Arquivo da categoria Cidades
Coimbra’69

17 de Abril. A maioria dos cidadãos que conservam reminiscências da Coimbra dos idos de sessenta – do meio pequeno, professoral, santacombadense, mas também universal, quimérico e inquieto – conhece aquilo que a data significa. As prestimosas autoridades locais, essas dormem na ignorância de uma parte da memória viva da cidade que vão gerindo. Por vezes na cumplicidade ao retardador com o lado mau do filme. Dia da audácia de uns quantos, das oportunidades conquistadas, do mito que enuncia parte da verdade e inventa e reinventa a outra. Primeiro dia do resto da vida da cidade salazarenta que um dia há-de morrer.
Seguir o testemunho ocular do Marcelo Correia Ribeiro, a visão de retrovisor do Miguel Cardina e o olhar de viés do Luís Januário.
A Praga de Sudek

A propósito de uma exposição sobre a obra do fotógrafo checo Josef Sudek (1896-1976), aberta ao público até 17 de Maio no Círculo de Bellas Artes de Madrid, Antonio Muñoz Molina deixou no Babelia de ontem uma prosa bela e comovente, «El caminante de Praga», que – como acontecera já com a evocação de John Banville no seu livro precioso sobre a cidade das duas margens do Vltava – faz justiça ao trabalho único de um homem que viu o seu destino como artista determinado, aos vinte anos, pela amputação do braço direito. Josef, que estivera destinado a encadernador, passaria então a percorrer Praga em todas as direcções, dia após dia, muitas vezes pela noite fora, carregando pelo resto da vida, apenas com um braço, a pesada máquina Kodak de 1894 e o seu enorme tripé. Fotografando, sempre num tempo lento, praticamente imóvel, quase inabitado, os espaços e as coisas que não poderiam ser mostrados abertamente, «mas apenas dando pistas, revelando apenas o justo, para que o olhar completo pudesse permanecer na imaginação do espectador». Existe uma Praga, desolada como um eremitério, infinitamente poética, que habita apenas a fotografia do tímido e solitário Sudek.
De fato
Por admin in Apontamentos, Cidades, Olhares em 10 de Abril de 2009

Na Loja do Cidadão, proclamada «de segunda geração», inaugurada em Faro no passado dia 3 com a presença do primeiro-ministro, as funcionárias estão proibidas de usarem em serviço blusas com decote, saias curtíssimas, vestuário de ganga, perfumes com uma fragrância agressiva, roupa interior preta, saltos altos e, claro, sapatilhas. Calculo que aos funcionários sejam prescritas também algumas normas, relacionadas com o tom da gravata, a sobriedade das peúgas, o risco ao lado no penteado e o uso obrigatório de pochette. E se o não são, deveriam sê-lo. Por motivos de «postura pessoal», seguindo o raciocínio avícola de uma tal D. Maria Pulquéria. O provincianismo corresponde sempre, por definição, a uma forma excessivamente mesquinha e tristonha de estar no mundo. Piora bastante quando se encontra associado a um bocadinho pequenino e bem guardadinho de autoridadezinha.
Adenda - Uma coisa vale a pena dizer ao ouvido de quem considere este episódio irrelevante ao ponto de não se justificar sequer que seja notícia: são gestos destes que nos lembram o que foi o «salazarismo real» e o que ele fez – e continua a fazer – às cabeças das pessoas. Muito mais grave e profundo do que os lances fugazes do caso Freeport.
A leitura de alguns blogues que abordaram o assunto trouxe também mais duas nuances. Uma refere-se ao sexismo boçal das considerações supostamente engraçadas sobre «os direitos dos utentes». A outra é o fétiche dos parvenus a respeito daquilo que insistem em chamar de «dress code». Que nada tem a ver com normas básicas de asseio e civismo, obviamente admissíveis e até desejáveis.
(Dizem-me que entretanto o pormenor da roupa interior preta foi desmentido. Muito bem, mas essa era a parte cómica. O resto fica tudo na mesma. Isto é, mal.)
Oração de Quadragésima

Que o Deus dos cristãos me perdoe se blasfemo, mas rejubilo por ter chegado a Quaresma e haverem desfilado já pelas avenidas todos os clubes de samba, carros alegóricos e sorrisos de baquelite que havia para desfilarem pelas avenidas. Agradeço-Lhe por existir muito mais beleza na tristeza.
♪ ilha do tesouro|6
Não, não se trata de uma reencarnação dos Talking Heads. Mas parece mesmo, não parece?

Fanfarlo
Finish Line [Reservoir]
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Lisboetas

Grupo de lisboetas do tempo em que, de acordo com as últimas notícias, Salazar ainda experimentava um desejo sexual anormalmente forte. Numa fotografia de Gérard Castello Lopes datada de 1957.
♪ ilha do tesouro|5
Hoje directamente de Seul, longe da grande luva de Kim Jong-il.

Vidulgi OoyoO
Seeing Me Through Your Eyes [Aero]
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Crime organizado
Por admin in Atualidade, Cidades, Livros & Leituras em 6 de Fevereiro de 2009

Misha Glenny estudou em Praga e trabalhou diversos anos nos Balcãs, o que lhe deu uma certa vantagem no reconhecimento de alguns dos caminhos mais sombrios por onde, após o aluimento dos regimes socialistas do Leste, passou a alojar-se o universo desterritorializado da nova criminalidade. Com efeito a primeira parte de McMáfia: O Crime Organizado Sem Fronteiras (Civilização Editora) ocupa-se da Rússia e dos países que durante décadas orbitaram na sua área de influência política, dando particular destaque ao que ocorreu na Bulgária e que pode servir como paradigma de uma certa transição: os serviços secretos desempenharam ali, durante o período comunista, um papel muito importante no tráfico de armas e de drogas na Europa ocidental, e muitos dos seus ex-agentes transitaram directamente para o crime organizado. Sempre com muitos detalhes, o livro parte depois ao encontro das novas rotas abertas ao delito transformado em instituição a partir do final da década de 1980, abordando também a sua actividade e o seu impacto no Médio Oriente, na Índia, na Colômbia, no Brasil, no Japão ou na África do Sul. Da prostituição e do negócio das armas, ao comércio de drogas, diamantes e órgãos humanos, passando pelo cibercrime e pela contrafacção, é toda uma economia paralela, erguida hoje à escala planetária e assente numa ordem imposta pela lei e pela força do mais forte, que se abre aqui ao leitor. Fazendo da velha Máfia quase um pacato território de cavalheiros.
Angola: o passado agora
Por admin in Atualidade, Cidades, Livros & Leituras, Memória em 5 de Fevereiro de 2009

José Eduardo Agualusa comenta no prefácio que escreveu para Fragmentos de Angola, de Sébastien e Thomas Roy (Teorema) que ali se dá a ver Angola, e em particular a cidade de Luanda, «não apenas a quem nunca a viu, mas também a quem sempre lá viveu e que, de tanto a ter diante dos olhos, se tornou cego para inúmeras evidências.» Talvez por chegarem de um mundo à parte, e sem a carga de memória de quem acompanhou de perto a descolonização e a destrutiva guerra civil, os dois franceses responsáveis por estas impressões de viagem e pelas fotografias a preto e branco que as acompanham produzem no leitor um efeito análogo ao de quem leia as notas de uma viagem até um planeta desconhecido. Fala-se aqui de uma Angola pós-guerra civil, que conhece finalmente a paz mas vê-a crescer associada a uma sociedade persistentemente desigual, na qual a esperança e o optimismo, nela quase essenciais, todos os dias se vêm confrontados com a ausência de um futuro previsível. É também um livro de «memórias em diferido», entre a reportagem e o devaneio literário, que vai associando a observação directa e o testemunho pessoal a referências explícitas fundeadas na história recente. Porque nesta paisagem, umas vezes desolada, pontuada por escombros, outras vezes luminosa e excitante, se vislumbram ainda, a todo o instante, as ligações com um passado do qual se vêem as sombras.
♪ ilha do tesouro|4
Ao domingo chega o comboio de Visaginas, Lituânia.

Alina Orlova
Vaiduokliai [Laukinis šuo dingo]
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♪ ilha do tesouro|3
Por Rui Bebiano in Cidades, Música em 30 de Janeiro de 2009
Da Islândia, enquanto há Islândia.

Rökkurró
Hetjan á fjallinu [Það kólnar í kvöld...]
[audio:http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2009/01/05-hetjan-a-fjallinu.mp3]
Coimbra C
Por Rui Bebiano in Cibercultura, Cidades, Coimbra em 26 de Janeiro de 2009

Agora Coimbra já não é apenas a Rainha Santa, a Serenata Monumental, o Portugal dos Pequenitos (esse permanente evento) e Os Livros Ardem Mal. Digamos que é também Bruno Aleixo.
Back to Iceland (remix)
Por Rui Bebiano in Atualidade, Cidades, Olhares em 22 de Janeiro de 2009

Rigning é a palavra em islandês para a chuva. É igualmente o nome do último álbum do produtor e músico Aðalsteinn Guðmundsson, mais conhecido como Yagya, a invadir neste momento o meu posto de trabalho com uma espécie de tristeza benigna em cadência tecno. Entretanto, algures num recanto do monitor, correm imagens bem menos suaves dos tumultos desta manhã em Reiquejavique.
[audio http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2009/01/01-rigning-einn.mp3]
♪ ilha do tesouro|2
Por Rui Bebiano in Cidades, Música em 17 de Janeiro de 2009
Como bónus de lançamento da série, aqui vai outra proposta. Já de 2009.

Telefon Tel Aviv
Immolate Yourself [Immolate Yourself]
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♪ ilha do tesouro|1
Por Rui Bebiano in Cidades, Música em 17 de Janeiro de 2009
A pedido de algumas famílias, o primeiro post de uma série que servirá para partilhar alguns achados. Música popular contemporânea. Urbana e nocturna, de preferência.

Au Revoir Borealis
The World Is Too Much With Us [Dark Enough For Stars]
[audio:http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2009/01/03-the-world-is-too-much-with-us.mp3]
Salónica: uma cidade e o seu labirinto
Por Rui Bebiano in Cidades, História, Livros & Leituras, Memória em 12 de Janeiro de 2009

Versão revista de um texto publicado na LER No. 75
Até 1909, o ano da fundação de Tel Aviv, Salónica era a única cidade do mundo na qual a principal língua utilizada era de matriz judaica. Por essa altura, a maioria da população falava ainda o ladino, ali estabelecido nos inícios do século XVI com a diáspora sefardita, mas viviam-se os últimos tempos de um espaço policromo, no qual cristãos, muçulmanos e judeus tinham podido conviver na diferença, apesar dos conflitos pontuais e das situações de desigualdade perante a lei otomana. É verdade que ela se parecia mais com uma justaposição de pequenas aldeias, nas quais turcos, judeus, gregos, búlgaros, albaneses, ocidentais e ciganos preservavam os seus territórios, mas nada de semelhante podia ser observado em qualquer outra grande cidade. Mark Mazower, especialista em história da Grécia e dos Balcãs, traça em Salónica – Cidade de Fantasmas o seu percurso único e fascinante, prestando uma particular atenção ao longo lapso de tempo que começou em 1430, com a tomada da cidade ao poderio bizantino-veneziano pelo sultão Murad II, e encerrou já em pleno século XX com a reinstalação, em território turco, dos últimos membros da comunidade muçulmana que nela haviam permanecido após a sua conquista pelos gregos. Durante todos esses anos, foi traçado um percurso sinuoso e complexo que Mazower descreve com uma profusão de informações capazes de trazerem à vida um passado do qual já quase não restam hoje vestígios materiais.
O epíteto de «cidade dos fantasmas» diz essencialmente respeito ao total desaparecimento, ocorrido já no último século, de duas daquelas comunidades. O primeiro teve lugar imediatamente após o fim da dependência da cidade do estado turco, com a evacuação forçada da maior parte da população de origem muçulmana. O segundo, particularmente rápido e brutal, aconteceu em 1943, quando os ocupantes nazis enviaram para Auschwitz cerca de 50.000 salonicenses, dos quais apenas dez por cento viriam a sobreviver. Para além do enorme impacto humano no mapa da cidade, este facto ficou ainda associado à responsabilidade de numerosos cristãos gregos na repressão anti-semita que facilitou o trabalho dos ocupantes alemães. Alguns críticos consideram, aliás, que nesta obra o historiador menosprezou conscientemente a importância desse episódio vergonhoso da história contemporânea da Grécia.
Salónica oferece uma leitura apaixonante, por intermédio da qual a evocação do passado, ali extremamente bem documentada e apresentada de forma consistente, confirma o trajecto único de uma cidade que não possuindo hoje o fascínio e o património monumental da rival Istambul, nem por isso deixa de simbolizar um reencontro que a história recente dos Balcãs tornou particularmente exemplar e perturbante.
Mark Mazower, Salónica. Cidade de Fantasmas. Cristãos, Muçulmanos e Judeus de 1430 a 1950. Tradução de José Pinto Sá. Pedra da Lua, 576 págs. ISBN: 978-989-8142-10-8.
Barcelona i déu
Por Rui Bebiano in Atualidade, Cidades, Direitos Humanos em 12 de Janeiro de 2009

Mais informação aqui.
O rapaz que olhava os navios
Por Rui Bebiano in Cidades, Livros & Leituras, Memória, Olhares em 7 de Novembro de 2008

Versão de uma nota de leitura publicada na LER de Outubro
Memória, ensaio e elegia, eis um livro escrito como história afectiva da cidade que o autor crê habitada «de ruínas e de melancolia». Escolheu observá-la a partir dos sinais de um passado que é o da sua infância e primeira juventude, fazendo-o acompanhar de recordações familiares, fotografias a preto e branco, livros e jornais envelhecidos. Por todo o lado o hüzün, uma variedade de melancolia, de tristeza, aplicada aos istambuleses que padecem de um sentimento de perda por viverem num lugar cujos dias de glória acabaram. Não se trata, porém, de um exercício meramente nostálgico, pois Istambul não foi apenas o território físico de Pamuk: foi também a casa-mãe da sua imaginação, um espaço com o qual manteve sempre uma identificação poética, o observatório privilegiado para a sua percepção das mudanças do mundo.
A antiga sede dos impérios bizantino e otomano, construída nas margens da Europa e encravada entre Oriente e Ocidente, integra uma permanente ambiguidade cultural que tem sido fonte de conflitos mas também motivo de atracção para quem chega de fora. Orhan Pamuk, que nasceu numa família da elite laica e ocidentalizada, evoca escritores vindos de longe que chegaram à procura do pitoresco e do exótico (Lamartine, Nerval, Gautier, Gide, De Amicis, entre outros), mas também autores locais – como Ahmet Rasim ou Resat Ekrem Koçu, o criador de uma original Enciclopédia de Istambul – que procuraram enunciar a cidade da quem a habitava e não repetir a perspectiva romantizada e orientalista adoptada pelos visitantes.
Pamuk integra ambos os legados, o do viajante ocasional e o do residente, mas, como acontece com Joyce e Borges em relação a Dublin e a Buenos Aires, situa também a experiência da cidade-mãe na génese da sua personalidade e do seu trabalho criativo. Para obter este efeito segue um trajecto mais ou menos cronológico, desde uma infância algo mágica, repleta ainda dos sinais de uma cidade que entretanto desapareceu, até aos anos da universidade, e culminando com a decisão de se tornar escritor. Como leitmotiv um omnipresente Bósforo, objecto de atracção de tantos naturais, que, tal como o autor enquanto jovem, consumiam e continuam a consumir uma boa parte do seu tempo na observação do tráfego sempre excessivo dos navios que cruzam o Estreito. Como se o seu reflexo hipnótico bastasse para lhes retirar a vontade de abdicarem da cidade dilecta.
Pode ler-se este livro como itinerário poético de uma cidade. Não aquela que observam os bandos de turistas vindos de todas as partes que hoje ali aportam, mas uma outra, íntima, feita de memória, de poesia, e de passagem do tempo.
Orhan Pamuk, Istambul. Memórias de uma Cidade. Tradução de Filipe Guerra. Editorial Presença, 368 págs.
Luz
Por Rui Bebiano in Cidades, Etc., Olhares em 28 de Agosto de 2008

Manhã cedo na rua Odinstorg, Reiquejavique.
Lição de jornalismo
Por Rui Bebiano in Atualidade, Cidades, Etc. em 15 de Agosto de 2007
Bonsoir tristesse
Por Rui Bebiano in Atualidade, Cidades, Direitos Humanos em 7 de Maio de 2006

Melancholia, Claus Gregers (1989)
Lê-se Du Contre-Pouvoir, de M. Benasayag e D. Sztulwark, com um sentimento de revolta: «Vivemos uma época profundamente marcada pela tristeza, que não é apenas a tristeza das lágrimas, mas que é, principalmente, a da impotência». Percebendo como a noção contemporânea da complexidade da vida se une à aceitação defensiva, sob a forma de um tristeza social e individual, de que não possuímos forma outra de a viver que não seja aceitando, submissos, «a ordem e a disciplina da sobrevivência». Respeitando, insulados nos nossos pequenos mundos, cegos e tristes, infinitamente tristes, as formas de tirania que nos cercam, e que justificam essa servil tristeza. Contra ela, criadora, apenas a alegria difícil da resistência.
