Arquivo de Agosto de 2009
E eu que sempre quis uma Gibson-Les Paul
Por admin in Apontamentos, Artes, Música em 14 de Agosto de 2009

Aos 94 anos, morreu ontem o músico Les Paul, inventor da guitarra eléctrica e também um dos seus mais importantes fabricantes. Sem a iniciativa que tomou em 1941, quando pela primeira vez juntou um amplificador a uma guitarra de madeira, o mundo não seria aquele que conhecemos nos últimos sessenta anos. Em Rock’n’Roll Jews, Michael Billig lembra como o tom estridente da guitarra eléctrica, produzido a um ritmo intenso, rápido e sincopado, capaz de efeitos acústicos inusitados, passou a soar «de uma forma completamente diferente de qualquer coisa que a anterior geração tivesse ouvido». Enquanto aqueles que tinham atravessado os anos difíceis da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial preferiam ainda a música amena e romântica dos crooners, que induzia estados melancólicos e de acalmia, da uma natureza basicamente conformista, muitos dos seus filhos, crescendo em tempos de maior segurança e de expansão económica, mas também de recusa de uma perspectiva auto-satisfeita do mundo que herdaram, escolheram a sonoridade inesperada e rude, associada a um novo hedonismo e a novos modos de vida, que o jazz pós-bebop e sobretudo o rock and roll passaram a oferecer. Recorrendo à invenção de Paul. Aquele senhor que ainda há poucos meses continuava a tocar regularmente no Iridium Jazz Club de Nova Iorque.
Coimbra-Z
Por admin in Atualidade, Coimbra, Memória em 13 de Agosto de 2009

Está a correr no Facebook «Que tipo de estudante de Coimbra és?», um inquérito a merecer uns minutos de atenção e que pode servir de case study. Mais do que pelo resultado final que cada um dos inquiridos obtenha, importa seguir o tom tardo-castiço e o valor micro-sociológico das perguntas e das opções de resposta oferecidas. Para memória futura, como diria o tal.
O respeitinho, quando nos convém, é muito bonito
Por admin in Atualidade, Direitos Humanos em 13 de Agosto de 2009

«A sociedade internacional deve respeitar inteiramente a soberania judicial da Birmânia», declarou ontem o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Pequim, Jiang Yu, a propósito da nova condenação de Suu Kyi e do movimento planetário de indignação que se lhe seguiu.
Os sem-pistolas
Por admin in Apontamentos, Atualidade em 11 de Agosto de 2009

O recente caso da bandeira alvi-anil hasteada na varanda do município de Lisboa coincide com a divulgação de uma queixa da Associação Nacional de Guardas-Nocturnos por aqueles que não possuírem arma própria se verem forçados a trabalhar munidos apenas de uma simples lanterna. Imaginemos pois o problema que seria observar um desses senhores já com uma certa idade, mais barriga que perna, mais vulto que corpo, a enfrentar à mão-desarmada a sanha monárquica dos moços do Darth Vader. E se ele tivesse a reivindicada arma da ordem, o que faria? Dispararia para o ar lançando o pânico na madrugada da Rua do Arsenal e prejudicando a campanha eleitoral de António Costa? Ou atiraria sobre os próprios pés, para não experimentar problemas de maior?
Seguindo a Wikipédia, o guarda-nocturno é «um profissional que exerce a actividade de ronda e de vigilância de uma determinada área urbana, durante o período nocturno, auxiliando as forças de segurança e os serviços de protecção civil.» A actividade é antiga, tendo assumido um maior destaque urbano ao longo do século XIX, quando as cidades cresceram a um ritmo novo e a quietude da noite abalou para lugares ermos ou bairros despovoados. Em Portugal já foram milhares, mas hoje rondarão os 500, quase sempre em idade avançada, mal-equipados, sem grande treino, e até, temo, sem um enquadramento jurídico adequado. Lamento pela ANGN, mas se nem um homem dos seus, capaz de soprar o apito regulamentar para espantar os mariolas, se protegia do orvalho da noite sob as arcadas da varanda camarária, para que quer agora que a PSP lhes distribua pistolas? Ainda se fossem canhões…
Nova havaneza
Por admin in Atualidade, Cidades, Olhares em 11 de Agosto de 2009

Vale a pena percorrer o Wallpaper City Guide de Havana, da colecção editada pelo diário i (mas que pode ser vendido isoladamente). Ignora de maneira olímpica os guias de viagem para cidadãos da classe média alvoroçados pela perspectiva de uns quantos dias com a cor do exotismo, e, claro, deixa em paz os desdobráveis oferecidos pelas embaixadas de Cuba. Percorre assim ruas e praças imutáveis, hotéis para turistas estrangeiros e alguns bares aprazíveis, duas ou três lojas e uns quantos edifícios públicos, sem cedências ao estereótipo do charme, à costumeira romantização da decadência, ao elogio militante da pobreza honrada, a uma épica refrescada a ventoinhas de pá. Mas também sem fazer a injustiça de negar o esforço suado do havanês comum para oferecer ao visitante o que de melhor consegue obter. Para viver uma vida complicada com o sorriso possível e um gingar de ancas, olhando sempre mais para o que foi, ou para o imediato, do que para aquilo que há-de vir. Nisto, o guia Wallpaper não difere muito dos ecos que nos vai legando a literatura cubana contemporânea. Como uma boa parte dela, oscilando entre o ritmo da vida pessoal e um horizonte colectivo imperscrutável: «Havana é hoje uma daquelas quinceañeras envergonhadas, uma adolescente à beira de se tornar mulher e de se ver livre de um pai autoritário.» Fica o desenho de uma cidade ritmada por um presente para gastar sem demoras já que o futuro está lotado de possíveis.
Aforismo eslovaco (trad. livre)
Por admin in Apontamentos, Delírios em 11 de Agosto de 2009
Beijos não se oferecem, trocam-se. Abraços não se dão, confundem-se.
Iuri Bradáček
Memo achado no bolso do fato-de-banho
Цивья со свим мужем Шимоном владели большим участком земи в Рамат аШароне. Они завещали его городу и в их честь на части этого участка разбит парк.
Iuri Bradáček
Lisboa com bandeira azul
Por admin in Atualidade, Delírios, História em 11 de Agosto de 2009

Uma mancheia de varonis mancebos «ligados ao blogue 31 da Armada», imbuídos de um compreensível e ilimitado bem-querer pela santa monarquia – pois tal coragem, por certo apenas a varonis mancebos é pela Padroeira outorgada –, trepou heroicamente até à varanda do Paços do Concelho de Lisboa e, com lídimo pundonor, hasteou no mastro da mesma um rectângulo de pano azul e branco. De acordo com os amigos dos jovens trigésimo-primeiristas (mas o que são «pessoas ligadas ao blogue 31 da Armada»? será o 31 da Armada uma ONG? uma seita? um bando? uma comandita?), o feito foi obtido apesar do pesado rumor das botifarras e das armas aperradas alardeado por essa «forte vigilância policial» que, como todos sabemos, percorre «a noite profunda» das nossas vilas e cidades para aterrorizar as famílias no seu honrado descanso. E para impedir que desde o mais insigne dos palácios ao humilde tugúrio do trabalhador estas afixem nos limiares das portas, tal como intimamente desejam, lindos azulejos com o brando semblante do Senhor Dom Duarte. Tais beneméritos da Pátria, a quem faltou apenas aquela Dona Aldegundes que não falhou a Paiva Couceiro – «é avante portugueses/é avante não temer», cantarão entrementes –, apenas podem ter a nossa compreensão. Sempre agitam mais este querido e tonto mês de Agosto que os blogues regimentais. Deus os guarde assim.
«Tá láa!…»
Por admin in Apontamentos, Memória em 9 de Agosto de 2009

Nunca apreciei muito o humor de Raul Solnado. Algumas das razões desta desafectação percebem-se vendo ou revendo no YouTube pedaços dos seus anos dourados. Solnado fez rir gerações para as quais a levíssima insinuação da «malandrice» constituía um sinal de transgressão, a momice representava um corte num tempo pontuado por rigorosas máscaras, e o abuso do trocadilho perturbava uma fala pública ainda demasiado rígida, o que não foi pouco. Mas esse não era já o padrão de humor requerido por alguns dos da minha geração, e daí o inevitável distanciamento. Afinal também não ríamos com Fernandel, Totò ou Mario Moreno, o «Cantinflas». Recordo, no entanto, muitas pessoas que escutavam pela enésima vez os 45 rotações em vinil com a «ida à guerra» ou «o bombeiro», e pela enésima vez riam com textos que já conheciam de cor. Ou que iam ao Maria Vitória ou ao Variedades de propósito para o ouvirem. A essas, e a muitas outras – por vezes fora do registo da comédia –, Raul, o artista popular, ofereceu inesquecíveis instantes de divertimento e de felicidade. Suficientes, independentemente do gosto de cada um, para que a sua partida tenha deixado a nossa vida colectiva um pouco mais pobre e sisuda.
Volto já.
Por admin in Apontamentos, Oficina em 6 de Agosto de 2009

Não, o blogger não perdeu a voz nem desapareceu em combate. Passa só por uns quantos dias de letargia, como sempre menos que os desejados, para recarregar as pilhas e poder retomar a marcha com um pouco mais de força de braços.
«Foot-ball praticado was very bonito. Splendid!»
Por admin in Apontamentos, Memória, Olhares em 1 de Agosto de 2009

Na noite passada, a Sky News apresentou um programa sobre a vida e a obra de Sir Robert William Robson. Omitiu, no entanto, a sua passagem por Portugal, onde entre 1992 e 1996 treinou o Sporting e depois o FC Porto. E referiu José Mourinho apenas para dizer que este conheceu Bobby Robson no Barcelona, o que aliás não é verdade: foi em Lisboa que se encontraram e foi em Alvalade que começaram a colaborar. A atitude da Sky é, para nós, particularmente injusta. Desde logo porque aqueles foram anos intensos da vida de Robson, que este relembraria depois inúmeras vezes, ligados também, em especial ao serviço do Porto, a êxitos desportivos importantes. Depois porque a sua forma de trabalhar, a sua personalidade forte e a sua bonomia, associados a um portinglês inconfundível e espectacular, o transformaram num dos estrangeiros mais populares no nosso país, o que ficou agora bem patente na forma como inúmeras pessoas – até Sousa Cintra, que o despediu do Sporting mas entretanto reconheceu o erro – o evocaram de forma inequivocamente comovida e carinhosa. E também porque Bobby Robson foi um treinador e um profissional de futebol raríssimo por estes lados: daqueles que via no desporto do qual gostava e ao qual dedicou a vida inteira, como não se tem cansado de recordar quem o conheceu de perto, uma fonte de prazer e uma forma positiva de passar a correr por este mundo, não um problema constante para o fígado. No fim de contas, Sir Bob, o treinador que costumava esquecer-se dos nomes dos seus próprios jogadores, jamais deixou de ser um gentleman abroad. Por um acaso em comissão de serviço no universo pouco cavalheiresco do futebol.
