
Camus na Grécia em 1958 (com Michel Gallimard, com quem morrerá dois anos depois)
Foram já distribuídos por cá os dois atraentes e úteis números do Magazine Littéraire e da Lire dedicados à vida e ao eco da obra e do pensamento de Albert Camus. Do segundo consta a transcrição do notável discurso pronunciado em 10 de Dezembro de 1957, quando, de fraque alugado para a ocasião, o autor de L’Étranger recebeu em Estocolmo o Prémio Nobel da Literatura. Traduzo um fragmento conservado sem uma ruga.
«O papel do escritor (…) é inseparável de imperativos difíceis. Por definição, ele não pode colocar-se ao serviço daqueles que fazem a História. Se o fizer, ficará só e privado da sua arte. Todos os exércitos da tirania, com os seus milhões de homens, serão então incapazes de libertá-lo dessa solidão, ainda que, e sobretudo se, marcharem ao seu lado. Mas o silêncio de um prisioneiro desconhecido, abandonado à humilhação do outro lado do mundo, bastará para retirar o escritor do exílio, de cada vez que, pelo menos, este consiga, recorrendo aos privilégios da liberdade, impedir que esse silêncio seja esquecido, fazendo-o ecoar pelos meios que a sua arte fornece.
Nenhum de nós é suficientemente grande para cumprir uma tal vocação. Mas, em todas as circunstâncias da sua vida, obscuro ou provisoriamente célebre, atirado às feras da tirania ou momentaneamente livre para se exprimir, o escritor pode reencontrar o sentimento de uma comunidade viva que o legitimará, na condição única de assumir enquanto puder as duas tarefas que fazem a sua grandeza: o serviço da verdade e o da liberdade. (…) Ele não pode acomodar-se à mentira e à servidão que, por onde quer que imperem, fazem proliferar as solidões. Sejam quais forem as nossas fraquezas pessoais, a nobreza da nossa actividade radica-se sempre em dois compromissos difíceis de manter: a recusa de mentir sobre aquilo que sabemos e a resistência à opressão.»

