Arquivo de Outubro de 2009

WB indiscreto

Walter Benjamin

Este é um retrato quase íntimo, como um close-up, da vida e da obra de Walter Benjamin. Conhecem-se os livros publicados em vida – apenas quatro monografias, uma colectânea de cartas, traduções avulsas para o alemão de Proust, Balzac e Baudelaire – suficientemente frequentados e glosados, mas o berlinense deixou outros indícios. São alguns destes – pequenos ensaios e notas de leitura redigidos para jornais, revistas literárias e publicações académicas, transcrições parciais de alguns dos 90 programas de rádio que realizou, cartas e memórias deixadas por muitos daqueles com quem cruzou os passos – que Esther Leslie aproveitou de forma inédita para seguir de perto o seu trajecto invulgar.

Pequenos trechos, ténues pistas, anotações casuais que permitem seguir Walter no seu extravagante amor por brinquedos, pelos livros infantis, por barcos e viagens, por mulheres impossíveis. Entre os contactos com a Escola de Frankfurt, as ligações que manteve com Adorno, Scholem e Brecht, e as constantes deambulações pela Europa, redescobre-se a genealogia quase diletante dos seus escritos mais conhecidos, os fundamentos do limitado impacto que à época detiveram, bem como os contornos de uma vida privada quase sempre instável, dependente, atormentada. Ao mesmo tempo, recontextualiza-se o interesse multifacetado e fragmentário pela estética da tecnologia, pela cultura urbana, pelo peso das ruínas ou pela teoria marxista, reconhecendo em Benjamin alguém que viveu fundamentalmente, quase sempre, para o/através do relacionamento com os outros. Replicando em contínuo, à maneira de um blogger, aos estímulos e às recusas que se aproximavam. [Esther Leslie, Walter Benjamin. Trad. de Rui Mesquita. Fio da Palavra, 268 págs.]

♪ Melodia de sempre.7

Este tipo nunca existiu.

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Tango Funèbre – Jacques Brel em 1964

Eleições autárquicas e kitsch

Kitsch

Não é fácil abordar a dimensão kitsch de um certo poder autárquico e das campanhas eleitorais que o consagram. O exercício pode ser visto como um gesto imprudente, resultante de snobismo ou de arrogância. Pode ser olhado como manifestação de desdém por um dos círculos do regime democrático onde mais se têm feito sentir as mudanças positivas. Embora qualquer pessoa honesta e razoável reconheça que corresponde também a um dos campos nos quais a corrupção, o esbanjamento e o desatino têm ido mais longe. Em regra impunemente, pois os seus promotores têm quase sempre o bom senso de irem apagando as pistas. Mas resta a obra e o estilo, e sobre estes podemos sempre ir conversando.

A voga do kitsch enquanto experiência de mau gosto com capacidade para consagrar códigos estéticos que contribui para sacralizar o poder – nesta direcção, o nazi e soviético foram particularmente eloquentes – materializa uma dos sinais mais fortes deste lado lamentável e disforme da política. Reportando-se à sua ligação com o campo das artes, Gillo Dorfles anotou, num artigo publicado em 1963 na revista Aut-Aut, que o próprio conceito de kitsch é aplicável «à obra de arte, ao seu criador e ao seu desfrutador». Acredito que a ideia pode ser estendida à dimensão visual e simbólica de um certo modo de exercer, de dar voz e de legitimar o poder local.

Sob esta perspectiva, exercer o poder local significa então sobretudo «mostrar obra», independentemente da sua integração harmoniosa no meio e da racionalidade do valor de uso que comporta. Produzem-se então – todos conhecemos centenas ou mesmo milhares de casos – estradas e arruamentos desnecessários, rotundas supérfluas, praças megalómanas, edifícios sem serventia clara, museus e bibliotecas desprovidos de recheio e de programação, estátuas e mobiliário urbano de péssimo gosto, opções toponímicas duvidosas, quando não ridículas, e políticas culturais atentas apenas ao paladar e aos ímpetos identitários mais primários.

Dar voz passa, nesta dimensão, por personalizar o poder, não tanto em função do resultado final mas antes a partir do rosto visível do «dono da obra». Só isto pode justificar o alastramento frequente de uma política clientelar local tendo como vértice, nos casos de maior sucesso, figuras de chefes locais reconhecidamente autoritários, por vezes corruptos, com uma má imagem para além dos limites físicos do concelho, mas associados a um discurso e a uma imagem populista e kitsch, próprias daquele «chico-espertismo» arrivista e bem sucedido do qual recentemente falou José Gil. Os casos de Ferreira Torres, Valentim Loureiro ou Fátima Felgueiras, com uma iconologia própria, são os mais conhecidos, por mais mediatizados, mas estão longe de serem únicos (o campeonato de Isaltino de Morais é, reconheça-se, um pouco diferente).

As eleições autárquicas são também um momento decisivo no processo que visa legitimar a autoridade e as opções de quem se instala. Dada a visibilidade do momento, torna-se aqui mais perceptível do que nunca a dimensão do mau gosto exibido pelas campanhas e pelos seus figurantes. Desde logo na propaganda concebida para a ocasião: a pose «presidencial» na roupa domingueira, o grafismo exuberante e primário dos cartazes, a sobreposição até à náusea da simbólica identitária local, as palavras de ordem sobre a devoção filial do candidato à sua terra e sobre o amor desmedido que consagram às ruas, às tradições e, naturalmente, aos seus eleitores. Aliás, na Fenomenologia do Kitsch Ludwig Giesz chamou a atenção para o sentimentalismo – como é sabido, um subproduto do ultra-romantismo – como um dos recursos mais poderosos de «mau gosto estético». Daí a proliferação de candidatos que se servem dos cartazes para, mimando a publicidade aos concertos de Tony Carreira, chegarem, «com amor», «com ternura», com açúcar e afecto, aos corações sensíveis de quem os elege.

Por último, intimamente associados a estes aspectos, as políticas e os programas culturais seguem muitas das vezes a mesma lógica kitsch, assumindo o conceito de cultura na sua perspectiva mais popular – no sentido do vulgar, nem tanto no do etnográfico – e passadista. Declaram, para o efeito, uma opção de interesses por um passado histórico frequentemente manipulado e pelo culto do «popularucho», rejeitando, em regra por inabilidade política, provincianismo e fechamento de perspectiva, uma lógica de adequação ao mundo contemporâneo e às expectativas dos segmentos mais informados e dinâmicos da população que os escolhe.

Este panorama não pode ser generalizado, pois subsistem bons exemplos de atitudes completamente diversas. Mas vivendo como vivo em Coimbra, posso dizer que habito um dos mais destacados vórtices da política autárquica kitsch. Fazendo, garanto, um esforço diário para lhe sobreviver e para não deixar de amar a minha cidade.

Gracias a Mercedes

Mercedes Sosa morreu hoje em Buenos Aires. Se fue então para um algures bem distante. A sua voz foi das poucas, vindas do canto de intervenção internacional das décadas de 1960-70, que jamais deixou de me empolgar. Talvez por ser tão poderosa que parecia chegar lá do fundo mais fundo da alma humana. Por ser simplesmente solidária, longe do panfleto e mais forte que as circunstâncias. Pelo menos eu assim a ouvi e assim a recordarei.

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Gracias a la Vida – Mercedes ao vivo com Joan Baez

Sem noite

Estive apenas duas semanas em Banská Bystrica, à beira do Hron. Mas foram dias felizes, perfeitos, sem noite. Naquela época não sabia que existiam dias sem noite abaixo do paralelo 62.

Iuri Bradáček

Recordando Helgi

Gelgi

Helgi Hóseasson morreu há menos de um mês em Reiquejavique. Tinha 89 anos e era uma das figuras mais conhecidas da cidade. Desde 1962, quando tentou «desbaptizar-se», iniciando então um combate público contra a igreja nacional e o governo, que se comportava como um manifestante «profissional», sempre solitário, num país onde atitudes dessa natureza eram consideradas próprias de inimputáveis. Em 1972 obteve notoriedade internacional quando despejou skýr – um produto similar ao iogurte – sobre o bispo da Islândia, o presidente da República e diversos membros do parlamento. Era visto todos os dias num cruzamento da capital, segurando placas com reivindicações ou palavras de ordem, muitas das vezes escritas num registo poético, sobre temas como as relações entre Estado e Igreja, as iniciativas dos líderes políticos, ou a decisão do governo islandês de apoiar a guerra do Iraque. No contexto da brutal crise na qual a «próspera» Islândia recentemente caiu, a sua determinação tornou-se uma espécie de símbolo, um exemplo de inconformismo, estando neste momento em curso uma campanha pública, que reuniu já perto de 28.000 assinaturas (num país com apenas 317 mil habitantes), para que seja erguida uma estátua em sua memória. Em 2003 foi rodado um documentário sobre a sua vida – Mótmælandi Íslands (O Manifestante da Islândia) –, enquanto um museu local acaba de adquirir as placas utilizadas por Helgi por considerá-las parte do património cultural e histórico do país. É bom saber que existem lugares onde as figuras memoráveis, que deixaram um rastro, não são obrigatoriamente «pessoas de sucesso».

A história recente de um antigo destino

Soldados israelitas, anos 50

A tarefa de escrever a turbulenta História do Estado de Israel afigurava-se complicada para Martin Gilbert, o biógrafo de Winston Churchill que é também um notável historiador do Holocausto. Desde logo porque uma boa parte do tema remete inevitavelmente para o terreno movediço que a história do presente sempre envolve porque vive sujeita à revisão dos sobreviventes e se mantém próxima dos episódios aos quais se refere. Mas também porque a existência política do Estado de Israel passou a convocar, principalmente a partir da sua independência formal, paixões quase sempre inimigas do rigor histórico e da equidade. Gilbert resolveu ambos os problemas da forma aparentemente mais segura, cingindo-se aos factos e limitando-se à enunciação dos pontos de vista presentes no terreno. Desta maneira, e tanto quanto lhe foi possível, optou por contornar leituras mais assumidamente interpretativas.

Podemos decompor cronologicamente a narrativa proposta. Num primeiro tempo percorrem-se as origens novecentistas do movimento sionista e traça-se o processo de retorno e de fixação dos judeus na Palestina, passando pela Declaração de Balfour sobre o seu direito a um lar, pelas vicissitudes do mandato administrativo britânico, pelos primórdios da resistência árabe, fechando-se a sequência com a declaração formal da existência do Estado israelita, a 14 de Maio de 1948. Aborda-se de seguida o processo de construção de Israel num contexto de conflitos praticamente contínuos, envolvendo a Guerra da Independência, a Campanha do Sinai, a Guerra dos Seis Dias ou a Guerra do Yom Kippur. Por último, de modo menos extenso mas não menos relevante, tratam-se as novas condições de sobrevivência do Estado no contexto, pós-Intifada, da busca de processos de paz viáveis e da reorganização da resistência do campo árabe, em íntima relação com a renovação de uma classe política, originalmente orientada à esquerda, que foi dando lugar a actores essencialmente pragmáticos e pouco vocacionados para um diálogo com o «inimigo».

No geral, a obra propõe uma leitura bastante aliciante e muito informada, que tem, desde logo, sobre algumas obras politicamente mais empenhadas, a vantagem de ajudar a demolir um conjunto de ideias estabelecidas, quase sempre resultantes de importante dose de ignorância ou da leitura apressada dos factos, que tendem a transformar Israel, tout court, num covil de demónios ou em pátria de heróis. Destaca também o papel decisivo, e não apenas simbólico, de actores e pioneiros – como Theodor Herzel, David Ben-Gurion, Chaim Weizmann, Yigael Yadin, Yitzhak Rabin, Golda Meir, Abba Eban ou Shimon Peres – cujos trajectos de vida foram decisivos na fundação e na definição dos caminhos tomados pelo Estado judaico. Não deixa, porém, de acusar uma lacuna cuja persistência toca o centro dos problemas que ainda perduram na região: escamoteia o valor da dimensão multiétnica do território da Palestina, colocando os árabes palestinianos como figurantes, presentes-ausentes, habitando um limiar longínquo do processo histórico. E aqui termina a imparcialidade de Gilbert.

Martin Gilbert, História de Israel. Trad. de Patrícia Xavier. Edições 70, 824 págs. [Na LER de Setembro]

LER de Outubro

LER de Outubro

Heterónimos de Eduardo Lourenço – Tristão Bernardo, Tristão Georges, Tristão Nadal – ou o recheio da arca labiríntica. Mia Couto em longa entrevista de Carlos Vaz Marques. Rogério Casanova analisando o mundo elíptico de Roberto Bolaño a partir do romance inacabado 2666. Luísa Costa Gomes respondendo a José Riço Direitinho. Filipa Melo partilhando as suas notas de leitura do novo romance de António Lobo Antunes.  Entrevista rápida a Augusto Cid. Alguns livros prontos para sair. As crónicas habituais de Abel Barros Baptista, Pedro Mexia, José Eduardo Agualusa, José Mário Silva, Filipe Nunes Vicente, Francisco Belard, Eduardo Pitta, Inês Pedrosa e Onésimo Teotónio de Almeida. O «Diário de Ocasião» de Francisco José Viegas. E ainda as críticas de Filipa Melo, Dóris Graça Dias, José Riço Direitinho, Carlos Câmara Leme, José Mário Silva, José Guardado Moreira, Sara Figueiredo Costa, Rogério Casanova, Fernando Sobral, Rui Bebiano e Carla Maia de Almeida.

Primeiro de Outubro

A testemunha

«Se pudesse viver outra vez faria as mesmas opções? Durante cerca de dois minutos e meio o senhor Lin ficou à minha frente, a olhar para o tecto, com um esgar de dor. Não o pressionei para que me respondesse.»

O entendimento que tenho procurado dos caminhos dramáticos e contraditórios da China contemporânea tem sido municiado por alguns textos facilmente disponíveis. Como Cisnes Selvagens, de Jung Chang, uma obra autobiográfica que demanda a memória vívida de três gerações de mulheres resistentes, O Dragão e os Diabos Estrangeiros, de Harry G. Gelber, colando a história do «Império do Meio» à perspectiva que os seus naturais foram tendo do mundo exterior, ou ainda as biografias de Mao, por Chang e Jon Halliday, e de Chu-En-Lai, por Gao Wenqian. The Prisoner of the State, o «diário secreto» de Zhao Zyiang, está aqui ao lado para ler em breve, mas já percebi que dilatará a perspectiva. Neste Primeiro de Outubro em que se completam, com a pompa militar e o espectáculo mediático da ordem, os sessenta anos sobre a proclamação da República Popular da China, quero no entanto sugerir uma leitura especial.

Testemunhos da China. Vozes de uma geração silenciosa, da jornalista Xinran (ed. Bertrand), é um livro intenso, emocionante, que lança um olhar particular sobre o passado anterior a 1949, os caminhos sinuosos da revolução comunista, e o presente de acelerada mudança de um país que nos habituámos a povoar de exotismo mas também a temer. Fá-lo de uma forma particular, através de 20 entrevistas calorosas e comoventes, feitas a pessoas com mais de setenta anos – a mais velha tinha noventa e sete quando conversou com a autora – que tiveram percursos únicos mas relativamente anónimos, mostrando a energia de caminhos cujo vigor e humanidade foi sempre capaz de transcender o sofrimento, a miséria e a injustiça. Mostrando ao mesmo tempo que, sob sucessivas foras de opressão, a atitude optimista e o heroísmo de seres especiais jamais deixaram que se perdesse o sentido da esperança.

A riqueza deste livro está pois nas pessoas, comuns mas realmente extraordinárias, que por ele desfilam – como Yao Popo, a mulher ervanária descoberta casualmente num mercado, professores aposentados, condutores de táxi, a lendária «Mulher das Duas Armas», antigos Guardas Vermelhos, alguns operários, um acrobata, um oficial da marinha, um mestre-sapateiro, o senhor Huadeng, fabricante de lanternas, entre outros – mas também no método adoptado pela autora. Xinran não quis «fazer história» através destas vozes singulares, nem procurar «a verdade» por detrás da propaganda, mas antes entrever e registar as reacções emocionais assumidas por cada uma delas às mudanças rápidas, por vezes radicais, que a China conheceu ao longo da segunda metade do século passado. Aquelas que este Primeiro de Outubro sinaliza à escala do planeta.