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	<title>A Terceira Noite &#187; Cidades</title>
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	<description>leituras, polémicas e iluminações / um blogue de rui bebiano</description>
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		<title>Vida noturna</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Apr 2012 15:06:19 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[O publicista e escritor irlandês Richard Steele escrevia em 1710, na revista satírica The Tatler, que tinha ido visitar um amigo chegado do campo para viver em Londres. Mas este encontrava-se já deitado quando, às 8 da tarde, Steele se apresentara em sua casa. Voltou na manhã seguinte, pelas 11 horas, para lhe dizerem que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone  wp-image-34434" title="Robert Doisneau" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/doisneau2.jpg" alt="Robert Doisneau" width="457" height="316" /></p>
<p>O publicista e escritor irlandês Richard Steele escrevia em 1710, na revista satírica <em>The Tatler</em>, que tinha ido visitar um amigo chegado do campo para viver em Londres. Mas este encontrava-se já deitado quando, às 8 da tarde, Steele se apresentara em sua casa. Voltou na manhã seguinte, pelas 11 horas, para lhe dizerem que o amigo ia começar a jantar: «Rapidamente descobri que o meu amigo seguia religiosamente os seus antepassados e respeitava os horários usados na sua família desde a época da conquista normanda.» Dei algumas vezes exemplos análogos enquanto falava a turmas de alunos sonolentos sobre o imaginário aldeão dos tempos que antecederam a abertura das estradas e a chegada da eletricidade. Ali, como todos trabalhavam desde a alvorada, e o trabalho doía, todos se deitavam «com as galinhas», ficando os ruídos e as sombras da noite a cargo dos espetros e das bruxas, dos quais aliás ninguém duvidava. Mesmo nas nas cidades, as coisas não se passaram de forma substancialmente diferente até ao surgimento das festas aristocráticas e à abertura dos cafés por volta do século XVII, começando então a noite a ter uma animação inteiramente nova. Com o aparecimento da iluminação urbana e a multiplicação dos teatros o processo foi completado, alterando-se profundamente o uso social e as representações simbólicas da vida noturna. A noite fugaz mas persistente «das paixões recusadas, das paixões descabidas», gravadas a canivete nas mesas dos bares, Lins <em>dixit</em>, chegou bastante tarde mas para ficar.</p>
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		<title>Guimarães 2012</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jan 2012 02:04:28 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Foi fácil encontrar a melhor maneira de abrir este parágrafo. Começa assim: Eu gosto muito de Guimarães, já quase lá vivi, e as memórias que guardei são em geral boas ou muito boas. Também por lá passei fome quando andei clandestino, mas isso foi há tanto tempo que agora parece lenda ou episódio de romance. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone  wp-image-32783" title="t" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/01/theone.jpg" alt="" width="458" height="296" /></p>
<p>Foi fácil encontrar a melhor maneira de abrir este parágrafo. Começa assim: Eu gosto muito de <a href="http://4.bp.blogspot.com/--BYIyQ7bEJU/TxsApmNrGuI/AAAAAAAAPFc/AkGPFGtpqSo/s1600/IMG_0298.JPG" target="_blank">Guimarães</a>, já quase lá vivi, e as memórias que guardei são em geral boas ou muito boas. Também por lá passei fome quando andei clandestino, mas isso foi há tanto tempo que agora parece lenda ou episódio de romance. Gosto de alguns dos seus naturais e de os ouvir abrir as vogais, acho bonita uma boa parte da cidade e em Janeiro costuma fazer por ali um friozinho matinal que gela os pés e desperta a alma. Não partilho, não só por isso mas também por isso, da maledicência congénita de quem da empresa da Capital Europeia da Cultura apenas declara ou espera o pior. Como não aceito o bairrismo incontinente de quem descobre agora uma energia esquecida de propósito para poder ser revelada. Qualquer um sabe que a grande parte daquilo que está feito ou do que vai acontecer não saiu de um tesouro esquecido nas fundações de um velho edifício. É esforço comum, aberto quando ainda todos ingenuamente nos julgávamos escandinavos. O que não representará um mal, antes pelo contrário, se, no fim de tudo, quando os holofotes se apagarem, quando as ruas forem limpas e as secretárias esvaziadas, sobrar obra feita e pessoas e coletivos e a cidade e o seu termo ficarem a mexer. O que significará a ler, escrever, pintar, dançar, tocar. A expor, fazer teatro, ver cinema, debater este mundo e criar o outro. A fazer o sete, ou trinta por uma linha, sem precisar de um valente empurrão. Mas por enquanto ainda estamos de esperanças. Oxalá então tudo corra pelo melhor. Cá estaremos <a href="http://www.luisefigenio.com/2011/12/guimaraes-2012.html" target="_blank">para aplaudir ou pedir contas</a>.</p>
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		<title>Discutir o futuro</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Dec 2011 01:57:03 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Marie-Anne de Roumier Robert (1705-71), referida algumas vezes como «escritora feminista francesa», inventou o Reino de Futura no «conto moral» Les Ondins, publicado três anos antes de morrer. Situado não se sabe onde, para se lá chegar tornava-se imprescindível percorrer ao acaso uma estrada longa e repleta de obstáculos. Depois era necessário cruzar oito portas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-31784" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2011/12/future.jpg" alt="" width="410" height="308" /></p>
<p>Marie-Anne de Roumier Robert (1705-71), referida algumas vezes como «escritora feminista francesa», inventou o Reino de Futura no «conto moral» <a href="http://books.google.pt/books?id=1qQtAAAAMAAJ&amp;oe=UTF-8&amp;redir_esc=y" target="_blank"><em>Les Ondins</em></a>, publicado três anos antes de morrer. Situado não se sabe onde, para se lá chegar tornava-se imprescindível percorrer ao acaso uma estrada longa e repleta de obstáculos. Depois era necessário cruzar oito portas metálicas, a última das quais em ouro, encontrando-se todas elas protegidas por dragões, chamas, gigantes, serpentes aladas, sereias e uma fénix. Transposta a última porta, o viajante deveria então purificar-se atravessando um pequeno lago. Só então poderia penetrar no Reino. A vida que ali encontrava parecia-lhe, num primeiro olhar, justificar todos os trabalhos e sacrifícios pelos quais passara: os habitantes de Futura experimentavam uma imensa e infinita paixão pelo futuro. Mas cedo o viajante percebia os limites daquele aparente bem-estar, pois as constantes discussões sobre as formas que tal futuro tomaria impediam-nos de viverem felizes. Todavia, não sabiam viver sem elas.</p>
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		<title>A cidade dos buracos</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Nov 2011 01:01:22 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Cittabella é, em Viaggio in Drimonia, o livro de Lia Wainstein editado em 1965 pela Feltrinelli, «a cidade dos buracos». Nela, todos os habitantes deambulam incessantemente, dando a sensação, a quem os possa observar a partir do exterior, de procurarem alguma coisa – um parente ou um amigo, um embrulho, uma carruagem, um animal de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-31124" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2011/11/deambular.jpg" alt="" width="350" height="350" /></p>
<p>Cittabella é, em <em>Viaggio in Drimonia, </em>o livro de Lia Wainstein editado em 1965 pela Feltrinelli, «a cidade dos buracos». Nela, todos os habitantes deambulam incessantemente, dando a sensação, a quem os possa observar a partir do exterior, de procurarem alguma coisa – um parente ou um amigo, um embrulho, uma carruagem, um animal de estimação – entretanto engolidos pelo chão. Ao mesmo tempo, medem cuidadosamente os passos, com o objectivo de evitarem a própria queda, que ainda assim consideram inevitável.</p>
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		<title>CCCP e a torre dos suicidas</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Aug 2011 23:32:07 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[CCCP – Cosmic Communist Constructions Photographies é um álbum da Taschen que nos mostra, fotografados por Frédéric Chaubin, noventa edifícios estatais da União Soviética erguidos sensivelmente entre 1970 e 1990. Logo após a revolução de Outubro, a construção destinada ao alojamento de serviços públicos tornou-se uma prioridade do Estado; tratava-se de conceber e de organizar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_28458" class="wp-caption alignnone" style="width: 369px"><img class="size-full wp-image-28458" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2011/08/cccp1.jpg" alt="" width="359" height="367" /><p class="wp-caption-text">Palácio dos Casamentos em Vilnius, Lituânia</p></div>
<p><em>CCCP – Cosmic Communist Constructions Photographies</em> é <a href="http://www.taschen.com/pages/en/catalogue/photography/all/05744/facts.frederic_chaubin_cosmic_communist_constructions_photographed.htm" target="_blank">um álbum da Taschen</a> que nos mostra, fotografados por Frédéric Chaubin, noventa edifícios estatais da União Soviética erguidos sensivelmente entre 1970 e 1990. Logo após a revolução de Outubro, a construção destinada ao alojamento de serviços públicos tornou-se uma prioridade do Estado; tratava-se de conceber e de organizar em larga escala todo um universo arquitectónico incandescente, em condições de projectar as possibilidades utópicas que a nova ordem política pretendia dinamizar. Os anos vinte corresponderam, por isso, a uma fase exuberante de crescimento da arquitectura soviética, fortemente influenciada pelas concepções suprematistas (a explosão controlada de formas geométricas) e construtivistas (projecções selváticas, ângulos provocatórios). A ascensão da rigidez formal do período estalinista, contudo, poria fim a essa dimensão de ousadia, conformando-a aos cânones do realismo socialista e acentuando-lhe a funcionalidade política, enquanto instrumento de propaganda e de ostentação do poder. Gigantismo e previsibilidade caminharam então a par, durante as décadas de 1930-1940, dando lugar a construções geralmente insossas, cinzentas, hoje completamente desinteressantes do ponto de vista artístico.<span id="more-28453"></span></p>
<div id="attachment_28466" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-full wp-image-28466" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2011/08/cccp3.jpg" alt="" width="290" height="380" /><p class="wp-caption-text">Monumento ao Renascimento da Arménia</p></div>
<p>Aquilo que as duas últimas décadas da história da URSS trouxeram de novo a esse cenário desolado foi uma espécie de compromisso entre as intenções revolucionárias que tinham dominado o arranque heróico do regime e a aceitação da ténue abertura política e estética que acompanhou o período kruchtcheviano do «degelo» e acelerou nos últimos quinze anos da governação soviética. Foi pois com os vestígios insuspeitados a ocidente deste ressurgimento de uma certa monumentalidade pública que deparou Chaubin quando em 2003, passeando como vulgar turista por um mercado popular de Tbilisi, a capital da Geórgia, deparou com um livro usado, contendo muitas imagens, que a testemunhava: «foi como se tivesse encontrado um monumento desconhecido, um Machu Picchu à minha medida». Resolveu então fazer uma longa viagem por diversas repúblicas da ex-URSS à procura da identificação fotográfica desses vestígios estranhos, imponentes mas também fascinantes.</p>
<div id="attachment_28470" class="wp-caption alignleft" style="width: 397px"><img class="size-full wp-image-28470" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2011/08/cccp4.jpg" alt="" width="387" height="323" /><p class="wp-caption-text">Sanatório de Druzhba, Ucrânia</p></div>
<p>Encontrou um enorme conjunto do que deveriam ter sido majestosas construções públicas, destinadas, à velha maneira autocrática que Moscovo preservou, a impressionar as populações locais. Mas, ao mesmo tempo, ocupadas com funcionalidades a uma escala que os governos das repúblicas soviéticas estavam a perder a capacidade de assegurar: palácios governamentais, teatros e casas das artes, museus, academias e complexos desportivos, sanatórios e alojamentos de férias para os <em>apparatchiki</em>, complexos e laboratórios científicos, estâncias termais, crematórios, casas de pioneiros. Tudo concebido em dimensões colossais, seguindo linhas ousadas em relação à construção comum, embora projectadas para lugares decrépitos, quando não totalmente despidos e inóspitos.</p>
<p>A sensação permanente na visualização deste álbum magnífico é a de depararmos, entre cenários rudes e aparentemente imóveis, com ovnis espectaculares destinados a contrastar com eles. Mas ovnis esvaziados de tripulantes, já que a generalidade daquelas construções se encontra agora desactivada e em acelerado estado de degradação. Incluindo-se neste grupos os diversos «palácios dos casamentos», destinados a impedir o regresso dos novos casais ao cerimonial religioso: agora estes preferem mesmo os verdadeiros locais de culto, em alguns casos a simplicidade de um notário. Exemplar desta decrepitude e esvaziamento funcional é o Teatro de Arte Dramática Fiódor Dostoievski, construído em 1987 em Veliki Novgorod: a sua enorme massa branca, misto de mosteiro, fábrica e centro de serviços, encontra-se agora ao abandono, mas a torre cilíndrica que se pode ver à esquerda na fotografia <span style="color: #888888;">[imagem seguinte]</span> foi demolida em 2008. Nos últimos anos vinha servindo de trampolim para os suicidas.</p>
<div id="attachment_28485" class="wp-caption aligncenter" style="width: 572px"><img class="size-full wp-image-28485" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2011/08/cccp21.jpg" alt="" width="562" height="270" /><p class="wp-caption-text">Teatro de Arte Dramática Fiódor Dostoievski em Veliki Novgorod, Rússia</p></div>
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		<title>Escadas pintadas</title>
		<link>http://aterceiranoite.org/2011/05/27/escadas-pintadas/</link>
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		<pubDate>Fri, 27 May 2011 16:10:11 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Três curtos parágrafos sobre o «caso» da pintura das Escadas Monumentais da Universidade de Coimbra com propaganda eleitoral do PCP-CDU e da manifestação canalha e desproporcionada de uns quantos estudantes universitários, de negro trajados e com o estranho apoio da direcção da Associação Académica, que para a contestar se lhe seguiu. Qualquer pessoa com alguma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-26799" title="As escadas" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2011/05/monumentais.jpg" alt="As escadas" width="428" height="283" /></p>
<p>Três curtos parágrafos sobre o «caso» da pintura das Escadas Monumentais da Universidade de Coimbra com propaganda eleitoral do PCP-CDU e da manifestação canalha e desproporcionada de uns quantos estudantes universitários, de negro trajados e com o estranho apoio da direcção da Associação Académica, que para a contestar se lhe seguiu.</p>
<p>Qualquer pessoa com alguma sensibilidade estética e sem uma perspectiva politicamente utilitarista que realmente tenha visto a «obra» – já ali projectada, aliás, noutras ocasiões eleitorais – sabe que não é um primor visual. Apesar de ser absolutamente legal, tal como a CNE acaba de confirmar, seria no entanto escusada, uma vez que se trata de propaganda algo agressiva, que com aquelas proporções é ecologicamente desajustada ao local. Não importa quem a realizou: se fosse o Bloco de Esquerda ou o CDS, a situação seria rigorosamente a mesma. Falamos não de um mural mas de uma pintura sobre a via pública, num local de passagem inserido na malha urbana da Universidade, onde todos os dias circulam obrigatoriamente muitos milhares de pessoas de todas as tendências ou opiniões, que não deveria sofrer intervenções desta natureza. Aliás, também não me agradaram as criações pseudo-artísticas e de diferentes origens que ali foram realizadas noutras alturas. Em causa está sobretudo o facto de se tornarem por vezes tão fortes, tão impositivas, tão «gritadas», que impedem os cidadãos de cruzarem a área de forma <em>clean</em>, fazendo a sua vida normal na fruição de uma cidade já de si bastante martirizada no equilíbrio das formas e dos espaços.</p>
<p>Todavia, a posição tomada pelo grupo de estudantes, que se serviu do facto para boicotar um comício do PCP-CDU, já me parece oportunista e absolutamente condenável. Foi, aliás, feita não em tom de crítica, mas sim sob a forma de gritos e de impropérios ofensivos, fazendo com que se perdesse a razão que poderia ser reconhecida a qualquer reparo. Já a posição da organização em causa, ou de alguns dos seus defensores, também foi exacerbada e num desajustado mas recorrente estilo «vitimizante». A mim, o que aconteceu parece antes uma mera expressão de parvoíce e de incultura democrática, vinda aliás de núcleos dessa estúrdia estudantil que nos anos oitenta os próprios estudantes da JCP, antecessores dos actuais, talvez sem o querer ajudaram a recriar. Mas essa é outra história, que fica para melhor altura.</p>
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		<title>Esboços da utopia</title>
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		<pubDate>Sun, 22 May 2011 23:34:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[originalmente publicado em heterodoxias&#124;21 O governo soviético da década de 1920 foi o primeiro da História a deter um poder de tal forma pleno e colossal que lhe permitiu conceber de raiz redes de grandes bairros e até cidades inteiras, determinando rigorosamente o número, a dimensão e o desenho dos edifícios e das ruas, bem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="size-full wp-image-338 " style="margin-top: 3px; margin-bottom: 3px;" src="http://heterodoxias21.aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2011/05/vesnin1.jpg" alt="" width="446" height="261" /></p>
<p><span style="font-size: 82%; line-height: 145%;">originalmente publicado em <a href="http://heterodoxias21.aterceiranoite.org" target="_blank"><strong>heterodoxias|21</strong></a></span></p>
<p>O governo soviético da década de 1920 foi o primeiro da História a deter um poder de tal forma pleno e colossal que lhe permitiu conceber de raiz redes de grandes bairros e até cidades inteiras, determinando rigorosamente o número, a dimensão e o desenho dos edifícios e das ruas, bem como a taxa de ocupação em cada área ou estrutura. Podia também escolher sem constrangimentos onde construir, como projectar o crescimento, como articular os novos espaços dentro de um equilíbrio idealizado entre a cidade e o campo, chegando a conceber e tipificar o aspecto, a  exacta localização e mesmo o pormenorizado funcionamento das fábricas, dos escritórios, das escolas, dos hospitais, dos armazéns e dos edifícios destinados à habitação. O planeamento urbano num Estado todo ele planificado – que foi aquilo em que a Rússia soviética se transformou a partir de 1928 com a entrada em funcionamento do 1º plano quinquenal – não era uma ocupação menor; tratava-se, de facto, de organizar em larga escala e a partir da base, num esforço de design macro-comunitário, todo um universo que se pretendia radicalmente novo e profundamente dinâmico. Diante de tal projecto, como não compreender o entusiasmo dos quadros políticos, engenheiros, arquitectos, economistas ou geógrafos a quem foi atribuída essa tarefa gigantesca?<span id="more-26692"></span></p>
<p>A planificação urbana, associada ao design do futuro, requeria entretanto a disseminação de uma mentalidade e de um esforço da imaginação estreitamente ligados à ficção científica e à utopia. Se este padrão de tarefas é já de si exaltante, num escala forçosamente menor, em sociedades não-revolucionárias, durante os anos épicos da Revolução Russa arquitectos e urbanistas puderam dar-se ao luxo de repensar uma nação inteira, fazendo encaixar estruturas e anti-estruturas em planos económicos ávidos e que se exigiam ultra-rápidos, projectando os ambientes dentro dos quais se deveria desenvolver aquilo que, sem a sombra da dúvida, se pensava vir a ser uma humanidade nova e socialista. A diferença em relação ao modelo tradicional da ficção científica ou da especulação artística era, todavia, imposta por um conjunto de circunstâncias: de um lado limitações materiais e constrangimentos políticos impostos pela linha bolchevique, do outro a necessidade de trabalhar para pessoas reais e tendo em vista um futuro iminente. Todavia, durante alguns anos de grande liberdade criadora a contradição não parecia conter qualquer drama.</p>
<p>Assim, por algum tempo, antes do recuo político imposto em meados da década de 1930, na Rússia Soviética o tratamento do espaço no seu relacionamento com a privacidade e a vida comunitária intersectou continuamente os grandes temas da especulação utópica libertos pelas possibilidades criadores projectadas pela Revolução de 1917 considerada na sua fase épica, ainda aberta à ousadia e à possibilidade de materializar o imaginável. Os edifícios fantásticos da arquitectura construtivista soviética projectada por Vladimir Tatlin, por El Lissitzky ou pelos irmãos Leonid, Victor e Alexander Vesnine, tal como os programas «desurbanistas» de Moisei Ginzburg, foram projectados dentro deste conceito simultaneamente revolucionário e utilitário que durou poucos anos. Em breve, também neste domínio, o conformismo e a imposição do modelo único iriam derrotar o ímpeto criativo que nascera associado à ilusão da construção ultra-rápida e sem barreiras de um mundo radicalmente novo. A utopia morreu e foi enterrada sob as fundações dos edifícios normalizados e das cidades poluídas, sem rasgo e em tons de cinza.</p>
<p><span style="font-size: 78%; line-height: 145%;">Leitura: Richard Stites (1989), <em>Utopian Vision and Experimental Life in the Russian Revolution</em>. Oxford: Oxford University Press.</span></p>
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		<title>Tobruk</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Feb 2011 19:06:36 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Até agora a palavra Tobruk evocava principalmente um filme americano de Arthur Hiller, estreado em 1967, com Rock Hudson e George Peppard nos papéis principais. Inventava-se ali a epopeia de uma brigada de judeus alemães que combatiam contra o poderoso Afrika Korps, de Rommel, durante a longa e dura batalha pela posse da cidade-porto mediterrânica. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-25354" title="Tobruk" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2011/02/tobruk.jpg" alt="Tobruk" width="274" height="415" /></p>
<p>Até agora a palavra Tobruk evocava principalmente um filme americano de Arthur Hiller, estreado em 1967, com Rock Hudson e George Peppard nos papéis principais. Inventava-se ali a epopeia de uma brigada de judeus alemães que combatiam contra o poderoso <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Afrika_Korps" target="_blank"><em>Afrika Korps</em></a>, de Rommel, durante a <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Cerco_de_Tobruk" target="_blank">longa e dura batalha</a> pela posse da cidade-porto mediterrânica. De <em>Tobruk</em>-o filme retinha as imagens a technicolor de explosões fictícias, golpes-de-mão forjados, falsas mortes e outros ardis desses que o cinema descobre para nos enganar. A perspectiva foi radicalmente alterada hoje, com a chegada das primeiras imagens de uma cidade liberta das garras de Kadhafi. As armas agora são reais e ainda disparam, é verdade, mas desta vez de júbilo e celebração. Gostaria de não voltar a olhar para Tobruk como para uma fortaleza triste e sitiada.</p>
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		<title>Iuri nas Cidades #14</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Jan 2011 02:51:58 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Imagem]]></category>

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		<description><![CDATA[Bucareste Colaboração de Iuri Bradáček]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-24921" title="Bucareste" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2011/01/bucareste1.jpg" alt="Bucareste" width="460" height="292" /></p>
<p>Bucareste<br />
<span style="font-size: 70%; line-height: 170%;">Colaboração de Iuri Bradáček</span></p>
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		<title>Vem aí o Havana Style</title>
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		<pubDate>Sat, 02 Oct 2010 17:16:30 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Atualidade]]></category>
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		<category><![CDATA[Olhares]]></category>

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		<description><![CDATA[A decrepitude é, como se sabe, um dos mais visíveis sinais da arquitectura do centro de Havana. Existe quem lhe chame patine e lhe atribua por isso uma auréola de nobreza e honradez. Próprios de uma grandeza perdida mas reencontrada que remete para essa nostalgia dos tempos pré-revolucionários que o castrismo incorporou para poupar em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-22422" title="Havana" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2010/10/havana.jpg" alt="Havana" width="466" height="280" /></p>
<p>A decrepitude é, como se sabe, um dos mais visíveis sinais da arquitectura do centro de Havana. Existe quem lhe chame <em>patine</em> e lhe atribua por isso uma auréola de nobreza e honradez. Próprios de uma grandeza perdida mas reencontrada que remete para essa nostalgia dos tempos pré-revolucionários que o castrismo incorporou para poupar em cimento e obter divisas. Mas ela só seria positiva se quem habita aquelas casas tivesse alguma possibilidade de escolha, ou pudesse considerar a vaga hipótese de mudar para um apartamento novo e sem humidade. Se pensarmos por um momento em como tanta gente se vê forçada a viver a vida inteira naquele cenário de pobreza e decadência, sentiremos logo a perspectiva romântica a dissolver-se. Trata-se afinal de uma beleza triste, que magoa mais do que empolga. Talvez devamos, no entanto, habituar-nos a este padrão de sobrevivência do passado. No tempo de vacas cadavéricas no qual por estes lados acabamos de entrar, os construtores civis, como os vendedores de automóveis, de lustres ou de serviços de chá em porcelana, irão ter muito menos trabalho. Florescerão talvez as empresas de reparações, especialmente se praticarem preços modestos e aceitarem pagamentos fraccionados. Há pois um Havana Style que se aproxima das nossas cidades. Ainda não demos por ele mas está quase a chegar.</p>
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