Arquivo de Dezembro de 2009

Página virada

Ao contrário daquilo que aconteceu há dez anos, ninguém parece agora preocupar-se muito com o facto de a segunda década do século XXI se estrear esta noite. Entretanto alguma coisa mudou neste país, mas nem sempre a mudança foi para melhor. Um dado parece certo: a maioria das pessoas compreendeu já que o cômputo dos anos – como os conta-quilómetros, os cronómetros, os taxímetros, os termómetros ou os meses dos bebés – parte realmente do zero e não do um. É um progresso, e nele alguma quota-parte terá, há que reconhecê-lo, o resplendor de modernidade high-tech insuflado pela maioria absoluta dos últimos anos.

A passagem do ano trará consigo novas conquistas sociais imediatamente perceptíveis, como a entrada em funcionamento em Setúbal de milícias populares compostas por maiores de 65 anos pagos a 2,60 euros à hora e destinadas a perseguir os grafiteiros, ou a espectacular extensão do limite máximo para o uso do Cartão Jovem, que é transferido dos 25 para os 30 anos e «passará inclusive pela mudança do antigo logótipo para um novo». Mas é de temer que os mal-intencionados e os derrotistas atribuam fraca importância a tais medidas, preferindo insistir em temas negativos, como a corrupção, o desemprego ou a redução real dos direitos dos trabalhadores. Para estes e para outros, pessoas positivas, combativas ou cépticas que por aqui passam – aos indiferentes nada desejo, respeitando a sua indiferença –, os votos autênticos de um feliz 2010. E, se possível, sem a fantasia de antecipar desde já um duplo plano quinquenal, a vontade sentida de uma segunda década melhor do que esta. Para todos.

Havana Style

Folheio Havana Style, um daqueles álbuns de 8 €uros da série de bolso «Icons», da Taschen. Carrega dezenas de fotografias de ruas, prédios e interiores – belas, estranhas, incómodas – de uma Havana Velha olhada de fora como ilha dentro de uma ilha e território de caça do exótico e do kitsch retro. Na realidade, um engodo turístico para advogados de província, cabeleireiras de sucesso e pequenos empresários, desembarcados em fluxo no Aeroporto Internacional José Martí, que sobrevive apoiado em doses compactas de nostalgia e de propaganda de uma pobreza honrada. Para muitos dos que chegam após consulta os folhetos da agência de viagens, com a música rebobinada dos anos cinquenta a partir do trabalho peregrino de Ry Cooder, trata-se da demanda e do reencontro com um tempo imaginado de sol, suor, cocktails e sémen. Para os que perseguem o rastro deixado pela pureza revolucionária dos barbudos da Sierra, é antes um lugar de culto, de consumação imaginária da igualdade, de preservação de uma «democracia avançada» essencialmente anti-ianque. Mas para quem observe sem preconceitos, pondo de parte o ruído dos habitantes que se beijam, bailam, bebem e fazem por viver ruidosamente de costas para as ondas no Malecón, é sobretudo esse lugar triste, pobre, decadente, sem esperança, que os escritores cubanos contemporâneos não se cansam de descrever. No qual a ferrugem, o mofo, o cheiro a gasóleo e a decrepitude, nada têm de sedutor.

Os vinte

Nunca me deu para fazer, por vontade própria, balancetes dos «melhores» livros (ou discos, ou filmes, ou espectáculos, ou exposições) do ano. Não porque tivesse alguma coisa contra o ritual – praticado por outros, ele já me foi útil por diversas vezes –, mas porque não me pareceu interessar a alguém um rol que iria forçosamente retomar sugestões alheias. Fui alinhando apenas, por encomenda, umas quantas listas publicadas em blogues e jornais mais ou menos obscuros. Mas neste final de 2009 apeteceu-me mudar. Aqui segue então – desordenada e descomprometida –, a lista dos 20 títulos, maioritariamente de não-ficção, que mais me feriram ou me ampararam ao longo do ano. Independentemente da língua em que os li, da categoria que me deixa arrumá-los ou desarrumá-los, e até do ano da publicação.

O Resto é Ruído. À Escuta do Século XX, de Alex Ross (Casa das Letras) | 2999, de Roberto Bolaño (Quetzal) | Tumbas sin Sosiego. Revolución, Disidencia y Exilio del Intelectual Cubano, de Rafael Rojas (Anagrama | Revolução 1989. A Queda do Império Soviético, de Victor Sebestyen (Presença) | Os Desaparecidos, de Daniel Mendelsohn (Dom Quixote) | Barroco Tropical, de José Eduardo Agualusa (Dom Quixote) | História de Israel, de Martin Gilbert (Edições 70) | Portugal – Ensaios de História e Política, de Vasco Pulido Valente (Alêtheia) | Teoria da Viagem. Uma Poética da Geografia, de Michel Onfray (Quetzal) | Utopias Piratas, de Peter Lamborn Wilson (Deriva) | O Século XX Esquecido. Lugares e Memórias, de Tony Judt (Edições 70) | Across the Territories. Travels from Orkney to Rangiroa, de Kenneth White (Birlin) | Outras Cores, de Orhan Pamuk (Presença) | A Loucura de Deus. Do Combate dos Três Monoteísmos, de Peter Sloterdijk (Relógio d’Água) | A Máscara do Comando, de John Keegan (Tinta-da-China) | Comunismo e Nacionalismo em Portugal, de José Neves (Tinta-da-China) | A Morte da Utopia e o Regresso das Religiões Apocalípticas, de John Gray (Guerra e Paz) | Salónica. Cidade de Fantasmas, de Mark Mazower (Pedra da Lua) |The Burden of Responsability. Blum, Camus, Aron and the French Twentieth Century, de Tony Judt (Chicago U. Press) | La Décadence des Intellectuels. Des Législateurs aux Interprètes, de Zygmunt Bauman (Actes Sud) | Homo Poeticus, de Danilo Kis (Fayard).

Querem apagar a memória

Dois posts publicados hoje – este e mais este – descrevem o inqualificável expediente utilizado pela GEF-Gestão de Fundos Imobiliários, SA para supostamente cumprir a obrigação de repor, no prédio que foi sede da antiga PIDE-DGS, a placa evocativa das últimas vítimas do regime caído em Abril de 1974. Um gesto de completo menosprezo pela memória colectiva, apenas possível porque o Estado e os partidos institucionais continuam sem dar importância nas suas preenchidíssimas agendas à construção de uma consciência cívica que seja capaz de integrar o exemplo dos que um dia se bateram, sofreram ou morreram pela democracia que os alimenta. Também um gesto ostensivamente ofensivo que não pode passar impune.

Adenda: O blogue Caminhos da Memória está a publicar algumas das mensagens endereçadas à GEF (gef@gef.pt), a empresa imobiliária responsável pelo prédio da Rua António Maria Cardoso.

Meio-gás

Durante alguns dias este blogue vai funcionar a meio-gás. Talvez mesmo a um quarto de gás.  Os posts serão em  número reduzido e (em princípio) necessariamente curtos. Retomar-se-á a aparente normalidade no final de Dezembro. Nessa altura com umas quantas novidades para fãs, amigos e assinantes.

O antiexistencialista

Liberdade, liberdade

Mal sabia eu, quando falava ontem numa aula sobre os processos de emancipação diante dos grandes sistemas doutrinários e de afirmação da liberdade individual colocados em movimento depois da Segunda Guerra Mundial, e enquanto recordava essa «cultura da antidisciplina» nascida nos anos 50-60 que enforma ainda parte do nosso tempo, que antes de adormecer leria uma frase destas: «temos assistido a uma deriva libertária que vai no sentido de que eu desejo pura e simplesmente, eu quero assim e isso é razão e quase que moral suficiente para seguir independentemente do que os outros pensem ou do que as instituições me peçam, sem ter de dar satisfações a ninguém.» Felizmente assim passou a ser. E assim vamos basicamente vivendo dentro do universo imperfeito e cada vez mais complexo, mas apesar de tudo mais livre e geralmente mais feliz do que aquele que o precedeu, erguido ao longo dos últimos sessenta anos. Esqueci-me de dizer: quem pronunciou a frase e se lamentou de tal estado das coisas – numa entrevista de tonalidade retrógrada, defensiva e moralista publicada hoje pelo Expresso – foi Manuel Clemente, bispo da Igreja católica e Prémio Pessoa 2009.

Nada acontece por acaso

Aminatu

Para quem acha – inclusive na blogosfera engagé, onde é tão fácil tomar partido, ou calar-se, ou aborrecer-se e passar adiante – que não vale a pena lutar por causas que parecem não nos dizer directamente respeito, o fim feliz do difícil combate de Aminatu Haidar pelo seu regresso a casa será irrelevante. Para ela e para a luta do povo sarahui pela independência será mais um passo em frente.

Ontem não morri

Então a minha versão do terramoto de ontem é esta. Já ouviram com toda a certeza falar de casos, mais ou menos macabros – e não são mitos urbanos -, de pessoas que iam a atravessar uma passagem de nível a ouvirem a sua musiqueta no iPod quando repararam, tarde de mais, que um comboio lhes havia passado por cima, trucidando-lhes o físico e despachando-lhes o espírito, completo e sem espinhas, para a banda de lá. Ora eu ontem, pelas 01H37, estava despertíssimo e activo, e não dei pelo sismo – não dei mesmo – pois seguia noite fora a ouvir música de auscultadores nos ouvidos. Bem se mexeu este mundo e o outro que não dei por nada. Mas se tivesse morrido seria uma bela morte: o meu corpo entre ruínas, um cão vadio como testemunha do último estertor, chorado pelos entes queridos e com direito a obituário no Diário de Coimbra e na blogosfera. E a minha alma perfumada, enfim livre, a caminho do céu (suponho), ao som do João Sebastião, de vozes celestiais, de trompetes, de oboés e de atabales. Não hei-de ter tal sorte quando chegar a minha vez.

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Vem aí a República

Illustração Portugueza
Imagem da Illustração Portugueza. Clique para alargar e ampliar.

No dia 5 de Outubro de 2010 completar-se-ão cem anos sobre o fim da monarquia e a proclamação da República Portuguesa, que chamamos hoje de «Primeira». Pelas notícias que chegam e os indícios que vão sendo espalhados, todo o ano que vem será marcado por iniciativas destinadas a evocar o centenário. Temo, no entanto, que a generalidade das sessões solenes, dos congressos, dos colóquios, dos debates, das exposições, dos desfiles, dos descerramentos de lápides, das romagens de saudade a cemitérios, dos artigos de jornal, dos suplementos, dos livros, dos álbuns, dos programas de televisão, dos posts de blogues, venha a assumir um carácter mais solene e ritual, ou então acintoso e depreciativo, do que evocativo de um tempo de viragem, de escolhas, de atitudes que merecem ser não apenas lembradas mas revistas com sentido crítico aos olhos de hoje. Tudo dependerá, naturalmente, de quem organize as iniciativas e pretenda capitalizar a efeméride em seu favor. E das opções de quem assegure a sua mediatização.

Seria, no entanto, um favor à memória da República e dos republicanos, e também uma dádiva à experiência actual da cidadania, que, mais do que endeusar ou diabolizar nomes, destacar ou amaldiçoar decretos, distinguir ou esconjurar determinados momentos, se procurasse compreender o essencial – e não apenas o acessório e o inócuo – desse mundo que aquela manhã de Outubro empurrou para o passado. Se pudesse revisitar a experiência multiforme à qual deu lugar, descobrir as esperanças que ficaram por cumprir. Só desta forma os ideais republicanos poderão retroceder por instantes à vida, e deixarão de inscrever-se apenas num tempo remoto, fantasmagórico, que apenas interessará verdadeiramente os historiadores e o seu público. Porque não aproveitar para re-discutir o regime, o laicismo, a religião, a família, a escola, o ensino, as tradições, a opinião pública, a intervenção das mulheres, e outros temas que, cem anos depois, permanecem ainda nas nossas expectativas e preocupações? Teremos tempo de falar de tudo isto com maior vagar durante os próximos meses, assim uma ressaca má da overdose de República não sobrevenha demasiado cedo.

Nada é sagrado

Jizaz

Fiquei um pouco confuso quando soube pelos jornais que o Sport Lisboa e Benfica tinha contratado um avançado chamado Alan Kardec (de Souza Pereira Junior). Como o FC Porto possui um Hulk, pensei que se tratasse de preparar o confronto final entre a energia espírita e a força bruta. Mas soube agora que o Kardec futebolista, filho de Kardec e neto de um Pereira que era seguidor das teorias sobre mesas giratórias de Allan Kardec (pseudónimo de Monsieur Hippolyte Léon Denizard Rivail), se autoproclama agnóstico. A crise da modernidade tirou o mundo dos eixos – alguns dizem «do sério» – e deu-nos cabo das referências.

Pikolo e o silêncio

Silêncio

No Verão de 1944, logo após a chegada a Auschwitz, Primo Levi conhece um jovem judeu alsaciano, Jean Samuel, de enorme força física mas comportamento imperturbavelmente afável, a quem deu a alcunha de Pikolo. O escritor italiano evoca-o em Se isto é um homem como encarnação da dignidade preservada no meio do horror total, da humanidade que mal algum poderá aniquilar, e depois da libertação Pikolo manteve com ele um relacionamento apenas terminado em 1987 com a morte trágica de Levi. Durante longos anos, Samuel permaneceu em silêncio sobre a sua experiência dos lagern nazis e só muito tarde, confrontado com o desaparecimento físico de um número cada vez maior de sobreviventes, se resolveu a falar. O historiador Jean-Marc Dreyfus recupera esse testemunho em Chamava-me Pikolo, associando-lhe importantes fragmentos de cartas trocadas entre Levi e o seu velho amigo. Nestas, como nas palavras de Samuel reveladas neste pequeno volume, mais do que a memória de uma experiência-limite, única de tão brutal, sobressai o esforço ininterrupto de ambos para justificarem e tornarem aceitável, diante dos outros como de si próprios, a estranha condição de «homens normais». Sobreviventes de «um passado de recordações, mas de recordações objectivas» do qual a maioria das pessoas nada agora queria saber, preferindo ignorar a indizível dor e os pesadelos intermináveis de quem o viveu. [Jean Samuel e Jean-Marc Dreyfus, Chamava-me Pikolo. Trad. de Francisco Agarez. Pedra da Lua, 152 págs.]

Guia do manifestante

Manif

O mercado e a comunicação de tudo se apropriam, tudo usurpam com o seu apetite. Mesmo o protesto de rua se vê envolvido pela lógica mercantil e mediática, com linhas de vestuário casual, sedutor e confortável, próprio para utilizar em manifestações e fugir com agilidade diante da polícia. Em algumas cidades, empresas especializadas contratam desempregados para servirem de figurantes no espectáculo televisivo sempre que a causa não seja suficientemente mobilizadora. Mas este é apenas um dos lados, já que o activismo de rua é sempre capaz de reinventar estratégias, recorrendo até às tecnologias que o próprio sistema disponibiliza, como se pôde ver ainda há poucos meses nas ruas de Teerão ou agora em Copenhaga.

Entretanto o recrudescimento da arte da manifestação passa também pela adaptação de quem a pratica às circunstâncias do poder que, em democracia, se vê forçado a combinar o uso do cassetete, do gás-pimenta e da cela incomunicável com a vigilância da opinião pública e os mecanismos jurídicos disponibilizados pelo Estado. É esta realidade que faz com que o sindicato francês da magistratura tenha sentido o dever de publicar uma edição actualizada, de 36 páginas, do seu Guide du Manifestant Arrêté, um catálogo up-to-date dos direitos do manifestante detido, que esta semana a revista Inrockuptibles – à venda no nosso país nas boas tabacarias* – oferece como encarte. Um conselho retirado ao acaso: antes de se manifestar diga a um amigo ou familiar para onde vai e leve consigo papel e lápis para poder espalhar recados por onde puder, pois nada garante que os vigilantes do estado democrático o deixem fazer valer os seus direitos antes de levar uns valentes apertões e ficar sem dois ou três dentes. E olhe que mesmo em Portugal não convém fiar-se no mito urbano dos brandos costumes.

* Enquanto estas puderem continuar a chamar-se tabacarias.

♪ ilha do tesouro|22

Contar uma história difícil a partir de Brooklyn, New York.

The Antlers

The Antlers
Kettering [Hospice]
PLAY

Latinamérica

latinamerica

Desconfio sempre do cunho supostamente científico dos inquéritos e das sondagens que procuram intuir tendências ou fotografar expectativas lá onde, na maioria das vezes, são circunstâncias volúveis que motivam as escolhas de quem lhes responde. Muitas dessas observações pressupõem uma objectividade que repele o subjectivo, quando afinal é quase sempre este, ou é mesmo sempre este, por agir mais em profundidade na construção das convicções, que impele à acção e sobrevive para além do transitório. No entanto, a suspeição não repele o reconhecimento do óbvio: os resultados desses questionários funcionam quase sempre, sobretudo se o universo inquirido for suficientemente amplo e diversificado, como indicadores que não podem ser ignorados.

É precisamente isso que se passa como o recém-divulgado «Informe Latinobarómetro 2009», cujo universo de respondentes englobou um grande número de cidadãos de todos os países latino-americanos (à excepção de Cuba, onde até um trabalho desta natureza é considerado pelo regime como potencialmente subversivo e perigoso). Conclusões detalhadas foram publicadas no El País, sendo uma das mais interessantes aquela que permite comparar o prestígio de um conjunto de líderes com o apoio declarado à democracia como sistema «preferível». Numa escala de 1 a 10, as figuras mais votadas foram Barack Obama (7,0), Lula (6,4), Juan Carlos I (5,9), Zapatero (5,8) e a chilena Michelle Bachelet (5,8). As piores foram Daniel Ortega (4,3), Fidel Castro (4) e Hugo Chávez (3,9). Não deixa de ser curioso o facto de, entre os quatro mais votados, três deles serem o presidente dos Estados Unidos e os actuais dirigentes da antiga potência colonizadora. Já os apoios à democracia foram de 85% dos inquiridos na Venezuela, 81% no Uruguai e 74% na Costa Rica, ficando no extremo oposto o México com 42% e a Guatemala com 41%. Assim, enquanto Chávez é o menos querido dos dirigentes, os venezuelanos mostram ser o povo que mais se identifica com os valores essenciais da democracia. O que quererá isto dizer? Existirá por aqui uma conversa de surdos?

Factor igualmente curioso tem a ver com a relação da população das Américas Central e do Sul com as antigas potências colonizadoras. Enquanto 57 por cento dos cidadãos brasileiros inquiridos declarou não saber sequer por quem foi colonizado o território no qual habitam, e para além disso uma grande parte se mostra indiferente a um estreitamento efectivo das relações com Portugal, já uma maioria de latino-americanos de língua castelhana considera como «muito positiva» a crescente influência política e económica de Espanha na região. Os inquéritos não explicam nada, é verdade, e podem até ser muito enganadores, mas talvez se revele interessante reflectir um pedaço sobre resultados desta natureza. Só para considerar algumas hipóteses e especular sobre elas.

Enragé da lucidez

George Orwell

O número de Dezembro do Magazine Littéraire inclui um dossiê de 32 páginas sobre George Orwell, identificado na capa como «escritor e profeta político». Como seria de esperar – acontece sempre que um conjunto de pessoas se reúne para falar ou escrever sobre este escritor e jornalista inglês – é principalmente do segundo aspecto que se ocupa, directa ou indirectamente, a maior parte das colaborações. Mesmo quando estas abordam mais directamente o seu trabalho como jornalista – como no seu primeiro livro, Na Penúria em Paris e em Londres, onde se levanta contra a romantização da miséria – ou como romancista. Destaco o artigo de Éric Dior sobre «o enragé da lucidez» que se bate contra os franquistas na Guerra Civil de Espanha ao mesmo tempo que mostra o seu horror em face das «ideologias malcheirosas» que tratam os indivíduos como insectos, presentes também, como é sabido, do lado republicano (atitude que lhe valerá, para todo o sempre, o ódio assassino de gerações de estalinistas). E também o contributo de Jean-Jacques Rosat, que procura reidentificar politicamente o autor sem quaisquer equívocos: «nem anarquista, nem tory: socialista». Importantes ainda a entrevista ao filósofo Michael Walzer, que reconhece Orwell como promotor de uma defesa da democracia radical muito à frente do seu tempo, e sobretudo a de Jean-Claude Michéa, que o considera como um dos intelectuais que mais caro pagou pela sua independência, apontando para uma concepção orwelliana de política – enquanto área de combate contra a redução do indivíduo ao «estado de gramofone» – que continua a ser ignorada ou negligenciada pela esquerda. Apesar de manter, ou até de ter reforçado, a sua actualidade.

Tempos difíceis, pessoas extraordinárias

Xinran

Testemunhos da China é um livro intenso que projecta sucessivos olhares sobre o passado chinês anterior a 1949, sobre os caminhos sinuosos da revolução comunista, e sobre o presente de acelerada mudança de um país que nos habituámos a povoar de exotismo mas também a temer. Comporta 20 entrevistas calorosas e comoventes, feitas a pessoas com mais de setenta anos que tiveram percursos únicos mas relativamente anónimos, revelando a energia de escolhas cujo vigor e humanidade foram sempre capazes de transcender o sofrimento e a injustiça. Mostrando de que forma, sob sucessivas formas de opressão, a atitude optimista e o heroísmo de seres fora do comum jamais deixa que se perca o sentido da esperança. A riqueza da obra está nas pessoas extraordinárias que por ele desfilam – como a ervanária descoberta num mercado, professores aposentados, condutores de táxi, a lendária «Mulher das Duas Armas», antigos Guardas Vermelhos, alguns operários, uma acrobata, um oficial da marinha, um mestre-sapateiro ou um fabricante de lanternas – mas também no método adoptado pela autora. Xinran, jornalista de profissão, não quis «fazer história» através destas vozes singulares, nem procurar «a verdade» por detrás da propaganda, mas antes entrever e registar as reacções emocionais assumidas por cada uma delas face às mudanças rápidas e profundas que a China tem vivido nos últimos sessenta anos. [Xinran, Testemunhos da China. Vozes de uma Geração Silenciosa. Trad. de Maria Filomena Duarte. Bertrand Editora, 496 págs.]

E o vencedor foi…

A selecção de Manuel Clemente para Prémio Pessoa 2009 apenas confirma uma evidência: a iniciativa do Expresso tem vindo a escolher cada vez menos vultos incontornáveis, figuras fortes de intelectuais, cientistas ou cidadãos de mérito tranversalmente reconhecido, para eleger representantes de corporações circunstancialmente colocados debaixo dos holofotes. Trata-se, sem dúvida, de uma escolha que assiste à entidade privada responsável pelo galardão e que desta vez entendeu ser o bispo do Porto «uma referência ética para a sociedade portuguesa no seu todo». Uma escolha tão legítima quanto o é a inevitável tendência pública, que tem vindo a ganhar força, para se deixar de atribuir grande importância ao Prémio e de tirar o chapéu ao laureado.

P.S. – Pensei relacionar a escolha do bispo do Porto com o ano-republicano que se aproxima, mas acabei por achar que a ligação poderia resultar de um devaneio meu. Só que, entretanto, encontrei o seguinte fragmento de uma entrevista de Manuel Clemente concedida há dois anos atrás:

«Por que é que a Igreja está a reclamar intervenção activa nas comemorações do centenário da República?»
«É para entrar neste debate. Para esclarecer questões que muitas vezes nem sequer estão enunciadas correctamente. Para mostrar que, relativamente à I República, da parte da Igreja a questão nunca foi o regime mas algumas práticas dos sectores mais radicais do republicanismo e, a partir daí, fazer o tal debate acerca do que é o lugar das confissões religiosas e do que haja de ser a expressão religiosa em termos individuais e colectivos numa sociedade democrática.»

Bichinho de África

Moderno Tropical Caderno de Memórias Coloniais

Lembro-me de há uns doze anos atrás ter ensaiado – na época um passo em falso, ainda não tinha chegado o momento certo – um olhar sobre o passado colonial que parecia então tão improvável quanto impopular. Na altura, os estudos sobre a Guerra Colonial apenas começavam a gatinhar e, para quem se interessava pelo assunto, a única paisagem humana aceitável era composta pelos militares da tropa, pelos guerrilheiros que se lhes opunham e pelas populações africanas que enchiam a única paisagem visível. Os outros, bem, os outros tinham andado por ali, é verdade, mas era como se não tivessem andado: as centenas de milhares de portugueses de diferentes gerações que tinha povoado os territórios de Angola e de Moçambique nos anos de guerra deviam permanecer invisíveis, dentro do cordão sanitário da memória que protegia o bom povo do seu cheiro pestilento.

Eram ainda os «retornados», gente apátrida, culpada de ter existido, de sobreviver, e de, por isso, carregar consigo a memória de um passado que deveria ser apagado. E, no entanto, sem essas centenas de milhares de homens, de mulheres, de crianças – brancos, sobretudo brancos, mas também mulatos, cabritos, uns quantos negros assimilados – a realidade da última vaga da colonização, da guerra sangrenta, das independências paridas com dor, da inquietante experiência pós-colonial tal qual ela se define hoje, jamais teria existido. Fosse qual fosse o juízo de valor que pudesse ser feito em relação à colaboração de uma grande parte dessas pessoas na manutenção do jugo colonial – e eu fi-lo também, e bem negativo –, elas existiam, e tinha atravessado experiências de vida que não poderiam ser apagadas. A História de Portugal, de Angola, de Moçambique, de São Tomé, das outras antigas colónias, jamais poderá ser feita, percebemo-lo agora, sem se dar vida – retirando à maior parte desses seres humanos os qualificativos simplistas de algozes ou de cúmplices – a toda essa outra vida que ficou para trás mas que nos preenche.

Por isso, para que tudo isso possa ser reconhecido, e possam sair dos escombros pedaços de existência injustamente esquecidos, são indispensáveis livros recém-editados como o Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo (na Angelus Novus), e Moderno Tropical, de Ana Magalhães e Inês Gonçalves (da Tinta-da-China). O primeiro é um magnífico, e ainda raro, exemplo de uma literatura autobiográfica saída do universo caseiro dos torna-viagem regressados do lado sul do Equador. Aqueles que respiram todos os dias connosco mas deixaram parte constitutiva das suas vidas num tempo que se perdeu mas se pressente ou se adivinha: «Ao domingo à tarde a rádio passava Nelson Ned cantando Domingo à Tarde. Ao domingo à tarde íamos ao cinema.» O segundo reintroduz-nos nessa arquitectura colonial de última geração, agora semivazia, decrépita e visivelmente abandonada, erguida em Angola e Moçambique entre 1948 e 1975, que nos leva de volta a uma certa «beleza nostálgica das cidades da África lusófona». Das cidades do asfalto, naturalmente, pois são estas que aqui preenchem a paisagem humana. Dois livros que vomitam vida por todos os lados, e que não deixarão indiferentes quem os percorrer. Padeça-se ou não dessa espécie de vírus, ainda não cientificamente identificado, e muito menos provido de antídoto, conhecido entre nós por bichinho de África.

Getting older, but not losing their hair

Bruce Tom

Eu deveria falar só sobre o Tom Waits, que fez ontem sessenta anos. Mas meto também na jogada o Bruce Springsteen, que os ultrapassou há perto de dois meses. Está escrito no cartão do cidadão que a minha data de nascimento se encontra perigosamente mais próxima da deles do que daquela da qual se pode gabar o Devendra Banhart ou mesmo o Pedro Passos Coelho, e talvez seja por isso que os aniversários de Tom e de Bruce não me façam uma impressão por aí além. Mas já justificam a evocação de dois trajectos inacabados e ainda debaixo da luz dos projectores.

Sempre olhei Springsteen como vestígio de uma América ideal que já se via de partida quando ele saiu lá de New Jersey, mas que foi depois desaparecendo lentamente, como pegada de dinossauro em trilho paralelo a uma qualquer highway. Um hobo fora do tempo, talvez mesmo um beatnik retardado, se não desnaturado, do qual o que sobra na América de uma cultura protestativa e de tradição sixtie se tem apropriado como se fosse um balão de oxigénio. Como de uma bandeira rasgada, volúvel, mas ainda visível e a drapejar sobre um horizonte que se não pode prever. Dele gosto, verdadeiramente, apenas de dois álbuns publicados um a seguir ao outro: o fremente e corsário The River (um duplo de 1980) e o quase intimista e acústico Nebraska (1982). Os outros pertencem, basicamente, ao processo de fixação do Bruce naquela imagem de cool guy que «representa o povo» em tribunas do Partido Democrata ou em anúncios da Pepsi Cola. Mas que certas vezes ainda comove, porque insiste em falar-nos da vida «como ela é». Como boss mais camarada afinal do que patrão.

Tom Waits é outra coisa e a mesma. Resíduo da contracultura dos anos sessenta, signo de uma ressaca difícil que encontra, na figuração narcísica da marginalidade e do individualismo, um lugar de exílio das utopias que pareciam ter sido abandonadas de uma vez por todas. Música de cave, com cheiro acentuado a bourbon e a fumo, como em Nighthawks at the Diner (gravado ao vivo e editado em 1975), ou Small Change, ou Blue Valentine, saídos nos anos seguintes, que a música de Mr. Waits, embora progressivamente mais intelectualizada, hoje mais elaborada, estranhamente controlada no seu descontrolo, na verdade jamais deixou de ser. Sempre um registo «fora de género» que encontra os seus inflexíveis cultores – aqueles que preferem caminhar do lado oposto à «sunny side of the street» – mas não deixa de conter uma amargura que escapa sempre ao lado exultante desse modelo americano de vida que os europeus jamais desejarão. Por isso, talvez, tantos deles, tantos de nós, gostam ainda de um tipo assim, sem voz para adormecer bebés e uma presença física um bocado pungente.

Afinal os sessenta anos de Tom e de Bruce não contam assim tanto, pois não?

Fenómeno do Entroncamento

Jornalismo

A notícia será rapidamente esquecida, mas não merece. Nesta 2ª Feira, um grupo de 30 militares do Centro da Serra da Carregueira encontrava-se a recolher informação para desenhar a carta militar geográfica do rio Olo, na serra do Alvão (Vila Real), quando dois deles – por sinal um tenente-coronel e um primeiro-sargento – se perderam por volta das dez da noite sem que nenhum dos companheiros conseguisse encontrá-los. Foi então que os outros militares resolveram recorrer aos meios humanos mais tradicionais, herdados da experiência logística das guerras napoleónicas, e pedir a ajuda de um pastor de 41 anos, com 35 de exercício da arte, que prontamente deu com os dois desaparecidos tolhidos de frio no fundo de uma ravina. A história é já de si curiosa, justamente pelo tipo de pesquisa que a brigada levava a cabo e que requereria aparelhos de localização e de comunicação – no mínimo telemóvel e GPS –, bem como pelo facto de os dois desaparecidos serem militares profissionais e não dois escuteiros fugidos de um jamboree. Mas mais interessante ainda é o discurso do pastor, que o repórter do Diário de Notícias transcreve: «Cerca da meia-noite fui acordado por dois elementos da GNR, solicitando a minha ajuda para encontrar dois militares que estariam perdidos junto da queda das Fisgas», contou Sérgio Alves. «Munido de uma pequena lanterna, acompanhado de dois bombeiros, fui de imediato para a ravina seguinte à queda de água e cerca das 02.30 consegui ir até meio do declive. Tinha a certeza de que só poderiam estar ali. Fiz sinais, chamei e ouvi uma voz.» Ou os pastores já não são o que eram, ou o convívio com o português-padrão usado pelos jornalistas deste país está nos píncaros lá pelas margens do Olo, ou então estamos perante um fenómeno do Entroncamento deslocado do seu lugar onde.

Contra a banalização

World War II

A Segunda Guerra Mundial deve ser o acontecimento do século XX sobre o qual um maior número de títulos se encontra publicado. O septuagésimo aniversário da invasão alemã da Polónia veio ampliar ainda mais esta realidade, justificando a reedição deste livro de Martin Gilbert, publicado pela primeira vez em 1989. Vinte anos entretanto transcorridos não lhe diminuíram o interesse, ajudando até a colocá-la numa dimensão peculiar que na altura não poderia ter. Desde logo porque nos anos oitenta os ecos sobreviventes da crítica historiográfica da «história-batalha» faziam com que a dimensão bélica do passado fosse ainda desvalorizada como excessivamente dependente de uma metodologia escrava dos factos. Mas também porque, por essa época, os impulsos revisionistas e negacionistas que têm procurado atenuar a dimensão apocalíptica da devastação material da guerra e do Holocausto ainda não se mostravam tão patentes nem tinham o impacto público que ultimamente têm colhido.

Ambos os aspectos podem agora ser observados de forma mais completa recorrendo precisamente a esta obra. Com efeito, em mais de 1000 páginas, ela projecta uma perspectiva única de uma história mil vezes contada. Trata-se de um exemplo acabado de história narrativa, que nos relata os acontecimentos, dia após dia, por vezes hora a hora, num esforço impressionante para produzir uma descrição que não deixe escapar episódio algum, a menor operação militar, que tivesse sido relevante para a eclosão, a continuação ou o desenlace da Guerra. Mas ao mesmo tempo fá-lo recorrendo à intrusão na narrativa de pequenos acontecimentos, de palavras e de gestos individuais, que ajudam a dar do conjunto uma visão vívida e constantemente humanizada.

A ausência de processos claramente contextualizantes e interpretativos pode, naturalmente, ser questionada. Foi essa a escolha de Gilbert, um historiador profissional, politicamente conservador, que em regra prefere que os factos falem por si. Ela destaca a componente descritiva, parecendo evitar o facciosismo. Mas não o consegue justamente porque, como qualquer historiador, Gilbert introduz opções que traduzem parcialidade. Por um lado, a denúncia dos crimes do nazismo é uma constante, o que certas vezes o leva a omitir o reconhecimento dos excessos cometidos, ainda que noutra escala, pelas forças aliadas. Por outro, ao recusar relevância aos acontecimentos ocorridos dentro do próprio território alemão – se exceptuarmos a descrição detalhada da «Operação Valquíria» e as informações sobre os espaços concentracionários do Holocausto – e ao ignorar praticamente o contributo da Itália fascista para o desafio agressivo do Eixo, acaba por olhar de um ângulo ainda algo limitado uma história que se pretende completa. No entanto, nada que fira de morte o trabalho monumental levado a cabo e a grande valia documental de uma obra como esta. Imprescindível para impedir que a Segunda Guerra Mundial se transforme, com tanto lugar-comum a seu respeito que tem sido publicado por estes dias, num episódio irrelevante ou passível de ser facilmente manipulado.

Martin Gilbert, A Segunda Guerra Mundial. Trad. de Ana Luísa Faria e Miguel Serras Pereira. D. Quixote, 1012 págs. [Publicado na LER de Novembro]

A música do século

Musica do Século 20

Claude Debussy referiu-se certa vez ao território da música como «país imaginário, ou seja, um país que não se encontra no mapa». Em O Resto é Ruído, Alex Ross, crítico musical da New Yorker, procura retirá-lo dessa dimensão aparentemente imaterial, integrando-o nos processos de leitura da contemporaneidade e de compreensão das suas raízes mais próximas. Ensaia então um esforço de entendimento da história da música ocidental no século XX, procurando, através dela, aperfeiçoar o conhecimento dos seus momentos nucleares na ligação com a actividade de alguns dos compositores mais criativos e singulares. De Gustav Mahler e Richard Strauss a John Adams e Philip Glass, uma linhagem de grandes criadores musicais vai cruzando estas páginas absorventes, mostrando recorrentemente que a vida e a obra dos intérpretes da música dita «clássica», ou «erudita» – e ao contrário daquilo que mais recentemente tende a considerar um certo gosto padronizado, marcado pela influência da cultura popular nascida no pós-Segunda Grande Guerra –, foi tudo menos construída, e experimentada, dentro de um universo soturno, entaipado, sem contacto com um público genuinamente interessado e com as grandes questões do tempo.

O livro integra uma componente didáctica, seguindo por isso uma cronologia de certa forma linear. A primeira parte ocupa-se do período de 1900-1933, abordando a cultura musical modernista, herdeira do romantismo mas ao mesmo tempo em clara ruptura com ele, com ênfase na afirmação da atonalidade, depois na descoberta da composição dodecafónica, e na valorização do conceito de popular. A segunda, interessada nos anos de 1933-1945, trata a relação entre política para as artes musicais, o nazismo e o estalinismo, mas também a emergência de uma música americana pujante e assumidamente concorrente da tradição europeia. A última parte, balizada pelas datas de 1945-2000, ocupa-se do impacto na música da Guerra Fria, da explosão cultural dos anos 50-60, do minimalismo, do jazz e das influências caleidoscópicas de uma música popular e moderna que recusa a vulgaridade. Atravessando todo aquele tempo, figuras tutelares mas inevitavelmente complexas – como Strauss, Schoenberg, Mahler, Stravinsky, Chostakovich ou Boulez, cuja originalidade, influência e capacidade para se adaptarem à mudança e se repensarem são aqui constantemente invocadas –, ajudam a expor os caminhos possíveis e as contradições constantemente em presença. Se o objectivo proposto para este livro era, como declara inicialmente Ross, apresentar um século XX «ouvido através da sua música», mas também propor uma cartografia para esse «obscuro pandemónio que habita as periferias da cultura», pode dizer-se que ele foi duplamente conseguido. Porque nesta obra de síntese o ruído passa para segundo plano e a música emerge enquanto protagonista da vida e da mudança.

Alex Ross, O Resto é Ruído. À Escuta do Século XX. Tradução de Mário César d’Abreu. Casa das Letras, 576 págs. [Publicado na LER de Novembro]

A cicatriz

No Verão de 66 os meus interesses na vida eram ainda as séries Thunderbirds e Bonanza, os romances de Walter Scott e de Emilio Salgari, e o futebol. Passei por isso grande parte de um Julho particularmente quente agarrado à televisão, aos jogos do Mundial e aos pontapés gloriosos de Eusébio e companhia. O jogo dos jogos, mais importante do que os das vitórias suadas sobre brasileiros e húngaros, foi para mim o Portugal-Coreia do Norte. Com o resultado já num humilhante 0-3, os «magriços» – assim chamados por se supor retomarem os feitos de Álvaro Gonçalves Coutinho, o penedonense, valente embora fraco de carnes, que foi um dos lendários Doze de Inglaterra evocados por Camões e Garrett – deram a volta ao jogo e passaram-no para 5-3, numa recuperação fantástica liderada pelo preto mais branco do país. O jogo doou-me uma marca incisa e profunda, pois ao quarto golo nacional, obtido de penálti, dei um salto tão grande que bati com a mão direita num candeeiro e deixei um centímetro cúbico de carne a pingar sangue entre ferragens e pendentes. Conservo do episódio a cicatriz que me recorda todos os dias a vibração (e a dor forte, claro) daquele momento. E revi-o quando soube hoje que na campanha sul-africana de 2010 nos calhou de novo a Coreia do Norte. O desafio que aguardo com maior expectativa e um certo desejo de vingança será pois aquele que disputaremos contra os vassalos do «querido líder» Kim Jong-Il. Embora saiba que a paixão do instante jamais será a mesma.

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O combate pela dignidade na memória do Gulag

Tundra

Artigo publicado na revista LER de Novembro de 2009

«Uma simples folha de papel de escrever / Parecia um milagre /
Caindo do céu sobre a floresta negra» (V. Shalamov)

O escritor ucraniano Georgi Vladimov (1931-2003) redigiu The Faithful Ruslan (New York, 1979), O Fiel Ruslam, na época do Degelo, quando Kruschev suavizou um pouco o peso da censura. Mas duas décadas depois o pequeno romance-alegoria ainda só circulava no estreito circuito samizdat. O narrador é um cão que cumprira com sinistra devoção o seu trabalho de guarda num campo de trabalho. Fechado o campo, os seus donos humanos partiram para uma nova vida, mas Ruslan encontrou uma última missão: numa atitude de fidelidade para com o mundo que servira, passou a seguir por todo o lado um antigo prisioneiro. No final juntar-se-á a uma matilha para despedaçá-lo, tal como a um grupo de operários da fábrica que sucedera aos antigos pavilhões carcerários, num festim de morte e zelo iniciado quando lhe pareceu que estes violavam as rígidas regras que fora treinado para fazer cumprir. Boa parte da memória escrita dos sobreviventes dos campos de concentração recupera sempre esta dimensão de irreversibilidade do passado: aqueles que os habitaram na condição de prisioneiros, e viveram para contar a experiência, jamais abandonaram de todo as rotinas e os condicionamentos impostos por anos de uma vida sem lugar para a transgressão ou para a esperança.

Quando entramos nos relatos daqueles que conseguiram sobreviver aos Lagern nazis e ao Gulag percebe-se, porém, que a caracterização do encarceramento concentracionário, «a experiência do século» como lhe chamou Heinrich Böll, diverge entre eles num aspecto crucial. Nos grandes campos alemães, o detido era-o num tempo que antecedia a previsível inevitabilidade do fim. E sabia-o, uma vez que pertencia, em regra, a um grupo destinado a ser erradicado de forma mecânica e implacável. Uma inflexibilidade revelada até na impiedade nazi diante das crianças, rara nos campos soviéticos. A norma nos redutos do Holocausto era a da luta mais extrema do prisioneiro, permanentemente imerso no medo, no horror, na disciplina, no tormento mais intolerável e na antevisão da morte, por um estreitíssimo limiar de sobrevivência. Apenas mais uma noite, só mais uma hora, um minuto, um breve instante. É o que evocam os relatos memorialistas de Élie Wiesel ou de Primo Levi quando enfatizam dramaticamente a ausência de limites na mais brutal luta pela vida. Em Se isto é um homem (Lisboa, 1988), Levi recorda como logo pelo segundo dia em Auschwitz os homens do seu grupo se olhavam já como fantasmas: «não há espelhos para nos vermos mas o nosso aspecto está diante de nós, reflectido em cem rostos lívidos, em cem fantoches miseráveis e sórdidos.» Um pequeno mundo, o único mundo possível, onde em pouco tempo o combate pela sobrevivência transformará cada um no chacal do seu próximo.

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LER de Dezembro

LER de Dezembro

Carlos Vaz Marques conversa com José Tolentino de Mendonça. Eduardo Pitta faz já um balanço da década. Os 52 livros de 2009. Filipa Melo sobre os Açores no século dos Dabney. O segundo romance de Manoela Sawitzki. Tiago Cavaco revisita um dos livros capitais de Rainer Maria Rilke. Rogério Casanova e os livros que devem ser escritos. Entrevista com Nuno Ramos, o vencedor do Prémio Portugal Telecom de Literatura. As crónicas habituais de Abel Barros Baptista, Pedro Mexia, José Eduardo Agualusa, José Mário Silva, Filipe Nunes Vicente, Francisco Belard, Eduardo Pitta, Inês Pedrosa e Onésimo Teotónio de Almeida. O «Diário de Ocasião» de Francisco José Viegas. E ainda as notas críticas de Filipa Melo, Dóris Graça Dias, José Riço Direitinho, Carlos Câmara Leme, José Mário Silva, José Guardado Moreira, Sara Figueiredo Costa, Rogério Casanova, Fernando Sobral, Rui Bebiano e Carla Maia de Almeida. E muito mais.

Ressentimento

Ghetto

Marc Ferro procura aqui uma explicação comum para situações de violência muito diferentes. Como os conflitos étnicos e religiosos, as revoluções, as lutas civis, as guerras nacionais e de libertação, o fascismo ou o racismo. Encontra-a no ressentimento, definido como um conjunto de ódios associados a sentimentos de injustiça, de raiva, de desprezo ou de vingança, muitas vezes conservados durante séculos, capazes de gerarem uma pulsão psicológica ou exigências de reparação determinantes para a eclosão da violência. Quem se sente vítima «rumina então a sua vingança», até que «acaba por explodir». Estes ódios podem radicar-se numa experiência histórica geradora de sentimentos revanchistas, mas vincula-se também a uma memória nacional, «viveiro de ressentimentos», que permite justificar a rivalidade centenária, materializada por vezes em conflitos entre Estados, e impossibilita o entendimento, instalando a suspeição e o rancor. Projectada nesta dimensão, a aversão dos povos colonizados contra os seus colonizadores e contra os vestígios que estes deixaram atinge uma intensidade particular, transformada em imperativo de luta. Ao longo de um trajecto ancorado em sucessivos exemplos, Ferro enumera tipos e casos de ressentimento indispensáveis para compreendermos conflitos deste nosso tempo. E também de todos os tempos. [Marc Ferro, O Ressentimento na História. Compreender o nosso tempo. Trad. de Telma Costa. Teorema, 220 págs.]

O passado é agora [6]

Dantes

Pré-1989 – Residência de férias no Báltico para membros do Partido. Fotografia de Harald Schmitt.