Arquivo de Categorias: Direitos Humanos

Mandela e os crocodilos

Dostoievski declarou certa vez que as suas maiores angústias derivavam de «uma doença incurável chamada consciência». Não padecem de tal doença os moralistas de direita, insaciáveis na sua sanha de se baterem contra todas as iniciativas que têm como objetivo a expressão concreta, vivida, da solidariedade humana – não, não conta para este campeonato a sua preocupação natalícia com a caridade – quando vertem lágrimas de crocodilo pela morte de Nelson Mandela. Bem os vi, a eles ou aos paizinhos deles, muito calados e quietos enquanto o herói ocupava a cela com número 466/64 na prisão da Ilha Robben.

    Apontamentos, Biografias, Democracia, Direitos Humanos

    Os uivos

    A partir do blogue 1 dia atrás do outro cheguei à imagem que acompanha este post. Trata-se do exterior de um banco brasileiro em Manaus. Cito: «Os sem-abrigo costumavam abrigar-se ali do sol e da chuva. O banco acabou com o “abuso” (se é sem-abrigo não se pode abrigar, ora essa) mandando colocar pedras pontiagudas no passeio.» Segue-se a descrição ilustrada de um caso análogo, ocorrido com uma agência local do BBVA. Não se trata, porém, de situações raras, casuais, esporádicas, mas de um sintoma, de uma tendência, que representa algo de avassalador para a experiência do mundo, pelo menos do mundo «desenvolvido» num processo de respeito consensualizado pelos direitos humanos mais elementares, tal qual ainda há menos de uma década o podíamos entender. (mais…)

      Apontamentos, Direitos Humanos, Olhares

      Ainda as praxes

      praxis

      1. Voltou a reacender-se o interminável debate público sobre as «praxes académicas». Trata-se de uma discussão quase sempre bastante crispada, opondo os que nelas vêm uma forma de viver a academia e, presumem, de salvaguardar as suas tradições, aos que as recusam liminarmente como inúteis, obtusas e detestáveis. Deste debate autoexcluem-se infelizmente os atuais estudantes «praxistas», que a põem em prática de forma automática, quase sem qualquer preocupação crítica com as suas origens, formas, significados e consequências. Deixo claro que não sou neutro neste debate, pois rejeitei-as há muito, antes até de ser estudante universitário, não tendo mudado de opinião. Não o faço, porém, a partir de uma atitude cega e intransigente. (mais…)

        Atualidade, Coimbra, Democracia, Direitos Humanos, Opinião

        Sonho diurno

        Vivemos um tempo no qual o sonho é geralmente desvalorizado. Não me refiro à experiência particular da imaginação, nascida no inconsciente e intensamente vivida enquanto dormimos, que continua a povoar as longas noites nas quais procuramos descansar o corpo, mas antes a esse «sonho diurno» do qual falava o filósofo Ernst Bloch. Esse nascido da nossa capacidade parar fantasiar, para desenhar aquilo que aparentemente não é desenhável, que continua a alimentar a dinâmica das grandes utopias. Estas, sim, têm sido menosprezadas, relegadas pelos meios de comunicação de massa – hoje as mais importantes máquinas de produção e de mascaramento da realidade – para o reino das irrelevâncias que desencaminham as sociedades e lhes conferem um excesso, tido como «não rentável», de humanidade. (mais…)

          Apontamentos, Direitos Humanos, História

          O «pessoal do óleo»

          A meu ver, não é especialmente grave que uma pessoa chamada Cristina Espírito Santo, ao que consta filha de um administrador do BES, desconhecida fora do seu círculo familiar e dos restritos ambientes mostrados pelas revistas de sociedade, tenha dito ao Expresso que passar umas férias um bocadinho mais simples na herdade da Comporta «é como brincar aos pobrezinhos». Pronunciar-se uma frase como esta, em público ou mesmo em privado, só atesta estupidez, insensibilidade e, já agora, mau-gosto também. E disso encontramos nós todos os dias quando folheamos os rostos ultrabronzeados, os blazers com monograma e as bolsas Michael Kors que ilustram os magazines ocupados com o nosso suposto jet-set. O grave, grave mesmo, é intuir-se daqui que alguém, algum dia, na sua infância brincou mesmo «aos pobrezinhos». É uma frase como essa sinalizar uma atitude, construída desde pequenino, de menosprezo real por aqueles que não fazem parte do círculo de privilegiados dentro do qual vive. E dos quais geralmente depende, aliás, o próprio conforto. (mais…)

            Apontamentos, Direitos Humanos, Memória, Olhares

            Wstawać

            Primo Levi

            Mais um post com algum tempo, neste caso quatro anos, que recupero do arquivo.

            Primo Levi é figura nuclear da literatura testemunhal do Holocausto. Nasceu em 1919 em Turim e parece ter-se suicidado em 1987 na mesma cidade. Participou na resistência contra a ocupação nazi e a República de Saló, acabando por ser preso por milícias fascistas e, após ser descoberta a sua ascendência judia, enviado para o campo de extermínio de Auschwitz. Sobreviveu apenas por uma conjugação de acasos, um deles a condição de engenheiro químico que o tornou momentaneamente útil para os seus carcereiros. Foi com base nessa experiência-limite pessoal, e como expressão de um sentido «dever de testemunho», que Levi escreveu o primeiro livro, Se Isto é um Homem, com uma edição inicial de 1947 da qual – numa época em que grande parte dos potenciais leitores preferia não encarar relatos desta natureza – se venderam apenas 1.500 exemplares. Só em 1958 a editora Einaudi publicaria uma edição revista e com tiragem condigna. É desta obra – uma discrição objetiva, serena, contida, estranhamente desprovida de amargura, do brutal dia-a-dia de um prisioneiro de Auschwitz que se esforça a cada minuto por não esquecer a sua humanidade – que se transcreve um fragmento. (mais…)

              Direitos Humanos, História, Leituras, Memória