Arquivo da categoria Delírios

Aerograma

Natal 2010

Nunca fui um adorador do Natal, com o seu burrinho, a sua vaquinha, e a restante parafernália pagã cercando o pequeno nazareno. Não por ter vivido muito cedo um qualquer momento de epifânica suspeição em relação a esse evento capital – bem mais forte por certo, para uma criança, do que o aflitivo instante do martírio – da religião na qual fui educado. Não por me agoniar «desde que me lembro» a dissipação, o luxo e a hipocrisia que geralmente rodeiam os espaços iluminados que lhe servem de trilho e de cenário. Afinal até houve um tempo no qual acreditei sem reservas na generosidade do Pai Natal e se me deixassem teria passado noites ao frio, emboscado num ermo escuro, para o ver passar de trenó na companhia da simpática rena Rudolfo. E atalhar logo com a minha encomenda. O desgosto não veio por aí, não. Chegou depois, pela percepção forte, sempre renovada, vivida como um calafrio, de uma ficção de paz, de compaixão o de igualdade que só consigo materializar quando me levanto da mesa da consoada, deixo o peru no sossego da travessa, e vou lá fora, em silêncio, sondar os rumos e os azimutes.

Al zukkar

sugar

Desenganem-se as aves de rapina que insinuam existir um crescente desinteresse por parte dos governantes da nação em relação à felicidade dos seus governados. Apoiado no parecer douto da Associação Portuguesa de Distribuidores, o Ministro da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas acaba de nos assegurar que não irá faltar açúcar nos supermercados. Não posso deixar de me alegrar com a notícia. Afinal a metafísica de muitas famílias depende dessa «areia grossa», sharkara em sânscrito, que os árabes nos fizeram saborear como al zukkar e hoje usamos para celebrar o nascimento de Cristo e fazer disparar a glicemia. Como proclamava Álvaro de Campos, «as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.»

Nostalgia lo-fi

Wools – Roberto in the Summer (de From Fornelo, 2010)

Tédio

tédio

Sem ser adivinho, consigo decifrar à distância de cinquenta anos uma notícia em destaque no dia 4 de Dezembro de 2060, quando se comemorar o quadragésimo aniversário do desaparecimento do último jornal em papel e as gerações mais novas falarem todas, com alguma familiaridade, um 官话 técnico (ou mandarim simplificado) ensinado desde a pré-primária: «o Parlamento Europeu vai discutir a criação de uma nova comissão de inquérito destinada a reapreciar o caso Camarate». Se ainda for vivo, nesse dia morrerei de tédio.

Perigoso é ter ideias perigosas

Danger

Em Ideias Perigosas para Portugal João Caraça e Gustavo Cardoso inspiraram-se numa ideia de John Brockman e acomodaram-na à procura de futuros para Portugal e para os portugueses. O projecto juntou testemunhos, originários de diferentes quadrantes disciplinares, de pessoas que se dispuseram a «pensar perigosamente». Cada argumento deveria ligar-se a «uma alteração da ordem que a ordem existente não pode conter», colocando em causa «a forma como dominamos a realidade». Todavia, do confronto entre este objectivo sedutor e o conteúdo dos 62 depoimentos publicados resulta por vezes algum desapontamento. As razões serão múltiplas mas subordinam-se a uma constatação: a de que não pode fazer-se equivaler o que é diverso ou destoante, mas exequível, ao que é verdadeiramente perigoso, arriscado, subversivo. De facto, algumas das intervenções contidas neste livro preocupam-se mais com o inventariar de lógicas viáveis do que em conceber viragens profundas ou impossíveis desejáveis. Fazem-no até de uma forma bastante prudente e calculada – logo, pouco perigosa –, como acontece com as que abordam o aperfeiçoamento dos processos administrativos, a eficácia do sistema judicial, a redução do funcionalismo público, o exercício do poder como processo técnico e a descentralização política. Aqui abundam propostas ainda aceitáveis numa lógica de consenso.

Mas deparamos também com projecções arrojadas cujos autores foram capazes de pensar utopicamente para lá do factível, aventurando-se por trilhos difíceis que nos fazem conjecturar sobre aquilo que não é mas poderia ou deveria ser. Como as que reclamam uma expansão sem complexos dos saberes em rede, a publicitação sistemática dos projectos fracassados, a experiência tentadora de um semestre sem governo, um amplo desarmamento das forças armadas, uma federalização europeia empreendida sem preconceitos, o alargamento dos tempos e dos meios do lazer, o repensar integral do pulsar das cidades, a refundação das universidades ou o regresso ecológico ao saber dos clássicos. Elas demonstram o valor substancial da boa ideia que presidiu à organização deste volume. A procura de outras vozes, enraizadas na experiência criadora das artes e das poéticas, numa prospecção afoita no campo das humanidades, na dimensão estruturalmente especulativa da ciência ou na intervenção inventiva da radicalidade política, filosófica e social, poderá oferecer um resultado ainda mais audacioso e incitante. O matemático Orlando Neto esclarece, no elogio do pensamento crítico do qual resulta um dos mais estimulantes textos, que «perigoso, perigoso, é implementar ideias». O exercício tem, pois, pernas para continuar o seu caminho.

[João Caraça e Gustavo Cardoso (Coord.), Ideias Perigosas para Portugal. Propostas que se arriscam a salvar o país. Tinta-da-China. 304 págs. Adaptação de um texto publicado na revista LER de Novembro de 2010.]

A menina dança?

Encontrei no Arquivo da Internet Portuguesa alguns pequenos textos publicados noutros blogues e que julgava perdidos. Recupero para já este, escrito em 2005 após o encontro casual com um manual de dança de salão. Segue com dedicatória a quem tem feito constar de maneira infame que este blogue «anda demasiado sério».

A menina dança?

Uma tarde de domingo será sempre uma boa tarde para rodopiar. Por companhia Dança Comigo, um compêndio achado numa feira do livro que oferece por um singelo euro os conselhos avisados de quem se vê logo ser pessoa experiente. Anuncia o autor, o Sr. Castelló, que, ao dançar, deve «a dama» saber-se inequivocamente conduzida. E, dócil, sacarina, «sentir a mão do cavalheiro nas suas costas e na sua omoplata, com firmeza e segurança». Certo o lesto varão de que à expectante fêmea «mão frouxa e apática lhe não inspirará confiança». Deverá, porém, mostrar-se a mulher complacente para com as dificuldades que, nas viravoltas do baile, possa o acompanhante revelar. Se tal acontecer, solução haverá, esforçando-se ela por dançar «um pouco em pontas e tentar voltar o dedo grande do pé em direcção ao passo que vai dar, sempre como prolongamento do tornozelo e nunca da planta do pé». Sugere ainda o mestre que, seja qual for a situação, se revele sempre a maior compreensão «para com os cavalheiros principiantes», pois, magnânimo, assegura que «um olhar, um gesto ou uma palavra de censura podem desmoralizar completamente o cavalheiro inseguro», sendo certo que, a partir de tão fatídico momento, este «não mais consiga acertar durante o resto da música». Quase duzentas páginas, suadas e vertiginosas, de contributo editorial para a compreensão entre os povos. Igualmente capazes de se revelarem uma fonte de aflições e de eventuais entorses. Ou de sucesso no amor.

Aconteceu em Novembro

Natal/2010

Eu sei que hoje são 16 de Novembro, que estamos ainda a seis semanas do Natal e que isto não podia acontecer. Mas aconteceu mesmo. Lia o jornal pela manhã, comme d’habitude com a cabeça submersa entre as páginas. Alheio ao ruído de fundo e ao tráfego dos passantes. De repente, mesmo à frente dos meus olhos, uma mão grossa, seguida de um punho de falso arminho e depois de uma manga larga em tecido vermelho-vivo, que procurava cumprimentar-me. «Estás bom, pá? Então que é feito de ti?» Assustei-me um bocado com aquele Pai Natal inoportuno. Depois pensei que poderia ser Ele mesmo, o verdadeiro, vindo do Norte mais a Norte para anunciar que me tinham enganado quando me contaram que não existia. Tinha de ser o meu Pai Natal, pois além de parecer conhecer-me até me tratava por tu. Só depois de me recompor comecei a perceber que aquilo não fazia muito sentido, que eu, um materialista agnóstico, não podia ter andado tanto tempo enganado. O próprio se encarregou então de esclarecer o enigma: por cinco segundos desviou a falsa barba o suficiente para eu poder reconhecer um antigo camarada dos tempos em que andei a brincar às guerras. Não fui capaz de lhe perguntar se participava em alguma campanha de solidariedade, ou, mais prosaicamente, se carecia de uns euros para aguentar a crise. Só me ocorreu dizer: «Porreiro, pá. E tu? Estás na mesma.» A conversa acabou ali porque uma criança escoltada pela mãe mostrou vontade de interagir com o simpático velhinho. Fiquei sem saber se me queria dar uma prenda, se pretendia que eu lhe emprestasse uma nota, ou se tinha só gostado de me rever. Esta mania de anteciparem o Natal dá cabo de mim.

Livros que não li (1)

Ryszard Kapuscinski

Kapuściński Non-Fiction, de Artur Domoslawski

Uma vez, no século passado, antes ainda de Abril de 1974, tentava eu sair do Porto com destino ao sul – tinha ido a uma manifestação-relâmpago no 1º de Maio e ainda vinha com os valores da adrenalina em alta – quando apanhei boleia de um sujeito que conduzia um carro topo de gama e tinha todo o aspecto de um daqueles contra os quais os meus camaradas me tinham prevenido. Éramos dois rapazes e eu, o mais tímido dos dois, preferi o banco de trás, no qual sentiria menos o dever de fazer conversa com «o burguês». Foi nessa altura que vi, sobre o banco traseiro, um exemplar de um livro de Lenine, Como Iludir o Povo, julgo que ainda na velha edição da Centelha. Puro engano do homem, naturalmente, pois se é verdade que Lenine sabia enganar o povo, não era bem no sentido que aquele sujeito com ele provavelmente esperava treinar. Com a devida distância, talvez tenha sido por uma confusão análoga que Como falar dos livros que não lemos?, do psicanalista e professor de literatura Pierre Bayard, chegou em 2007 a ser o no. 1 do top de vendas em França.

Mas claro que este título é uma piada e apenas enganará os tolos. Só mesmo um viciado na leitura pode escrever um livro como aquele, que trata sobretudo do drama do grande leitor, ou do crítico que o é também forçosamente, quando colocado perante a paisagem vasta até à desmesura, e que não pára de crescer, dos livros que jamais poderá ler pois não tem tempo de vida suficiente para o fazer: «a leitura é primeiro que tudo a não-leitura e mesmo para os grandes leitores que lhe consagram toda a sua existência, o simples gesto de pegar e de abrir um livro encobre sempre o gesto inverso.» Por isso são tão importantes os livros que lemos quanto os livros que não lemos, ou que ainda não lemos. Se não formos distraídos, uns levam-nos a outros e por uns poderemos entrever aquilo que os outros poderão conter, levando-nos a procurá-los, a oferecê-los ou mesmo a falar deles a quem nos queira ouvir Quem nunca recomendou um livro que jamais leu – seja ele a Bíblia Sagrada, um romance de Salman Rushdie ou a biografia de José Mourinho – que atire a primeira pedra.

k_nonfictionÉ a partir desta ideia que passarei a falar aqui, de vez em quando, dos livros que ainda não li ou que jamais lerei. Dos quais sempre adiei a leitura, como os sete tomos de A la recherche du temps perdu, de Marcel Proust, que cheguei a ter alinhadinhos na estante. De quem não tenho vontade alguma de ler o quer que seja (admito que por ignorância e mau feito), como qualquer romance, apostilha ou conta da mercearia de José Rodrigues dos Santos. De quem nada posso ler uma vez que se trata de um autor que não existe e acabo de inventar, como o austríaco Paul Wassenberger. Ou de autores que conheço mas de quem não li «aquele» apenas porque ainda o não apanhei a jeito, como Non-Fiction, a biografia de Ryszard Kapuściński (1932-2007) escrita pelo jornalista Artur Domoslawski e que é já um best-seller na Polónia. Ela promete dar a conhecer melhor o passado de espião ao serviço do regime comunista polaco e de grande cultor de um certo «jornalismo ficcionado» que, post-mortem, fez e faz dele uma figura simultaneamente duvidosa e fascinante. Este está na calha, podem crer.

Back in 1969

Jim

O governador da Florida, Charlie Crist, sugeriu que Jim Morrison possa vir a receber um perdão póstumo da condenação por ter mostrado tudo, e simulado mais umas quantas coisas na linha do supostamente indecoroso, durante um concerto público que teve lugar em Miami há cerca de 41 anos. Acho mal, pois vão prejudicar o bom nome do ex-vocalista dos Doors. O próximo passo deverá ser a divulgação maciça deste vídeo iconoclasta. Mas não a deste.

Estado de espírito

Corsário

«Sentia ganas de ir oferecer os seus serviço aos corsários, mau grado a proibição de El-Rei.» Se é verdade que a História não pode repetir-se, sob determinadas circunstâncias pode pelo menos imitar-se.

Agora não, talvez depois

Num acesso súbito de imodéstia, pensei em escrever um post crítico mas optimista sobre os caminhos previsíveis da nossa vida colectiva num tempo próximo presente. Mas fui incapaz, não me saiu uma ideia, não consegui ver mais longe do que um palmo à frente do nariz. O nevoeiro está cerrado, o terreno escorregadio e falta-me uma lanterna.

nonsense

Palavras rápidas

As palavras e a crise

Quando tive a primeira gramática – se não me engano a de Pires de Castro, que já vinha do final dos anos trinta e herdei de um tio – fixei-me, como qualquer criança normal que prefere o misterioso e o inesperado, nas interjeições. Essas palavras-relâmpago, indeclináveis, que nunca mudam mas revelam sempre fortes estados emocionais e sensações súbitas. Que empurram sem nos deixarem pensar, que incentivam ou assustam dispensando frases que demoram demasiado tempo a pronunciar. Com algumas foram casos de amor à primeira vista: Apre! Irra! Arre! Ufa! Eia! Sus! Mesmo o Ai! e o Ui! pareciam bombons para quem achava ainda que a dor durava só um segundo. Existiam também aquelas que o padre confessor traduzia numa penitência infernal de dez salvé-rainhas, trinta pai-nossos e cinquenta avé-marias, como Porra! Merda! Chiça! e outras que os vocabulários impressos omitiam. A vida vivida foi trazendo mais, menos vulgares, imperativas, como Oxalá! Coragem! Força! Avante! Tchau! Uau! Já o assanhadiço Capitão Haddock ensinou-me as melhores: Raios! Coriscos! Ectoplasma! Equinoderme! Cercopiteco! Lembrei-me de todas elas por estes dias ao sentir na pele os pesados açoites do PECIII, ao ouvir as palavras dos economistas de uma nota só que pedem mais e mais sangue, ao ver os noticiários dos canais de televisão que se comprazem em deixar-nos mais deprimidos a cada minuto. Credo! Chega! Socorro! Rua! Ah! Aaaaaahhhhhh!

Sol e poeira

Open Range

Havia tempo. Tinha saudades de um western normal e previsível. Daqueles onde os maus, gananciosos e sem piedade, se encontram de olhos nos olhos com os bons, firmes quando é preciso mas sempre generosos, sob um sol toldado pela pólvora e pela poeira. Noite fora e sem pipocas, vi ontem, via RTP1, Kevin Costner e Robert Duvall em quase três horas de um filme assim.

«Waite, Spearman, Button e Harrison tentam fugir ao passado, criando gado nas pradarias, onde a lei é a da Natureza. Os cowboys tentam seguir um código de lealdade e integridade e evitam a violência. Ao chegar a uma cidade dominada pela corrupção e tirania, no entanto, estes homens são forçados a entrar em acção.»

No final de Open Range (A Céu Aberto, de 2003, dirigido por Costner), e em harmonia com o modelo, consumada a justiça o pistoleiro de boa índole pediu em casamento a moça compassiva – bem, já não era tão moça assim pois «já lhe despontavam as cãs» – que sempre esperara por ele. E a paz regressou à pradaria. Quando apareceu no ecrã o clássico «The End» transpirava um pouco e tinha na boca o sabor inconfundível de um filme «para maiores de 12 anos». Tinha saudades.

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Não, obrigado

camisa branca

Não diria que é aquilo que mais temo perante a possibilidade de a crise política que se adensa nos empurrar para as mãos de Pedro Passos Coelho. O que pode acontecer aos destinos do país e à vida das pessoas, entregues de vez à volúpia da «cultura empresarial», afigura-se bem pior do que o aspecto de quem venha a gerir o estabelecimento. Mas é este, seguramente, um dos factores que me perturba. Ponderar como inquilino da residência de S. Bento um típico e obstinado beto dos eighties, seguido por um séquito de réplicas, é um pesadelo que me tem povoado as noites. Ser governado por alguém que aparenta querer impingir-nos a qualquer momento um pólo da Lacoste ou da Ted Lapidus, penteado «à Joe Dassin», de discurso tenso e redondo, soturno e previsível, ter de conviver diariamente com a seriedade enfatuada e a representação icónica do aborrecimento, constitui para mim uma preocupação adicional de ordem estética e ecológica. Talvez pareça um tanto frívolo e com angústias de baixa densidade política, mas não encontro nada que afaste de mim este enjoo. Já a cidadã Zulmira Ferreira, cujo voto vale rigorosamente o mesmo que o meu, pensa de forma muito diferente.

Esclarecimento ao Dgmo. Público: Este post não é um apelo ao voto útil.

Fantasia

navegar é preciso

Há bem mais de um ano que não controlava as frases depositadas nos motores de busca que transportam os leitores irregulares até este blogue. Mas devia fazê-lo mais vezes porque aprendo sempre imenso sobre as fantasias e os conflitos mais cavados de quem me lê de raspão. Nesta semana duas frases se destacam de todas as outras: «meninas vestidas de soldado» e «se eu gostasse muito de morrer». Em ambos os casos a minha imaginação, que por estes dias se tem sentido tristemente paralisada, libertou-se e voou à solta. E a sua?

Egas e Gilberto

Vila Nova

Ruínas da Casa de Vila Nova, quinta onde viveu D. Egas Moniz

Com um bocado de preguiça para ir agora à procura de livros e de fotocópias que li e guardei há uma data de anos, sirvo-me da Infopédia para num exercício acrobático de copy-paste me referir a um dos mitos que povoaram a infância de muitos compatriotas de outras eras, identificando um dos esteios da linhagem de heróis e de santos, ou de santos-heróis, que um dia fizeram com que Portugal se tornasse Portugal.

«Conta a lenda que, por altura do cerco a Guimarães, Egas Moniz, aio de D. Afonso Henriques, decidiu negociar a paz com o monarca castelhano Afonso VII. A troco da paz prometeu-lhe a vassalagem de D. Afonso Henriques e dos nobres que o apoiavam. Afonso VII aceitou a palavra de Egas Moniz. Um ano depois, D. Afonso Henriques quebrou o prometido e resolveu invadir a Galiza. Vestidos de condenados [e de baraço ao pescoço, prontos para a forca, rezam algumas vozes, RB], Egas Moniz e a sua família apresentaram-se na corte de D. Afonso VII, em Castela, pondo nas mãos do rei as suas vidas como penhor da promessa quebrada. O rei castelhano, diante da coragem e humildade de Egas Moniz, decidiu perdoar-lhe. Ao entregar-se, Egas Moniz ressalvava a sua honra e também a de Afonso Henriques, assegurando através da sua astúcia a futura independência de Portugal.»

Acrescento alguns dados que me deu menos trabalho obter: Egas, filho de D. Munho (ou Muninho) Ermiges de Riba Douro e de D. Ouroana, pertencia a um das trinta famílias que originaram a nobreza de Portugal. Combateu os mouros entre 1106 e 1111, governou a região de Lamego a partir de 1113 e durante cinco ou seis anos. Foi por essa altura que o Conde D. Henrique lhe entregou como pupilo o irrequieto filho, Afonso Henriques, que D. Egas passou a acompanhar. O episódio lendário encontra-se associado ao termo do cerco de Guimarães pelo exército de Leão, ocorrido em 1127 (quando Afonso VII ainda era somente rei da Galiza e Leão; em breve sê-lo-ia também de Castela, juntando mais tarde Navarra e Aragão). Em 1136 Moniz tornar-se-ia figura fulcral da corte do nosso primeiro rei, morrendo dez anos depois, coberto de honras, propriedades e divinas bênçãos. A lenda, essa veio muito mais tarde, quando alguns dos seus descendentes requereram da monarquia algumas prebendas devidas pelo suposto testemunho de honradez que o seu avoengo ofertara.

Julgo não ser de todo inopinada a associação deste episódio à ida do burguês licenciado D. Gilberto Madaíl, nascido no Congo mas português de quatro costados, e do jurisconsulto D. João Rodrigues, homens-bons do governo da Federação Portuguesa de Futebol, a Madrid, a fim de prestarem vassalagem ao Condestável D. José Mourinho, solicitando os seus préstimos para salvar a pátria futebolística da miséria e do opróbrio. Este recebeu-os com primor, brindando-os com uma lauta refeição, na presença de damas, moços da escuderia e de alguns menestréis, e tudo fez para que os enviados portugueses pudessem chegar à fala com o seu senhor, D. Florentino Pérez, alcaide-mor do Real Madrid, a fim de selar o desejado pacto. Infelizmente tinha D. Florentino a agenda muito preenchida e não os pôde receber, pelo que regressaram os gentis-homens portugueses aos seus territórios sem lograrem cumprir o preito de sujeição ao qual tinham sido cometidos. Ficaram assim impedidos por ora de acautelar os destinos do reino e de por tal via retomarem a lendária e exemplar gesta de D. Egas, que Deus conserve em sua guarda pelos séculos dos séculos.

Adenda: Raramente aqui trato de futebol, mas neste caso a preocupação com os destinos da pátria falou mais alto.

Malas aviadas

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Nunca estive em Cuba e não sei se algum dia por lá poderei passear de sidecar, como Ry Cooder passeou sobre o asfalto estaladiço que debrua o Malecón. Durante um certo tempo, enquanto a ilha me serviu de cenário para projectar um outro mundo possível, tive alguma pena de não conhecer Havana. Depois, com os indícios que foram chegando – os sinais de fumo lançados pelos primeiros dissidentes, os relatos das conversas com pessoas que tinham visitado a ilha, as declarações transparentes dos responsáveis pelo regime – senti-me incapaz de por ali me fazer passear de chinelos e Kodak ao tiracolo. Não, não há sol, não há rumba, não há tabaco forte ou mulatas prestáveis, tudo coisas boas para o meu gosto simples, que me façam desviar os olhos da opressão. Jamais me sentiria lavado, sem culpa, a passear por uma prisão a céu aberto como turista remediado ou convidado de um congresso. Nada tenho contra as pessoas que por ali fizeram já o seu tour caribenho, mas conservo uma consciência politica demasiado empenhada para o fazer sem sentir que traía uns quantos princípios (senti o mesmo perto de Marraquexe, quando assisti contrariado a uma encenação triste da alegria berbere). No entanto, talvez agora o panorama mude um pouco: com o despedimento forçado de um milhão de funcionários públicos cubanos que rapidamente terão de encontrar algures uma qualquer forma de sobrevivência, talvez a vida cubana se possa ver forçada a dar um salto análogo àquele que ocorreu, nos anos setenta e oitenta, em certos países do leste europeu. Crescerá então, inevitavelmente, um mundo alternativo, underground e miserável, com o qual poderei conviver, ainda que dolorosamente. Nessa altura talvez possa desembarcar no aeroporto internacional José Marti. Com alguma sorte, verei uns sujeitos de óculos escuros, barbas brancas e peúgas verde-oliva um bocado puídas apanhando um avião em sentido contrário.

Os juros e a evolução da espécie

juros

Passei hoje três quartos de hora num banco à espera de ser atendido. Como cometi a imprudência de não levar nada para ler, pois acreditava ingenuamente que tudo seria rápido, tentei despistar o tédio respondendo a mails com recurso ao meu fiel iPhone. Com a consciência de estar a passar, junto dos circunspectos companheiros de infortúnio, por mais outro maluquinho do SMS. Cansado de dedilhar, levantei-me e cada vez mais impaciente comecei a andar de um lado para o outro lendo um a um todos os cartazes com anúncios de produtos financeiros. Desses que prometem a felicidade suprema desde que a paguemos em prestações mensais com taxas «indexadas à Euribor». Dei então com um anúncio especial, destinado «aos jovens». Prometia uma linha de crédito para pagar viagens, bilhetes para concertos, roupa (o cartaz chamava-lhe «moda»), gadgets electrónicos e, pasmem-se os e as mais inocentes, «experiências». «VALE TUDO!», proclamava o reclame em enormes caracteres. Endividar-se aos 18 anos e continuar nesse mesmo estado aos 68 deverá, entretanto, produzir alterações sensíveis no comportamento humano e no relacionamento intergrupal. Pode ser que a expressão «VALE TUDO!», aplicada pelas instituições credoras à grande massa de endividados, siga então essa evolução. Escravizando-os, por exemplo, já que não caberão todos nas prisões. E forçando-os a trabalhar como «cobradores do fraque». Isto se o sistema não estourar antes, claro, regredindo a espécie a esse estado natural de «guerra de todos contra todos» desenhado por Hobbes no Leviathan. O que justificaria, com toda a certeza, a suspensão imediata dos pagamentos de juros.

Quadro negro

quadro negro

Em Havana, Yoani Sánchez foi matricular o seu filho numa escola do ensino pré-universitário. Depois de ler um aviso ali afixado num quadro negro ficou na dúvida sobre se Teo iria entrar numa escola pública ou no serviço militar.

Acerca del uniforme: Las hembras no usarán más de un par de aretes. Las camisas y blusas se usarán por dentro. No se les harán pinzas, recortes para ajustar al cuerpo o que queden por encima de la saya o pantalón. No sustraer los bolsillos. Las sayas deberán tener  un largo de 4 centímetros por encima de  las rótulas de las rodillas. No se permitirán sayas pélvicas, decoloradas o con marcas de planchado. Los pantalones deberán ajustarse a la altura de los zapatos. No se permiten pantalones pélvicos. Las hembras no usarán maquillaje. No se permiten pulsos, collares, cadenas ni anillos. Los atributos religiosos no podrán estar visibles. Los zapatos serán cerrados y las medias blancas y largas. No se portarán MP3, MP4, celulares. Los varones no usarán aretes, presillas ni piercing. Los cintos deberán ser sencillos y sin hebillas excéntricas, grandes o a la moda, estos deberán ser de color negro o carmelita.

Acerca del cabello: Los pelados, peinados y afeitados deben ser los correctos, eliminando toda excentricidad y modismos ajenos al  uso del uniforme. No se permite en los varones: el pelo largo, pintado, pinchos largos, ni figuras en el cabello. Las hembras no usarán aretes colgantes. Las prendas a usar en el cabello deben ser: azul, blancas o negras. Estas tendrán un tamaño acorde. El cabello de los varones no debe exceder los 4 centímetros.

Um obrigado pela dica à Joana Lopes.

Tiros, marchas, desfiles & explosões

Operação de charme da República Democrática Popular da Coreia (do Norte) em canal próprio do You Tube. Um apreciável esforço para impressionar o mundo ao qual não falta uma banda sonora de invulgar qualidade.

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Desesperar é preciso

discussão

Sublinho Santiago López-Petit, em A Mobilização Global, enquanto penso nesta cultura do um contra o outro apresentada como único cenário do futuro sem esperança em nome do qual tudo nos é pedido.

«Estamos sós face ao mundo. Ou, o que é o mesmo, interiorizámos aquilo que os nossos governantes nos repetem incessantemente: ‘a vossa situação depende apenas de vós mesmos’. E acreditamos que é assim. Temos nós próprios que sair do atoleiro, o que dito pelas palavras próprias da cultura empresarial significa que temos de nos avaliar continuamente. Contra nós mesmos, contra os trabalhadores dos outros países que se esfalfam por conseguir a mesma produção cobrando menos. Incerteza que gera insegurança, insegurança que produz medo. Medo do outro que é como eu. Medo do outro, que é estrangeiro, porque não é como eu. (…) O [novo] estado de natureza alastra como um mar enfurecido até cobrir-nos por completo.»

E mastigo a certeza de que a esperança apenas pode nascer do desespero.

Requiem marítimo

Sagres

Como a larga maioria dos portugueses, pouco andei de barco ou em meios de locomoção afins. Mesmo os trajectos africanos foram percorridos de avião. Recordo-me de umas quantas remadelas em lagos artificiais ou modestos riachos, de duas viagens de cacilheiro e de uma travessia do estreito de Gibraltar. Também andei algumas vezes de «gaivota». Ou melhor, pedalei com força para deslocar o veículo. Muito mais do que isso só a bordo do Kon-Tiki de Thor Heyerdahl, do Calypso de Jacques Cousteau, do Relâmpago do Corsário Negro e no paquete onde se desenrolou aquele enredo «anarquista» – que valeu uma proibição em diversos países – de Monkey Business, o filme dos Irmãos Marx. Para além, claro, de ter ido por diversas vezes ao fundo com o Titanic. Isto é, apenas andei embarcado em imaginação. Mas sei o suficiente de História e de caminhos marítimos para perceber que o navio-escola Sagres tem funcionado como definitivo avatar da nossa autorepresentação enquanto «navegantes». Por isso a proibição de atracar em Macau dada ao veleiro pelo governo chinês é particularmente humilhante. E por isso não é aceitável que as autoridades portuguesas se limitem a achar o facto mais ou menos normal. Sem um lamento, um protesto, um epitáfio. Restam-nos assim os ferry-boats fretados. E, a mim, realizar a adiada travessia do Atlântico entre Portimão e o Funchal. A bordo do indomável Volcán de Tijarafe.

This is what dreams are truly made of

Bebé

No Verão os sonhos acontecem. No mundo do futebol em particular. Djelmar transferiu-se para o Deportivo de Villanueva del Fresno e afirmou «viver um sonho». Britinho assinou por dois anos pelo F.C. de Mogofores e declarou à Trombeta das Beiras ser esse o seu «sonho de menino». Kadu passou do Libertadores do Ceará para o Recreativo de Mocoró e afirmou à torcida mocoroense ser a mudança um sonho feito verdade. Mas nada de comparável ao que aconteceu com Tiago Manuel Dias Correia, Bebé, o rapaz nascido no Cacém que ainda há um ano jogava futebol de rua e agora, praticamente sem experiência de futebol profissional, foi vendido pelo Guimarães ao Manchester United por 10 milhões de euros. Sem formação que não a obtida em ruelas empedradas, pracetas de subúrbio e campos carecas. Sem longos anos a dar cabo dos olhos com livros ilustrados e monitores magalhânicos para «adquirir competências». Presumivelmente sem saber inglês técnico. Claro que Bebé nos diz, deslumbrado, ser «um sonho» poder jogar de vermelho no relvado de Old Trafford. Quem somos nós para o fazer cair na realidade?

Ambição

biblioteca portátil

Não sou um tipo venal. Não penso que «todos temos um preço», diferenciando-se os honestos apenas por serem mais caros. Mas a alguém que me ofereça uma coisa destas entregarei a alma sem exigir recibo. Sugere-me um salvo-conduto para a felicidade suprema – que, como se sabe, é leve e portátil  – e essa não tem preço.

Mrs. Peel

Mrs. Peel

Diana Rigg faz hoje 72 anos. Nunca foi uma star, nove em cada dez, das que entravam em banheiras cheias de espuma para anunciarem o sabonete Lux, mas a partir de certa altura foi Emma Peel, a companheira pró-activa e multitarefas do agente John Steed na série de televisão The Avengers, Os Vingadores, rodada entre 1961 e 1969. Steed era um agente do MI6 com aspecto de inglês «típico»: chapéu de coco, fraque sem ruga, um inseparável guarda-chuva muito bem enrolado e a omnipresente dose de fleuma. Já Mrs. Peel destoava da tradicional ajudante, sedutora, um tanto tola e absolutamente secundária na trama das outras séries. Pelo contrário, o trabalho pesado – socos, cabeçadas, fugas impossíveis, activação de engenhos explosivos e uns quantos tiros bem aplicados – ficava sempre por conta da agente em roupa futurista de cabedal negro, dotada de vastos conhecimentos de karaté e praticante de elevado nível de boxe tailandês. Aqui residia, aliás, o ineditismo da série, a sua marca caracteristicamente sixtie e vagamente feminista (Barbarella, a série de BD e o filme de culto, foram contemporâneos dos Vingadores). Talvez por isto a série de televisão se tenha tornado rapidamente popular. Diana Rigg foi também uma fugaz «Bond girl» e a madrasta má numa versão da Branca de Neve, mas será para sempre a intrépida – e  por isso singularmente sexy – Mrs. Peel.

Duas adendas em vídeo: Mrs. Emma Peel + Emma Peel in tight leather catsuit…

Mudando de planos

O mirone

Comprei o tal número da Playboy portuguesa com o objectivo de um dia o doar, em conjunto com uma colecção completa da Gaiola Aberta e números avulsos do Mundo Ri, a uma qualquer biblioteca pública ainda não subjugada ao império do digital. Coloquei também a hipótese de fazer passar pelo scanner, para ilustrar este post, uma daquelas fotografias, pespegadas na revista, de um Cristo com aspecto de baixista dos Delfins acompanhado de uma menina «estrepitosa» (como se dizia na era da Gaiola Aberta e do Mundo Ri). Puro equívoco: a arte ostentada é medíocre e, Jesus Christ!, não vale a pena desfear um blogue que tanto me custa a polir.

A escolha

O teutónico polvo Paul, bem como um crocodilo e um panda ligeiramente menos mediáticos, escolheram a Espanha. Um periquito indonésio decidiu-se pela Holanda. Como sempre, tomarei o partido dos mais fracos.

Distopia 1838

Silêncio

No Dictionnaire des Lieux Imaginaires, Alberto Manguel recorre a uma fábula de Edgar Allan Poe publicada em 1838 para descrever uma terra do Silêncio terrível e atraente, ficcionada mas nem por isso menos temível. Muito longe ainda dos devaneios ecologistas que no Ocidente despontarão bastante mais tarde, exprime-se aqui, em plena afirmação do capitalismo industrial, a sensação do carácter aflitivo, constrangedor, de uma natureza estagnada. A felicidade que muitos concebiam ancorava então no triunfo da máquina, no convívio com o fumo negro das enormes chaminés, no contacto diário com o ruído e a limalha de ferro. Apesar do empolgamento de alguns românticos com a nostalgia da natureza, nada parecia mais estranho, medonho, demoníaco, do que um mundo completamente paralisado.

SILÊNCIO. Região da Líbia, delimitada pelo rio Zaire, cujas águas, amarelentas e insalubres, jamais atingem o mar, palpitando eternamente sob o Sol, numa efervescência convulsiva. Ao longo de quilómetros o leito do rio encontra-se juncado de gigantescos nenúfares. A região sufoca debaixo de uma floresta maléfica e sombria, com flores envenenadas e uma vegetação rasteira perpetuamente agitada, apesar da ausência de vento. Na margem do rio existe um grande rochedo cinzento no qual um conjunto de caracteres gravados forma a palavra Desolação. Todo o país vive debaixo da maldição do silêncio. A lua permanece imóvel e relâmpago algum perturba o céu, no qual as nuvens permanecem sem trânsito algum. Experimenta-se ali a angustiante sensação de vivermos atacados pela surdez e reduzidos a um total mutismo.

Problemática albanesa

Hoxha

Depois do post anterior sobre Ismail Kadaré e (um pouco) sobre o seu último livro, retorno à problemática albanesa, uma vez que esta não me sai da cabeça. Não por ser problemática, mas por ser albanesa. Acontece que sempre me pareceu profundamente injusta a menorização – por comparação com o impacto do exemplo chinês – da influência do «país das águias» na projecção, à gauche do PCP, de uma alternativa ao regime caduco do «Salazar que ri», como alcunhava o povo a Marcello Caetano. Mas a verdade é que para muitos marxistas-leninistas-maoístas, esvaziada por uma vez a Grande Revolução Cultural chinesa, Enver Hoxha é que estava a dar. E se ninguém se proclamava hoxhista era só porque a palavra soava mal e podia prestar-se a confusões pouco conciliáveis (ou talvez não) com a moral proletária. Muitas horas de nocturno descanso foram consumidas a ouvir a onda curta, vociferada em português do Brasil, que começava assim: «Aqui Rádio Tirana, voz do Partido do Trabalho da Albânia e do marxismo-leninismo, a sua doutrina sempre jovem e científica». Ao que se seguia invariavelmente uma versão bastante singular da Internacional, umas frases do camarada Hoxha «sobre a situação política mundial», as últimas novidades da guerrilha do Araguaia e 15 minutos de música folclórica do distrito de Gramsh, província de Elbasan.

No que me toca, a problemática albanesa teve ainda um outro impacto, associado a um certo virar de página. Em Abril de 1977 veio a Portugal uma delegação do Partido do Trabalho da Albânia – episódio já mencionado pela Ana Cristina Leonardo na sua Pastelaria –, destinada a ornamentar o primeiro comício público do PCP(R). Num último assomo de convicção pessoal na força da tal «doutrina sempre jovem e científica», ainda fui de camioneta até ao comício no Campo Pequeno para saudar os camaradas albaneses. O momento parecia festivo: muitas bandeiras vermelhas, faixas com palavras de ordem como «os ricos que paguem a crise» e «abaixo a democracia burguesa», música do GAC, julgo que também alguns retratos de Estaline, de Mao e do camarada Hoxha. Mas a festa esmoreceu rapidamente com a entrada em cena da delegação albanesa: um pequeno grupo de idosos de rosto impassível, com chapéus à Al Capone, lenços de Cachemira impecavelmente dobrados no pescoço à maneira dos galãs dos anos 40, e enormes sobretudos cinzentos a contrastarem com o sol de Abril, que conservavam abotoados enquanto batiam palmas daquela forma compassada e aborrecida que podemos observar agora no You Tube. Uma viagem no tempo em forma de pesadelo. E nós que tanto desejáramos encontrar antigos guerrilheiros de porte enérgico e uniforme de partisan, se possível de cartucheira a tiracolo, prontos a esmagar «o imperialismo e o social-imperialismo», empenhados em dar-nos a força da qual tanto precisávamos para resistir à longa ressaca do 25 de Novembro! Creio que o meu entusiasmo esmoreceu logo ali um bom pedaço. E meses depois tinha-me convertido num «independente de esquerda» um tanto problemático. Graças, em parte, à falta de graça dos camaradas albaneses. A juventude não perdoa. Na época dir-me-iam que a «ideologia de classe» também não.

O nosso Kim Philby

Miguel de Vasconcelos

Falo um pouco de futebol, que é de momento aquilo que nos vale para não entrarmos todos em depressão profunda. O senhor António José Conceição Oliveira, mais conhecido por Toni, antigo jogador e treinador de futebol e figura pela qual até mantinha uma certa simpatia, foi contratado pela selecção da Costa do Marfim para informar o seu Mister – Sven-Goran Eriksson, o conhecido cidadão sueco que foi em tempos anunciante da aguardente Macieira – dos prós e dos contras da equipa portuguesa. Não se trata de uma ligação profissional prévia, que imporia naturalmente deveres de lealdade, mas sim de um contrato recente, feito de propósito para quem o assinou vender informações ao inimigo e trair a sua pátria. Temos pois, finalmente, o nosso Kim Philby. Ou um novo Miguel de Vasconcelos. A escolha é vossa.