
A Joana Lopes estranhou e eu acompanho-a. Que espécie de sombra maligna pairará sobre muitos dos nossos blogues de opinião para que os seus autores se sintam no dever de não falarem sobre as eleições entre a meia-noite de hoje e a hora de fecho das urnas no domingo que vem? O instituto do «dia de reflexão», extravagante e completamente inútil, vestígio de um tempo no qual precisávamos ainda de mostrar ao mundo que éramos suficientemente civilizados para não desatarmos à bofetada uns aos outros no final de cada campanha, perdeu toda a razão de ser. Principalmente na blogosfera, onde os textos anteriores podem continuar a ser lidos e ninguém desactiva os comentários apenas por 44 horas. Resta pois admitir uma falha grave no reconhecimento da dimensão única deste instrumento como arma de uma liberdade a sério. Ou a presunção de que é cumprindo esta norma absurda que se ganha respeitabilidade. Parece que muitas pessoas continuam sem compreender que a democracia não se esgota, nem se pode esgotar, nas acções de campanha promovidas pelos partidos e no eco que estas possam ter nos meios de comunicação com número de identificação fiscal. Que está a passar também por aqui, como entoava o Sérgio Godinho, nos idos de setenta – «aprende a nadar, companheiro / aprende a nadar, companheiro» –, a propósito da liberdade recém-adquirida e partilhada.

