
Da entrevista (excelente como quase sempre) a Amos Oz, conduzida por Alexis Lacroix, que saiu no Magazine Littéraire nº 494, deste mês de Fevereiro:
«Você tem insistido sobre o facto da maioria dos europeus ser incapaz de conceber a vulnerabilidade do povo israelita. Não será um exagero?
A Europa permanece incapaz, em larga medida, de imaginar sequer a insegurança existencial dos israelitas. No conflito israelo-palestiniano não há lugar apenas para os bons e para os maus como muitos europeus gostam de acreditar. Não se trata de um western, nem de um combate entre o bem e o mal. É uma verdadeira tragédia, um conflito entre duas reivindicações poderosas, convincentes e válidas. Dito de outra forma: um combate entre o justo… e o justo.
Em numerosas intervenções públicas (…) costuma deplorar o facto de a numerosos europeus repugnar a consideração do sionismo em toda a sua complexidade. É essa a razão pela qual você prefere definir o sionismo como um “apelido”?
Quando recorro a essa metáfora, quero dizer que existe, no interior do sionismo, uma gama muito variada de sensibilidades e de correntes ideológicas: há o sionismo telúrico e anexionista dos sionistas religiosos; há o sionismo “revisionista” de Jabotinsky e dos seus émulos do Likud, que era o do meu pai, Arieh Klausner; há enfim o sionismo humanista, anti-anexionista, do qual me sinto, justamente, um herdeiro, desde que, em plena revolta juvenil contra o meu pai, me tornei um condutor de tractores de esquerda…
Até que ponto a literatura pode favorecer a emergência de uma solução?
A literatura desempenha um papel indirecto: ela ajuda-nos a imaginar o outro. Imaginar o outro é um passo importante para a resolução dos conflitos (…), é uma etapa indispensável para se chegar a uma melhor compreensão mútua.»
