Arquivo da categoria Direitos Humanos
O regresso do fascismo
Por admin in Direitos Humanos, Livros & Leituras, Olhares, Opinião em 9 de Maio de 2012

Lê-se num instante este pequeno livro do filósofo e ensaísta holandês Rob Riemen. Com ele passamos em revista, de forma clara e informativa, como num manual de instruções, o modo insidioso como o fascismo – tomando outros nomes, invocando até a liberdade, a igualdade de oportunidades e a democracia – se tem vindo a instalar nas nossas consciências narcotizadas pelos média, preparando o terreno para novas formas de sujeição. Mais traiçoeiras, menos espetaculares, mas não menos escravizantes e violentas do que aquelas que na primeira metade do século passado foram aplicadas pelos protótipos italiano e alemão. Lembra a dada altura Riemen que o fascismo contemporâneo «resulta, mais uma vez, de partidos políticos que renunciaram à sua tradição intelectual, de intelectuais que cultivaram um niilismo complacente, de universidades que já não são dignas desse nome, da ganância do mundo de negócios e de mass media que preferem ser ventríloquos do público em vez de o seu espelho crítico», notando serem justamente estas elites corrompidas que alimentam o vazio espiritual que serve de caldo de cultura à sua expansão. O Eterno Retorno do Fascismo é um brado de alerta e um estímulo à crítica do acriticismo que vai chocando o ovo da serpente. Deve por isso ser lido com a etiqueta de urgente.
Rob Riemen, O Eterno Retorno do Fascismo. Bizâncio. Trad. de Maria Carvalho. 78 páginas. Ver também uma recente entrevista dada pelo autor ao ionline.
Mulheres com M
Por admin in Apontamentos, Direitos Humanos, Livros & Leituras, Olhares em 3 de Maio de 2012

Tem sido boa a repercussão pública do ensaio Humilhação e Glória, de Helena Vasconcelos. Sendo inteiramente merecido, esse eco deve, no entanto, ser confrontado com algumas dúvidas que a leitura da obra levanta. É desde logo evidente a intenção da autora de conceber o livro como uma introdução à história das mulheres, concebida de forma atraente e vocacionada principalmente para o leitor comum. Ele vem preencher, aliás, na linha do que fez em Espanha Rosa Montero com o seu Histórias de Mulheres, uma lacuna na edição nacional. Ao mesmo tempo, a autora propõe um importante trabalho de resgate efetuado sobre os feitos e os trajetos públicos de um conjunto de mulheres, principalmente portuguesas, com papéis na literatura, nas artes, nas ciências ou na intervenção cívica que têm permanecido injustamente esquecidos ou na sombra. Se a Marquesa de Alorna é, pelo menos nos meios académicos, razoavelmente conhecida, poucos terão ouvido falar, por exemplo, de Teresa Margarida da Silva Orta, apesar de esta ter sido a primeira portuguesa a escrever um romance (As Aventuras de Diófenes, de 1752). Atravessa também o livro uma brisa de otimismo que contribui, sem dúvida, para ampliar o seu papel de instrumento destinado a sublinhar a importância de um trajeto histórico de combate pela emancipação e de afirmação positiva da voz das mulheres.
Uma leitura crítica levanta, porém, algumas perplexidades. Anoto três. Em primeiro lugar, a consideração de eventos e práticas originários de distintos tempos e lugares como se inscritos num percurso único, visando uma espécie destino trans-histórico comum. Em segundo lugar, a falta das propostas, dos problemas e dos combates que se levantaram, a partir da década de 1980, no contexto do chamado feminismo de terceira vaga, ficando as alusões canónicas pelas pelas autoras de segunda vaga (Simone de Beauvoir, Elaine Showalter, Betty Friedman e outras). E em terceiro o tom quase celebratório, em relação à situação atual de uma «tendência para a igualdade» que estudos no campo da sociologia e da ciência política têm vindo a desmontar, revelando, ao invés, que este padrão de discurso pode validar subordinações reais, aparentemente invisíveis. Pode ainda, entretanto, levantar-se uma última objeção que parecendo apenas formal, de facto o não é. A designação de um enquadramento do ensaio, enquanto género, no campo dos estudos «femininos» – e não «sobre as mulheres», ou «feministas», como são catalogados dentro de um universo hoje já bastante alargado, inclusivamente em Portugal, que se dedica ao seu estudo nos domínios da investigação de ponta e do debate teórico – advém de uma escolha da autora que sendo inteiramente legítima, respeitável, pode também ser questionada por dar a impressão de advir de uma noção essencialista sobre o «belo sexo» derivada de um modelo cultural dominantemente masculino. Um livro bastante útil e recomendável que convirá ler com alguma vigilância crítica.
Helena Vasconcelos, Humilhação e Glória. O acidentado percurso de algumas mulheres singulares. Quetzal. 328 págs.Versão revista de nota saída na LER de Abril.
Nem só de pão
Por admin in Apontamentos, Atualidade, Direitos Humanos, Opinião em 2 de Maio de 2012

A propósito das cenas violentas e completamente degradantes provocadas pela campanha de descontos do Pingo Doce, não parece justo culpar apenas a atitude canalha da empresa de Jerónimo Martins, ao servir-se do feriado do Primeiro de Maio para desencadear a sua campanha de publicidade agressiva, manipulando as carências das pessoas e provocando os seus próprios trabalhadores. Como não será correto culpar os largos milhares de famílias que para sobreviverem à crise foram até à selva das prateleiras lutar corpo a corpo por escassas centenas de euros. Para sermos justos, e entendermos o que aconteceu de um modo mais completo, precisamos olhar também para a atitude continuada dos partidos políticos e de muitas organizações sindicais que têm desenvolvido a sua ação exclusivamente centradas numa política de interesses, na gestão economicista do deve e do haver de todos e de cada um. Fazendo-o sem atenderem à defesa da consciência cívica como princípio de solidariedade, da honra individual como eixo da vida coletiva, da (voltemos sem medo à palavra) ideologia como instrumento de mobilização e de mudança. Marx dizia que a consciência política do operário – alarguemos: do trabalhador, do cidadão – não se mede apenas pelo tamanho do porta-moedas. Talvez o que aconteceu se deva, em boa parte, ao esquecimento de que nem só de pão vivemos.
Lemkin e o genocídio
Por admin in Apontamentos, Direitos Humanos, História em 28 de Abril de 2012

Veio há dias parar-me às mãos um ensaio do jurista francês Olivier Beauvallet sobre a vida e a obra de Raphael Lemkin (1900-1959). O nome do advogado polaco de origem judia não me era totalmente estranho, mas jamais o seu trabalho me havia surgido como algo que justificasse uma atenção especial. Todavia, o conteúdo do ensaio veio provar-me a injustiça de um desconhecimento generalizado. Acontece que Lemkin foi «apenas» o fundador do conceito de «crime bárbaro», que na qualidade de procurador público na Polónia apresentou em 1933 a um comité jurídico da Sociedade das Nações reunido em Madrid. Escusado será dizer que a iniciativa, associada à sua condição de judeu polaco, lhe causou problemas na década e meia de escuridão que se seguiu. Começou por perder o cargo e, após ser ferido ao participar na defesa de Varsóvia perante o avanço das tropas alemãs, viu-se forçado a fugir para a Suécia e depois para os Estados Unidos. Entretanto quase toda a sua família havia perdido a vida nos campos de extermínio. Já na América, foi em 1948 um dos impulsionadores, agora no âmbito das Nações Unidas, da Convenção para a Prevenção e o Castigo do Crime de Genocídio, conceito do qual fora também, quatro anos antes, o criador, estabelecendo nessa altura um dos fundamentos jurídicos sobre os quais assentou o trabalho da acusação nos julgamentos de Nuremberga. Se é verdade que o padrão de prática que conseguiu criminalizar no domínio do direito internacional não deixou de prosseguir o seu caminho depois da Segunda Guerra Mundial – a fúria genocida fez ainda, continua a fazer, muitos milhões de vítimas –, devemos a Lemkin a consideração, no campo da culpa pública e da sua penalização, dessa modalidade extrema de violência que durante a maior parte da história humana ocorreu num registo de normalidade.
Contra as praxes vexatórias
Por admin in Atualidade, Direitos Humanos, Novidades em 3 de Abril de 2012

Eis o abaixo-assinado proposto por 15 professores da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e destinado a sugerir medidas para que as «praxes académicas» deixem de se apresentar como «atos de humilhação, de atemorização e de atentado à dignidade». Pretende-se sobretudo divulgar junto dos novos estudantes o seu caráter estritamente voluntário e a impossibilidade legal de se fundarem em práticas vexatórias, o que grande parte dos visados desconhece. Independentemente da opinião pessoal de cada signatário, necessariamente variada, no conjunto, e ao contrário daquilo que alguns meios de comunicação afirmaram, o documento não se destina a «acabar com a praxe», mas antes a impedir os efeitos perigosos ou nefastos que em seu nome têm vindo a ocorrer. Entretanto o texto já recolheu largas dezenas de assinaturas de outros professores da FLUC, estando a circular por mais faculdades. Dentro de dias mais informações serão divulgadas.
Um discurso para a esquerda
Por admin in Atualidade, Direitos Humanos, Olhares, Opinião em 24 de Março de 2012
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A campanha de Jean-Luc Mélenchon, o candidato da Frente de Esquerda às presidenciais francesas de 2012, tem passado estranhamente discreta pelos média portugueses, mais interessados no confronto entre Sarkozy e Hollande, e lateralmente nas frases da menina Le Pen contra os emigrantes. No entanto a campanha de Mélenchon vai já nos 15% das intenções de voto, e em subida, justificando maior atenção. Admirador do socialismo e do pacifismo à Jean Jaurès, o candidato da FE (agrupando a Esquerda Unida, o Partido da Esquerda, o PCF e muitos independentes) recupera uma retórica socialista e internacionalista que vem das profundezas do século XIX. Daquela esquerda insurrecta que ainda não fora entorpecida pelo processo, crescentemente desligado de uma ideia de humano e das expectativas mais profundas dos cidadãos, com que o jargão do marxismo-leninismo, das ciências sociais e da teoria económica a foram cercando ao longo do século seguinte.
Com toda a certeza, daí provém, como provém também, sem dúvida, da rara, mobilizadora e veemente capacidade do candidato como tribuno, o entusiasmo e a multiplicação dos apoios por parte de quem encontra na sua oratória uma forte mensagem de esperança. Vale a pena, para quem entenda o francês, seguir o discurso notável, pronunciado no passado 18 de março em Paris, na Praça da Bastilha, que aqui se reproduz. Perceberá melhor como pode aquilo que os historiadores reconhecem como velho reemergir, de um modo fulminante, como novo e mobilizador. Acontece que afinal a «primavera dos povos» permanece por cumprir. E aquele «tempo das cerejas e dos dias felizes» que desejavam os communards está por conquistar. E o povo sente isso.
O triunfo da maldade
Por admin in Apontamentos, Direitos Humanos, Opinião em 21 de Março de 2012

Quando lemos a notícia que nos informa do facto de alunos com necessidades educativas especiais irem passar a fazer os mesmos exames que os outros estudantes – após terem sido tomadas medidas que já reduziam ou anulavam a existência de turmas e de professores vocacionados para o acompanhamento pedagógico desses jovens – começamos a acreditar na existência de uma qualquer perversão, ou no mínimo uma falha grave de equilíbrio emocional, nas pessoas que nos governam e decidem medidas desta natureza. Esses alunos, até há pouco protegidos devido às naturais dificuldades e à necessidade de neles se relevarem competências muito específicas, inevitavelmente diversas e mais condicionadas dos que as da maioria, vão pois ficar marcados desde cedo pelo falhanço e pela incapacidade de se valorizarem.
Todos sabemos das condições difíceis, do caráter forçoso, e em alguns casos até justificado, de se cortarem certas despesas, de se mudarem algumas práticas. Mas fazer isto, desta maneira, justamente sobre os direitos dos mais fracos, dos que não podem defender-se, não é diferente de negar um prato de sopa a quem vemos definhar à fome mesmo ao nosso lado. É pura desumanidade. O que acontecerá com esta decisão não será senão a imposição de uma forma não-declarada de eugenia: apenas sobreviverão os mais fortes, os mais competitivos, com lugar pré-estabelecido na selva do lucro e do trabalho alienado. Quanto aos outros, definharão em quartos escuros, em lares sombrios, sem qualquer esperança, sem solução de futuro. Caminhamos para a afirmação da maldade como ética de governo.
A «palavra feia»
Por admin in Apontamentos, Direitos Humanos, Olhares em 11 de Março de 2012

À volta das comemorações do dia 8 de março estão instalados três círculos de pseudo-apoiantes, mas reais adversários, que baseiam a sua atitude numa distorção da dimensão política do combate das mulheres pela igualdade. O primeiro, o mais visível, o mais poderoso também, transforma a data em instrumento de negócio, forçando os consumidores, homens ou mulheres, a despender dinheiro para oferecerem prendas que são afinal a figuração simbólica da própria subalternidade. Nada contra a compra de flores ou de tratamentos de beleza, obviamente, mas estes nada têm a ver com a luta pública das mulheres pelos seus direitos. O segundo círculo é mais insidioso, integrando os cidadãos, muitos deles mulheres, que consideram ter a emancipação completado já o seu caminho, ou atingido os seus limites, não havendo pois lugar a grandes causas ou preocupações. Uma atitude que faz baixar as guardas e pactua com os inúmeros casos de desigualdade e de ausência de direitos que permanecem uma constante fora de territórios sociais e culturais privilegiados.
Já o terceiro círculo, apesar de mais pequeno, é particularmente perigoso, dado poder funcionar como um cavalo de Tróia. Ele integra aquele grupo de pessoas que se declara pelos direitos das mulheres mas faz questão de se proclamar «não-feminista» ou mesmo «antifeminista». Neste campo pode encontrar-se um grande número de mulheres, algumas mesmo informadas e que se consideram emancipadas, muitas vezes em lugares de destaque, que exibem esta atitude por terem do feminismo, «palavra feia», da sua pluralidade e da sua história, bem como dos seus atuais combates, uma conceção caricatural. Será uma banalidade escrevê-lo, mas vale a pena repetir: não, ser feminista, não é «ser contra os homens», não é detestar que lhe ofereçam flores, não é odiar o espaço da casa, não é abominar a maternidade, não é usar botas cardadas, não é ser (necessariamente) lésbica ou promíscua, embora existam mulheres feministas que pratiquem ou sejam tudo isso, como existem pessoas, de esquerda ou de direita, que se diferenciam, e muito, de outras que partilham convicções políticas análogas. Um feminismo sem diversidade – e sem a pequena componente radical – seria aliás, ele sim, coisa de assustar. O Dia Internacional de Mulher evoca também, atualmente, a luta contra o preconceito e contra este triplo cerco.
Rosa, a Vermelha
Por admin in Apontamentos, Biografias, Direitos Humanos, História em 5 de Março de 2012

É sabido que depois da cisão entre os bolcheviques e os mencheviques russos, consumada em 1904, a polaca-alemã Rosa Luxemburgo se opôs a Lenine e à sua conceção autoritária de centralismo democrático. Aliás, em 1918 chamou de novo a atenção para a tentação de confundir a ditadura do partido com a do proletariado. E, quando estes começaram a excluir «todos aqueles que pensam de maneira diferente», não deixou de criticar aos bolcheviques o esvaziamento da democracia dos sovietes a que essa política inevitavelmente conduziria. A mais conhecida das suas citações, retirada de um texto publicado na altura, é, aliás, «a liberdade é sempre a liberdade de quem pensa de forma diferente». Pode ainda recordar-se uma outra frase, também do ano seguinte ao da revolução soviética: «Sem eleições gerais, sem uma liberdade de imprensa e de reunião sem restrições, sem um forte combate de ideias, a vida de toda a instituição pública morre, tornando-se uma mera aparência de vida na qual só a burocracia permanece como elemento ativo». Quando se completam 141 anos sobre o nascimento de Rosa, é caso para dizer que a História foi madrasta ao levá-la tão cedo – morta em Berlim em 1919, durante a revolta spartakista, às mãos das milícias da direita, e não da social-democracia alemã como se mente por aí –, poupando a Vladimir Ilitch a refutação de uma voz à altura. Provavelmente a história geral do socialismo seria contada hoje de um modo bastante diferente.
Brilho nos olhos
Por admin in Biografias, Direitos Humanos, História, Olhares em 28 de Fevereiro de 2012

28 de Fevereiro. Passam hoje 26 anos sobre o assassinato de Olof Palme, o político e primeiro-ministro sueco que ajudou a recolocar a social-democracia europeia no eixo do combate contra as desigualdades. A sua via não foi a tíbia e desgraçada «terceira», que nos anos 90 devolveria a vida ao caduco liberalismo, mas a de um socialismo democrático construído na conciliação da liberdade individual e da economia de mercado com a afirmação do Estado social e com a solidariedade entre os povos e as nações. Palme faz-nos falta porque nos fazem falta políticos francos e corajosos. Que pensem grande e pensem alto. Dos quais se possa duvidar mas a quem se respeitem sempre o rasgo e a coerência. Faz-nos falta porque nos fazem falta políticos com brilho nos olhos.
«Throughout history, people have lived in poverty and misery. They have been degraded by hunger and ignorance, they have tormented each other and been driven into war. Yet, not everything has remained the same: The difference is that we have acquired greater knowledge. The difference is, above all, that we are beginning to display a willingness to take responsibility for each other. Therefore, it is not without meaning when we react, take a stance and, to the best of our ability, try to influence human development.»
Por onde andam?
Por admin in Apontamentos, Direitos Humanos, Olhares em 20 de Fevereiro de 2012

As preocupações são muitas, diárias, em demasia. A maioria dos portugueses conta e reconta o que tem ou pode conseguir para manter uma vida digna. Alguns já nem isso conseguem. O horizonte permanece instável, da cor da tempestade. E em épocas como esta, cada um, cada família, cada grupo, cada rua ou vilarejo, procura acima de tudo preservar o seu nicho de vida, a bolha de oxigénio que lhe permite respirar e seguir em frente. Ainda assim, como é possível – se retirarmos as notícias doentias sobre eletricistas assassinos ou tristonhas mulheres da noite – que os imigrantes, ou a inquietação com as suas precárias existências, tenham desaparecido por completo dos telejornais e das capas dos diários? Por onde andam as suas vidas silenciosas e invisíveis?
Repressão em Atenas
Por admin in Apontamentos, Direitos Humanos, História, Olhares em 13 de Fevereiro de 2012
Está neste momento a circular pelas redes sociais uma fotografia particularmente perturbante que funciona como eloquente sinal do Estado de guerra social total no qual se encontra a Grécia. Nessa imagem (que pode ver aqui; a que ilustra este post é diferente) observa-se a polícia a tentar manietar Manolis Glezos, de 90 anos, um antigo herói da resistência ao nazismo e um experiente político de esquerda que chegou a ser deputado europeu, sem o menor respeito pelas razões, pela idade e pelo papel na história do país do símbolo que tinham pela frente. Um péssimo exemplo da vaga de desprezo pelos direitos democráticos e sociais mais elementares que começa a varrer a Europa.
Adenda – As imagens foram-me transmitidas como se fossem de agora. Acabo de saber que são de 2010. No entanto, Manolis Glezos esteve nos protestos de ontem e terá sido hospitalizado.
A CGTP e o «fascismo morno»
Por admin in Atualidade, Direitos Humanos, Opinião em 7 de Fevereiro de 2012

Não podemos se não ter um enorme respeito pelo trajeto das pessoas, ou de gerações inteiras, que deram o melhor de si, que lutaram e sofreram, por causas que consideraram justas, urgentes e imprescindíveis. Mesmo quando neste ou naquele momento, como é próprio do humano, se equivocaram nas decisões. Mas muitos dos que na época estiveram ou podiam ter estado com essas causas olham agora de uma forma algo distanciada, quando não profundamente crítica, certas tentativas para evitar a sua adaptação ao novos e, aparentemente, não menos difíceis tempos que se aproximam. Os gestos, como as ideias, os programas e as convicções, têm o seu tempo e começam a perder o pé quando deixam de se questionar e se repetem como numa litania, quando se fixam numa imagem do real menos complexa e móvel do que aquela que realmente vivem, quando envelhecem sem de tal se aperceberem.
Por isso, se deve manter-se o sentimento de gratidão pelo combate passado dos comunistas pelo estabelecimento da democracia e dos sindicalistas da mesma ou análoga tendência pelo alargamento e a defesa dos direitos dos trabalhadores, já não o devemos conservar quando notamos, em muitos dos que pretendem prosseguir o seu legado, uma grande dificuldade para se adaptarem ao mundo tal qual ele agora é, às tarefas e políticas de alianças que, numa fase dramática como a que vivemos, exigem tanto de coragem como de capacidade para ser-se maleável, antisectário e inventivo. Por isso também não posso deixar de estar de acordo com José Medeiros Ferreira quando este, em crónica recente, comenta, a propósito do primeiro e ríspido discurso de Arménio Carlos, o novo líder da CGTP e membro do Comité Central do PCP, que nos conflitos que se avizinham «a sociedade portuguesa só dará a vitória a quem for mais abrangente na resposta aos problemas do momento, e não a quem for mais sectário.» A força do combate contra este «fascismo morno» que nos está a envolver estará necessariamente na capacidade para mobilizar com base num denominador comum e numa retórica aberta, não na exibição de um discurso pré-apocalíptico e de estratégias de uma «luta de classes» cega que tendem a desunir.
Nós, os outros
Por admin in Apontamentos, Direitos Humanos, Olhares em 1 de Fevereiro de 2012

«Je pourrais être votre grand-mère», «Eu poderia ser a vossa avó», é o título de uma curta-metragem de Joël Catherin – nesta fotografia com Ioana Geonea, imigrante romena em Paris ali no seu próprio papel – sobre o universo humano dos sem-abrigo. Um filme arrebatador, que tem ganho diversos prémios, sobre a capacidade que temos para ignorar os outros e, de repente, de nos surpreendermos com a sua existência e a sua proximidade connosco. O cartaz rabiscado da fotografia insinua – «toi» convertido em «toit», «ti» em «teto» – o primeiro verso de um conhecido poema de Louis Aragon publicado em Le romain inachevé e que um certo dia Jean Ferrat interpretou.
O filme completo pode ser visto no no. 2 de Rue89 avec les doigts, uma aplicação gratuita para iPad.
Uma Europa pisada e exangue
Por admin in Direitos Humanos, História, Livros & Leituras em 31 de Janeiro de 2012

Bloodlands, Terra Sangrenta na tradução portuguesa, inscreve-se numa região delimitada da Europa Oriental na qual se fixou, desde os finais do século XVIII até à Segunda Guerra Mundial, com proibição de habitar noutras paragens, um conjunto importante de comunidades judaicas, até aí errantes, com as quais só uma pequena parte da primitiva população se fundiu. Servindo-nos de um mapa atual, podemos dizer que ela se estendia entre o Báltico e o Mar Negro, desde o leste da Polónia até à parte mais ocidental da Rússia europeia, integrando a Lituânia, a Bielorrússia, a Ucrânia e a Moldávia. Ali foi sendo levantado um microcosmos cultural muito próprio, fundado numa sociedade particularmente dinâmica em volta da qual cedo confluíram, todavia, os fantasmas mais negros e letais do antissemitismo. Foi sobre este território que o historiador americano Timothy Snyder desenvolveu o extenso trabalho de investigação do qual resultou uma obra que nos desperta para uma realidade nem sempre olhada de frente. Leia o resto do post »
Está caladinho
Por admin in Atualidade, Direitos Humanos, Olhares, Recortes em 25 de Janeiro de 2012

Jean-Louis Trintignant em «Il Conformista», de Bernardo Bertolucci (1970)
Da crónica de hoje, a última de Pedro Rosa Mendes para a última semana de «Este Tempo», o programa da Antena 1 que a administração da RDP entendeu fazer calar por conter vozes incómodas, deixo um fragmento que pode servir-nos para aferir do estado cataléptico em que a nossa democracia se encontra. Do qual este episódio é apenas mais um sinal. Um panorama demasiado assustador? Talvez o seja. Mas os mais velhos ensinaram-nos que não há como sustos e adversidades para aprender a crescer e a rasgar caminhos. Aqui ficam então, também para que se não diluam rapidamente no éter, as palavras de Rosa Mendes que sublinhei.
«Quatro décadas de democracia produziram, afinal, uma sociedade asfixiada por valores do silêncio, da cobardia, do bajulamento e dessa gangrena da nossa pátria que é a inveja social. Por junto, uma cultura mesquinha em que quase sempre não há ninguém que diga aquilo que todos sabem, mas que todos devem calar. Uma terra onde, finalmente, se instalou o medo e uma noção puramente alimentar da dignidade individual. Traduza-se: está caladinho, para guardares o trabalhinho.»
O problema húngaro
Por admin in Apontamentos, Atualidade, Direitos Humanos em 19 de Janeiro de 2012
Ontem, no Parlamento Europeu, Daniel Cohn-Bendit, ele mesmo. Face a face com Viktor Orbán, o primeiro-ministro da Hungria, durante o debate sobre a grave situação política naquele país. Um discurso de combate e de denúncia da nova ameaça totalitária. Um discurso que a nossa informação, bastante mais interessada na humilhante derrota de José Mourinho em Madrid e nas intervenções desarrazoadas do ministro da Economia, se encarregou de tornar irrelevante.
Elizabeth e Hazel
Por admin in Apontamentos, Direitos Humanos, História, Olhares em 16 de Janeiro de 2012

Se existe atitude pela qual tenho um afeto particular, é ela a capacidade de regeneração que certas pessoas conseguem aplicar ao seu aparente destino, assumindo mudanças de atitude, de crença e de sensibilidade que contrariam as imposições do meio, a tradição familiar, os códigos impostos no ambiente de trabalho, o quadro político que um dia adotaram, os padrões que julgaram inquestionáveis. Talvez mesmo o código genético que sentem na boca mas que se esforçam por contrariar. Esta é no entanto uma escolha difícil e geralmente mal entendida, apesar do aforismo segundo o qual «só os burros não mudam». A maioria das pessoas, é esta a verdade, arruma o seu mundo em gavetas e prateleiras, cola etiquetas identificadoras nos outros e em si própria, e reage mal a uma mudança profunda, que vê sempre como gesto de oportunismo, falha de personalidade ou sinal de uma patologia esquiva. Está comprovado que existem traços de sensibilidade e de feitio, princípios de ética, gestos de etiqueta, modalidades de gosto ou de desgosto, que geralmente se conservam inalteráveis, mesmo quando quem os detém muda de cara ou de quadrante. A frase, tantas vezes dita, «isso é mesmo dele», ou «é mesmo teu», traduz esse elo de continuidade que, como a pele e as sobrancelhas, transportamos ao longo da vida. Mas, para além desta permanência, existe sempre um mundo de possibilidades capaz de levar um homem ou uma mulher a mudar o seu destino. Leia o resto do post »
Da paz podre
Por admin in Atualidade, Direitos Humanos, História, Opinião em 15 de Janeiro de 2012

Foi também em nome «da Paz» que os tanques do Pacto de Varsóvia entram em Praga (Josef Koudelka, 1968)
Logo pela manhã, um post da Helena Araújo relembrou-me um pormenor, associado à história dos símbolos, que tem tanto a ver com episódios passados da nossa vida coletiva como com situações agora mesmo diante dos nossos olhos. A imagem ou a silhueta da pomba tem servido em tempos e lugares diversos como sinal da paz, do amor, da maternidade, da gentileza ou da figura do mensageiro. De acordo com a tradição bíblica, após o Dilúvio, teria sido uma pomba enviada em demanda de terra firme que, ao regressar à Arca com um ramo de oliveira no bico, sinalizou a Noé o recuo das águas e a possibilidade de retomar a vida sedentária. Para uma boa parte dos cristãos, é também o sinal visível do Espírito Santo, essa parte imaterial da Santíssima Trindade que se não vê, que não se toca, mas que se sente, anunciando na Sua omnipotência e na Sua bondade, a fundação e a intervenção da Igreja. No século XX, todavia, a dimensão simbólica do pequeno ser alado passou a estar associada mais sistematicamente à ideia de paz ou à defesa militante do pacifismo, sendo recuperada, pelo menos desde a Primeira Guerra Mundial, em publicações, emblemas e estandartes, por numerosas campanhas antiguerra ou de propaganda da não-violência. Leia o resto do post »
Islão e direitos humanos
Por admin in Apontamentos, Atualidade, Direitos Humanos, Olhares em 2 de Janeiro de 2012
Não conheço, a não ser por alusões laterais e três ou quatro leituras-relâmpago, o trabalho de Tariq Ramadan, o cidadão suíço, muçulmano praticante e professor de Estudos Islâmicos Contemporâneos em Oxford, que é também visitante em instituições académicas do Qatar, de Marrocos e do Japão. Por isso, falar aqui sobre o seu trabalho académico parece-me imprudente e de evitar. Sei do lugar importante que desempenha no processo de compreensão de um islamismo ocidental, ou mais especificamente europeu, distinto daquele que, emergindo de forma mais direta da sua matriz histórica, é praticado, sob diferentes rostos, no Médio Oriente e em outras paragens mais a sul e a leste. Foi em parte esta atitude de autonomia cultural, associada à crítica dos regimes islâmicos ditatoriais, que fez com que, até há pouco tempo, fosse considerado heterodoxo e persona non grata em países como a Tunísia, o Egito, a Arábia Saudita, a Líbia e a Síria. Ramadan estará nesta quinta-feira, dia 5, em Lisboa, na Fundação Gulbenkian, onde ao final da tarde proferirá uma conferência pública. Leia o resto do post »
Abogi, Abogi! (Adeus Querido Líder!)
Por admin in Atualidade, Direitos Humanos, História, Olhares em 19 de Dezembro de 2011

A morte de Kim Jong-il está a servir ao governo norte-coreano para intensificar uma das características mais brutais do seu «socialismo dinástico»: o drama da escravidão dos corpos e das consciências imposto à generalidade dos cidadãos, sob o efeito da repressão, do treino, da propaganda, do preconceito e da ignorância de realidades alternativas. Do livro de Barbara Demick, A Longa Noite de um Povo (ed. Temas e Debates), que venceu em 2010 o Prémio Samuel Johnson e compila diversos testemunhos de cidadãos da Coreia do Norte que puderam passar a fronteira e escapar ao regime concentracionário de Pyongyang, retiro uma descrição de momentos que se seguiram, em 8 de julho de 1994, ao desaparecimento de Kim Il-sung, fundador do regime. O paralelismo com as cenas públicas de hoje é inevitável.
– Abogi, Abogi! – gemiam as velhas, empregando o título honorífico usado para uma pessoa se dirigir ao seu pai ou a Deus.
– Como pudeste deixar-nos assim de repente? – gritavam os homens por sua vez.
Os que esperavam na fila saltavam para cima e para baixo, batiam na cabeça, caíam em desfalecimentos teatrais, rasgavam as roupas e davam murros no ar, numa raiva inútil. Os homens choravam tão copiosamente como as mulheres.
A teatralidade da dor assumia um aspeto competitivo. Quem conseguia chorar mais alto? Quem estava mais perturbado? Os que prestavam o seu tributo eram incitados pelos noticiários televisivos, que transmitiam horas e horas de pessoas a prantear, homens adultos com lágrimas a correrem-lhe pelo rosto, a baterem com a cabeça nas árvores, marinheiros a baterem com a cabeça nos mastros dos navios, pilotos a chorarem na cabina de pilotagem, e assim sucessivamente. Estas cenas eram intercaladas com imagens da trovoada e dos copiosos aguaceiros. Parecia o dia do Juízo Final. Leia o resto do post »
O que é preciso tem muita força
Por admin in Direitos Humanos, Etc. em 24 de Novembro de 2011

Claro que apoio.
Desaparecidos
Por admin in Apontamentos, Atualidade, Direitos Humanos em 5 de Novembro de 2011

No centro da turbulência tendemos a concentrar-nos na nossa própria segurança e a esquecermos os outros. Faço o giro dos jornais, fico atento às notícias, e vejo como alguns assuntos desapareceram. Esquecidos porque as prioridades estão noutro lado, para aquém e para além das velhas fronteiras. Naquilo que decide ou não decide Merkl, no que resolve ou retarda Coelho, no que Papandreou supõe ser o dia de amanhã, naquilo que Barroso diz para não dizer. Algumas reportagens lançam alarmes sobre a fuga dos cérebros de putativos génios, seduzidos por uma bolsa de pós-doutoramento no Dakota do Norte ou pelo negócio da venda de imóveis na Nova Gales do Sul. Ao lado, imperturbável, o circo do futebol continua a preencher as primeiras páginas: com ele não há crise que meta medo e o único mercado capaz de preocupar as consciências é aquele que permitirá em janeiro o reforço dos plantéis. Mas a imigração, que ainda há uma dúzia de meses aparecia com algum destaque nos títulos, parece agora esquecida.
É verdade que já estava longe de ser o centro da atenção do país, até porque nunca foi assunto que preocupasse em demasia os sindicatos, os partidos e a conferência episcopal. Só que agora desapareceu de vez: ucranianos, moldavas e romenos, brasileiras e cabo-verdianos, apenas ressurgem quando se fala de um crime de sangue, de um assalto por esticão, ou, ocasionalmente, de «atividades de sucesso» no domínio do desporto, da restauração e das práticas mágicas. No entanto, ainda que um bom número tenha regressado aos seus países de origem ou partido para outros destinos, a maioria continua por cá. Sofrendo connosco a recessão, os salários amputados, os impostos que disparam, a insegurança e o receio do futuro. Só que não se ouvem, silenciosamente ocupados a sobreviver, como sempre fizeram e continuarão a fazer. Quanto a nós, de tão absorvidos com o deve e o haver da vida a prazo que agora levamos, tendemos a esquecê-los. E nem damos parte do seu desaparecimento. Um mau sintoma do estado de degradação da solidariedade e de desinteresse pelo coletivo, de um dramático sauve qui peut, ao qual chegámos.
Trabalho de casa
Por admin in Apontamentos, Atualidade, Direitos Humanos, Olhares em 24 de Outubro de 2011

Há alguns dias deixei no meu mural do Facebook uma ligação para um post de J. Rentes de Carvalho publicado no Tempo Contado. A propósito da atual crise e da necessidade de muitos portugueses de classe média cortarem nas despesas correntes, referia-se aí o recurso imoderado aos serviços das chamadas mulheres-a-dias como sinal de um certo desperdício e de menosprezo pelo trabalho manual recorrente entre muitos de nós. A partir desse texto, abriu-se então uma conversa que divergiu em algumas direções: a necessidade ou o direito a fruir de trabalho manual pago, a relação entre esse tipo de serviço e o complexo horário de trabalho de quem a ele recorre, ou o modo como ele é importante para a economia doméstica das pessoas que dele fazem o seu meio de vida. No entanto, talvez tenha passado um pouco ao lado da discussão aquela que me pareceu ser a intenção do autor e a razão pela qual chamei a atenção para o que ele escrevera no seu blogue. Sublinho: a desvalorização do trabalho manual que afasta do horizonte de muita gente a simples possibilidade de sacudir uma passadeira, de cozinhar o seu próprio almoço ou de limpar o quarto de banho que sujou.
O tema é tanto mais pertinente quanto se sabe que no norte da Europa – objetivamente mais rico, com mais pessoas de vida desafogada – esse tipo de serviço é usado apenas em situações especiais, não diria raríssimas mas bastante limitadas. Além disso, trata-se por ali de um serviço muito bem pago. No seu post, o escritor invocava o caso holandês e a influência da ética calvinista, que conhece diretamente, mas poderíamos alargá-lo a outros exemplos e tradições. Ao seu comentário, que não será indiscutível mas no essencial faz para mim todo o sentido, posso entretanto juntar um outro. O costume da casa burguesa arrumada todos os dias, com tudo no seu lugar, os metais a brilhar e o ambiente a cheirar a limpeza recente, é típico das classes média e alta do sul da Europa. Um estudo sociológico recente que me foi relatado – não tenho a referência completa mas a pessoa que me falou dele merece confiança – refere a forma como essa obsessão cultural pela limpeza irrepreensível é responsável até pelo agravamento, em alguns países, das condições de trabalho das chamadas donas de casa, por sua causa forçadas a uma sobrecarga de trabalho. É possível cartografar esta situação: Portugal, a Espanha, o sul de França, a Itália. A ética católica será aqui irrelevante, uma vez que a Irlanda não participa deste culto do detergente e do espanador. No norte, de facto, ninguém se incomoda tanto em ter de tirar uma pilha de papéis de cima de uma cadeira para se sentar ou receber as visitas. Ou de ter os brinquedos dos miúdos espalhados pela casa. Ou de reparar em que está um pouco mais de pó sobre o parapeito. Não sei se não teremos de nos adaptar rapidamente a tais hábitos.
Dois novos romances
Por admin in Atualidade, Direitos Humanos, Livros & Leituras em 23 de Outubro de 2011

Dois novos romances no mercado português, e por estes lados em fila de leitura, que tomam como argumento, a partir de circunstâncias geográficas e históricas muito diferentes, e com uma dimensão literária também ela desigual, o mesmo tema e o mesmo cenário da transformação do poder despótico, exercido em nome de «grandes causas», num fator incontrolável de horror e de arbitrariedade sobre as pessoas das quais se vai servindo e que vai triturando. Comissão das Lágrimas, de António Lobo Antunes (Dom Quixote), referindo os acontecimentos vividos numa Angola pós-independência em redor do golpe (e do contragolpe) de 27 de maio de 1977, e O Epigrama de Estaline, de Robert Littell (Civilização; original de 2009), sobre o combate sem futuro e o fim trágico do poeta e ensaísta russo Osip Mandesltam, merecem ambos a maior atenção. Nos episódios e circunstâncias históricas mencionados, omnipresente a sombra da cumplicidade e da cobardia dos intelectuais que se traíram a si próprios compactuando com a violência e servindo a tirania. Para desta receberem o respetivo prémio ensopado em sangue.
Amendoim
Por admin in Apontamentos, Direitos Humanos, Música em 21 de Outubro de 2011
Muitos portugueses jamais viveram assim pois nasceram e cresceram num tempo de ilusória abundância. Mas quase todos eram pobres, ou então, como se dizia, remediados. A pobreza não era uma situação, era uma condição; não era uma circunstância, mas um estigma. Quem nascesse pobre não tinha outro horizonte que não o da pobreza, se não tivesse a sorte de encontrar um bom padrinho ou de acertar no Totobola. Em aposta simples, pois a múltipla saía cara. Já remediados eram quase todos, seguindo um padrão de vida que no entanto seria hoje o da pobreza. Tinham dinheiro para o essencial, se poupassem muito e não fizessem o que não deviam. Evitar o mais possível os cafés, os cinemas, os passeios e as noitadas, não fazer férias longe de casa ou jogar cartas a dinheiro, eram deveres essenciais para permanecer remediado e não baixar de nível social. Nem mesmo as crianças escapavam ao regime: tinham brinquedos baratos de lata, pano ou madeira, que passavam de geração em geração, compravam rebuçados de meio tostão e na Páscoa tinham um saquinho de amêndoas que deviam partilhar com os irmãos. Num dia especial, conseguiam um cone de caramelo tingido a corante e embrulhado em papel vegetal. Quando cresciam um pouco e começavam a desinteressar-se dos doces, passavam à pevide ou ao amendoim torrado, companhia rotineira de uma laranjada bebida com moderação. Gelados, só os feitos pelas mães. Matraquilhos, só com os escudos contados. E eram filhos de funcionários públicos, de professores primários, de quadros técnicos, de polícias, até de militares de patente baixa. Não eram filhos de operários, camponeses ou empregados de comércio, pois esses nem com tais frivolidades podiam sonhar. Se tudo acontecer como previsto e a sagrada Europa quiser, será a esse tempo que sem as devidas distâncias tornaremos em breve.
Próxima estação: Portugal?
Por admin in Apontamentos, Direitos Humanos, Olhares em 8 de Outubro de 2011

Um fragmento da crónica de Clara Ferreira Alves – «Agora, estamos a enlouquecer» – saída hoje no suplemento Única do semanário Expresso. Não sei se o mail do amigo grego que cita é verdadeiro ou um mero artifício de cronista. Não importa, pois num caso ou no outro ele é demasiado real, confrontando-nos com um clima geral de desesperança, depressão e raiva que não augura nada de bom. Principalmente se as tentativas para encontrar uma saída continuarem a ser conjunturais, sem tino e sem norte. Desculpem se vos estrago o sábado.
«O que está a matar a Grécia é a incerteza, com a incerteza ninguém põe aqui um tostão. Querem que privatizemos mas quando privatizamos quem é que vai investir num país que é considerado, diariamente, perdido? As notícias sobre a Grécia matam a Grécia, os alemães ajudaram a matar a Grécia. Como querem que um devedor pague a dívida depois de estar morto? Quando nos emprestaram dinheiro ninguém quis saber se o íamos pagar. Ninguém. Toda a gente fingiu que não viu o que se estava a passar, a corrupção, os partidos a contratar as clientelas, as contas aldrabadas. Vir dizer que foram apanhados de surpresa, os devedores, é uma colossal mentira. Os gregos sabiam, os bancos sabiam, toda a gente sabia, e toda a gente ganhava dinheiro à custa disso. Esperar que um povo se reforme de um dia para o outro é um erro. Tempo é do que precisamos mais, e ninguém nos dá». E o pior de tudo? O que é que a crise faz às pessoas? «O pior é a tristeza. Depois da indignação e da raiva desce a tristeza. Em Atenas a tristeza é uma coisa espessa, uma escuridão que não levanta. As famílias zangam-se, os casais separam-se, os amigos desconversam, a existência torna-se impossível quando nada funciona, quando não há dinheiro. Atenas vive em estado de terror e protesto. Era uma cidade alegre, é uma cidade desavinda. É como se a vida tivesse sido sugada das ruas e as ruas servem para a batalha campal. Pessoas que viviam bem agora contam os tostões para comer amanhã. As pessoas estão a perder as casas, a comida, as escolas dos filhos. Nem a emigração nos ajuda, porque ser-se grego nos tempos que correm é uma maldição. O grego tornou-se a escória da humanidade, o símbolo de tudo o que está errado como mundo financeiro e a Europa. Ninguém nos quer, só querem as nossas ilhas e a posição no Mediterrâneo. E cresce o sentimento antialemão. Coisas do tempo da guerra vêm ao de cima, rancores, ódios, vinganças. Nunca mais vamos recuperar dos danos morais desta crise. Nunca. Uma parte de nós já morreu. Estamos num comboio descontrolado. A Grécia era a última estação. Já passámos».
Tintim no Congo e a dentada na maçã
Por admin in Direitos Humanos, Livros & Leituras, Memória em 1 de Outubro de 2011

Discordo em absoluto da tentativa de proibição a decorrer na Bélgica de Tintim no Congo, o segundo livro de banda desenhada de Hergé. O motivo invocado é a perspetiva, próxima dos estereótipos eurocêntricos e racistas da África e dos seus naturais não-caucasianos, que em 1931, quando o álbum foi editado pela primeira vez, dominava a maior parte do hemisfério norte. Sob este aspeto, o livro incomoda, sem dúvida, mas não menos que milhares de outros, fáceis de encontrar em bibliotecas e livrarias, contendo representações e ideias que podemos abominar mas não devemos apagar, pois fazem parte do património coletivo e servem até para mostrar, por oposição, aquilo que consideramos detestável e merece, muitas vezes, ser conhecido para ser lido criticamente. Neste caso, aliás, o próprio Hergé (1907-1983) veio a reconhecer que na altura da criação da aventura congolesa do jovem repórter belga, tal como acontecera com o também polémico Tintim no País dos Sovietes, vivia num ambiente no qual o preconceito e a recusa da diferença eram a norma: «Era 1930. Conhecia desse país apenas o que as pessoas contavam na época: ‘os negros são grandes crianças, felizmente estamos lá!’, etc. E desenhei os africanos de acordo com esses critérios, de puro espírito paternalista, que era o da época na Bélgica». Leia o resto do post »
O Queer Lisboa e Israel
Por admin in Atualidade, Direitos Humanos, Opinião em 17 de Setembro de 2011

O mínimo que se pode dizer da decisão da organização do Queer Lisboa 15, o festival de cinema gay e lésbico já a decorrer neste fim de semana, no sentido de, por pressão do movimento Panteras Rosa e do Comité de Solidariedade para com a Palestina, se recusar a ter entre os apoiantes a Embaixada de Israel – à qual, como é óbvio, havia previamente pedido o apoio que agora declinou – é que se trata de um gesto deplorável. Por certo que um eventual apoio das embaixadas da França ou da Itália, cujos governantes não são propriamente defensores das causas dos povos ou das minorias, não seria posto em causa. E sabendo que, por muito que a política externa e interna israelita seja agressiva e injusta, e (sublinhe-se) neste momento é-o de facto, tal não invalida que Israel seja um país onde se realizam eleições livres, onde se exerce uma mais do que razoável liberdade de expressão, onde os movimentos LBGT são fortes e livres de atuarem, e onde existe até uma oposição cada vez mais visível que se bate por uma sociedade mais justa e multiétnica. Coisa que, como é sabido, nem mesmo após as recentes «primaveras árabes» está minimamente garantido na generalidade dos Estados vizinhos, onde gays e lésbicas são brutalmente perseguidos pelo facto de o serem. A única explicação é, a meu ver, um não-assumido antissemitismo (e antissionismo) que culpa Israel por existir. Não-assumido, repito, o que piora as coisas.
A comida rápida e a fome
Por admin in Atualidade, Direitos Humanos, Olhares em 6 de Setembro de 2011

Se não trabalhar no ramo ou tiver alguém na família que o faça, ninguém no seu perfeito juízo defenderá a fast-food. Os hambúrgueres feitos de sabe-lá-deus-o-quê, os pedaços de frango subnutrido, as batatas fritas em óleo reciclado, os condimentos químicos untuosos e coloridos, o sal sempre em demasia, as bebidas ultra-açucaradas. Tudo, já se sabe, veneno para as pessoas normais e para as outras também. Claro que a slow-food da rua ao lado, se descontarmos alguns exageros puristas com os condimentos, é muito melhor. Mas a primeira é razoavelmente barata e adaptada ao ritmo da nossa vida intensa, enquanto a segunda requer mais tempo e quase sempre mais dinheiro. Sei através dos suplementos de fim de semana, das sugestões da nutricionista e das ameaças do médico que devemos evitar a rápida. E tento sempre fazê-lo. Mas para muitas pessoas com a carteira vazia e sem lugar ou tempo para cozinharem não existe alternativa, e é com ela que de vez em quando a dieta alimentar se equilibra um pouco.
Quando fui bolseiro durante uns meses de inverno na Paris do início dos anos noventa, recordo-me bem, só a McDonald’s, a Burger King ou a KFC me salvaram da miséria alimentar. O mesmo aconteceu em algumas viagens fora de portas, como sempre com o orçamento no limite. Não seria dos mais desgraçados – como Orwell, que na miséria de Londres ainda tinha, sabia que tinha, a alternativa de recorrer aos amigos ou à família – mas todos os dias comia ao lado de centenas de pessoas visivelmente pobres que ali iam para se aquecerem e contornarem a fome com algumas proteínas e os hidratos de carbono que o corpo pedia. Taxar fortemente a comida rápida, como acaba de sugerir o bastonário da Ordem dos Médicos, é proposta cega e precipitada que retiraria outra talhada à parca dieta alimentar de muitos, cada vez mais, dos cidadãos que menos têm e mais precisam. Logo agora que a fast-soup está a ter mais saída.
