Arquivo de Categorias: Apontamentos

Fanáticos do futebol & lunáticos antifutebol

Sempre que chega uma grande competição do futebol ao nível de seleções, lá emerge nas redes sociais a obsessão de quem papa tudo e, a par dela, a lengalenga de quem precisa odiar alguma coisa. Aviso à navegação: eu gosto muito de futebol, já joguei futebol e sei, como o meu mestre Camus, que o futebol é um dos melhores lugares públicos da confraternização humana, dando até sentido à vida de milhões de pessoas.

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    A boa netiqueta

    Logo após 1993, quando comecei a utilizar regularmente a Internet – ainda em computadores Unix sem modo gráfico – o aumento de tráfego fez com que se definissem regras básicas do que então se chamou netiqueta (‘netiquette’), destinadas a regular comportamentos e a evitar problemas. Pedi à Inteligência Artificial que lembrasse o que é (foi) e tive a surpresa de ver que todas elas, a serem aplicadas, se manteriam muitíssimo úteis. Por mim, continuo a usá-las sem falha. Aqui vai o texto da IA.

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      A invenção da pólvora

      Como tenho trabalho académico desde 1981, e durante muitos anos, apesar de já ter passado os cinquenta, ainda era apontado no meio como «jovem historiador» – o que ficou a dever-se a por duas ou três décadas apenas existir corpo académico nas universidades, não em centros de investigação, e a ele quase não ser renovado – tenho uma noção clara da forma como muitas das pessoas mais jovens que trabalham na área cresceram quase sem contacto com o trabalho daquelas que as precederam. A situação é a que é, infelizmente, e não pode ser mudada, e ninguém terá culpa de eu, o tal «jovem», ter sido dos poucos a atravessar uma espécie de «no man’s land». Mas já faz bastante impressão o volume de jovens investigadores que desenvolve e até publica trabalhos sem referir, ou referindo apenas em rápida e genérica passagem, quem os precedeu na área de pesquisa a que se dedica. Falando ou escrevendo como se a invenção da pólvora por si próprio tivesse sido acabada de obter. Ou reduzindo a quase nada centenas ou milhares de páginas de saber que outros levaram a vida inteira a escrever. É triste, embora talvez inevitável.

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        Escrever pouco, entender menos

        Neste tempo de recuo dos saberes estruturantes, substituídos por «competências» tantas vezes sem substância, um dos sinais que denuncia essa tendência negativa consiste em escrever-se de forma cada vez mais simplificada. Não falo das mudanças da língua, que não representam um mal em si, mas da simplificação dos processos de escrita. Cada vez mais, sobretudo nas redes sociais, mas já também em jornais, existe quem escreva textos de tamanho razoável usando apenas parágrafos de três ou quatro linhas, por vezes nem isso, não por incapacidade para o fazer de forma completa, mas apenas, como crê, para ser entendido.

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          Olga Tokarczuk e a IA

          No início deste mês, Olga Tokarczuk fez umas afirmações a meu ver inteiramente legítimas e de interesse. Ela descreveu a um jornal de que modo, na preparação de um romance, usou recursos de inteligência artificial para a informarem sobre que tipo de música os seus personagens poderiam, num dado contexto temporal e social, servir-se para dançar. Além disso, declarou ter ficado muito impressionada com os resultados e questionou-se sobre a forma como a ferramenta pode ser usada como auxiliar do processo de criação literária. Foi o que bastou para que uns quantos fanáticos anti-IA – que dela só conhecem os óbvios aspetos negativos, não sabendo, nem querendo saber, dos positivos – começassem a propagar que a grande escritora polaca e prémio Nobel usava aquele processo para escrever os seus romances. A afirmação é, obviamente, absurda, bastando conhecer a sua escrita única para o compreender, mas encarar o tema é muitíssimo pertinente.

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            Simples complexo

            Já perdi a conta ao número de vezes em que alguém me disse gostar de ler textos que escrevo, em particular os de natureza ensaística ou de opinião, porque neles abordo «temas complexos» de forma «simples e clara». Considero isto um elogio, embora saiba que muitos autores, numa escolha legítima, preferem a complexidade da forma à essência do argumento, entendendo a simplicidade como defeito. O meu processo de escrita tem, como será óbvio, um trajeto de largas décadas – comecei a publicar em 1970 – e foi sendo depurado ao longo do tempo, com muitos erros, hesitações e asneiras pelo meio. Mas a razão principal daquela característica é a escolha, que assumo, do meu papel como intelectual público, que pensa e comunica para estimular a crítica, a mudança, a cidadania e o conhecimento, visando o que escreve, sempre e imperativamente, um público. «Culto», é certo, mas tão alargado quanto o possível. Jamais consegui entender um antigo colega que certa vez me disse ter uns vinte leitores «no máximo» e bastarem-lhe esses.

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              O drama e a coragem de ser apóstata

              O Dicionário Houaiss define a apostasia como «a renúncia de uma religião ou crença, o abandono da fé», mas também «a quebra de votos, o abandono da vida religiosa ou sacerdotal sem autorização superior», e ainda «o ato de renunciar a um partido, teoria ou doutrina» ao qual se pertence. Dirão as pessoas que verdadeiramente aceitam ser a democracia a melhor e mais livre forma de viver em sociedade – ou, pelo menos, como um dia disse sarcasticamente Winston Churchill, «a pior, salvo todas as outras» – que esse é um direito que, como gesto de liberdade, assiste a qualquer pessoa. 

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                A democracia em nossa casa

                É uma tristeza, e também uma prova de sectarismo ou mesmo de medo, andar pelas redes sociais – que, a par dos muitos perigos e desvarios que comportam, podem também ser lugar de criativo debate democrático – e apenas divulgar convicções e propostas que replicam exatamente as posições formais de grupos políticos aos quais pertence quem o faz. Sem qualquer abertura a ideias e a sugestões que destas divergem um pouco, embora com elas procurem ou possam dialogar. A democracia deve começar em nossa casa, e, além disso, tende a enfraquecer, ou mesmo a morrer, quando se fecham os olhos à menor diferença. Para mim, a abertura e o diálogo são essenciais para combater com firmeza e convicção, seja de forma organizada ou individual, por uma vida melhor, mais plena e mais livre.

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                  Futebolices bem lamentáveis

                  Aviso prévio: gosto muito de futebol, joguei futebol de forma amadora e sou dos que, quando o meu clube, o Sporting CP, ganha na modalidade um jogo ou uma prova importante, dorme muito melhor e acorda mais bem disposto, acontecendo o oposto nas derrotas. Apesar de reconhecer tudo o que de muito mau envolve este desporto: demasiadas vezes negócios obscuros, informação deturpada, claques perigosas e adeptos fanáticos e de maus-fígados. Mas não considero o futebol, parafraseando a conhecida frase de Marx sobre a religião, «o ópio do povo». Sei até, bem diversamente, que para muitos ele acaba por integrar um dos poucos alimentos espirituais da sua vida, proporcionando conforto, paixão e companheirismo. Aliás, Camus, que foi guarda-redes do Racing de Argel, considerava-o uma escola de vontade e de fraternidade. Lembro muito que as últimas palavras, horas antes de morrer, a mim dirigidas por pessoa muito próxima, foram para pedir um cigarro e saber o resultado do jogo do seu clube, por acaso rival do meu.

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                    A Artemis II e o negacionismo

                    Já começaram a circular, sobretudo no turbilhão das redes sociais, mas não apenas aí, as estúpidas proclamações, em todas as línguas e no português também, «atestando» a dimensão de fraude e de invenção do voo espacial da Artemis II, teste para a alunagem da Artemis IV em 2028. Sabe-se que esta forma de obscurantismo circula desde a primeira viagem à Lua, a da Apolo 11, ocorrida em 20 de julho de 1969. Assisti a ela em direto, pela televisão a preto e branco e noite adentro, com espanto e emoção inesquecíveis. Porém, a atual vaga negacionista não resulta apenas da perplexidade de uma porção de ignorantes, como na época, sendo parte de uma convencida desconsideração global do conhecimento por parte dos setores da direita populista que neste processo de teor conspirativo procuram afirmar o seu poder obscurantista e escravizante.

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                      Basta de condescendência

                      Ontem, durante a sessão comemorativa dos 50 anos da Constituição, aquilo que aconteceu no Parlamento com o discurso de Ventura não foi apenas a expressão de uma imensa ignomínia contra a democracia e de uma falta total de educação e respeito pelo trajeto plural das pessoas mais velhas ali presentes. Foi sobretudo um sinal. Um importante sinal de que as forças da democracia e do progresso não podem deixar-se intimidar – nem mesmo pelos eleitores e pela comunicação – e precisam passar à ação, legal mas direta e bem sonora, contra aquela gente delinquente. Esta deve perceber que não pode dizer ou fazer o que lhe apetece sem que isso tenha consequências, sejam elas políticas ou no domínio da lei. É tempo de tocar a reunir pela democracia e pela decência mais elementar.

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                        A complexidade de tudo acima de tudo

                        Se alguém um dia me perguntar o que de mais importante aprendi nesta vida, tenho a resposta preparada há muito. Não foi o conhecimento útil e inútil (do qual tanto gosto e que cultivo) que fui obtendo, continuo a procurar, divulguei e por vezes ajudo a produzir. Também não foi a beleza e a diversidade dinâmica do humano, que transcende em muito o peso da maldade, da desigualdade e da desgraça. Nem foi mesmo a compreensão do valor da música, para mim tão vital e omnipresente quanto o oxigénio. A mais importante das coisas, que contra ventos e marés tenho procurado praticar e transmitir a quem me escuta ou lê, é a perceção da complexidade de tudo. Absolutamente de tudo, incluindo-se aqui a das formas de fé, sejam elas as religiosas ou as formalmente laicas.

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                          À esquerda: somar e protestar não basta

                          A recuperação da esquerda à esquerda do PS – imprescindível para o equilíbrio político e social, bem como para a dinamização da utopia – não pode ser obtida só pela soma de partes, estabelecendo alianças basicamente fundadas em ideias vagas sobre uma memória histórica em parte partilhada e também sobre formas práticas de reivindicação e protesto. Apenas a pode conseguir repensando metas, atitudes, causas, alianças e linguagens, e sobretudo definindo estratégias adequadas para uma futura governação progressista e sustentada num mundo em rápida mudança. De outro modo permanecerá confinada ao seu modesto rincão, enquanto é encarada como irrelevante pela larga maioria dos cidadãos e também pelos possíveis parceiros nesse processo. A extrema-direita, essa agradece.
                          [Originalmente no Facebook]

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                            Quatro anos de guerra e a democracia na Europa

                            Há quatro anos, na noite em que começou a invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin, um conhecido major-general português, que se intitula especialista em geopolítica, estratégia e relações internacionais, mas é essencialmente um descarado propagandista de Putin, declarou perentoriamente na televisão, onde continua a perorar com regularidade, que o conflito estaria concluído, com a vitória russa, «no máximo numa semana». Neste momento, a perspetiva é que ele continue ainda por um tempo largo e indefinido, com o seu terrível rol de destruição maciça de cidades, vilas e aldeias, e a morte de centenas de milhares de civis, sobretudo de militares, sejam estes ucranianos ou russos. 

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                              Memória enganadora

                              Quem conhece os mecanismos da memória individual sabe que ela é frequentemente enganadora. Não só porque falha, apaga ou confunde, mas também, e até talvez sobretudo, porque mistura em uma apenas vivências de diferentes tempos, ou porque cria «recordações», respondendo na verdade a interesses do presente ou municiando a autoestima. Cada vez encontro mais pessoas da minha geração, cujo percurso em certos casos conheço razoavelmente, a inventar ou a adaptar marcas de um passado que viveu de um modo que, tenho a certeza, não foi rigorosamente aquele que descreve. E muitas vezes não mentem de propósito, apenas confundem, acreditando genuinamente contar ou recuperar a verdade. Não deixo, no entanto, de quando lhes escuto certas descrições – vivências, influências, convicções vindas de um outro tempo – pensar em como aquilo não foi bem assim ou «não pode ser verdade». Também já incorri na mesma confusão, naturalmente, embora a minha formação e a sensibilidade de historiador ajude em muitos momentos a evitá-la.

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                                O drama de Cuba, o protesto e o silêncio

                                Passou-me há poucos dias pela caixa do correio eletrónico uma sugestão de adesão a um abaixo-assinado que tinha por objetivo protestar publicamente contra o cerco, agora mais apertado que nunca, que os Estados Unidos de Trump estão a impor a Cuba, causando uma crise de combustíveis da qual as principais vítimas são a indústria do turismo – como se sabe, o único fator de entrada de divisas e o principal vetor da economia de ilha – e, por tabela, a generalidade do povo cubano, já de si tão massacrado pelas circunstâncias e agora com dificuldades de abastecimento básico. Concordando com o protesto, e sendo desde o seu início absolutamente contra o bloqueio imposto há décadas à ilha, não me senti, todavia, em condições de honestamente colocar a minha assinatura no documento.

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                                  Os comentários, o macro e o micro

                                  Escrevo textos de intervenção pública desde o início de 1969, e por isso habituei-me desde há muito aos múltiplos ecos produzidos por muitos dos que os lêem. Começaram por ser os da censura, traduzidos em cortes e em mais uma linha de relatório de algum subinspetor, mas foram também, sobretudo após o 25 de Abril, aqueles que chegaram através do correio do leitor ou então por contacto pessoal, normalmente os melhores porta esta via. De início mais espaçados, e em regra com uma marca de urbanidade, mesmo quando traduziam um desacordo parcial ou total, mas após a chegada da Internet, e sobretudo das redes sociais, passaram a ocorrer numa torrente sem fim e, como se sabe, por vezes de forma no mínimo de forma impensada e avessa ao diálogo.

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                                    4 notas (e mais uma) sobre as presidenciais

                                    1 – Neste domingo de fevereiro menos chuvoso do que se previa, uma ampla maioria de votos expressos entendeu que não queria um presidente eleito com base no ressentimento, no medo e em fantasmas autoritários. A vitória de António José Seguro não representa um milagre nem significa uma redenção do país, é certo, mas é um não claro ao messianismo político e à ideia de que Portugal precisa, para viver melhor, de homens fortes e de dedos autoritários apontados, em vez de continuar o seu percurso como democracia adulta e equilibrada.

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