Arquivo de Janeiro de 2009

Corporativismo

Operários

São inquietantes, e muito, as manifestações de milhares de pessoas, junto às refinarias de Lindsey e de Grangemouth, à siderurgia de Teesside e à central eléctrica de Aberthaw, no Reino Unido, contra a presença de operários estrangeiros, sobretudo de portugueses e italianos. O apoio de alguns sindicatos britânicos a medidas xenófobas destinadas a protegerem o emprego dos trabalhadores locais – que em regra até há pouco rejeitavam as tarefas mais difíceis cumpridas pelos imigrantes – vem reforçar pesadamente a dimensão sinistra do episódio, mas indiciam também uma tendência que vem cruzando fronteiras.

Os nossos sindicatos, demasiadas vezes envelhecidos nos métodos, nas estratégias e até nos rostos, ainda não chegaram tão longe, mas mostram muitas vezes sintomas umbiguistas e corporativistas igualmente inquietantes. Refugiados numa dimensão ultrapassada e muitas vezes partidarizada da luta sindical, esquecem quase sempre os imigrantes (legais e ilegais, que raramente votam ou se sindicalizam), os jovens (que não constam dos seus planos e lhes pagam na mesma moeda), os desempregados e os reformados (que não são trabalhadores, não tendo por isso peso nos conflitos laborais), as mulheres (cujas especificidades reduzem quase sempre à condição supostamente paritária de trabalhadoras), acantonando-se também na defesa de algumas formas de proteccionismo que são, no mínimo, socialmente perigosas. Ainda não chegámos a Inglaterra, mas indícios de que nos podemos aproximar rapidamente do mau exemplo começam a surgir. E não só no horizonte.

PS - Houve entretanto quem «enfiasse a carapuça» a propósito deste brevíssimo comentário (que, obviamente, não é «análise» alguma). Nele não se atacam «os sindicatos», como qualquer leitor que não leia isto no «registo do acossado» facilmente percebe. Referem-se apenas algumas características presentes na prática de um certo modelo de sindicalismo. Velho, dependente, autofágico, e, é esse o problema aflorado, tendencialmente corporativista.

O Twitter e eu (de novo)

Tenho recebido mensagens de algumas pessoas, que imagino motivadas pelas referências que aqui tenho deixado e por causa delas me julgam o praticante que não sou, perguntando-me para que serve o Twitter e se vale a pena entrarem no barco. Querem sobretudo que lhes diga quais são as vantagens do acessório, presumindo que não existem desvantagens e suspeitando que estão a perder alguma coisa. Tenho respondido dizendo sempre mais ou menos o mesmo: o Twitter é uma boa ferramenta para o acesso a informação rápida, curta e incisiva, em grande quantidade, mas é também um factor de ruído e um devorador de energia se lhe dermos demasiada atenção. Por isso sou um twitteriano passivo. Recebo, leio e anoto muito mais do que ofereço. E quase só ofereço aquilo que julgo poder interessar minimamente a quem me segue.

Riso, crítica e resistência

Vladimir Illitch Groucho

Publicado numa outra versão na LER no. 76

O título, Foice e Martelo, evoca uma publicação militante ou uma daquelas obras mais grosseiramente anticomunistas dos tempos da Guerra Fria. Mas trata-se antes de uma divertida viagem, centrada na proliferação do humor vivida entre 1917 e 1989 nos países da Europa de Leste, que o apresentador de televisão e escritor britânico Ben Lewis desenvolveu a partir de uma extensa pesquisa sustentada na leitura de livros e de artigos de jornal, na consulta de arquivos da polícia e dos tribunais, e na gravação de alguns depoimentos orais.

Sob os regimes do «socialismo real», coexistiram quase sempre dois tipos de humor. Um, mais variado e dependente das circunstâncias, era o das anedotas clandestinas, populares, anónimas, vocacionadas para a paródia das falhas ou das iniquidades do sistema. O outro, oficial, abrangia algumas revistas, o cinema, a rádio e o espectáculo musical, procurando servir-se da sátira, ainda que de forma contida e centrada numa lógica de «humor positivo», para obter o apoio das populações ou para as educar de acordo com objectivos políticos categóricos. O primeiro tipo é, naturalmente, muito mais rico e interessante, surgindo com frequência como veículo de resistência, ou pelo menos de crítica, embora comportasse riscos muitíssimo elevados para quem dele se servia. Milhares de cidadãos foram detidos, enviados para campos, expulsos dos empregos, ou ficaram sem os seus bens, por haverem contado pequenas anedotas, ou dito piadas que envolviam dirigentes do Partido e do Estado, muitas das quais pouco mais eram, como se pode hoje provar, que meros jogos de palavras, inofensivos até aos olhos de alguns dos condenados. Mas era tão forte e constante a sua presença que até membros do aparelho partidário ou da polícia por vezes as contavam aos seus próximos.

Um dos indícios da força dessa presença pode associar-se ao facto de muitas das historietas terem cruzado as fronteiras dos diversos Estados e atravessado gerações. Lewis constrói uma cronologia desse processo, mostrando o modo como a multiplicação do humor não-oficial, ou a alteração dos temas utilizados e das figuras caricaturadas, correspondeu a tempos muito precisos, sendo claro que as décadas de 1930-1940, a da mais dura e repressiva fase do governo de Estaline, foram aquelas nas quais as anedotas se tornaram mais dúbias, enquanto o período do «degelo» krutcheviano, e depois a década que antecedeu o termo das democracias populares, viu este padrão de humor instalar-se como uma «segunda linguagem» em todo o bloco socialista e participar, de uma forma em alguns casos manifesta, no seu desmantelamento.

Um livro desta natureza, comportando um esforço de contextualização e de interpretação do anedotário anticomunista nativo, vale também, e provavelmente em primeiro lugar, pelas inúmeras piadas que oferece. Algumas delas com um forte sentido da ironia. Como aquela na qual à pergunta «qual o sexto sentido que toda a população soviética desenvolveu?» se responde com a frase sacramental «um profundo sentido de gratidão para com o Partido.»

Ben Lewis, Foice e Martelo. Tradução de Susana Serrão. Guerra e Paz, 368 págs.

Sublinhar o irrelevante

Parece-me inapropriado que em 2009, num país europeu, um jornal de referência destaque numa notícia sobre a viragem em curso na Islândia, a quatro colunas e com chamada na contracapa, que «uma lésbica assumida vai governar o país».  A concessão ao fácil não deve colher no leitor-comum do Público, que gosta de ver este tipo de informação, se ela for relevante, integrada na notícia, sem dúvida, mas sem destaque maior que aquele atribuído à idade, à profissão, à actividade política e, eventualmente, aos passatempos da pessoa em causa. Falo por mim, mas julgo não estar sozinho.

P.S. Muitas horas depois de, bem pela manhã, ter redigido o anterior parágrafo, revisito a notícia no Público online. Pelo estendal de comentários sórdidos que se lhe seguiu, percebo como o título utilizado pelo jornal ainda é mais perigoso e lamentável do que inicialmente parecia.

♪ ilha do tesouro|3

Da Islândia, enquanto há Islândia.

Rokkurro

Rökkurró
Hetjan á fjallinu [Það kólnar í kvöld...]

[audio:http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2009/01/05-hetjan-a-fjallinu.mp3]

Pelo milésimo Jóta-Éle

JL

A partir de 1981 e ao longo dos primeiros sete ou oito anos de publicação, à época semanal, fui comprando sempre o Jornal de Letras. Mas não foram apenas problemas de espaço que num repente me levaram a deixar de o fazer, aí pelo final da década. Vinha-me já distanciando, havia algum tempo, de um dialecto que me parecia demasiado fixo, datado, de temas e rostos repisados até ao esgotamento, de alguma reclusão em relação a um conceito de cultura que cada vez mais me parecia elitista e redutor, de um grafismo sonolento, que nem era clássico nem moderno. Foram duas as gotas de água que me levaram a deixar de comprar o jornal: a chegada de um número crescente de colaboradores incapazes de transcenderem um discurso académico autocentrado (e eu, pobre académico, queria tanto ouvir outra língua, outros timbres), e aquela incomodativa mania, que durou anos, para titularem todos, absolutamente todos os artigos, servindo-se das suas primeiras palavras.

Claro que não deixei de pedir o JL no quiosque do costume, passando a fazê-lo apenas mais espaçadamente, sempre que alguém me chamava a atenção para algum artigo, um tema que me interessava em particular, uma ou outra notícia (raramente bombástica pois tal coisa não era, nem é, prática da casa). É essa a situação na qual me mantenho, até porque algumas das características que menos me agradavam se conservam e o esforço de renovação, sendo real, não foi ainda suficientemente claro para romper com uma espécie de «paradigma geracional» do qual, malgrado a data de nascimento que ostento no BI, não me sinto especialmente próximo. Se calhar, diria, antes pelo contrário. Mas tal não significa que deixe de aclamar com ambas as mãos esse esforço que permitiu ao JL, hoje subintitulado «jornal de letras, artes e ideias», sobreviver no velho «Reino da Estupidez» até ao seu número 1.000. E continuar a ser uma referência capital no panorama cultural português, com incontáveis artigos de valia única, informação quase sempre relevante e um espólio absolutamente fora do comum.

Ao acaso, e sem outra intenção que não seja servir ao mesmo tempo de Mercúrio, de Jeremias e de áugure, retiro deste número 1000 um fragmento de uma crónica publicada há quase trinta anos, já perto do final da vida, por Nuno Bragança. Que serve também de advertência a quem aprouver atribuir-lhe serventia: «Quando me recordo dos debates parlamentares a que assisti em Londres, penso que o que mais me impressionou foi o recurso constante ao sentido de humor, que mantém respirável a atmosfera que os problemas graves e as tensões políticas carregam inevitavelmente.» E outro de José Cardoso Pires, na morte do grande amigo Carlos de Oliveira: «Não consigo perdoar que ele tenha morrido com a doença da Pátria, que tenha sido esse o final, o veneno que lhe passou ao coração.» E outro ainda de Agustina: «A literatura tornou-se um recurso, uma curiosidade, quanto muito, um estilo.»

José Carlos de Vasconcelos, director e artífice desde o ovo, promete agora um número 1001 «voltado para o futuro». Vamos esperar, que pelo futuro espera-se sempre, embora ele seja já agora. Se não estou em erro.

Originalmente em Os Livros Ardem Mal

Antes morrer de pé

Luisa de Gusmão

Na secção «Escrito na pedra», o P2 do Público atribui hoje a Luísa de Gusmão, mulher de D. João IV e primeira rainha da nossa Quarta Dinastia, a frase «antes morrer reinando do que acabar servindo». Os historiadores do período sabem que nada prova ter tal frase sido pronunciada, para além daquilo que escreveu na Historia de Portugal Restaurado Luís de Menezes, o 3º conde da Ericeira, homem consabidamente dado a algumas invenções. Mas não deixa de ser curiosa a preservação da fábula, pelo menos parcialmente justificada pelos profundos sentimentos antiespanholistas que se foram enraizando entre nós a partir de 1640, e que depois o salazarismo não só aproveitou como relançou. A frase «é melhor ser Rainha por um dia, do que duquesa toda a vida», também foi erradamente imputada a D. Luísa. Aliás, foi-lhe atribuída ainda a lenda de ter armado cavaleiros os seus próprios filhos para que estes pudessem «combater» no dia 1º de Dezembro (quando o mais velho não tinha se não 5 ou 6 anos). Na escola primária ofereceram-me outra versão – «antes morrer de pé do que viver de joelhos» -, que mais tarde vim a saber ser imputada a Emiliano Zapata, a Dolores Ibarruri (a Pasionaria), a Franklin Delano Roosevelt, ao «Che» Guevara, e a não sei quantas mais pessoas que a terão ou não feito ecoar algum dia em algum lugar. Claro que a última versão é a mais harmoniosa e a politicamente correcta. E com ela a rainha Luísa nada teve também a ver.

Trabant-2009

Trabant

Sobre os obscuros meandros do caso Freeport, declarou Jerónimo de Sousa que «é mais perigoso recorrer à propaganda para esconder a realidade do que dizer a verdade». Finalmente o PCP parece começar a tirar ilações sérias do que aconteceu a Leste, no seu velho e confortável Paraíso. O que só nos pode deixar felizes, expectantes e de braços abertos. A sério.

It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World

Mad, mad, mad, mad world

Obama «não tem a letra M nas suas iniciais». Não tem mas deveria ter. Sim porque «M poderia ser» o de Martin Luther King, o de Mahatma Ghandi ou o de Mandela. E também porque o M de Obama é, «à escala nacional», o M do Movimento Esperança Portugal, e, claro o de Marques, o seu Meritório presidente. Porque ambos concitam «dois grandes desígnios», que são «Esperança e Mudança». E é afinal no MEP – não esqueçamos, o prometedor partido de Laurinda «M» Alves («Quisque cursus ligula ut nunc»?) – que se reúnem, em Portugal, «aqueles que em conjunto com muitos outros deram a vitória a Obama». Tudo isto (e muito mais) é-nos revelado, «como o devido respeito» (como diria Manuel Monteiro, outro Maluco da política que também abusa do M), aqui na página oficial do MEP. [sigam ambos os links que não se arrependerão]

Pois foi

John Updike

Agradecido

Óculos

Comecei por sofrer de astigmatismo, o que me fez usar óculos desde os 10 anos. Aos 14 declarei profundamente inestético, e mau para aliciar mancebas, aquele apêndice de massa castanho-escura, tendo andado uma década ou mais sem tal objecto encavalitado no nariz. Depois dos quarenta apareceu a miopia. Assustei-me quando sem a graduação apropriada deixei de poder ler as tabuletas da autoestrada – por causa disso perdi-me certa vez em Moscavide quando devia ir a caminho de Huelva -, mas recompus-me com uma colecção de próteses para ver ao perto, ao médio e ao longe, desktops e palmtops, livros e filmes, jogos de campo, de sala ou de mesa. Jamais perdi, porém, a mania de ler as letras miudinhas das bulas dos medicamentos, das obras em papel de arroz, das notas de rodapé. Quem olha os meus ecrãs avisa-me sempre que estou a dar cabo da vista de tão pequenos se mostram neles os caracteres. Talvez por isso, irritam-me um pouco aqueles documentos – recebo-os quase todos os dias – que ampliam o texto a 140, a 165, a 200 por cento. É como se alguém me gritasse aos ouvidos. A quem possa ter esse desagradável hábito e me envie habitualmente dóques, erre-tê-éfes ou xiz-éle-ésses com o zoom elevado a tamanho para ceguetas, peço pois o grande favor de arrepiar caminho. Agradecido.

«Falar» na polícia

Tortura

A partir de hoje e durante toda esta semana, Caminhos da Memória irá publicar um longo texto de Diana Andringa dedicado a um dos temas mais difíceis e silenciados – mas incontornável pois determinou muitos dramas humanos e reviravoltas políticas das quais ainda hoje podemos colher certos ecos – da história da oposição ao Estado Novo.

O 4º pecado capital

Allen

Declaro sobre a Bíblia Sagrada – e até pode ser a mesma, a verdadeira, a de Lincoln, sobre a qual jurou o escurinho de quem se fala – que começava a escrever este post quando verifiquei que o Pedro Vieira acabava de publicar um outro sobre o mesmo assunto. Mas tenho o dever de insistir na mensagem: é profundamente injusto fazer-se alguém passar por génio inofensivo, e tocador de clarinete nas horas vagas com uma grande admiração por Ingmar Bergman em full-time, para poder filmar em Vicky Cristina Barcelona, sem quaisquer problemas com a polícia, velhíssimas fantasias masculinas envolvendo sexo sáfico e ménage à quatre. Ainda por cima com Scarlett Johansson e Penelope Cruz como protagonistas (mais Rebecca Hall e Javier Bardem, sejamos justos).

Coimbra C

Aleixo, Coimbra

Agora Coimbra já não é apenas a Rainha Santa, a Serenata Monumental, o Portugal dos Pequenitos (esse permanente evento) e Os Livros Ardem Mal. Digamos que é também Bruno Aleixo.

O taser de Taborda

1500 Volts

Um certo Sr. Taborda, dirigente da Federação Nacional dos Sindicatos da Função Pública, acaba de chamar a atenção para a falta de segurança de quem ganha o seu pão a trabalhar com menores delinquentes. Acha mesmo que chegou a hora de discutir a hipótese de os trabalhadores dos centros educativos terem acesso a tasers – sim, aquelas armas de electrochoque de alta voltagem que paralisam o alvo humano ao actuarem sobre o sistema nervoso central. «Se calhar», disse aos jornalistas, «nas unidades residenciais fechadas há necessidade de as equipas terem meios de contenção para as situações mais graves». Se calhar, podemos conjecturar, Taborda ainda estará a tempo de fazer um estágio em Guantánamo ou Abu Ghraib. Servindo de alvo, naturalmente.

Debaixo de fogo

Guerra

«Acho a guerra detestável, mas ainda são mais detestáveis aqueles que a elogiam sem nela haverem participado», escreveu Romain Rolland em 1914. Só defende a guerra sem hipocrisia quem não conhece os seus horrores. Quem a observa à distância, sem razões para sentir medo, como num velho jogo de soldadinhos de chumbo. Pela televisão, pela Internet, num daqueles livros de história sem alma que excitam os militaristas ou num álbum de fotografias cuidadosamente editadas para deixar sobre a mesa do chá. Mas mesmo aí deparamos com uma escolha, ocultando-se invariavelmente aquilo que nela existe de mais sórdido: os berros atrozes, as tripas pelo chão, o tremor dos corpos sobreviventes, o cheiro horrível do ferro em brasa misturado com vísceras queimadas.

Existe depois a selecção do cenário. Susan Sontag lembrou, em Olhando o sofrimento dos outros, que «quanto mais remoto ou exótico for o local, mais provável será que nos seja dado ver imagens frontais de mortos ou agonizantes». Ainda há pouco tempo pudemos perceber como as piores imagens da guerra da ex-Jugoslávia somente em sessões fechadas ao público e à comunicação foram apresentadas no Tribunal Penal Internacional de Haia. O mesmo acontecera já em Nuremberga. Pode falar-se da guerra com entusiasmo no ambiente asséptico das instalações de um Alto-Comando ou confortavelmente protegido pelo distanciamento temporal dos factos mencionados. Ou então observando-a como cenário ou mesmo como parte da obra de arte («Ah, Deus, como é bela a guerra!», escrevia Apollinaire em 1918, o ano da sua morte). Mas jamais em directo, sob fogo cerrado, debaixo do efeito de sopro das explosões, escutando o fragor dos passos rápidos, em fuga.

«Estas coisas são antigas»

Tempo

Eu sei que mais tarde ou mais cedo se quebrará o feitiço. E que sempre que falamos de patriotismo remexemos na caixa maldita que a filha primogénita de Zeus enviou a Epimeteu e este abriu libertando os males do mundo. Mas foram de facto raras, «antigas», inscritas numa dimensão ética quase fora deste tempo, algumas das frases do primeiro discurso oficial de Barack Obama. São trechos nucleares sobre os grandes princípios da convivência política e social, palavras que já não se costumam ouvir no refrão ajustado para os momentos de campanha, e que por isso mesmo a maioria dos comentadores ignorou ou achou desinteressantes. Esquecidas também porque centradas em desígnios, em princípios de vida, traduzidos em palavras que já não inteiram o ar do tempo. Mas é mesmo por isso que sabe bem ouvi-las sem ligarmos  à grande ilusão que sabemos conterem e tudo aquilo que o futuro nos reserva. Ler mais aqui.

Seguir pela esquerda

Pela esquerda

Vale a pena ler com alguma atenção o dossiê «A Esquerda e o Poder» que vem no número deste Janeiro do Le Monde Diplomatique português. O tema será provavelmente eterno, e os quatro testemunhos escolhidos demonstram de que maneira, felizmente, a declaração do binómio mais facilmente promove a divergência do que instiga o unanimismo.

Ao contrário do habitual neste tipo de nota, refiro primeiro os dois textos que me parecem francamente menos estimulantes. O artigo de António Abreu, ex-vereador lisboeta pelo PCP, intitulado «Diz-me como o exerces…», é crispado e previsível. O primeiro parágrafo dá o mote, pois nele se anuncia logo que o autor não vai «dar para o peditório que se vai arrastando penosamente das agregações, reorganizações e reconfigurações das várias componentes da esquerda», deixando claro que é «a experiência política» que o afasta de «tais conversas». Pouco há, pois, para discutir, tratando-se sobretudo de reafirmar convicções sobre a disjunção esquerda-direita que Abreu resolve sem quaisquer sobressaltos para quem conheça as posições oficiais do seu partido. Desenvolve depois algumas considerações que se fixam no papel da (sua) esquerda no domínio do poder autárquico. Já o texto de André Freire, «Esquerda plural e clareza das alternativas», nada tem de preconceituoso, mas integra a marca de uma boa parte das suas intervenções públicas: revela um exercício de ciência política de orientação normativa, criterioso e documentado como seria de esperar, mas infelizmente com um interesse um tanto relativo para o padrão de debate, mais de uma natureza prospectiva, mais quente, que aqui o tema proposto parecia reclamar e provavelmente a maioria dos leitores agradeceria.

Os outros dois testemunhos são claramente mais interessantes e, acima de tudo, abrem-se a um debate que possa ter em conta o necessário aggiornamento da esquerda, os rostos diversos que a sua definição como território de resistência vai tomando, e a sua ligação às experiências de conquista e de partilha do poder. Em «Poder fazer, fazer o poder», Daniel Oliveira recupera algumas das posições públicas que tem manifestado sobre as possibilidades da esquerda conservar a suas capacidades no terreno da contestação e da prática contracultural, sem que tal implique obrigatoriamente uma recusa de participação, ou até de partilha, no campo do poder. Recusando que a lógica dos movimentos sociais os reduza às relações de enfrentamento com a política institucional, sublinha que a participação da esquerda da qual fala nos organismos de decisão pode impulsionar mudanças pelas quais ela se tem batido. Mas avisa que «a luta pelo poder nas instituições de Estado» não só não dispensa esses movimentos «como precisa deles se quiser mudar alguma coisa.» Deixa claro constituir um erro o voltar das costas a esse espaço de intervenção, por troca com uma cultura de contrapoder ruidosa mas sem efectiva capacidade para mudar as coisas.

Por sua vez, José Neves, em «Alguns lugares-comuns sobre o poder», caminha de certa forma em direcção contrária, deixando em alguns momentos no ar a possibilidade negativa de o poder, o poder sem si, «sujar» a capacidade positiva de insubordinação diante da ordem injusta que a matriz da esquerda deve necessariamente incorporar. Provavelmente, este artigo é dos quatro o mais ambicioso, sendo o único que aborda criticamente algumas das fundações contemporâneas do conceito e da actividade de esquerda, colocados ambos sob uma perspectiva temporalmente situada que parece fecunda. Mas é também o único que não sugere respostas imediatas, pondo o acento tónico na diversidade das situações e na obrigatória capacidade de reformulação e de redescoberta que a esquerda e as suas organizações precisam manter para se adaptarem, reorganizarem e agirem num mundo crescentemente complexo: a ‘forma’ como elas fazem política deve então, nesta direcção, «ser algo tão ou mais importante do que o conteúdo das ‘políticas’ que defendem.»

O dossiê do LMD aproxima sintomas, vírus e fármacos. Não se ocupa, felizmente, da perfeição futura do doente quando por um passe de magia revolucionária este retornar ao estado saudável. Em parte, foi esta presunção de mudança que produziu o modelo unívoco e autofágico de esquerda que o tempo se tem encarregado de varrer. Para que outro, menos peremptório, mais plural, possa seguir o seu caminho.

Back to Iceland (remix)

Chove em Reiquejavique

Rigning é a palavra em islandês para a chuva. É igualmente o nome do último álbum do produtor e músico Aðalsteinn Guðmundsson, mais conhecido como Yagya, a invadir neste momento o meu posto de trabalho com uma espécie de tristeza benigna em cadência tecno. Entretanto, algures num recanto do monitor, correm imagens bem menos suaves dos tumultos desta manhã em Reiquejavique.

[audio http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2009/01/01-rigning-einn.mp3]

Figuras de linguagem

Pensador

«Alberto João Jardim vai estar no dia 23 no Clube dos Pensadores.» Não sei bem qual a figura de linguagem que poderemos aplicar a esta frase que chegou e à situação que ela indicia. Será o paradoxo? Será o eufemismo? O disfemismo? Talvez a hipálage, essa atribuição a um ser ou coisa de uma qualidade ou acção pertença de outro ser? A personificação, porventura? E a hipérbole, a sinestesia, a alegoria? Servirá alguma delas? Ou será preferível o animismo, que impõe a concessão da vida a seres inanimados? Talvez uma apenas, ou todas elas? A escolha é difícil, mas jamais servirá a ironia. Será melhor pensar com calma.

Toma lá ké pr’aprenderes

Não foi uma situação que estivesse prevista, mas após desistir da SIC-Notícias por casa das banalidades de Rogeiro & Cia. e do ruído da tradução directa, como não acertei logo com o canal da CNN acabei por escutar o primeiro discurso do 44º Presidente dos EUA através da Al-Jahazeera.

Frases que ficam 4

– Então tu faltastes ao trabalho para ver o casamento da princesa Diana e agora não vais ver a pose do Obama?

«Destes, gosto mesmo!»

Queridos amigos,

Foi lançada uma nova corrente destinada a sugerir a cada blogger nacional que mencione 15 blogues dos quais gosta muito, desafiando-se depois os «premiados» a continuarem a iniciativa passando a palavra àqueles que nomeiam. Em poucas horas, este blogue foi já citado algumas vezes, o que só honra o seu autor e, claro, confirma o bom gosto de quem o escolhe como companheiro de jornada. Agradeço muito a sua prova de confiança, embora não possa prometer amor eterno. Não vou seguir a cadeia, entre outras razões, porque se em 3 ou 4 é fácil excluir alguns, em 15 a escolha pode converter-se numa afronta aos rejeitados, e eu tenho o bom-nome, a segurança física e uma posição no mercado a salvaguardar. Mas aqui irei deixando ficar uma referência a quem premeie este blogue e eu tenha a possibilidade de detectar esse gesto da mais elementar justiça.

«Gostam mesmo» d’A Terceira Noite e ela deles (bom, quase sempre): blogOperatório, Corta-Fitas, Delito de Opinião, Der Terrorist, Entre as Brumas da Memória, Estado Sentido, Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos, O Amor e Outros Desastres, Segunda Língua.

Footurismo

O futuro

Portugal associou-se hoje à Espanha para lançar uma candidatura conjunta ao Mundial de Futebol de 2018. Confesso que nesta altura tenho dificuldade em pensar em qualquer coisa projectada para um futuro tão remoto, mas talvez seja por isso que não sou presidente da Federação nem me deixam entrar no clube de bridge. Quem tenha a capacidade previdente de projectar com antecipação aquilo que os outros irão sonhar no futuro sabe muito bem que o mundo pula e avança com bolas coloridas (e operações financeiras de longa duração). Além de que nessa altura já teremos o TGV em condições de darmos um saltinho a Barcelona a ver a bola, regressando a casa a tempo de ver o Prós e Contras. Construir o futuro é isso mesmo, antever. E depois há que continuar a trabalhar, levantar a cabeça e olhar em frente. Nós, maledicentes e esquerdistas, é que não estamos a ver a coisa e só temos pensamentos negativos. Mas calar-nos-emos quando ouvirmos o ruído das obras e virmos o povo em êxtase, a saltar, a saltar, as bandeiras a abanar.

Uma dor boa, sabem?

«Aconteceu uma coisa terrível na educação: tudo tem de ser divertido.» Nem tudo o que diz Alice Vieria na entrevista que deu ao Público de hoje – e que pode ser lida aqui – me parece indiscutível, mas existe muito de avisado nela. E a frase destacada pelo jornal sublinha aquela que me parece, de facto, ser a fonte última de alguns dos maiores problemas do sistema que temos, disseminados já por todos os graus e áreas de ensino. A dor de aprender é uma dor boa, só que muitas pessoas, e algumas delas com poder de decisão neste campo, já não sabem disso. Não sabem o que perdem, aquilo que deixam de ganhar e o que roubam aos outros.

Gente imensa

Intelectuais

Em Intellectuals – um livro já com mais de vinte anos, pronto agora a sair em edição portuguesa – o historiador e jornalista britânico conservador Paul Johnson inventaria as características recorrentes que considera próprias de quem vive aquela condição. Serão estas, aliás, que quase sempre as transformam em figuras públicas, muitas vezes singulares e admiráveis, mas que na vida privada se transmutam em seres falíveis ou execráveis. Eis algumas dessas qualidades-natas (por ordem alfabética para que ninguém se sinta prejudicado): agressividade, ambição, auto-comiseração, auto-convencimento, cobardia, credulidade, crueldade, egoísmo, falsidade, hipocrisia, indolência, ingratidão, intolerância, irascibilidade, manipulação, misantropia, oportunismo, rudeza, snobismo e vaidade. É preciso ser-se imenso, e ainda imensamente competente, para aguentar com tanto atributo em cima.

Ainda e de novo

Pax Arabica

Ainda e de novo Gaza. Ainda e de novo uma evidência. Ser por uma solução justa é ser pela paz, mas ser pela paz não impõe a vitória de um Estado sobre um povo, de um povo sobre outro povo, de um povo que se bate pelos seus direitos sobre outro que o faz também. Ser pela paz não é ser contra Israel, como o Hamas confirma e os idiotas úteis se esforçam por provar.  Ser pela paz não é condenar a Fatah e ignorar os israelitas que não são belicistas. Ser pela paz não é ser por Israel e a imposição violenta de uma pax hebraica erguida contra uma eventual pax arabica. Não é ser sionista. Nem anti-semita, já que semitas são eles todos, e também nós um pouco.

Mas também não é ser estúpido e acreditar que são todos bons rapazes. Nem fugir ao óbvio: a actual guerra injusta, aproveitada por sectores no poder em Israel para afirmarem uma política agressiva e se manterem no poder, foi, num primeiro momento, na altura do Natal, directamente provocada pelo Hamas, que sabia muito bem ir ter uma resposta. Que, tal como o Hezbollah, procura usar a luta dos palestinianos para impor mais uma ditadura islamita, como o comprova a sua forma de governar as regiões que controlam. Que não quer paz alguma: quer a guerra, como o atesta a reivindicação estúpida de agora apenas aceitar o cessar-fogo cedido pelos israelitas se os vencedores a curto prazo se declararem vencidos a longo termo. Que se serve de escudos humanos e transforma os horrores da guerra, reais – dos maiores horrores da Segunda Grande Guerra, relembro, viveu-os a Alemanha sob as bombas aliadas, como no-lo contou W. G. Sebald – em propaganda que muitos ocidentais compram sem ver. Ser pela paz é apresentá-la como o único horizonte possível, mas não é a aceitar a supremacia de uma das partes. E, de um lado ou do outro, não se faz, não pode fazer-se, com aqueles que pretendem impor essa supremacia. Tanto quanto seja possível, e o mais depressa possível, esses devem ser afastados do processo. Em nome de uma paz levantada contra os tigres e os falcões, e que não nasça podre.

Portugal de perfil

Ao contrário daquilo que determinados portugueses afirmam e muitos mais possam pensar, não é exclusivo seu o dizerem mal de si próprios. Mas está-lhes na massa do sangue, como de alguma forma o procura demonstrar Portugal Traduzido – Abecedário de Reflexões (Zaina Editores), de John Wolf, um americano (verdadeiro?) integrado na cultura local há cerca de vinte anos. Escrito de uma maneira singular – com o timbre de uma espécie de sotaque sintáctico -, e sempre com muita ironia à mistura, ele é identificado pelo autor como um «manual de observação da realidade organizado alfabeticamente», no qual se procurou mapear com leveza e humor «a condição portuguesa» e algumas das suas práticas mais peculiares. Ao mesmo tempo, Wolf procura oferecer algumas soluções que possibilitem a superação de alguns dos atavismos que foi anotando. Refere, por exemplo, que «a excessiva promiscuidade da sociedade das artes e letras conduz a quadros de chantagem intelectual», para logo adiante sugerir a disseminação da prática do brainstorming. Ou brada contra os tradicionais jantares de solidariedade, «imagem confessada das teias da dependência», para depois aconselhar a não-banalização da verdadeira amizade. A brincar ou com um pouco mais de circunspecção, Wolf vai dizendo algumas verdades que talvez valha a pena escutar e que nós próprios quase sempre esquecemos porque as naturalizámos.

Embora num outro formato, também na LER No. 74

♪ ilha do tesouro|2

Como bónus de lançamento da série, aqui vai outra proposta. Já de 2009.

Telefon Tel Aviv

Telefon Tel Aviv
Immolate Yourself [Immolate Yourself]

[audio:http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2009/01/10-immolate-yourself1.mp3]

♪ ilha do tesouro|1

A pedido de algumas famílias, o primeiro post de uma série que servirá para partilhar alguns achados. Música popular contemporânea. Urbana e nocturna, de preferência.

Au Revoir Borealis

Au Revoir Borealis
The World Is Too Much With Us [Dark Enough For Stars]

[audio:http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2009/01/03-the-world-is-too-much-with-us.mp3]