Arquivo de Fevereiro de 2009

♪ Last Goodbye (um post triste)

escarletxi

Miss Johansson, a moçoila trigueira que impressiona favoravelmente 90% dos homens de meia-idade (e 89% dos outros), afinal canta um bocadinho pior ainda – ah, aquele «it’s over, it’s over» em re sustenido maior! – do que cantava outrora a Dra. Marilyn. Estarei errado?
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A Guerra Colonial em linha

Guerra Colonial

Há já algum tempo online em fase experimental, está finalmente pronto e inteiramente disponível Guerra Colonial | 1961-1974, um excelente e muito completo sítio contendo informação sobre o longo e dramático conflito que marcou a experiência de gerações e continua a marcar a memória de milhões de europeus e de africanos que falam português.

Angola: o passado agora

Angola

José Eduardo Agualusa comenta no prefácio que escreveu para Fragmentos de Angola, de Sébastien e Thomas Roy (Teorema) que ali se dá a ver Angola, e em particular a cidade de Luanda, «não apenas a quem nunca a viu, mas também a quem sempre lá viveu e que, de tanto a ter diante dos olhos, se tornou cego para inúmeras evidências.» Talvez por chegarem de um mundo à parte, e sem a carga de memória de quem acompanhou de perto a descolonização e a destrutiva guerra civil, os dois franceses responsáveis por estas impressões de viagem e pelas fotografias a preto e branco que as acompanham produzem no leitor um efeito análogo ao de quem leia as notas de uma viagem até um planeta desconhecido. Fala-se aqui de uma Angola pós-guerra civil, que conhece finalmente a paz mas vê-a crescer associada a uma sociedade persistentemente desigual, na qual a esperança e o optimismo, nela quase essenciais, todos os dias se vêm confrontados com a ausência de um futuro previsível. É também um livro de «memórias em diferido», entre a reportagem e o devaneio literário, que vai associando a observação directa e o testemunho pessoal a referências explícitas fundeadas na história recente. Porque nesta paisagem, umas vezes desolada, pontuada por escombros, outras vezes luminosa e excitante, se vislumbram ainda, a todo o instante, as ligações com um passado do qual se vêem as sombras.

LER de Fevereiro

LER

Já está à venda a LER no. 77, de Fevereiro. Inclui um dossiê sobre a obra de Charles Darwin nos duzentos anos transcorridos sobre o nascimento do autor de A Origem das Espécies, uma entrevista com Jonathan Nossiter, o realizador do documentário Mondovino, uma evocação de Nuno Bragança, que entraria agora na oitava década de vida, uma micro-entrevista com Ruy Castro. E bastante mais.

Prosa marítima

Naco de prosa
J. Félix Nogueira in Archivo pittoresco: semanário illustrado – no. 1, 1857

Cobardia diplomática

Algumas linhas mais ainda a propósito do caso das manifestações xenófobas, ocorridas no norte de Inglaterra, que visaram alguns trabalhadores portugueses e foram apoiadas por sindicatos locais (ver um pouco abaixo). António Santana Carlos, o embaixador de Portugal no Reino Unido, confirmou à imprensa que não se deslocou à região onde ocorreu o conflito mas conseguiu «falar com um trabalhador», embora não tenha especificado se o fez telefonicamente, se por e-mail, SMS ou Twitter. Quanto às duas dezenas de compatriotas seus, intimidados, isolados e deixados sem apoio pelas autoridades portuguesas e pelos mesmos sindicatos, afirmou o embaixador que estes regressaram a Portugal «de livre vontade». Pois então, sendo assim, tudo bem e paz na terra aos homens de boa vontade.

De Ur a Alguidares de Baixo

J. L. Saldanha Sanches disse a noite passada no programa de televisão da outra senhora que «não há obras públicas sem saco azul». Faz parte da ordem natural das coisas e não existe crise económica ou política antidespesista que a possa contrariar. É assim pelo menos desde o tempo dos sumérios e dos seus construtores de zigurates. Porque haveríamos nós de ser diferentes?

Mensageiros do apocalipse

Utopias e companhia

Publicado numa outra versão na LER no. 76

John Gray sustenta que a experiência política contemporânea não é senão um capítulo da história da religião, procedendo do cristianismo e da sua concepção linear do tempo. Ela integra a crença num momento e num locus utópico que saiu reforçada com a afirmação, após o triunfo da Revolução Francesa, de narrativas apostadas em conceber a História como trajecto lançado num único sentido, em condições de abrir as portas a um amanhã irrevogavelmente afortunado. Expressão de uma vertigem que sublima o antigo impulso religioso, a retórica pós-revolucionária – nas vertentes jacobina, bolchevique ou nazi – afirmou assim a crença num futuro colectivo, feliz e decisivo, embora se tenha mostrado inapta para promover a sua efectiva construção. Gray considera que ela não fez senão retomar as convicções messiânicas, fundadas na ideia de que a História possui uma intriga subjacente, que cruzaram a Baixa Idade Média e atravessaram os tempos modernos, dando corpo a movimentos milenaristas de natureza religiosa ou secular.

Em grande parte de A Morte da Utopia e o Regresso das Religiões Apocalípticas, ocorre um esforço para mostrar de que forma em diversas situações contemporâneas – como a ascensão do neoliberalismo e da Terceira Via, o intervencionismo militarista americano, a ascensão dos fundamentalismos islâmico e cristão, ou as tensões em redor das novas formas de terrorismo -, se detecta o mesmo erro básico e funesto, traduzido na convicção de que existe uma espécie de finalidade histórica única, destinada a impor um modelo universal, pela qual alguém deve assumir a responsabilidade. Particularmente visada é a intervenção dos utopistas neoconservadores e religiosos na definição da política externa americana sob a administração de George W. Bush, tanto na sua vertente mais pragmática (procurando, por exemplo, impor um modelo ocidental de democracia para o Iraque), quanto no seu lado assumidamente apocalíptico, destinado a vincar o papel redentor dos Estados Unidos da América.

Como numa missa negra - Black Mass é o título original da obra, que a tradução portuguesa não seguiu -, verifica-se uma inversão perigosa do objecto sagrado. A dimensão utópica, essencialmente consagrada como positiva e redentora ao longo dos últimos dois séculos, é aqui voltada então do avesso e apontada aos humanos como um ídolo sedento de sangue, destinado a causar logros, desilusões, ou, bem pior, a impor por toda a parte o sofrimento e a morte. As utopias, diz Gray, «são sonhos de libertação colectiva que na vida real se transformam em pesadelos.»

Nesta obra de filosofia política, patenteia-se uma leitura cínica, embora sedutora, do conceito de utopia. Leitura que passa pela eleição de um antídoto destinado a derrotar o canto de sereia que esta a todo o momento sugere. O autor chama realismo a esse antídoto, definindo-o como a aceitação de que a vida não consiste afinal na demanda de soluções absolutas e salvadoras, mas antes, inversamente, no reconhecimento da existência de problemas insolúveis frente aos quais se devem ir apenas, caso a caso, tomando as decisões possíveis. Contra as utopias que exprimem uma continuação da religião por outros meios, sugere-se pois um contra-veneno. Resta saber se este funcionará e se a atracção pela imaginação utópica não é de facto, como insistiu, entre outros, Ernst Bloch, uma característica recorrente e inevitável, contra a qual a consciência do realismo pouco poderá.

John Gray, A Morte da Utopia e o Regresso das Religiões Apocalípticas. Tradução de Freitas e Silva. Guerra e Paz, 312 págs.

♪ ilha do tesouro|4

Ao domingo chega o comboio de Visaginas, Lituânia.

Alina Orlova

Alina Orlova
Vaiduokliai [Laukinis šuo dingo]
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