Arquivo de Março de 2010
O Dr. No lá do sítio
Por admin in Atualidade, História, Memória em 3 de Março de 2010

O reverendo Ian Paisley, de 83 anos, anunciou ontem que vai deixar o lugar de deputado britânico, ocupado ao longo de quatro décadas, após as legislativas de Maio. Foi membro da Força de Voluntários do Ulster, o mais antigo grupo paramilitar protestante da Irlanda do Norte. Fundou também a Igreja Presbiteriana Livre do Ulster, em 1951, tendo criado o Partido Unionista Democrático duas décadas depois. Termina assim, ao que parece, a carreira política de um homem que, pelas suas posições irremissivelmente violentas e intransigentes a favor do orangismo mais extremo ajudou a inscrever o nacionalismo irlandês «católico» na consciência e na agenda da esquerda ocidental. Pelo menos comigo resultou, lá pelos idos de setenta.
Preciso de um tempo para pensar
Por admin in Apontamentos, Olhares em 3 de Março de 2010

Sobre o trabalho do jornalista polaco Ryszard Kapuscinski escrevi em tempos isto. Foram-se depois adensado rumores sobre a sua actividade como agente dos serviços secretos comunistas e, nessa qualidade, como denunciante de colegas de trabalho e pessoa com privilégios que os outros não tinham. Entretanto acaba de ser editada a biografia escrita por Artur Domoslawski, seu compatriota, também ele jornalista, que o conheceu de muito perto e é agora acusado de ser excessivamente benévolo para com o amigo Kapuscinski. Trata-se de um daqueles casos, admito, em que não sou capaz de fazer um juízo moral assim da noite para o dia. É como nos amores indecisos: preciso de um tempo para pensar.
Tu quoque Chatterton fili mi!
Por admin in Apontamentos, História, Livros & Leituras em 2 de Março de 2010

Suicidado aos 18 anos, em 1770, na cama da sua mansarda em Holborn, um dos mais mal-afamados bairros da Londres da época, o poeta Thomas Chatterton transformou-se rapidamente no arquétipo do herói romântico. Milhares de anémicos jovens viram-se ao espelho, por mais de um século, como Chattertons em potência, tão geniais quanto incompreendidos. Pois agora Jürgen Heizmann, um académico alemão que ensina na Universidade de Montréal, vem confirmar aquilo que a verdade alternativa desde há algum tempo vinha murmurando: que os poemas do jovem Thomas foram sistematicamente decalcados de manuscritos antigos (um falsário pois) e que a morte prematura não se deveu a suicídio, mas sim a um tratamento mal aplicado contra uma doença venérea. A ser verdade, não passa de mais um caso em que a doce fantasia excedeu largamente a crueza dos factos. Fiquemo-nos pois pela lenda e atiremos a realidade pela janela.
Um conceito pesado
Por admin in Atualidade, Olhares, Opinião em 2 de Março de 2010

Como muitos outros intelectuais ocidentais, Slavoj Zizek não gosta que se fale de islamo-fascismo. Para explicar a recusa invoca no entanto, em entrevista ao L’Humanité (republicada na edição portuguesa do Courrier International), um argumento algo falacioso. Declara uma verdade («ainda há trinta anos havia uma esquerda laica muito forte nos países árabes») e associa-lhe uma evidência («o Ocidente tomou uma decisão totalmente catastrófica ao apontar a esquerda laica, pelas suas ligações à União Soviética, como inimigo principal, e ao apoiar, por razões estratégicas, os fundamentalistas»). Mas infere daqui que, pela mesma razão, este Ocidente perdeu a legitimidade para apontar o dedo ao modelo agressivo e totalitário com um peso crescente no universo do Islão contemporâneo.
O argumento terá sido simplificado por Zizek, dado aparecer numa entrevista curta onde é impossível detalhar razões. Mas infelizmente ele tem sido adiantado – justamente na sua versão simplista – por quem se preocupa em desculpabilizar os excessos das vertentes agressivas e intolerantes do Islão como justificáveis em função dos erros dos governos e da comunicação social do mesmo Ocidente. No limite, alguns sectores, de facto pouco ou nada preocupados com um convívio democrático e transcultural paritário, aceitam até esses excessos como parte de uma vertente da luta anticapitalista, anti-imperialista e anti-sionista que, na sua leitura míope e elementar, o radicalismo islâmico protagonizará de maneira legítima. Esquecendo, desta forma, a longa tradição histórica de um Islão tolerante para com o laicismo, incluindo o de pendor socialista, que tem sido particularmente reprimido por esse lado exaltado, fanático e totalitário de certas organizações e de determinados regimes auto-intitulados «islâmicos». Ou, se se quiser, «islâmicos de certa maneira».
Sem papas na língua comme d’habitude, Christopher Hitchens – que ainda no passado 18 de Fevereiro esteve por cá, na Casa Fernando Pessoa, a defender «a urgência do ateísmo» – estabelece, em artigo publicado em 2007 na revista Slate, um conjunto de «similitudes óbvias» entre o fascismo histórico e o islamo-fascismo, conceito que aceita sem grandes objecções:
«Both movements are based on a cult of murderous violence that exalts death and destruction and despises the life of the mind. (‘Death to the intellect! Long live death!’ as Gen. Francisco Franco’s sidekick Gonzalo Queipo de Llano so pithily phrased it.) Both are hostile to modernity (except when it comes to the pursuit of weapons), and both are bitterly nostalgic for past empires and lost glories. Both are obsessed with real and imagined ‘humiliations’ and thirsty for revenge. Both are chronically infected with the toxin of anti-Jewish paranoia (interestingly, also, with its milder cousin, anti-Freemason paranoia). Both are inclined to leader worship and to the exclusive stress on the power of one great book. Both have a strong commitment to sexual repression – especially to the repression of any sexual ‘deviance’ – and to its counterparts the subordination of the female and contempt for the feminine. Both despise art and literature as symptoms of degeneracy and decadence; both burn books and destroy museums and treasures.»
É verdade que o uso da expressão islamo-fascismo pode ser histórica e conceptualmente discutível (como se sabe, o próprio uso alargado do conceito de fascismo é-o também). E é com toda a certeza injusto para com toda a tradição do Islão e para com muitos muçulmanos que são até vítimas dos seus ditames e das suas práticas. Mas corresponde a uma experiência com a qual todo o mundo – a começar pelo islâmico – tem de se confrontar. Aceitar a realidade política e cultural do islamo-fascismo constitui uma precaução que em nada deve afectar o relacionamento pacífico com o mundo islâmico. Uma conexão que, todavia, não pode ser mantida a qualquer preço.
Adenda - Um erro de Hitchens no qual não reparei ao fazer a transcrição em copy-paste: a frase “Viva la Muerte!” foi bradada, em 12 de Outubro de 1936, durante um confronto público com Miguel de Unamuno, por José Millán-Astray – aliás, hoje recordado quase exclusivamente por estas palavras assassinas –, e não por Queipo de Llano.
O direito a dissidir
Por admin in Apontamentos, Direitos Humanos em 1 de Março de 2010

Pode parecer uma bizantinice, mas vale a pena encarar a questão levantada por Pedro Correia – de quem cordialmente ‘dissido’ neste particular (e por vezes noutros) – a propósito da palavra ‘dissidente’, quando considera que o termo não deve ser utilizado para referir opositores ou contestatários isolados dos regimes de Pequim ou de Havana. Para sustentar a sua opinião, refere que ele foi cunhado na antiga União Soviética «para designar todos quantos se afastavam da ‘normalidade’ política e social, insinuando uma espécie de doença psíquica». Se o regime dizia representar todo o povo, quem não se sentisse representado por ela só poderia então ser ‘dissidente’. Ou seja, anormal, louco e criminoso.
É parcialmente verdadeiro este referencial histórico, mas não o é inteiramente. Na verdade, a palavra surgiu de início, no ocidente, para se referir aos intelectuais soviéticos que se opunham, quase sempre isoladamente e de forma ilegal, a um regime totalitário que remetia a diferença, a divergência em relação ao pensamento único e a um sistema que se considerava a caminho da perfeição, para a esfera da marginalidade e da doença. Como era possível alguém em seu perfeito juízo, e para mais um cidadão supostamente informado, membro da intelligentsia, divergir do cientificamente determinado e comprovado, do tão indiscutivelmente justo que nem precisava ser sufragado? Foi o eco do combate desses homens e dessas mulheres – nem sempre com idêntico sentido, uma vez que agiam isoladamente ou em pequenos grupos e não constituíam propriamente uma associação com objectivos programáticos – que os revelou como… dissidentes. E para cunhar o qualificativo não foi preciso ir longe: bastou recorrer à velha palavra dissidentia, que em latim significa oposição, antipatia, desarmonia. E hoje lá vem no dicionário dissidência como o «acto de separar-se (de uma parcela de um grupo, agremiação, partido, etc.) em virtude de divergência de opiniões». Em qualquer tempo ou lugar.
Sim, Hu Jia ou Wei Jingsheng, como Guillermo Fariñas ou Yoani Sánchez, podem ser considerados dissidentes. E até o devem ser, uma vez que os antecedentes históricos do qualificativo apenas enobrecem o seu combate pelo direito a pensarem por si e a comunicarem aos outros aquilo que pensam. O direito a dissidir, o imperativo moral de viver e actuar em dissídio. Ainda que se enganem mil vezes.
Voo picado
Por admin in Atualidade, Direitos Humanos, Olhares em 1 de Março de 2010

Um artigo «de opinião» saído hoje no Público, assinado pelo tenente-coronel piloto aviador Brandão Ferreira («A democracia e o casamento entre géneros idênticos»), constitui um dos exercícios mais retrógrados, intolerantes, violentos e sobretudo demagógicos que tenho lido nos últimos tempos. Não se trata de um texto que exprima uma posição da qual discordemos mas que possamos respeitar: este arrazoado execrável e rancoroso ultrapassa em muito o nível do ensaio argumentativo para se transformar num exercício proto-fascista de agressão à própria democracia. Pode ser lido na íntegra num post publicado no Jugular.
Publicado originalmente no Arrastão
