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	<title>A Terceira Noite &#187; Apontamentos</title>
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	<description>leituras, polémicas e iluminações / um blogue de rui bebiano</description>
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		<title>Para uma Esquerda livre</title>
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		<pubDate>Mon, 14 May 2012 21:17:13 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Já pode ler, conhecer os signatários e, se o desejar, assinar também, o Manifesto &#8220;Para uma Esquerda livre&#8221;. Trata-se de um apelo à mobilização dos cidadãos para três objetivos: uma esquerda mais livre, um Portugal mais igual e uma Europa mais fraterna. A partir desta plataforma aberta, serão organizados encontros de forma aberta e transparente, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34838" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/05/manifesto.jpg" alt="" width="434" height="133" /></p>
<p>Já pode ler, conhecer os signatários e, se o desejar, assinar também, o <a href="http://paraumaesquerdalivre.net/home/manifesto/" target="_blank">Manifesto &#8220;Para uma Esquerda livre&#8221;</a>. Trata-se de um apelo à mobilização dos cidadãos para três objetivos: uma esquerda mais livre, um Portugal mais igual e uma Europa mais fraterna. A partir desta plataforma aberta, serão organizados encontros de forma aberta e transparente, recorrendo a práticas de democracia através do uso das redes para a elaboração de documentos com diagnósticos e propostas concretas. Claro que não se trata de um programa ou de um caderno reivindicativo, mas de uma via para pensar soluções para a esquerda e a sua intervenção a partir dos contributos de muitas pessoas que não se revêm apenas nos seus partidos.</p>
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		<title>O day after</title>
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		<pubDate>Mon, 07 May 2012 10:58:35 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[A primeira reação foi de alegria, a segunda de ceticismo, a terceira de esperança. Como pessoa de esquerda, adversário da transformação da realidade europeia num laboratório para a produção de meros exercícios de gestão financeira no interior de um capitalismo retornado ao estado de barbárie, custem eles o que custarem em termos sociais e humanos, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone " src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/05/20120507-115905.jpg" alt="20120507-115905.jpg" width="422" height="316" /></p>
<p>A primeira reação foi de alegria, a segunda de ceticismo, a terceira de esperança. Como pessoa de esquerda, adversário da transformação da realidade europeia num laboratório para a produção de meros exercícios de gestão financeira no interior de um capitalismo retornado ao estado de barbárie, custem eles o que custarem em termos sociais e humanos, não pude deixar de me sentir momentaneamente feliz com a vitória da esquerda francesa reunida em torno da candidatura de François Hollande. Nem com os avanços que essa esquerda anti-austeritarista, projetada à margem das cartilhas dogmáticas pré-Queda do Muro, foi capaz de obter na Grécia.</p>
<p>Já como alguém que sabe não serem só os problemas colocados que são complexos e reconhece que as soluções para os superarmos o podem ser ainda mais, não posso deixar de despertar rapidamente do estado de graça e de perceber que o que aí vem irá defraudar muitas das expetativas dos eleitores. Hollande não é propriamente a mola de uma frente unitária contra a ditadura dos mercados, a desigualdade social e o recuo do Estado-providência. Dentro do sistema que domina a economia europeia, as suas tímidas propostas reformistas poucas hipóteses terão de ser aplicadas e de produzir efeitos duradouros. Já o Syriza, é, no contexto grego, um partido do protesto, do descontentamento, o que não assegura capacidade para afirmar aquilo que não tem: uma estratégia de governo e uma saída à vista para os problemas mais dramáticos dos gregos.</p>
<p>No entanto, a esperança nasce também das maiores dificuldades. A perceção de que é necessário encontrar uma solução e a pressão dos cidadãos para que tal se faça de forma rápida e com uma gestão de recursos que não seja cega, irão criar condições para que, em França, na Grécia e noutros teatros da crise, novos e melhores caminhos possam ser visados, preparados e percorridos. Não os que levam a Pasárgada, a cidade-ideal da vida boa projetada no conhecido poema de Manuel Bandeira, mas os que alimentam essa dose de esperança necessária a toda a regeneração.</p>
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		<title>Mulheres com M</title>
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		<pubDate>Thu, 03 May 2012 17:04:10 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Tem sido boa a repercussão pública do ensaio Humilhação e Glória, de Helena Vasconcelos. Sendo inteiramente merecido, esse eco deve, no entanto, ser confrontado com algumas dúvidas que a leitura da obra levanta. É desde logo evidente a intenção da autora de conceber o livro como uma introdução à história das mulheres, concebida de forma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone  wp-image-34785" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/05/femme.jpg" alt="" width="425" height="341" /></p>
<p>Tem sido boa a repercussão pública do ensaio <em>Humilhação e Glória</em>, de Helena Vasconcelos. Sendo inteiramente merecido, esse eco deve, no entanto, ser confrontado com algumas dúvidas que a leitura da obra levanta. É desde logo evidente a intenção da autora de conceber o livro como uma introdução à história das mulheres, concebida de forma atraente e vocacionada principalmente para o leitor comum. Ele vem preencher, aliás, na linha do que fez em Espanha Rosa Montero com o seu <em>Histórias de Mulheres</em>, uma lacuna na edição nacional. Ao mesmo tempo, a autora propõe um importante trabalho de resgate efetuado sobre os feitos e os trajetos públicos de um conjunto de mulheres, principalmente portuguesas, com papéis na literatura, nas artes, nas ciências ou na intervenção cívica que têm permanecido injustamente esquecidos ou na sombra. Se a Marquesa de Alorna é, pelo menos nos meios académicos, razoavelmente conhecida, poucos terão ouvido falar, por exemplo, de Teresa Margarida da Silva Orta, apesar de esta ter sido a primeira portuguesa a escrever um romance (<em>As Aventuras de Diófenes</em>, de 1752). Atravessa também o livro uma brisa de otimismo que contribui, sem dúvida, para ampliar o seu papel de instrumento destinado a sublinhar a importância de um trajeto histórico de combate pela emancipação e de afirmação positiva da voz das mulheres.</p>
<p>Uma leitura crítica levanta, porém, algumas perplexidades. Anoto três. Em primeiro lugar, a consideração de eventos e práticas originários de distintos tempos e lugares como se inscritos num percurso único, visando uma espécie destino trans-histórico comum. Em segundo lugar, a falta das propostas, dos problemas e dos combates que se levantaram, a partir da década de 1980, no contexto do chamado feminismo de terceira vaga, ficando as alusões canónicas pelas pelas autoras de segunda vaga (Simone de Beauvoir, Elaine Showalter, Betty Friedman e outras). E em terceiro o tom quase celebratório, em relação à situação atual de uma «tendência para a igualdade» que estudos no campo da sociologia e da ciência política têm vindo a desmontar, revelando, ao invés, que este padrão de discurso pode validar subordinações reais, aparentemente invisíveis. Pode ainda, entretanto, levantar-se uma última objeção que parecendo apenas formal, de facto o não é. A designação de um enquadramento do ensaio, enquanto género, no campo dos estudos «femininos» – e não «sobre as mulheres», ou «feministas», como são catalogados dentro de um universo hoje já bastante alargado, inclusivamente em Portugal, que se dedica ao seu estudo nos domínios da investigação de ponta e do debate teórico – advém de uma escolha da autora que sendo inteiramente legítima, respeitável, pode também ser questionada por dar a impressão de advir de uma noção essencialista sobre o «belo sexo» derivada de um modelo cultural dominantemente masculino. Um livro bastante útil e recomendável que convirá ler com alguma vigilância crítica.</p>
<p><span style="font-size: 85%;">Helena Vasconcelos, <em>Humilhação e Glória. O acidentado percurso de algumas mulheres singulares</em>. Quetzal. 328 págs.Versão revista de nota saída na <em>LER </em>de Abril.</span></p>
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		<title>Nem só de pão</title>
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		<pubDate>Wed, 02 May 2012 10:37:32 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[A propósito das cenas violentas e completamente degradantes provocadas pela campanha de descontos do Pingo Doce, não parece justo culpar apenas a atitude canalha da empresa de Jerónimo Martins, ao servir-se do feriado do Primeiro de Maio para desencadear a sua campanha de publicidade agressiva, manipulando as carências das pessoas e provocando os seus próprios [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/05/20120502-121030.jpg" alt="20120502-121030.jpg" class="alignnone size-full" /></p>
<p>A propósito das cenas violentas e completamente degradantes provocadas pela campanha de descontos do Pingo Doce,  não parece justo culpar apenas a atitude canalha da empresa de Jerónimo Martins, ao servir-se do feriado do Primeiro de Maio para desencadear a sua campanha de publicidade agressiva, manipulando as carências das pessoas e provocando os seus próprios trabalhadores. Como não será correto culpar os largos milhares de famílias que para sobreviverem à crise foram até à selva das prateleiras lutar corpo a corpo por escassas centenas de euros. Para sermos justos, e entendermos o que aconteceu de um modo mais completo, precisamos olhar também para a atitude continuada dos partidos políticos e de muitas organizações sindicais que têm desenvolvido a sua ação exclusivamente centradas numa política de interesses, na gestão economicista do deve e do haver de todos e de cada um. Fazendo-o sem atenderem à defesa da consciência cívica como princípio de solidariedade, da honra individual como eixo da vida coletiva, da (voltemos sem medo à palavra) ideologia como instrumento de mobilização e de mudança. Marx dizia que a consciência política do operário &#8211; alarguemos: do trabalhador, do cidadão &#8211; não se mede apenas pelo tamanho do porta-moedas. Talvez o que aconteceu se deva, em boa parte, ao esquecimento de que nem só de pão vivemos.</p>
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		<title>A bela palavra</title>
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		<pubDate>Tue, 01 May 2012 01:09:20 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Mantenho uma relação difícil com a palavra «camarada». Houve um tempo no qual a pronunciei vezes sem conta. Para mim significava então um destino, uma missão. Uma vontade de partilhar a redenção dos que a história havia empurrado para a humilhação e a pena. A certeza de que esse resgate chegaria. E por isso um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mantenho uma relação difícil com a palavra «camarada». Houve um tempo no qual a pronunciei vezes sem conta. Para mim significava então um destino, uma missão. Uma vontade de partilhar a redenção dos que a história havia empurrado para a humilhação e a pena. A certeza de que esse resgate chegaria. E por isso um sinal de futuro. Era essa a palavra bonita, «c’est un joli nom, tu sais», que Jean Ferrat, comunista e artista de variedades, proclamava em 1968. Aquela que combinava o sabor da cereja e o da romã com os perfumes do maio. Mas na mesma canção Ferrat rompia com o PCF e acusava os tanques russos: «Ce fut à cinq heures dans Prague/ Que le mois d’août s’obscurcit/ Camarade Camarade». Porque a palavra serviu também, no dobrar das décadas, para perseguir e delatar, para marcar um grau de pureza («amigo, companheiro, camarada»), para torturar e abater («porque desejas, canalha, matar o Camarada Estaline?»), deixando manchar o brilho matinal que estava na sua natureza. E, no entanto, sobreviveu. Porque nenhum mal foi capaz de expulsar a centelha que contém. A fraternidade que invoca, que espera, que procura. «Camarada» permanece uma palavra linda. Por isso necessária.</p>
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		<title>História, memória e política</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Apr 2012 14:57:18 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[O passado, modos de usar, de Enzo Traverso – saído em 2005, antes de L’Histoire comme champ de bataille –, trata principalmente daquilo a que Habermas chamou «o uso público da história». O trabalho deste historiador e cientista político italiano tem vindo a ser preenchido com o estudo de épocas e de temas contemporâneos com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34718" title="Enzo Traverso" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/traverso.jpg" alt="Enzo Traverso" width="400" height="308" /></p>
<p><em>O passado, modos de usar</em>, de Enzo Traverso – saído em 2005, antes de<em> L’Histoire comme champ de bataille</em> –, trata principalmente daquilo a que Habermas chamou «o uso público da história». O trabalho deste historiador e cientista político italiano tem vindo a ser preenchido com o estudo de épocas e de temas contemporâneos com os quais conflituam interesses atuais e que por esse motivo permanecem perturbantes, como acontece com a «questão judaica», o Holocausto, o totalitarismo, o fascismo, a violência nazi, o comunismo ou o eurocentrismo. Em conexão com todos eles, Traverso tem-se ocupado com os problemas difíceis mas incontornáveis que levanta a conexão entre história e memória. Aquela proximidade com o presente torna entretanto o tratamento destes assuntos algo que não pode deixar de dialogar – independentemente do rigor inerente à intervenção própria dos historiadores – com as suas escolhas políticas, com as repercussões do seu trabalho entre os outros profissionais do mesmo ofício e, acima de tudo, com o impacto junto dos setores da opinião pública que vão acolhendo os ecos do que dizem ou escrevem.<span id="more-34717"></span></p>
<p>Este livro pequeno mas precioso decompõe de um modo pedagógico, sempre associado a contextos precisos, as linhas que aproximam os diferentes segmentos da memória coletiva (a «forte», tendencialmente hegemónica, e a «fraca», silenciada ou alternativa), a escrita histórica do passado e também as políticas da memória, fazendo-o sempre em diálogo com os temas que Traverso conhece bem e com a produção historiográfica recente que com eles converge. Mostrando de que maneira, perante um século marcado pela violência, a memória reivindica os seus direitos sobre a forma como esse passado é representado, na presunção de que a história, como recordou Paul Ricoeur, «não é mais do que uma parte da memória, escreve-se sempre no presente.» E quando tantos fatores, da indústria cultural aos museus, das comemorações aos programas educativos, contribuem para que se faça dessa memória do passado partilhado uma espécie de religião civil, pautando a perceção que as sociedades têm de si próprias, o tema torna-se particularmente importante.</p>
<p>Este passado cumpre muitas vezes um papel instrumental: conservar a recordação dos totalitarismos de forma a legitimar a ordem liberal, validar a ocupação da Palestina para evitar um novo Holocausto, invadir o Iraque para que se não repita Munique. Pode também trilhar caminhos mais discretos, por vezes mais subterrâneos, com uma dimensão crítica ou de resistência que define experiências de emancipação, de utopia e de revolta contra os poderes hegemónicos. A escrita da história é pois o resultado de um trabalho que emerge dessa trama complexa de recordações pessoais e partilhadas, de saberes herdados, de tradições literárias, de constrangimentos e de questionamentos políticos sempre ancorados no presente. É essa trama subterrânea que este ensaio expõe de maneira brilhante mas também transparente. Incorporando um vasto debate intelectual – de Halbwachs a Nora e a Ricoeur, de Benjamin a Yerushalmi, de Ginzburg a LaCapra e White – que reformula as fronteiras da história e questiona de um modo crítico e positivo os seus processos de escrita. Tornando-a um território vivo e não o eco de um museu decrépito.</p>
<p><span style="font-size: 85%;">Enzo Traverso,<em> O passado, modos de usar. História, memória e política</em>. Trad. de Tiago Avó. Edições Unipop. 196 págs. Versão revista de nota saída na <em>LER </em>de Abril.</span></p>
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		<title>Lemkin e o genocídio</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Apr 2012 17:31:40 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Veio há dias parar-me às mãos um ensaio do jurista francês Olivier Beauvallet sobre a vida e a obra de Raphael Lemkin (1900-1959). O nome do advogado polaco de origem judia não me era totalmente estranho, mas jamais o seu trabalho me havia surgido como algo que justificasse uma atenção especial. Todavia, o conteúdo do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34711" title="Lemkin" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/lemkin2.jpg" alt="Lemkin" width="500" height="149" /></p>
<p>Veio há dias parar-me às mãos um ensaio do jurista francês Olivier Beauvallet sobre a vida e a obra de Raphael Lemkin (1900-1959). O nome do advogado polaco de origem judia não me era totalmente estranho, mas jamais o seu trabalho me havia surgido como algo que justificasse uma atenção especial. Todavia, o conteúdo do ensaio veio provar-me a injustiça de um desconhecimento generalizado. Acontece que Lemkin foi «apenas» o fundador do conceito de «crime bárbaro», que na qualidade de procurador público na Polónia apresentou em 1933 a um comité jurídico da Sociedade das Nações reunido em Madrid. Escusado será dizer que a iniciativa, associada à sua condição de judeu polaco, lhe causou problemas na década e meia de escuridão que se seguiu. Começou por perder o cargo e, após ser ferido ao participar na defesa de Varsóvia perante o avanço das tropas alemãs, viu-se forçado a fugir para a Suécia e depois para os Estados Unidos. Entretanto quase toda a sua família havia perdido a vida nos campos de extermínio. Já na América, foi em 1948 um dos impulsionadores, agora no âmbito das Nações Unidas, da Convenção para a Prevenção e o Castigo do Crime de Genocídio, conceito do qual fora também, quatro anos antes, o criador, estabelecendo nessa altura um dos fundamentos jurídicos sobre os quais assentou o trabalho da acusação nos julgamentos de Nuremberga. Se é verdade que o padrão de prática que conseguiu criminalizar no domínio do direito internacional não deixou de prosseguir o seu caminho depois da Segunda Guerra Mundial – a fúria genocida fez ainda, continua a fazer, muitos milhões de vítimas –, devemos a Lemkin a consideração, no campo da culpa pública e da sua penalização, dessa modalidade extrema de violência que durante a maior parte da história humana ocorreu num registo de normalidade.</p>
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		<title>Um adeus sentido e combatente</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Apr 2012 10:48:51 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Hesitei um pedaço antes de escrever algumas linhas sobre o desaparecimento triste e prematuro do Miguel Portas. Por diversos motivos. Desde logo, porque muitas outras pessoas, mais próximas dele, mais e melhor conhecedoras da sua jornada de vida, escreveram de maneira informada sobre episódios, dificuldades, alegrias e projetos partilhados. Fizeram-no, em diversos casos, de forma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34675" title="Miguel Portas" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/miguelp.jpg" alt="Miguel Portas" width="470" height="205" /></p>
<p>Hesitei um pedaço antes de escrever algumas linhas sobre o desaparecimento triste e prematuro do Miguel Portas. Por diversos motivos. Desde logo, porque muitas outras pessoas, mais próximas dele, mais e melhor conhecedoras da sua jornada de vida, escreveram de maneira informada sobre episódios, dificuldades, alegrias e projetos partilhados. Fizeram-no, em diversos casos, de forma muito sábia, justa, comovida e magnífica. Jamais o poderia ou saberia eu fazer com idênticos atributos. Hesitei depois porque falei com o Miguel apenas uma meia dúzia de vezes desde que o conheci, tardiamente, no ano 2000. O Bloco de Esquerda nascera há pouco e na altura sentia-me suficientemente perto para participar como orador numa iniciativa pública. Recordo que sendo o penúltimo a falar me vi interrompido pela chegada de uma equipa de televisão com pouco tempo para gravar o discurso principal, da responsabilidade do próprio Miguel. Fiquei, claro, um tanto irritado com a situação, mas horas depois, já no comboio, recebi um telefonema caloroso e gentil, explicando detalhadamente o sucedido e pedindo um milhão de desculpas. Gesto definidor de um modo de agir raro no universo, tantas vezes brutal e cheio de prioridades trocadas, do ativismo profissional de todos os quadrantes. Mas hesitei ainda porque não queria, nem quero, servir-me de um acontecimento tão infeliz para travar o meu próprio combate político. Não posso, no entanto, deixar de recordar, uma vez que nestas horas tem permanecido omisso nos obituários, a luta do Miguel que conheci contra o sectarismo de todos os matizes e pela ampliação da crítica e da autocrítica dentro da «esquerda da esquerda». Opção difícil pela qual se bateu, mesmo até ao final do caminho, com perseverança e equilíbrio, por considerá-la a única forma de somar forças e ideais para o combate, cada vez mais urgente, cada vez mais imprescindível, por um país melhor e por um mundo mais justo. E do novelo de tantas hesitações resultou este acanhado post, que não passa de um adeus sentido e combatente.</p>
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		<title>De 24 para 25</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Apr 2012 11:24:14 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[História]]></category>
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		<description><![CDATA[De 24 para 25 de Abril &#8211; emissão histórica em direto. Uma iniciativa do Centro de Documentação 25 de Abril e da Ideias Concertadas. Na página Facebook do CD25A, das 22 horas de 24 às 22 de 25, a Revolução dos Cravos passo a passo, relatada e documentada.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>De 24 para 25 de Abril &#8211;  emissão histórica em direto</strong>. Uma iniciativa do Centro de Documentação 25 de Abril e da Ideias Concertadas. Na <a href="https://www.facebook.com/cd25a?ref=ts" target="_blank">página Facebook do CD25A</a>, das 22 horas de 24 às 22 de 25, a Revolução dos Cravos passo a passo, relatada e documentada.</p>
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		<title>Futebol e desencontros</title>
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		<pubDate>Sat, 21 Apr 2012 23:45:24 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Como no amor, existem, na história da literatura, das artes ou da filosofia, desencontros que poderiam ter sido belos encontros. Possíveis que se revelaram impossíveis. Karl Marx e Charles Darwin tiveram uma reunião prevista, marcada por um amigo comum, mas esta acabaria por não acontecer. Soljenitsine e Nabokov falharam por muito pouco uma prometida conversa. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone  wp-image-34624" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/futebol4.jpg" alt="" width="349" height="389" /></p>
<p>Como no amor, existem, na história da literatura, das artes ou da filosofia, desencontros que poderiam ter sido belos encontros. Possíveis que se revelaram impossíveis. Karl Marx e Charles Darwin tiveram uma reunião prevista, marcada por um amigo comum, mas esta acabaria por não acontecer. Soljenitsine e Nabokov falharam por muito pouco uma prometida conversa. E nos anos quarenta Orwell marcou um encontro com Camus em Saint-Germain-des-Prés, mas como este se atrasou um pouco, aborreceu-se e foi-se embora. Conhecendo o percurso de ambos, as causas que partilharam, as marcas que deixaram, aquele poderia ter sido o princípio de um belo entendimento.</p>
<p>As suas vidas tiveram, de facto, muito em comum. Ambos lutaram contra o fascismo, Orwell em Espanha e Camus na Resistência francesa. Ambos sofreram de tuberculose e morreram cedo, aos 47, em janeiro, se bem que com a diferença de uma década. Mais importante: os dois permaneceram intérpretes de uma esquerda democrática e independente, combatendo o totalitarismo em todas as suas formas e sofrendo por isso o isolamento e a derrisão por parte de alguma<em> intelligentsia</em>. <em>O Homem Revoltado</em> (1951), de Camus, é, aliás, um ensaio que parece encapsular posições e pontos de vista de Orwell. A diferença mais notável acabou por se centrar nos géneros literários que cada um deles praticou.</p>
<p>No entanto, onde jamais se teriam entendido nesse hipotético encontro seria ao conversarem sobre futebol. É que, se Orwell chegou a escrever que já existem «suficientes motivos de conflito» entre as pessoas comuns, não precisando nós, portanto, «de lhes juntar mais um, incentivando alguns jovens a darem caneladas uns aos outros, por entre os urros dos espetadores em fúria», Camus, antigo guarda-redes de primeiro plano no futebol da sua Argélia natal, pensava rigorosamente o contrário. Insistiu aliás, por diversas vezes, em que devia «seguramente ao futebol» tudo aquilo que aprendera sobre a essência do sentido ético e do compromisso humano. Por causa dele iriam provavelmente discutir e talvez a hipotética amizade acabasse logo ali, antes de começar.</p>
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