Meu querido fumo azul


Gitanes

E pronto, morreu um pouco mais da França que amei. No princípio da semana, fiz o que faço habitualmente há uns vinte anos: saí de manhã cedo de casa e fui à tabacaria comprar o meu pacote de dez maços de Gitanes. Fumo pouco, mas como fumo pouco gosto de fumar bem, tabaco que se sente, «de homem», com personalidade, que arde devagar e se cheira à distância. Abalancei-me por algum tempo ao Celtiques – julgo que por causa de uma canção de Léo Ferré –, mas como amargava um tanto e me deixava os dedos desgraçadamente amarelados, retornei às caixinhas azuis com a cigana dançarina em silhueta. Na loja, a empregada confundiu-me quando disse que entretanto tinham deixado de receber a marca. Como percebeu logo que eu tinha ficado paralisado pela aflição, sugeriu, com um manifesto sentimento de piedade, que passasse a comprar Ducados, ou talvez Gauloises, pois fora isso «que os outros clientes fizeram». Ainda pensei que se tratasse de um engano, de ingénua incompetência ou de pura maldade, motivados por razões obscuras que não procurei averiguar. Não era o caso, infelizmente: fui a outra tabacaria, e depois a outra, e a outra, e depois a um armazém de distribuição, mas todos disseram o mesmo: «sabe, lamentamos mas essa marca deixou de ser distribuída», procurando logo esclarecer-me sobre aquilo «que os outros clientes fizeram». Já a ver a vida a andar para trás, fui a correr para a Wikipedia. E sim, lá estava, pelas barbas cheias de nicotina de todos os grandes fumadores, profetas ou não:

«Production in France recently halted, with one factory remaining operational in the Netherlands. This is mainly due to the rise on tobacco levies imposed by the French government in the wake of health advice, which has forced the price of French cigarettes up to the level of those from the USA, with the more aggressively promoted brands such as Marlboro now taking the majority market share.»

Quer isto dizer que não só uma das imagens (literalmente) de marca da França contemporânea vai desaparecer – logo ela, que até serviu de capa ao belo elogio do cigarro como experiência estética que é Cigarettes are Sublime, o livro de Richard Klein onde se explica que o maço de Gitanes funciona com «um emblema de beleza» e de «poderoso charme» –, como tal se deve à irracionalidade do fundamentalismo antitabagista europeu e à ginástica espertalhaça dos bosses da indústria americana do tabaco. Morrem assim de novo, agora provavelmente de vez, Serge Gainsbourg e Jacques Brel (cada um consumia sem pestanejar cinco caixinhas azuis de tabaco enrolado por dia), Jacques Prévert, Jean Gabin, Albert Camus, Luis Buñuel, John Lennon e Jim Morrison. E a bem dizer também eu morri um pouco, sabem. Pois, como o Gainsbourg, «sans elles je suis malheureux».

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