
Apesar do papel que teve na actividade artística e intelectual da sua Letónia, da Rússia revolucionária e da esquerda alemã da República de Weimar, Anna Ernestova, conhecida como Asja Lācis (1891-1979), não deixou o seu nome em longas bibliografias. Profissão: revolucionária, uma autobiografia publicada em 1971 na Alemanha Federal (e apenas em 1984 na Rússia), as memórias da sua filha redigidas em letão e um punhado de artigos académicos, são tudo o que resta da sua longa e movimentada vida de militante e, durante um certo tempo, femme fatale. Cheguei pois a ela através de dois acasos. O primeiro aconteceu quando procurava informação para um artigo sobre a literatura do Gulag: descobri que Asja fora prisioneira do sistema de campos soviético durante dez anos, contados a partir de 1937, mas omitiu a experiência na sua autobiografia, suspendendo a narrativa em 1931, quando ainda vivia e trabalhava em Odessa, e retomando-a apenas em 1948, na altura em que se instalou em Walmiera, na Letónia. O segundo acaso, mais recente, ocorreu durante a leitura de uma biografia de Walter Benjamin, com quem a militante, actriz e encenadora manteve um relacionamento feito tanto de encontros breves e intensos quanto de desencontros mais ou menos inevitáveis.
Seguindo-lhe a pista, acabei por perceber como ambos os factos confluíam, no contexto de uma vida tempestuosa, numa personalidade bastante complexa que jamais questionou publicamente a adesão precoce à causa comunista, no preciso sentido assumido por aqueles que viam nesta a materialização de um ideal absoluto de justiça e de liberdade. Foi ele, provavelmente, que a fez suportar o degredo, calar o rancor e a sua memória do sofrimento, e continuar a acreditar que nem tudo estava perdido. Foi ele que a levou a criar as condições para promover a aproximação de Benjamin ao marxismo. Foi ele também que indirectamente a afastou do seu amigo alemão, quando a sua actividade «cosmopolita» começou a ser seguida pelos esbirros estalinistas e ela deixou de poder circular tão livremente como antes fizera. Quis saber notícias de Walter – que em 1928 lhe dedicara Einbahnstraße, «Rua de Sentido Único» – por Bertolt Brecht, quando este visitou Moscovo em 1955 para receber o Prémio Lenine da Paz, sem suspeitar sequer que Benjamin se havia suicidado quinze anos antes. Asja Lācis viveu e permaneceu activa até aos 88. A sombra da sua trajectória inconformista, combatente e única pode ser seguida aqui, num artigo publicado há cerca de dois anos no El Pais.
