira vez, vi magnetizado Blow-Up. Não sei quando estreou em Portugal, rebaptizado História de um Fotógrafo e com alguns cortes, o filme de Michelangelo Antonioni baseado num conto de Julio Cortázar, mas julgo que não foi logo em 1966, pois nessa altura o contacto dos corpos e a nudez frontal de Jane Birkin, a anglo-francesa que um dia atirou um futuro ministro do Governo para os braços do trotskismo, eram mais-que-improváveis nas salas portuguesas. Devo-o ter visto uns quatro anos mais tarde, durante a frágil e fértil abertura marcelista. Na altura, ainda não demasiado impressionado pelas fixidez realista que o marxismo de seguida me iria impor – aliás, o filme interroga justamente a definição/indefinição do conceito de real –, senti-me perturbado com o jogo de luzes, de lentes, de vidros e espelhos, e pelo fortíssimo erotismo, que cercava os gestos um tanto nervosos e desajeitados de Thomas/David Hemmings. Falo disto porque me passou agora pelas mãos a banda sonora do filme, em parte da responsabilidade de um então muito jovem Herbie Hancock. Aqui fica, com as «vassouras» inconfundíveis de Jack DeJohnette, mais o contrabaixo de Ron Carter e a guitarra de Jim Hall, o deslizante Jane’s Theme. Esta Jane, já agora, era Vanessa Redgrave, também ela uma futura militante trotskista. O mundo é pequeno.

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10:37 AM

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Are the times a-changin’?


Do Público online

É o capitalismo, seus distraídos

O Estado é bom quando protege as empresas e pérfido quando ampara as pessoas que precisam de amparo. Essa é a velha lógica do capitalismo e tem séculos de existência. A retórica neoliberal sobre a autonomia do mercado é apenas isso, retórica: só vale quando se teoriza em abstracto sobre a maldade do proteccionismo económico e a interferência nefasta dos movimentos sociais na construção de uma «prosperidade» selectiva. Não percebo em que é que a ajuda do governo federal ao até hoje quase falido American Internacional Group pode agora causar tanto espanto a certos analistas.

Interacção [1]

[audio http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2008/09/05-ingo_herrmann-sunbreeze.mp3]

Sem guia

O escândalo partiu de onde menos se esperava. Thomas Kohnstamm, autor de diversos volumes da Lonely Planet, a colecção de guias de viagem utilizada durante muito tempo por quem pretendesse libertar-se da ditadura francófila e dispendiosa dos Guias Michelin, resolveu contar – e fazer dinheiro com isso, publicando e vendendo às centenas de milhar Do Travel Writers Go To Hell? – de que forma redigiu os seus textos sem ir a muitos dos lugares dos quais falava. Ou passando por lá mas viajando, comendo e dormindo de uma forma bem diferente daquela que depois relatava aos seus leitores. Algumas vezes aceitando luvas para recomendar determinados hotéis, sugerir certos restaurantes, ou para fazer passar baiucas por bares imperdíveis. Fazendo-o, pois era bom nisso, de uma forma inteiramente convincente. Uma ou outra discrepância entre a realidade e o vertido no papel que alguns dos seus leitores iam notando passava sempre por excepcional, ou por azar do viajante. Foi preciso Kohnstamm escrever este livro para o embuste ser revelado.

A verdade, para que não me acusem de algo parecido, é que não li Do Travel Writers Go To Hell? – até uma excelente narrativa de viagem, dizem-me, e por isso vou ver se o arranjo – mas apenas as quatro páginas, escritas por Luís Maio, que sobre ele saíram ontem no suplemento «Fugas» do Público. O suficiente, porém, para ficar na dúvida sobre até que ponto muitos outros autores de guias disponíveis fizeram ou fazem a mesma coisa. E para perceber melhor de que forma muitos deles deixaram, ao contrário do que ocorreu num passado ainda recente com viajantes por sua conta e risco como Bruce Chatwin, Bill Bryson, Tony Horwitz ou Jeffrey Tayler, de seguir as suas próprias escolhas e de construir uma leitura crítica dos locais e regiões visitados, para vender ao leitor uma imagem apenas divertida, excitante ou serena de sítios nos quais este pode afinal ser explorado, passar um mau bocado ou conviver com todos os perigos. Se já olhava um tanto de lado os guias demasiado ilustrados que costumam inundar as livrarias a partir de Março e os textos xaroposos e superficiais com fotografias do autor-viajante enquanto poseur que passam por literatura de viagens (ou são-no a uma escala menor), agora mais desconfiado fiquei.

Anche noi

Apesar de tantos e tão justificados rumores em redor do centenário do poeta, romancista, crítico literário e tradutor Cesare Pavese (1908-1950), chegados durante esta última semana de todas as partes, quase ia passando em claro este pedaço de noite.

Anche noi ci fermiamo a sentire la notte
nell’instante che il vento è piú nudo: le vie
sono fredde di vento, ogni odore è caduto;
le narici si levano verso le luci oscillanto.

Também nós paramos para sentir a noite
no instante em que o vento é mais nu: as ruas
estão frias de vento, todos os odores caíram;
as narinas erguem-se para as luzes que tremem.

Fragmento de «Piaceri Notturni»
(Trad. de Carlos Leite in Trabalhar Cansa, Ed. Cotovia)

O pesado fardo

Encontrei por acaso e estou a ler mais devagar do que gostaria um pequeno livro de Tony Judt já com dez anos. Em The Burden of Responsability, o historiador e director do Erich Maria Remarque Institute aborda os trajectos de Léon Blum, Albert Camus e Raymond Aron. Três intelectuais franceses do século XX – intelectuais  naquele sentido zoliano fora de moda – que partilhando a atitude de empenhamento na vida pública conservaram sempre uma certa condição de outsiders. Em tempos duros para quem o fazia, quando a pertença a famílias políticas de contornos bem nítidos determinava rapidamente convenientes apoios ou exclusões sem apelo. Quando seguir um caminho autónomo representava um fardo pesado e inevitável para quem se atrevia a fazê-lo. Todos eles pagaram de alguma forma por isso, e, no entanto, talvez também por isso a evocação dos seus percursos lhes devolva hoje parte de uma integridade roubada. Mesmo quando se não aceitam – comigo isso passa-se principalmente com Aron, muito menos com Camus – algumas das suas escolhas.

Este blogue apoia / This blog supports Palin

Michael, Michael Palin.

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Before and After

«In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?»

–William Blake, The Tyger

Awakened from her slumber
she knew something had gone–
a drowsy innocence,
a complacent naitivity…
suddenly, in rude simplicity,
gone.

Shut against the world,
thousands of deaths evade her eyes;
their blood her own
spilled by her own–
an indifference.

Their blood her own,
in thousands (neither more nor less)
suddenly, in rude simplicity,
gone–

And now,
some how,
a difference.

Um poema de Julie Craig

Ou vai ou racha

A gigantesca «Máquina do Génesis» entrou hoje em funcionamento no Laboratório Europeu de Física de Partículas (CERN), tentando recriar a paisagem do Big Bang que teve lugar há cerca de 13,7 mil milhões de anos. Mas como a primeira colisão frontal de protões apenas está prevista para daqui a alguns meses, ainda não será desta que se dará o esperado Estoiro-Mestre. Todos contamos que os milhares de cientistas que andam há vinte anos a gastar rios de dinheiro para conseguirem simular os primeiros milésimos de segundo do Universo saibam mesmo aquilo que estão a fazer. Embora os mais avisados de nós saibam também que jamais existirá ciência certa.

[Adenda] A acompanhar aqui.

Através da noite

[audio http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2008/09/206_boozoo_bajou-second_to_none.mp3]

Ela está exposta na sua frágil frescura
e um pouco mais longínqua e despojada.
Ele procura-a no cimo da montanha
ou numa vertente vertical. A noite é calma,
um barco atravessa o mundo. Junto de um rio
brilham chamas sem rumor. Dispersas
são as imagens e as vozes, mas reunidas
num outro mundo mais sereno e vagaroso.
Ele soletra a pedra nupcial e misteriosa.
Um grito rápido de pássaro atravessa a clareira.
Entre duas árvores cintila a Cassiopeia.
Passam esquivas sombras sob os ramos das árvores.
António Ramos Rosa
Banda sonora: Bouzou Bajou – Second to None

Castelhanos de visita

É triste reconhecê-lo, mas todos nós padecemos de momentos de fraqueza que nos transformam de repente em seres inanimados. Ou melhor, talvez eles não constituam algo de triste e apenas façam parte da natureza humana. Acredito que mesmo «o homem mais inteligente do mundo» terá os seus instantes de astenia, nos quais permanece imóvel estirado no sofá, de olhos em alvo pregados no tecto, escutando um daqueles cêdês que simula durante 72’56” o ruído repousante de um regato a correr por entre passarinhos e madressilvas.

O meu momento espiritual é bastante mais ruidoso e ocorre por volta da hora de jantar, quando ligo o televisor para mudar de canal até ao infinito. Foi mais ou menos por essa altura – aceito que perdi a noção exacta do tempo – que passei por dois concursos populares. Num deles, uma jovem com um aspecto conveniente admitia que jamais tinha ouvido falar da Padeira de Aljubarrota (calculo que a temática da panificação lhe passe um tanto ao lado). Noutro, cinco participantes (num total de cinco) no programa de cultura geral «do Malato» concediam não fazerem a mínima ideia da razão obscura pela qual todos os anos, em Portugal, o dia 1 de Dezembro é feriado. Posso reconhecer que o meu estado de consciência não seria o melhor, mas fiquei com a impressão de que os castelhanos já podem avançar, pois muitos portugueses achariam a iniciativa uma experiência curiosa, rara e nunca vista.

Imoral, pelo menos

A notícia chegou e partiu como todas as outras, mas deixou um rasto de repulsa que merece ser partilhado. Saber pelos jornais que existe um número impressionante de famílias portuguesas que se estão a endividar pesadamente para comprarem aos filhos manuais escolares necessários para a sua integração – repare-se bem – no ensino escolar obrigatório, e que existem mesmo livrarias que criaram linhas de crédito para esse efeito, é algo que não pode ficar em claro e merece uma atenção muito séria das pessoas comuns. Não quero saber se existem outros «países avançados» que o fazem, ou se isto funciona como uma mola para a sacrossanta «modernização do ensino». Sei apenas que é uma situação imoral e caracterizada pela insensibilidade, a qual, num país marcado ainda por áreas de pobreza endémica e pela debilidade da classe média, deixa uma vez mais cair a responsabilidade social do Estado. E deveria envergonhar, envergonhar a sério, os responsáveis por um governo com o carimbo virtual de «socialista».