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	<title>A Terceira Noite &#187; Atualidade</title>
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	<description>leituras, polémicas e iluminações / um blogue de rui bebiano</description>
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		<title>Meter os pés ao caminho</title>
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		<pubDate>Wed, 16 May 2012 22:46:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não fazendo parte do seu núcleo impulsionador e redator, fui dos primeiros signatários do «Manifesto para uma Esquerda mais livre». Neste momento, o número de pessoas que assinaram o documento, muitas delas de trajeto e méritos publicamente reconhecidos, já vai em cerca de duas mil e continua a aumentar. A sua localização política é muito [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34858" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/05/lookleft.jpg" alt="" width="421" height="316" /></p>
<p>Não fazendo parte do seu núcleo impulsionador e redator, fui dos primeiros signatários do <a href="http://paraumaesquerdalivre.net/home/manifesto/" target="_blank">«Manifesto para uma Esquerda mais livre»</a>. Neste momento, o número de pessoas que assinaram o documento, muitas delas de trajeto e méritos publicamente reconhecidos, já vai em cerca de duas mil e continua a aumentar. A sua localização política é muito plural e a leitura que cada uma delas faz do documento será, por isso, com toda a certeza muito diferenciada. É natural que assim aconteça, dado não se tratar de um programa partidário, de uma plataforma eleitoral ou de um plano para a tomada do poder, mas antes de um conjunto de princípios maleáveis, razoavelmente consensuais para diversas áreas da esquerda não dogmática, destinados – é essa a minha leitura, e foi nessa perspetiva que assinei – a colaborar na procura de estratégias de aproximação e de renovação para uma esquerda dividida. Uma esquerda demasiadas vezes entrincheirada nas suas diferenças e absolutas certezas, como tal sem hipóteses de enfrentar com êxito uma direita que sabe unir-se e incapaz de aplicar a estratégia de mudança que a atual situação do país e da Europa requer. É o princípio de algo, não se saberá ainda bem do quê. Mas em relação a uma coisa podemos desde já ficar com alguma segurança: não servirá para dividir, mas sim para unir, como não servirá para enquadrar, mas para pensar. E não é «contra os partidos», embora admita que estes por si só não bastem para abrir os caminhos da mudança.<span id="more-34857"></span></p>
<p>O mais curioso para quem sofra de alguma ingenuidade política é que entretanto, e apesar de tão amplo naquilo que proclama, o Manifesto começou já, principalmente em alguns blogues e nas redes sociais, a ser alvo de ataque e detração. Porque é fulano ou beltrana que «estão por trás» (em alguns dos casos nem é verdade, e além disso cada um pensa por si), porque é «muito verde e fresco» e o logótipo não comporta os símbolos tradicionais do trabalho, porque é coisa de intelectuais desligados das massas, porque os seus promotores se propõem «promover um capitalismo que funcione em benefício de todos». São estes os «argumentos» mais simples, em relação aos quais não vale a pena qualquer trabalho de refutação. Mas existem objetivos expressos que levantam possibilidades insuportáveis e contranatura para alguma esquerda. Mesmo quando esta proclama, em decisões políticas, a necessidade de unir, de incorporar independentes, de agregar «democratas e outros patriotas» sem partido. Porque propor a construção de uma esquerda plural, «liberta das suas rivalidades, do sectarismo e do feudalismo político que a paralisa» impõe contornar aqueles que os alimentam constantemente. Porque falar de «uma democracia mais representativa e mais participada» sugere a necessidade de ver a política para além das dinâmicas eleitorais e da luta de rua, embora em conjugação com elas. Porque falar de «uma Europa apoiada na solidariedade e na coesão dos países que a formam» torna necessária a superação das estratégias isolacionistas e nacionalistas que têm paralisado. Porque propor um «alto nível de desenvolvimento económico, social e ambiental» contesta a velha política da terra queimada. E principalmente porque este Manifesto exclui a possibilidade de uma corrente hegemónica ditar às outras – na teoria ou na prática – o caminho partilhado a seguir. Abre o campo, em vez de cavar trincheiras. Não pretende unir, mas aproximar.</p>
<p>Estas reações estão afinal na natureza das coisas e é precisamente por elas existirem e se mostrarem à primeira oportunidade que este <a href="http://paraumaesquerdalivre.net/home/manifesto/" target="_blank">«Manifesto para uma Esquerda mais livre»</a>, aberto à participação e em desenvolvimento, faz todo o sentido e parece ter boas razões para meter os pés ao caminho.</p>
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		<title>Para uma Esquerda livre</title>
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		<pubDate>Mon, 14 May 2012 21:17:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Já pode ler, conhecer os signatários e, se o desejar, assinar também, o Manifesto &#8220;Para uma Esquerda livre&#8221;. Trata-se de um apelo à mobilização dos cidadãos para três objetivos: uma esquerda mais livre, um Portugal mais igual e uma Europa mais fraterna. A partir desta plataforma aberta, serão organizados encontros de forma aberta e transparente, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34838" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/05/manifesto.jpg" alt="" width="434" height="133" /></p>
<p>Já pode ler, conhecer os signatários e, se o desejar, assinar também, o <a href="http://paraumaesquerdalivre.net/home/manifesto/" target="_blank">Manifesto &#8220;Para uma Esquerda livre&#8221;</a>. Trata-se de um apelo à mobilização dos cidadãos para três objetivos: uma esquerda mais livre, um Portugal mais igual e uma Europa mais fraterna. A partir desta plataforma aberta, serão organizados encontros de forma aberta e transparente, recorrendo a práticas de democracia através do uso das redes para a elaboração de documentos com diagnósticos e propostas concretas. Claro que não se trata de um programa ou de um caderno reivindicativo, mas de uma via para pensar soluções para a esquerda e a sua intervenção a partir dos contributos de muitas pessoas que não se revêm apenas nos seus partidos.</p>
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		<title>O day after</title>
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		<pubDate>Mon, 07 May 2012 10:58:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A primeira reação foi de alegria, a segunda de ceticismo, a terceira de esperança. Como pessoa de esquerda, adversário da transformação da realidade europeia num laboratório para a produção de meros exercícios de gestão financeira no interior de um capitalismo retornado ao estado de barbárie, custem eles o que custarem em termos sociais e humanos, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone " src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/05/20120507-115905.jpg" alt="20120507-115905.jpg" width="422" height="316" /></p>
<p>A primeira reação foi de alegria, a segunda de ceticismo, a terceira de esperança. Como pessoa de esquerda, adversário da transformação da realidade europeia num laboratório para a produção de meros exercícios de gestão financeira no interior de um capitalismo retornado ao estado de barbárie, custem eles o que custarem em termos sociais e humanos, não pude deixar de me sentir momentaneamente feliz com a vitória da esquerda francesa reunida em torno da candidatura de François Hollande. Nem com os avanços que essa esquerda anti-austeritarista, projetada à margem das cartilhas dogmáticas pré-Queda do Muro, foi capaz de obter na Grécia.</p>
<p>Já como alguém que sabe não serem só os problemas colocados que são complexos e reconhece que as soluções para os superarmos o podem ser ainda mais, não posso deixar de despertar rapidamente do estado de graça e de perceber que o que aí vem irá defraudar muitas das expetativas dos eleitores. Hollande não é propriamente a mola de uma frente unitária contra a ditadura dos mercados, a desigualdade social e o recuo do Estado-providência. Dentro do sistema que domina a economia europeia, as suas tímidas propostas reformistas poucas hipóteses terão de ser aplicadas e de produzir efeitos duradouros. Já o Syriza, é, no contexto grego, um partido do protesto, do descontentamento, o que não assegura capacidade para afirmar aquilo que não tem: uma estratégia de governo e uma saída à vista para os problemas mais dramáticos dos gregos.</p>
<p>No entanto, a esperança nasce também das maiores dificuldades. A perceção de que é necessário encontrar uma solução e a pressão dos cidadãos para que tal se faça de forma rápida e com uma gestão de recursos que não seja cega, irão criar condições para que, em França, na Grécia e noutros teatros da crise, novos e melhores caminhos possam ser visados, preparados e percorridos. Não os que levam a Pasárgada, a cidade-ideal da vida boa projetada no conhecido poema de Manuel Bandeira, mas os que alimentam essa dose de esperança necessária a toda a regeneração.</p>
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		<title>Média</title>
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		<pubDate>Sun, 06 May 2012 17:24:14 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Cibercultura]]></category>
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		<description><![CDATA[Outra das entradas escritas para o Dicionário das Crises e das Alternativas lançado pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, de parceria com as Edições Almedina, a revista Visão e o Jornal de Letras. Ainda em alguns quiosques. Até à década de 1960, média designava um campo integrador dos «meios de comunicação de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone  wp-image-34802" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/05/media.jpg" alt="" width="369" height="342" /></p>
<p><span style="font-size: 85%;"><em>Outra das entradas escritas <em>para o </em><strong>Dicionário das Crises e das Alternativas</strong><em> </em><strong></strong>lançado pelo <a href="http://www.ces.fe.uc.pt/" target="_blank">Centro de Estudos Sociais</a> da Universidade de Coimbra, de parceria com as Edições Almedina, a revista </em>Visão<em> e o </em>Jornal de Letras<em>. Ainda em alguns quiosques.</em></span></p>
<p>Até à década de 1960, <em>média</em> designava um campo integrador dos «meios de comunicação de massas» enquanto instrumentos de propaganda destinados a impor uma mensagem de natureza política ou publicitária. Nos anos 70 essa perspetiva foi alargada, percebendo-se que a dimensão instrumental não indicava apenas aos públicos <em>o modo</em> como estes deveriam pensar, mas incorporava também a aptidão para impor <em>aquilo</em> em que eles deveriam ou não pensar. Neste sentido, os média têm funcionado como aparelhos de subordinação dos cidadãos a formas de perceção do real social e do curso da História que escapam à intervenção da crítica, não sendo acidental que as piores formas de opressão, instaladas nos regimes de pendor totalitário mas também nas fissuras das democracias, recorram a eles para impor o seu domínio e eliminar a divergência. A ideia de «indústria cultural», proposta por Adorno e por Horkheimer, referia já o modo como a instauração de um dado fluxo de informação servia de instrumento de propagação da ideologia dominante, dando lugar a uma uniformização dos quadros de pensamento e dos comportamentos, no sentido da aceitação ordeira do capitalismo. Para Baudrillard, o peso do signo na «sociedade de consumo» irá, por sua vez, suscitar uma vertigem de natureza opressiva. A vulgarização da televisão, e depois a disseminação da Internet, crescentemente dependentes da intervenção dos grupos financeiros e também dos governos, irão reforçar este papel de manipulação e controlo, impondo, perante o recuo do jornalismo de combate, um ruído que ao mesmo tempo silencia. No presente contexto de crise, este tende a difundir a convicção de que não existe escolha perante os desmandos do sistema, o qual poderá quanto muito ser reabilitado. A capacidade da rede mundial de computadores integra, porém, uma forte dimensão democrática e libertária que tem servido a circulação de informação (veja-se o caso Wikileaks), o debate político, a mobilização do protesto e a perceção da possibilidade de uma mudança mais profunda, contornando os média tradicionais, eles próprios forçados a repensar-se.</p>
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		<title>Nem só de pão</title>
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		<pubDate>Wed, 02 May 2012 10:37:32 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
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		<description><![CDATA[A propósito das cenas violentas e completamente degradantes provocadas pela campanha de descontos do Pingo Doce, não parece justo culpar apenas a atitude canalha da empresa de Jerónimo Martins, ao servir-se do feriado do Primeiro de Maio para desencadear a sua campanha de publicidade agressiva, manipulando as carências das pessoas e provocando os seus próprios [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/05/20120502-121030.jpg" alt="20120502-121030.jpg" class="alignnone size-full" /></p>
<p>A propósito das cenas violentas e completamente degradantes provocadas pela campanha de descontos do Pingo Doce,  não parece justo culpar apenas a atitude canalha da empresa de Jerónimo Martins, ao servir-se do feriado do Primeiro de Maio para desencadear a sua campanha de publicidade agressiva, manipulando as carências das pessoas e provocando os seus próprios trabalhadores. Como não será correto culpar os largos milhares de famílias que para sobreviverem à crise foram até à selva das prateleiras lutar corpo a corpo por escassas centenas de euros. Para sermos justos, e entendermos o que aconteceu de um modo mais completo, precisamos olhar também para a atitude continuada dos partidos políticos e de muitas organizações sindicais que têm desenvolvido a sua ação exclusivamente centradas numa política de interesses, na gestão economicista do deve e do haver de todos e de cada um. Fazendo-o sem atenderem à defesa da consciência cívica como princípio de solidariedade, da honra individual como eixo da vida coletiva, da (voltemos sem medo à palavra) ideologia como instrumento de mobilização e de mudança. Marx dizia que a consciência política do operário &#8211; alarguemos: do trabalhador, do cidadão &#8211; não se mede apenas pelo tamanho do porta-moedas. Talvez o que aconteceu se deva, em boa parte, ao esquecimento de que nem só de pão vivemos.</p>
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		<title>Donos de Portugal</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Apr 2012 21:53:15 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[Um documentário de Jorge Costa.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><iframe src="http://player.vimeo.com/video/40658606" frameborder="0" width="500" height="375"></iframe></p>
<p>Um documentário de Jorge Costa.</p>
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		<title>Um adeus sentido e combatente</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Apr 2012 10:48:51 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[Hesitei um pedaço antes de escrever algumas linhas sobre o desaparecimento triste e prematuro do Miguel Portas. Por diversos motivos. Desde logo, porque muitas outras pessoas, mais próximas dele, mais e melhor conhecedoras da sua jornada de vida, escreveram de maneira informada sobre episódios, dificuldades, alegrias e projetos partilhados. Fizeram-no, em diversos casos, de forma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34675" title="Miguel Portas" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/miguelp.jpg" alt="Miguel Portas" width="470" height="205" /></p>
<p>Hesitei um pedaço antes de escrever algumas linhas sobre o desaparecimento triste e prematuro do Miguel Portas. Por diversos motivos. Desde logo, porque muitas outras pessoas, mais próximas dele, mais e melhor conhecedoras da sua jornada de vida, escreveram de maneira informada sobre episódios, dificuldades, alegrias e projetos partilhados. Fizeram-no, em diversos casos, de forma muito sábia, justa, comovida e magnífica. Jamais o poderia ou saberia eu fazer com idênticos atributos. Hesitei depois porque falei com o Miguel apenas uma meia dúzia de vezes desde que o conheci, tardiamente, no ano 2000. O Bloco de Esquerda nascera há pouco e na altura sentia-me suficientemente perto para participar como orador numa iniciativa pública. Recordo que sendo o penúltimo a falar me vi interrompido pela chegada de uma equipa de televisão com pouco tempo para gravar o discurso principal, da responsabilidade do próprio Miguel. Fiquei, claro, um tanto irritado com a situação, mas horas depois, já no comboio, recebi um telefonema caloroso e gentil, explicando detalhadamente o sucedido e pedindo um milhão de desculpas. Gesto definidor de um modo de agir raro no universo, tantas vezes brutal e cheio de prioridades trocadas, do ativismo profissional de todos os quadrantes. Mas hesitei ainda porque não queria, nem quero, servir-me de um acontecimento tão infeliz para travar o meu próprio combate político. Não posso, no entanto, deixar de recordar, uma vez que nestas horas tem permanecido omisso nos obituários, a luta do Miguel que conheci contra o sectarismo de todos os matizes e pela ampliação da crítica e da autocrítica dentro da «esquerda da esquerda». Opção difícil pela qual se bateu, mesmo até ao final do caminho, com perseverança e equilíbrio, por considerá-la a única forma de somar forças e ideais para o combate, cada vez mais urgente, cada vez mais imprescindível, por um país melhor e por um mundo mais justo. E do novelo de tantas hesitações resultou este acanhado post, que não passa de um adeus sentido e combatente.</p>
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		<title>O Segundo Século Vinte (2) &#124; Casas p&#8217;ró Povo</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Apr 2012 07:12:17 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Novidades]]></category>

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		<description><![CDATA[O Segundo Século Vinte é um ciclo de debates e apresentações relacionado com temas da história recente de Portugal. A iniciativa, uma organização do Centro de Documentação 25 de Abril e do Teatro Académico de Gil Vicente, é de periodicidade bimensal e tem mais uma sessão nesta quinta-feira, dia 26 de abril, pelas 18 horas. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class=" wp-image-34695" title="Casas p'ró Povo" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/casas.jpg" alt="" width="404" height="321" /></p>
<p><em>O Segundo Século Vinte</em> é um ciclo de debates e apresentações relacionado com temas da história recente de Portugal. A iniciativa, uma organização do <a href="http://www1.ci.uc.pt/cd25a/wikka.php?wakka=HomePage" target="_blank">Centro de Documentação 25 de Abril</a> e do <a href="http://www.tagv.info/" target="_blank">Teatro Académico de Gil Vicente</a>, é de periodicidade bimensal e tem mais uma sessão nesta quinta-feira, dia 26 de abril, pelas 18 horas. Será em Coimbra, no TAGV. Nesta sessão, <strong>«Casas pró Povo. O Projeto SAAL antes e agora»</strong>, falar-se-á da experiência e do exemplo deste projeto pioneiro de habitação social criado em Julho de 1974 e desarticulado a partir de Outubro de 1976. Participarão os arquitetos<strong> Alexandre Alves Costa</strong> e <strong>José António Bandeirinha</strong>, sendo a moderação de Natércia Coimbra. Pode <a href="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/02/ssvinte.jpg" target="_blank">ver e copiar aqui</a> o cartaz do ciclo.</p>
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		<title>25 de Abril</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Apr 2012 23:45:04 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Livros & Leituras]]></category>
		<category><![CDATA[Olhares]]></category>
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		<description><![CDATA[O processo de transfiguração do país que o 25 de Abril de 1974 abriu foi descrito como «Revolução dos Três D» (Democratizar, Descolonizar, Desenvolver). Este é o fundamento comum dos projetos políticos com os quais nos confrontámos por mais de três décadas e meia. A expressão pode parecer hoje algo redutora por não englobar as [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone  wp-image-34661" title="25 de Abril" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/25abril.jpg" alt="25 de Abril" width="534" height="286" /></p>
<p>O processo de transfiguração do país que o 25 de Abril de 1974 abriu foi descrito como «Revolução dos Três D» (Democratizar, Descolonizar, Desenvolver). Este é o fundamento comum dos projetos políticos com os quais nos confrontámos por mais de três décadas e meia. A expressão pode parecer hoje algo redutora por não englobar as enormes mudanças que estavam para ocorrer no campo da vida privada, das relações de trabalho e das práticas culturais, mas não deixa de verbalizar princípios programáticos e uma linha de rumo que cruzaram os anos e os diferentes governos. Democratizar supunha assim abrir a gestão da coisa pública e do coletivo à voz e à vontade livremente expressa dos cidadãos, o que até ali era impossível. Descolonizar significava alijar o fardo da ideia de império e do domínio dos povos colonizados, o que até ali era impraticável. Desenvolver impunha encontrar e expandir novos ritmos para a criação de riqueza e o bem-estar das populações, o que não constava das perspetivas do velho «país habitual», idealizado por Salazar como quieto, naturalmente desigual e indiferente às tentações da vida moderna.</p>
<p>A memória partilhada do 25 de Abril guardou esse rastro, que até há pouco governo algum se propôs contrariar. À esquerda ou à direita do bloco político que tomou conta da gestão do Portugal pós-revolucionário, com ou sem cravo ao peito, fosse qual fosse a posição diante da Constituição aprovada em 1976, programas e orçamentos jamais ousaram afastar o horizonte de um país melhor, habitado por portugueses mais felizes, tendencialmente «livre, justo e solidário». Só o atual contexto de crise pôs travão a esta orientação, definindo uma nova realidade na qual a ditadura dos mercados parece impor, com a complacência de quem governa, o retorno a uma paisagem na qual os processos da democracia e os caminhos do desenvolvimento são confrontados com um enorme recuo e uma subalternização neocolonial. Nos anos 80, referindo-se a Portugal, João Martins Pereira falava da «singular intensidade do seu passado recente». No presente, perante o cenário de resignação e pessimismo que emana da atuação das autoridades públicas, o recurso a estratégias de alternativa passa pelo exercício de uma intensidade democrática em ação, de uma dinâmica do possível, da qual o 25 de Abril permanece um sinal.</p>
<p><span style="font-size: 85%;"><em>A terceira das entradas escritas <em>para o </em><strong>Dicionário das Crises e das Alternativas</strong><em> </em><strong></strong>lançado pelo <a href="http://www.ces.fe.uc.pt/" target="_blank">Centro de Estudos Sociais</a> da Universidade de Coimbra, de parceria com as Edições Almedina, a revista </em>Visão<em> e o </em>Jornal de Letras<em>. Ainda nos quiosques.</em></span></p>
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		<title>Ideologia</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Apr 2012 21:36:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Outra das entradas que escrevi para o Dicionário das Crises e das Alternativas lançado pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, de parceria com as Edições Almedina, a revista Visão e o Jornal de Letras. Ainda nos quiosques. Com o «fim das ideologias» projetado nos anos 60 por Daniel Bell, resultante do facto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34653" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/ideologia.jpg" alt="" width="434" height="325" /></p>
<p><span style="font-size: 85%;"><em>Outra das entradas que escrevi <em>para o </em><strong>Dicionário das Crises e das Alternativas</strong><em> </em><strong></strong>lançado pelo <a href="http://www.ces.fe.uc.pt/" target="_blank">Centro de Estudos Sociais</a> da Universidade de Coimbra, de parceria com as Edições Almedina, a revista </em>Visão<em> e o </em>Jornal de Letras<em>. Ainda nos quiosques.</em></span></p>
<p>Com o «fim das ideologias» projetado nos anos 60 por Daniel Bell, resultante do facto de a «sociedade de bem-estar» haver exaurido o dinamismo e as capacidades de instigação de uma teleologia da História propostas pelo liberalismo, pelo nacionalismo e pelo socialismo, ter-se-ia desembocado numa era pós-ideológica. Desta emergiu um pensamento consensualista, expurgado das contradições, alimentando-se do realismo do possível e de um pragmatismo alheio a qualquer lógica transformadora e emancipatória. A derrocada das ideologias significa, no entanto, não o seu suposto fim mas a imposição, na condição de hegemónica, de uma ideologia incorpórea, insidiosa porque auto-ocultada, apresentada como única forma de pensamento possível, feita de unanimidades e de valores universais tomados como absolutos, associados a um imutável senso comum. Esta não-ideologia imporia uma mistificação das assimetrias e dos conflitos, apresentados como dirimíveis apenas dentro de uma lógica de estabilidade que seria a do capitalismo e a de uma democracia de baixa densidade.</p>
<p>É neste quadro que o «fim das ideologias» produziria esse «fim da história», sugerido no imediato pós-Queda do Muro por Fukuyama, no âmbito do qual presente e futuro passariam a ser inteligíveis apenas na medida do «realismo conformista do possível». Todavia, a crise atual e as suas circunstâncias têm vindo a revelar a inadequação desta atitude às necessidades sociais e à ação política, determinando uma gradual revalorização do «realismo revolucionário do impossível» (S. Dias). Este surge então como possibilidade e projeto político que faz sentido. Porém, o impossível não é aqui sinónimo do irrealizável, projetando antes uma oportunidade teórica capaz de dialogar com a construção prática de iniciativas transformadoras, implicando um retorno à essência da ideologia tal como Marx – o filósofo da revolução, não o monstro criado pela dogmática – a concebeu. Enquanto complexo de ideias instigador de uma «ciência falsa» meramente instrumental (Althusser), mas também capaz de projetar uma sociedade-outra. No presente, em condições de inverter a lógica destrutiva do capitalismo, soltando a imaginação do futuro e expulsando o perigoso logro da não-ideologia. Pois, como sustenta Zizek, a ideologia está em toda a parte.</p>
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