Arquivo de Abril de 2009
Um sentido para a esquerda
Por admin in Livros & Leituras, Música, Opinião em 7 de Abril de 2009

Publicado originalmente na revista LER de Março
Celso Cruzeiro é reconhecido principalmente pela sua actividade como advogado e por ter sido um dos rostos principais da «crise estudantil» coimbrã de 1969. Conhece-se-lhe o activismo constante em alguns dos combates da esquerda geralmente não-alinhada, bem como o interesse por uma leitura interpretativa dos episódios de militância pelos quais passou, mas era-lhe até agora ignorado o gosto persistente e actualizado por uma reflexão teórica aprofundada sobre as circunstâncias, as coisas e as causas da esquerda. Este A Nova Esquerda retoma no título a designação utilizada para definir politicamente alguns dos movimentos radicais das décadas de 1960-1970, mas nem por isso se ocupa em excesso com uma busca retrospectiva das referências que naquele tempo moldaram o percurso do autor. Ao invés, a actualização das leituras e dos debates aos quais este se reporta conferem ao livro uma dimensão exemplar, rara entre nós, de adequação do reconhecimento da mudança do mundo ao pulsar mais contemporâneo do pensamento crítico e da intervenção política.
Esta é, no entanto, uma daquelas obras das quais é habitual dizer-se que valem pelo todo. Não é possível lê-la de forma fragmentada, pois resultaria quase indecifrável um discurso erudito que não se compraz com sublinhados ocasionais. Trata-se de facto de um texto denso, consistente, resultante de um trabalho aturado de cerca de treze anos, através do qual Celso Cruzeiro conduz o leitor por quatro inquietações com correspondência noutros tantos capítulos. A primeira delas diz respeito à busca de um sentido, no domínio da epistemologia das ciências e da reflexão filosófica, para um mundo que hoje, mais que nunca, se revela instável e desconforme os grandes sistemas explicativos da modernidade colapsados a partir do segundo pós-guerra. A segunda ensaia um trabalho de compreensão da realidade actual do capitalismo, da renovação das suas vias e métodos, das consequências da ordem injusta que materializa para a vida das pessoas comuns. A terceira inquietação prende-se com a busca de indícios que permitam entrever a construção de uma teoria revolucionária capaz de fazer frente às novas realidades, à desesperança e às carências impostas pelo actual processo de mudança histórica. E, por fim, o quarto problema conduz o autor ao vasculhar das consequências mais nefastas da presente ordem económica mundial e do aparecimento de algumas das vozes e das tendências capazes de lhe fazerem frente no terreno.
Quando, a dado momento, recorre à voz do economista e filósofo neoliberal Friedrich von Hayek onde este declara não existir actualmente «critério algum através do qual nós possamos descobrir o que é socialmente injusto», Cruzeiro aponta justamente para o inverso: para a necessidade de perceber as causas da injustiça de modo a que se torne possível combatê-la e aniquilá-la. Uma obra marcada, por isso, mais pela esperança que pelo desencanto.
Celso Cruzeiro (2008). A Nova Esquerda. Raízes teóricas e horizonte político. Porto: Campo das Letras – Âncora Editora. 250 págs.
♪ ilha do tesouro|10
De como os nossos ouvidos sentem a ausência da língua francesa.

Vincent Delerm
Et François de Roubaix dans le dos [15 Chansons]
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Alegadamente à esquerda
Por admin in Apontamentos, Memória em 5 de Abril de 2009
No telejornal da RTP, uma peça jornalística refere o papel do coronel Jaime Neves durante o biénio revolucionário pós-Abril – o ex-comando está na calha para ser «canonizado» como major-general, sendo esse o sentido da peça – como o de alguém «que se confrontou então com militares alegadamente mais à esquerda». Utilizando a expressão que habitualmente associa a presunção de inocência ao criminoso em vias de ser julgado. Mais um sinal de tontice e de ausência de perspectiva histórica do tamanho de uma viatura Chaimite. Existem livros de todos os tamanhos sobre os episódios desse «então» e alguns até são daqueles fininhos e com muitas imagens. Ninguém os avisou?
Resgate e redenção
Por admin in Atualidade, Direitos Humanos, Olhares, Opinião em 5 de Abril de 2009

Por onde quer que distribuam a sua acção e a sua influência, é própria de todas as religiões – mesmo das seculares – a vontade de determinar um ethos, identificado com o bem comum e a moral individual, capaz de justificar a prescrição de certas atitudes e a proscrição de outras. As religiões do livro em particular, todas elas, têm séculos de experiência neste campo. E é nesta tradição que se pode encaixar a actividade da organização não-governamental israelita JONAH – Jews Offering New Alternatives to Homosexuality – que procura prevenir e actuar sobre pessoas que sintam «atracção por outras do mesmo sexo». Como sempre, a intenção declara-se benévola: aliviar o tormento de quem sofre a sua «anormalidade», bem como o dos entes queridos destas pessoas, que com elas têm de partilhar esse lado «triste» e doloroso da vida. Afinal, declara na página oficial da JONAH o rabi Shmuel Kamenetsky, «nada existe que a Torah proíba e o ser humano não seja capaz de controlar.» Mudando de hábito de acordo com o lado onde nasce o sol, esta gente vive num mundo cerrado que roda a uma velocidade lenta, mas nem por isso deixa de procurar impor onde pode um perigoso higienismo.
Os ricos que paguem a crise
Por admin in Apontamentos, Atualidade em 5 de Abril de 2009

O PCP pretende que a Assembleia da República produza um quadro legislativo capaz de permitir a «criminalização do enriquecimento ilícito». Já em tempos o tentou sem sucesso, mas considera agora, «tendo em conta que a evolução e a própria vida», que existem condições para que a proposta seja aprovada. Não estou em condições de comentar a substância jurídica desta iniciativa, mas de uma coisa estou certo: naquilo a que chamamos um estado de direito ninguém pode ser julgado duas vezes, e duas vezes condenado, pelo mesmo crime. Se o enriquecimento é ilícito, existiu antes dele um acto, ou existiram diversos actos, provavelmente conjugados, que determinaram essa ilicitude. Os quais deverão, sem qualquer dúvida, ser investigados, julgados e punidos de uma forma rápida, eficaz e exemplar. Am I wrong? É que de outra forma poderemos antecipar a culpa e retornar aos tempos – por certo saudosos para os presumíveis proponentes – da abjecção proudhoniana da propriedade, da punição dos kulaks pelo facto de o serem ou da criminalização discricionária dos «sinais exteriores de riqueza».
Adenda: No seu estilo próprio, sempre com algo de agreste que o distingue dos outros e lhe confere um sal que aprecio, Nuno Ramos de Almeida comenta este post apodando de «santa ignorância» a ausência de perspectiva que, na sua opinião, o terá determinado. Não vou contrariar o juízo, obviamente, até porque nem o Nuno sabe aquilo que eu sei nem eu domino tudo aquilo que ele conhece, mas de uma coisa pode estar certo: tenho os olhos suficientemente abertos, e experiência que baste, para distinguir a declaração de necessidade de legislação própria e ágil contra os crimes «de colarinho branco» – com a qual essencialmente concordo – da vontade indómita, presente em certos discursos, de mandar toda a gente com mais de cinco zeros no saldo bancário para as galés. É esta, pelos perigos que comporta, que me repugna. Quanto ao epíteto de «anti-comunismo» lançado sobre a intenção, talvez seja um bocadito exagerado: pelo menos tanto quanto o anátema de «anti-socialismo» lançado sobre quem apenas não aprecie José Sócrates e os seus queridos muchachos.
♪ Melodia de sempre.1

| Frank Sinatra – Don’t be that way |
| [audio:http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2009/04/08-dont-be-that-way.mp3] |
Outubro revisitado
Por admin in História, Livros & Leituras em 4 de Abril de 2009

Publicado originalmente na revista LER de Março
Não é todos os dias que de um trabalho criterioso resulta uma noção de razoabilidade aplicada à governação de Estaline, mas é isso que acontece com este livro. Ao procurar devolver a complexidade original a um dos episódios fundadores do mundo contemporâneo que mais vezes tem sido reduzido a estereótipos, Mário Machaqueiro mostra como vale sempre a pena reapreciar, procurar os detalhes, detectar novos nexos e contradições naquilo que muitas das vezes pensamos nada mais ter para oferecer senão a repetição das evidências.
Durante a maior parte do século passado, tanto a historiografia oficial como a oficiosa, mesmo parte daquela que poderia e deveria assumir uma maior vigilância crítica, fez eco de traços da revolução de 1917 aceites como inquestionáveis: desde logo o carácter radicalmente fundador da tomada do poder pelos bolcheviques, mas também a sua actuação colectiva como corpo submetido a uma disciplina rígida, a inscrição da sua intervenção num fluxo histórico de sentido progressivo e universalista, a dimensão unívoca e previdente da intervenção de Lenine. Nesta obra de sociologia histórica, Machaqueiro arruína esses pressupostos, mostrando de que forma a tomada do poder pelos comunistas, desde a sua fase de preparação até aos tempos iniciais de construção e defesa da nova ordem, se definiu através de processos que nada tiveram de lineares ou de previsíveis, em regra resolvidos à vista e caso a caso, entre importantes divergências, e, no que diz respeito a Lenine, definindo um percurso até bastante sinuoso, no qual a intuição e o voluntarismo se sobrepunham muitas vezes à planificação e à gestão racional da mudança.
Aqui a transição iniciada em Outubro «deu-se menos sob a cobertura de um paradigma disponível do que sob a busca de um paradigma fugidio perante uma realidade crescentemente volátil», na qual a luta de facções no interior do próprio bolchevismo, projectada muito antes da morte de Lenine e persistindo alguns anos mais depois desta acontecer, se tornara uma constante. Só com Estaline tal estado de coisas terá sido dominado pela intervenção de uma vontade coesa, forte e demolidora. Boa parte do livro aplica-se aliás, contestando a teoria de Thomas Kuhn que fala de rupturas revolucionárias repentinas impostas por posições inconciliáveis, a estabelecer um reconhecimento detalhado dos complexos «processos de transição societal» que foram permitindo, a partir da revolução, desenhar os constantes avanços, recuos e mudanças de direcção, considerando que «só o estalinismo constituiu, a bem dizer, um paradigma societal na história da Rússia soviética.» Uma porção substancial do volume ocupa-se ainda com as construções e representações identitárias que permitem hoje «interpretar o devir da Revolução Soviética», as quais passaram, atendendo ao lugar ocupado pela Rússia e à profunda complexidade social que então a atravessava, pela centralidade de «identidades de fronteira» e de bloqueios que se mantiveram após 1917. Também neste campo, apenas a ordem estalinista acabará com a indefinição.
Mário Machaqueiro, A Revolução Soviética, Hoje. Ensaio de releitura da revolução de 1917. Afrontamento, 344 págs.
Whadda mistaka da maka!
Por admin in Atualidade, Opinião em 4 de Abril de 2009

Não deixa de ser curiosa a forma como um certo tipo de glosador da realidade circundante – da mesma espécie que correu em passo acelerado a acusar o Bourbon madrileno de sobranceria quando este sugeriu publicamente a Hugo Chávez que simplesmente deixasse os outros falarem -, ignore agora, ou refira só de raspão, a frase pronunciada por Isabel de Inglaterra quando esta se espantou, durante a régia recepção aos políticos do G20, com o tom vagamente tumultuoso, ou no mínimo alterado para o ambiente tranquilo do Palácio de Birmingham, da voz do cavaliere Berlusconi. Como este não é Chávez, agora o escândalo morreu à nascença e os exaltados de serviço deixaram as acusações no saco. O que até é injusto, dado fazer todo o sentido estranhar-se que uma figura como Isabel II ignore os traços dominantes de um dos personagens centrais de Allo, Allo!, uma das melhores séries de comédia para a televisão produzidas no interior dos seus reais domínios. Refiro-me ao sonoro Capitão Bertorelli, obviamente, que o estrepitoso Don Silvio descaradamente plagia.
Poética social
Por admin in Atualidade, Livros & Leituras, Olhares em 4 de Abril de 2009

Intimidade Cultural, subintitulado Poética Social no Estado-Nação, é uma colectânea de ensaios publicada entre 1986 e 1995 pelo antropólogo Michael Herzfeld, um professor da Universidade de Harvard que há cerca de trinta anos vem pesquisando e escrevendo sobre os caminhos da Grécia contemporânea. Se existe uma orientação comum aos diversos artigos compilados, ela traduz-se na tentativa de compreender a forma como aquilo a que chamamos «valores» se incorpora na experiência das relações sociais. É neste âmbito que se coloca o que Herzfeld chama aqui de «intimidade cultural», um lugar do espaço colectivo onde os valores que os indivíduos e grupos consideram como seus se cruzam e interagem com os demais. Esta intimidade cultural apoia-se, por sua vez, numa «poética social», observada como «apresentação criativa do eu individual», e que se apresenta aqui como expressão da «função poética da linguagem»: a possibilidade, inscrita na língua e na cultura de cada um, de jogar a todo o instante com os códigos que são apropriados e emitidos pelos outros. É também abordada neste livro a integração do Estado neste processo, uma vez que este é sobretudo «um conjunto de instituições e de estratégias que se apoiam nos mecanismos sociais mais quotidianos», e que, precisamente por isso, não pode ignorar as crenças e os mitos, os localismos e as segmentaridades, as identidades e os estereótipos. Uma reflexão estimulante, que nos deixa ver para além do realismo político que do mundo em volta apenas capta o óbvio e quase sempre o tristonho. [Trad. de Marcelo Félix, Edições 70, 368 págs. Originalmente na LER de Março.]
LER de Abril
Por admin in Livros & Leituras, Novidades em 3 de Abril de 2009

Graficamente renovada e num formato um pouco diferente, já se encontra à venda nos postos habituais o número de Abril da revista LER. Nele pode encontrar entrevistas a Antonio Tabucchi e José Rentes de Carvalho. Testemunhos de João Lobo Antunes, Edgar Pêra, Ana Vidigal, Eduardo Batarda, Henrique Cayatte, António Adão da Fonseca, Lúcia Sigalho, Madalena Cardoso de Menezes, Luísa Ferreira e Rui Chafes sobre os livros que mais influenciaram as suas carreiras. José Riço Direitinho escreve sobre os livros que se salvam na crise. Rogério Casanova revisita os Trópicos de Henry Miller e escreve sobre o tuning literário na sua Pastoral Portuguesa. Tiago Cavaco aconselha a leitura de A Mostruosidade de Cristo, de Slavoj Zizek. Há também as crónicas de Pedro Mexia, Abel Barros Baptista, Eduardo Pitta, José Eduardo Agualusa, José Mário Silva, Filipe Nunes Vicente, Onésimo Teotónio de Almeida, Inês Pedrosa e Francisco Belard. E mais, muito mais.
As visitas

Como era de esperar, a mudança de morada deste blogue trouxe consigo uma redução temporária (espera-se, claro) dos acessos. Neste momento, para pouco mais de um terço do que ocorria ainda há poucos dias. Parte desta redução deve-se a que muitos visitantes chegam ao blogue através de motores de busca ou de posts citados que apontam para a outra direcção. Mas existe uma porção significativa de acessos que chega através das listas oferecidas por outros blogues ou dos favoritos guardados nos browsers. Pede-se por isso aos amigos e interessados n’A Terceira Noite que não se esqueçam de actualizar essa informação. Entretanto, devido à extensão da nova barra lateral, a lista completa de blogues recomendados encontra-se agora na página Blogues.
Cuba Sí, pero…

Alguns dos factores que no início da década de 1960 transformaram a revolução cubana e os seus rostos salientes – um Fidel persistente, o efémero mas decisivo Cienfuegos, um Che em breve imortal – num factor de atracção e de entusiasmo para toda uma geração de intelectuais ocidentais, parecerão hoje paradoxais, se observarmos aquilo em que Cuba se transformou e se identificarmos o perfil político daqueles que hoje defendem sem hesitações o regime que governa o país. Essa atracção e esse entusiasmo advieram, justamente na época em que os partidos comunistas começavam a perder o pé junto de alguns dos sectores mais dinâmicos da intelectualidade ocidental e de uma nova geração de estudantes e de trabalhadores, do facto de os revolucionários da ilha de Martí parecerem evidenciar uma acentuada ruptura em relação à cartilha ideológica soviética e à imagem gerontocrática fornecida pelos rostos que, da tribuna do Kremlin, zelavam diariamente pela sua preservação.
À deriva proto-nacionalista de um grande número de organizações comunistas tradicionais, ao esgotamento do padrão de sociedade que erguiam como paradigmática, ao impacto perturbador da quase inexplicável invasão da Hungria e das revelações de Kruchtchev no XX Congresso do PCUS, contrapunha-se a emergência de um novo e polissémico universo de expectativas que a «Nova Esquerda» em breve iria demandar, que os novos movimentos sociais emergentes reivindicavam, e que os barbudos cubanos, jovens, informais, criadores e sem desfiles monolíticos, pareciam materializar. Não por acaso, e para quem tenha falhas de memória, os insubmissos cubanos, bem como os seus primeiros e incondicionais apoiantes – com Sartre, já então saído do PCF, à cabeça – foram vistos de início com muita desconfiança pelos mesmos partidos comunistas oficiais que, logo de seguida, denunciariam sistematicamente o «aventureirismo guevarista». Hoje deparamos com a inversão destas atitudes de afeição e de desconfiança: politicamente insulada, a «revolução cubana» fixa-se nos modelos anacrónicos, de autocelebração, que originalmente repudiou. E privados de referências, os partidos comunistas ortodoxos erigem como modelo o padrão de regime que um dia olharam com desconfiança. História é história, por muita reescrita ardilosa que a possa envolver.
O outro 1º de Abril

No dia Primeiro de Abril de 1939, perfazem-se hoje setenta anos, terminou a Guerra Civil de Espanha. Singularmente violenta e persistentemente traumática, causou mais de 600.000 vítimas civis e militares caídas de ambos os lados, tendo servido de palco para um número ainda indeterminado de atrocidades. Viveu os primeiros bombardeamentos aéreos sistemáticos sobre populações civis efectuados por aviação fornecida pela Alemanha nazi e pela Itália fascista; assistiu à eliminação metódica de um grande número de militantes do POUM, a organização comunista antiestalinista, por parte de agentes da polícia política soviética lançados no terreno; e coabitou com execuções sumárias de suspeitos, em regra membros do clero ou pessoas das classes média e alta, consumadas por anarquistas e comunistas. Ao mesmo tempo, os nacionalistas faziam assentar o seu avanço militar, e o poder no terreno que a partir dele iam exercendo, sobre a chacina, o terror e depurações sistemáticas, prolongadas por muitos anos após o termo dos combates.
Para além da preservação da dimensão lendária desta guerra, em boa parte justificada pela forte mobilização da opinião pública ocidental que provocou e pelo empenho nas fileiras das Brigadas Internacionais de um grande número de artistas e intelectuais antifascistas, a sua memória é presentemente objecto de um combate colectivo que visa libertar do silêncio a recordação dos actos de brutalidade praticados pelos franquistas. Alterando a narrativa parcial e artificialmente benigna que estes produziram a propósito das condições em que chegaram ao poder e sobre a forma como o mantiveram. E procurando promover a reconciliação com o seu próprio passado da metade da Espanha que ao longo de décadas permaneceu calada.
Adenda: os Caminhos da Memória referem aqui um conjunto de seis vídeos sobre as circunstâncias e o decurso da guerra, enquanto o El País e o Público.es têm vindo a publicar excelentes artigos sobre o tema.
E-people
Por admin in Apontamentos, Cibercultura, Direitos Humanos em 1 de Abril de 2009

A informação chega-me através de um artigo de Miguel Gaspar: o governo britânico está a estudar uma reforma do ensino básico que pretende destacar a aprendizagem das novas tecnologias, em especial a das redes sociais da Internet, em detrimento dos saberes considerados convencionais. Não tenho nada contra a divulgação alargada e sistemática destes processos – que uso diariamente, intensamente, produtivamente muitas vezes, e que recomendo –, mas tenho tudo contra a desqualificação do conhecimento estruturante em favor de uma deriva comunicacional apresentada como valendo por si mesma. O problema, julgo, advém em larga medida do facto dos centros de decisão política – leia-se: os partidos institucionais – estarem cada vez mais nas mãos de gente «especialista» em conhecimento funcional, que cresceu politicamente na gestão do imediato, e que descarta, como anticorpos, aqueles que pensam para além do momento. Daí também a desvalorização sistemática das humanidades e da reflexão crítica que estas oferecem. Temas aos quais regressar aqui com mais tempo e um outro cuidado.
