Arquivo de Categorias: Etc.

O drama e a coragem de ser apóstata

O Dicionário Houaiss define a apostasia como «a renúncia de uma religião ou crença, o abandono da fé», mas também «a quebra de votos, o abandono da vida religiosa ou sacerdotal sem autorização superior», e ainda «o ato de renunciar a um partido, teoria ou doutrina» ao qual se pertence. Dirão as pessoas que verdadeiramente aceitam ser a democracia a melhor e mais livre forma de viver em sociedade – ou, pelo menos, como um dia disse sarcasticamente Winston Churchill, «a pior, salvo todas as outras» – que esse é um direito que, como gesto de liberdade, assiste a qualquer pessoa. 

(mais…)
    Apontamentos, Democracia, Direitos Humanos, Etc., Olhares

    25 de Abril e 1º de Maio: complementares, mas diferentes

    A celebração do 1º de Maio remonta a 1886, quando foi brutalmente reprimida em Chicago uma greve de operários pela redução da jornada de trabalho diária, então nas 14 horas. Três anos depois foi adotado, em congresso da segunda Internacional Socialista, como Dia Internacional dos Trabalhadores. Apesar de proibido pelo Estado Novo, que considerava a data subversiva, manteve-se em Portugal como momento de luta contra a ditadura e pelos direitos mais essenciais. Era evocado em jornais e panfletos clandestinos ou em celebrações privadas de grande simbolismo, sendo também pautado por arriscadas ações reivindicativas ou em manifestações de rua logo atacadas pela polícia. 

    (mais…)
      Etc.

      Futebolices bem lamentáveis

      Aviso prévio: gosto muito de futebol, joguei futebol de forma amadora e sou dos que, quando o meu clube, o Sporting CP, ganha na modalidade um jogo ou uma prova importante, dorme muito melhor e acorda mais bem disposto, acontecendo o oposto nas derrotas. Apesar de reconhecer tudo o que de muito mau envolve este desporto: demasiadas vezes negócios obscuros, informação deturpada, claques perigosas e adeptos fanáticos e de maus-fígados. Mas não considero o futebol, parafraseando a conhecida frase de Marx sobre a religião, «o ópio do povo». Sei até, bem diversamente, que para muitos ele acaba por integrar um dos poucos alimentos espirituais da sua vida, proporcionando conforto, paixão e companheirismo. Aliás, Camus, que foi guarda-redes do Racing de Argel, considerava-o uma escola de vontade e de fraternidade. Lembro muito que as últimas palavras, horas antes de morrer, a mim dirigidas por pessoa muito próxima, foram para pedir um cigarro e saber o resultado do jogo do seu clube, por acaso rival do meu.

      (mais…)
        Apontamentos, Atualidade, Etc., Olhares

        «Memória inventada» e civilidade

        Uma das consequências de ter uma vida razoavelmente longa e de (pelo menos por enquanto) conseguir reter alguma memória dela, consiste em ser capaz de identificar de maneira fácil os anacronismos. Claro que, em pessoas como eu, esta capacidade é apurado pela formação de historiador e, mais ainda, pela personalidade «picuinhas» que tenho desde que me conheço. Por isso me perturba um tanto quando encontro pessoas mais ou menos da minha idade que referem como memória sua, dada como certa, situações, realidades, práticas ou gostos que eu sei não serem exatamente daquele tempo e não poderem ter vivido. Vou dizer-lhes isso? Claro que não, ou raramente, até porque sei que, muitas das vezes, essa confusão resulta da chamada «memória inventada», ou «cumulativa», aquela que junta episódios vividos ou informações adquiridas em diferentes momentos e os combina num só. Trata-se de uma confusão natural e eu próprio, apesar da mania do rigor, já o fiz inadvertidamente. Mas confesso que me perturba escutar alguém a afirmar, a pés juntos, ter vivido experiências que sei de facto impossíveis, tendo eu a obrigação, por dever de civilidade e para que se não zangue comigo, de ficar calado.

          Apontamentos, Devaneios, Etc., Memória, Olhares

          Livros: o deserto da imprensa

          Sabia que assim era, mas afinal ainda é pior. Ao preparar uma lista de jornalistas e de jornais ou revistas a quem enviar um exemplar do meu novo livro para eventual escrita de uma notícia ou nota crítica, tomei consciência «de facto» de como em muitos jornais a secção de livros e de cultura desapareceu, enquanto nos outros foi reduzida ao mínimo. Alguns ainda acabaram há pouco ou está em vias de lhes acontecer a mesma coisa. Pior: a escassa divulgação cinge-se agora quase apenas à ficção e, embora bem menos, a alguma poesia, como acontece com uma publicação onde até fiz crítica de livros por mais de uma década. A não-ficção – ensaio, biografia, crónica – confina-se agora a «estrelas» internacionais que vêm a Portugal promover a edição local dos seus livros, ou a obras sobre temas quentes e tantas vezes passageiros. Tudo isto enquanto, paradoxalmente, se publica como nunca. O lixo literário divulgado pela publicidade paga, esse abunda. Mas, como refere a conhecida consigna, «a luta continua», embora não se saiba se a vitória é certa.

            Apontamentos, Etc., Leituras, Olhares

            Arrogância e cobardia nos EUA e por todo o lado

            A cada dia que passa, as notícias que nos chegam dos EUA sobre a contínua extensão do autoritarismo, do combate contra a igualdade, da regressão civilizacional e da afirmação triunfante da estupidez e da desumanidade, são cada vez menos surpreendentes. Provavelmente, já nos habituámos a esperar tudo, mesmo o que ainda há pouco tempo era considerado inimaginável, da parte da segunda administração Trump e das forças políticas e sociais que a temem e, por isso ou por cumplicidade, com ela contemporizam.

            (mais…)
              Etc.

              Um país seguro, tenham paciência

              Em 2025 Portugal subiu uma posição (7º lugar global, 5º da Europa, em 163) e ultrapassou a Dinamarca na lista dos países mais seguros. Esta é a verdade, reconhecida pelo Institute for Economics and Peace, que contraria a mentira generalizada, construída sobre pequenos episódios, propagada pela extrema-direita e que agora o nosso centro-direita também adotou. Documento completo: https://www.visionofhumanity.org/wp-content/uploads/2025/06/Global-Peace-Index-2025-web.pdf

                Apontamentos, Atualidade, Democracia, Etc., Olhares

                Cuidado com o Academia.edu

                Comecei em janeiro de 2021 a usar a versão Premium do Academia.edu. Tem inúmeras vantagens, desde servir de repositório público para as nossas publicações, até oferecer as de muitas outras pessoas, pesquisando por temas e mesmo por conteúdo dentro das dezenas de milhões de textos que armazena. E avisando também sobre a entrada de novos artigos que nos possam interessar. Só vantagens, parece. Ao ponto de se ter transformado num lugar fulcral para a divulgação do meu trabalho, para a investigação e para contactos.

                (mais…)
                  Apontamentos, Etc., Oficina

                  «No prelo»

                  Ao passar por um dos meus artigos académicos iniciais, publicado em 1982, deparei com a referência a um segundo volume de um título cujo primeiro tomo citei, indicando-o como estando «no prelo». Isto é, em fase de impressão tipográfica. Era ainda uma prática muito usual, a de fazer sair obras em dois volumes indicando que o segundo se encontrava nessas condições. Num grande número de vezes, porém, nem isso era verdadeiro: tratava-se apenas de uma intenção jamais cumprida. Costume também era alguém indicar um título seu, fosse de livro ou de artigo, que considerara a hipótese de publicar, como estando no tal inexistente «prelo». Tratava-se de uma forma artificial – talvez melhor: fraudulenta – de ampliar currículos pequenos ou inexistentes.

                  (mais…)
                    Apontamentos, Etc., Memória, Olhares

                    Trump e as dificuldades dos analistas

                    Não recordo outro momento da história recente no qual os analistas políticos se mostrem tão claramente incapazes de interpretar os acontecimentos e, sobretudo isso, de lhes antecipar as consequências. Pior ainda que a primeira, a segunda versão da presidência Trump confronta-se com escolhas erráticas, medidas tomadas por impulso, sobreposição afirmativa do ego ao interesse coletivo, incapacidade para promover uma ideia clara e lhe dar sequência, narcisismo doentio, perversão de regras básicas da sociabilidade e da diplomacia por troca com comportamentos sempre inesperados e agressivos, muitos deles a raiar a arruaça. Isto é, atitudes doentias, de um foro cada vez mais claramente patológico, assumidas por quem governa a nação militar e economicamente mais poderosa do planeta. Nesta condições, todo o juízo crítico do analista, que não é um adivinho, é sempre arriscado, com tendência para se concentrar nas meras hipóteses e para se tornar falível cinco minutos depois. Algo novo, particularmente perigoso, dado abordar o rumo de quem tem nas mãos o poder imperial supremo da paz e da guerra.

                      Apontamentos, Atualidade, Etc., Olhares

                      Ninguém é apenas admirável

                      Pelo que conheço da espécie humana, concordo plenamente com a frase de Franco Basaglia «de perto ninguém é normal», tantas vezes atribuída a Woody Allen ou a Caetano Veloso. O mesmo se aplica às pessoas que, em abstrato, e sobretudo quando desaparecem, consideramos admiráveis. Pelas circunstâncias e pela extensão da minha vida, conheci de perto largas centenas de homens e mulheres notáveis, hoje já fora desta vida, que, quando partiram – e mais agora com a facilidade das redes sociais – foram logo associados apenas ao que de melhor foram fazendo. E, todavia, sabendo o que sei (e vi) de muitas delas, vejo como tantos elogios são por vezes exagerados ou até de todo imerecidos.

                      (mais…)
                        Apontamentos, Etc., Olhares

                        Uma memória do sectarismo

                        Sem vontade de escrever uma autobiografia, incluo por vezes, em textos vários, alguns detalhes autobiográficos, tendo desde há anos o projeto de lembrar, sem nomes ou números de porta, momentos vivenciais sobre o sectarismo que dominou boa parte da oposição ao regime durante o período marcelista. Em particular no meio estudantil, onde uma vírgula num manifesto poderia bastar para criar cisões e alimentar inimizades entre pessoas de diferentes grupos maoistas, gente que se agrupava num dos trotskismos, e de todos ele em relação ao PCP. E vice-versa, claro, não sendo por acaso que Cunhal escreveu diatribes contra o «radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista». Existem episódios deste conflito, de certa forma fratricida, que dariam um livro bem curioso, alguns associados a desconfianças ainda não superadas.

                        (mais…)
                          Apontamentos, Etc., Memória, Olhares

                          O pior que se pode fazer

                          O pior que podem fazer as pessoas que irão agora, necessariamente, procurar reerguer os partidos da esquerda estrondosamente derrotados nas legislativas, é, em vez de se voltarem para a realidade das pessoas comuns e para os equilíbrios do mundo atual, para uma análise de comportamentos repetidos e para a revisão dos dogmas, para a abordagem crítica de certas escolhas, discursos e comportamentos, preferirem agitar bandeiras enquanto apontam inimigos externos ou dentro do seu próprio campo, preocuparem-se mais com a sua própria justificação do que com os seus erros, refugiando-se na conjuntura como explicação para quase tudo. Em tantos anos de combate político já vivi demasiado para não experimentar este receio. Por isso sei que a capacidade crítica, a humildade e a lucidez serão agora fundamentais. E muita coragem também, obviamente.

                            Apontamentos, Democracia, Etc., Olhares

                            Um 1º de abril que «já era»

                            Sabemos que a mentira, o erro e a deturpação sempre existiram. Pelo menos desde a invenção da escrita, muito provavelmente bem antes dela. Mas atualmente alguns orgãos de comunicação sedentos de atenção e com frágil sentido da civilidade, associados à realidade tumultuosa e selvagem das redes sociais, estão de tal forma cheios deles que a própria ideia de verdade se encontra banalizada. Tudo pode ser «verdade», como tudo pode ser «mentira», sejam elas grafadas com ou sem aspas. Neste contexto, as patranhas do 1º de abril deixaram de o ser, pois parte da piada consistia em encontrar uma mentira de certo modo única e implausível. Não uma «inverdade» entre muitos milhares delas.

                              Apontamentos, Etc., Olhares

                              Redes sociais, imagens e ignorância

                              Uma das marcas do acesso, agora quase universal, ao uso das redes sociais, passa, sabemo-lo bem, pela inclusão de pessoas que, antes de elas existirem, jamais tiveram ou teriam a possibilidade de comunicar de forma pública e rápida. Não dispõem, por esse motivo, dos códigos básicos de civilidade que as formas de comunicação para um público vasto foram desenvolvendo. Têm ainda, em grande parte, um escasso lastro em termos de conhecimento, facilmente acreditando, por este motivo, tanto no que observam ou podem ler – como outrora acontecia com quem julgava certo e sagrado tudo o que estivesse em letra de imprensa -, como no que dão aos demais a ler e a ver. 

                              (mais…)
                                Apontamentos, Atualidade, Etc., Fotografia, Olhares

                                A quem me lê (ou quer escrever)

                                Em forma de compromisso – e talvez para me envergonhar por não o cumprir como gostaria –, já aqui falei da preparação de um conjunto de ensaios inéditos, em formato de livro, nos quais regressarei aos temas que nos últimos vinte e cinco anos mais me têm interessado e motivado. Já deveria estar pronta há mais de dois anos, embora, como acontece tantas vezes na vida de encruzilhadas que levo, o que é urgente tenha passado à frente do importante. Talvez para o final do ano possa estar pronta a ser impressa. Poderão insultar-me (moderadamente) se isso não acontecer.

                                (mais…)
                                  Apontamentos, Etc., Oficina, Olhares

                                  A nova oligarquia e o imperativo de lhe resistir 

                                  A propósito da tomada de posse de Donald Trump, escreveu a jornalista Teresa de Sousa a dado passo: «O mais significativo foi, sem dúvida, a presença em lugar de destaque dos três homens mais ricos do mundo, que são também os donos de gigantes tecnológicas – Egon Musk, Mark Zuckerberg e Jeff Bezos. A nova “oligarquia tecnológica” de que falava Joe Biden no seu discurso de despedida. Também é justo lembrar que representam empresas extraordinariamente inovadoras que, por alguma razão, nasceram todas nos Estados Unidos. Na Europa os mais ricos ainda estão na anterior revolução tecnológica, dos automóveis ou dos aviões.» Uma aproximação, inevitavelmente simplificada, a uma nova dimensão da realidade mundial com a qual temos de conviver.

                                  (mais…)
                                    Atualidade, Cibercultura, Democracia, Etc., Olhares, Opinião

                                    O mal é o mal

                                    Conto-me entre os muitos que, reconhecendo a solução pacífica dos dois Estados independentes e democráticos como a única justa e com a possibilidade de, a longo prazo, se tornar duradoura, solucionando o interminável e sangrento conflito israelo-palestiniano. Por isso mesmo, sou totalmente contrários à iniciativa no terreno dos violentos setores extremistas, sejam estes a extrema-direita ortodoxa de Israel, associada a Netanyahu e agora, previsivelmente, com um ainda maior respaldo da administração Trump, ou o Hamas palestiniano, apoiado pelo Irão e pelo Hezbollah. Pelo mesmo motivo, também não considero aceitável a existência de um mal menor, tomando os extremistas de ambos os lados como igualmente insensíveis ao sofrimento de ambos os povos, seja o outro ou mesmo o seu.

                                    (mais…)
                                      Acontecimentos, Democracia, Etc., Olhares, Opinião