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	<title>A Terceira Noite &#187; História</title>
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	<description>leituras, polémicas e iluminações / um blogue de rui bebiano</description>
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		<title>Na rota de Kolyma</title>
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		<pubDate>Wed, 16 May 2012 17:40:09 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Como Auschwitz na rede de campos instalados pelos nazis, Kolyma é sinónimo de morte e sofrimento extremo no interior do universo concentracionário da antiga URSS. O complexo, instalado no glacial extremo-nordeste siberiano, detinha e conserva uma particularidade que marcou o seu destino: o de principal território de mineração do ouro da Rússia. Daí o interesse [...]]]></description>
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<p>Como Auschwitz na rede de campos instalados pelos nazis, Kolyma é sinónimo de morte e sofrimento extremo no interior do universo concentracionário da antiga URSS. O complexo, instalado no glacial extremo-nordeste siberiano, detinha e conserva uma particularidade que marcou o seu destino: o de principal território de mineração do ouro da Rússia. Daí o interesse de Estaline em enviar prisioneiros para as suas minas. Estima-se que entre 1932 e 1956 foram mais de 2 milhões os deportados para o complexo instalado na região. E muito poucos regressaram. Varlam Shalamov foi um dos que sobreviveu e nos intensamente autobiográficos <em>Contos de Kolyma</em>, escritos entre 1953 e 1963 mas reportando-se a uma experiência que vinha dos anos 30, deixou-nos reflexos desse lugar terrível. Décadas depois, relatos e reportagens fotográficas testemunham de uma forma perturbante o silêncio e a desolação desse espaço imenso, um dos mais hostis da Terra, no qual tantas vidas foram rapidamente consumidas, deixando um rastro de dor e sombra que ainda se não extinguiu. Foi por isso que o escritor e jornalista polaco Jacek Hugo-Bader resolveu percorrer de mota os 2 025 quilómetros da rota de Kolyma, que vai de Moscovo a Vladivostok. Ao longo do trajeto, relatado no seu <em>Dziennik Kolymski</em> (<em>Diário de Kolyma</em>), editado na Polónia no ano passado e recenseado na revista francesa <em>Books</em>, todas as pessoas com quem falou conservam uma qualquer ligação familiar ou emocional com aquelas minas que continuam malditas. Quem já leu na íntegra diz que o relato do longo e gélido périplo de Hugo-Bader é espantoso. E principalmente uma reflexão sobre a humanidade num lugar que já foi o da mais impiedosa desumanidade.</p>
<p><span style="font-size: 85%;"><a href="http://aterceiranoite.org/2009/12/04/o-combate-pela-dignidade-na-memoria-do-gulag/" target="_blank">um outro post relacionado com o tema</a></span></p>
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		<title>Um Quixote português</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Apr 2012 22:58:13 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Por hábito ou falta de atenção, a figura de Henrique Mitchell de Paiva Couceiro (1861-1944) tem sido algumas vezes associada de um modo injustamente exclusivo às incursões monárquicas nortenhas de 1911 e 1912, lançadas contra a Primeira República sem efetivo poderio militar e outras consequências que não o reforço do regime que pretendiam combater. Surge [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34746" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/paiva2.jpg" alt="" width="290" height="439" /></p>
<p>Por hábito ou falta de atenção, a figura de Henrique Mitchell de Paiva Couceiro (1861-1944) tem sido algumas vezes associada de um modo injustamente exclusivo às incursões monárquicas nortenhas de 1911 e 1912, lançadas contra a Primeira República sem efetivo poderio militar e outras consequências que não o reforço do regime que pretendiam combater. Surge também ligada à sua condição de Presidente da Junta Governativa do Reino, assumida quando da efémera experiência da Monarquia do Norte – essa «Traulitânia» tão rebaixada no campo republicano – proclamada no Porto em janeiro de 1919. O estrondo da sua atuação durante esses anos bastou, no entanto, para que em torno da memória que dela sobrou se fosse construindo uma «lenda negra», que os republicanos facilmente ergueram, e outra de sinal inverso, que os adeptos da antiga ordem monárquica fizeram por manter, transformando-o em paladino e símbolo de uma causa que não queriam dar por perdida. Para evitar a perspetiva parcial, o impacto da sua intervenção pública deve por isso ser procurado dentro de um arco temporal mais alargado. O resultado final será o reconhecimento de um Quixote português, batendo-se, como o original, por idealismo e uma certa noção de honra, em nome de um Portugal que a corrente do tempo empurrava já para o passado.<span id="more-34734"></span></p>
<p>A biografia de Paiva Couceiro, marcada pela ascensão rápida numa carreira militar iniciada aos dezassete anos, passou por três fases distintas e complementares. À primeira definiu-a uma ligação profunda a África, por muito tempo o cenário central da sua vida. Abre com o comando da Cavalaria da Humpata, em Angola, onde entre 1889 e 1891 participou em viagens de reconhecimento e «campanhas de pacificação», na realidade agressivas iniciativas militares destinadas a impor a soberania portuguesa em territórios nos quais ela permanecia meramente formal. Após uma curta estadia na metrópole, combaterá integrado na Legião Espanhola na guerra do Rif (1893-1894), seguindo depois para Moçambique, onde, sob o governo de António Enes desempenhará um papel crucial nos combates contra os potentados autóctones que procuravam resistir à imposição da autoridade portuguesa. Superintendeu então as operações que conduziram à prisão e à deportação de Gungunhana, sendo Mouzinho de Albuquerque um seu subordinado. De regresso a Portugal, será proclamado «benemérito da Pátria» e nomeado conselheiro do rei. Ocupará então cargos militares e políticos de destaque, chegando mesmo, entre 1906 e 1907, a ser deputado, vinculado ao Partido Renovador Liberal e a João Franco. E nos dois anos seguintes será o Governador-Geral de Angola. A segunda fase, a mais conhecida, foi a da resistência à proclamação da República, que tentou impedir logo a 4 e 5 de Outubro, tendo mesmo sido o único oficial que neste dia fez fogo sobre o acampamento revolucionário da Rotunda. Apenas depôs as armas quando soube que o rei D. Manuel tinha deixado o país a caminho do exílio, apesar da vitória militar monárquica parecer assegurada. Pediu então a demissão do exército por desejar manter «a honra de servir uma só bandeira» e foi em consonância com esta atitude que chefiou as incursões armadas antirepublicanas, cumprindo depois um papel fulcral na tentativa restauracionista de 1919. A terceira e última fase da vida acompanhará os anos da ascensão política de Salazar e os primeiros tempos do Estado Novo, tendo sido marcada por uma crescente divergência em relação a muitas das opções do novo governo.</p>
<p>É da etapa da resistência ativa à República, mas sobretudo da subsequente a 1919, que trata a maior parte dos apontamentos diarísticos, das cartas enviadas e recebidas, dos panfletos e dos artigos de jornal, até agora conservados inéditos ou esquecidos, que, como parte do enorme acervo deixado pelo autor, foi agora publicada com a organização e uma introdução do historiador Filipe Ribeiro de Meneses. Ela permite, no conjunto, projetar um olhar mais profundo sobre a vida e a atividade pública de Paiva Couceiro, libertando-as da ideia mais comum segundo a qual, após o desastre da Monarquia do Norte, este teria entrado numa fase de progressiva obscuridade. Todavia, não foi assim que as coisas aconteceram, como se pode agora perceber e Ribeiro de Meneses reconhece de imediato na introdução, quando, ao enfatizar a dimensão e a qualidade do espólio, deixa claro que o militar continuou a desempenhar um papel de relevo na oposição à Primeira República e que a sua atividade intelectual no campo da reflexão política prosseguiu também com vigor.</p>
<p>Para compreender o sentido e o registo mais essencial da documentação agora posta ao dispor dos investigadores e do público, é necessário, naturalmente, conhecer o trajeto militar e cívico do seu autor, mas principalmente compreender o processo de formação das suas convicções. Em <em>Um Herói Português</em>, a biografia que Vasco Pulido Valente escreveu há cerca de uma década para a <em>Análise Social</em> e republicou como livro em 2006 (Ed. Alêtheia), ficaram expostos contornos que esta documentação vem corroborar, mostrando o coronel Paiva Couceiro como homem em quem ao «ardor religioso, militar e patriótico em que fora educado» se sobrepôs sempre um certo padrão de coragem e iniciativa que o impeliram para a ação. Sob a perspetiva da democracia representativa de inspiração demoliberal, o seu anti-individualismo e o seu antiparlamentarismo, que tinham como contraponto a defesa de um autoritarismo benévolo, apoiado na ordem, na hierarquia e na tradição, não resultam particularmente simpáticos. No entanto, estes foram sempre temperados por um fortíssimo <em>ethos</em>, capaz de transformar as suas escolhas mais em gestos de ousadia – embora não de bravata – do que em opções de alguém condicionado pela ambição e o calculismo. Desta forma deverá, aliás, ser interpretada a sua aproximação, fugaz e pouco pacífica, às convicções do Integralismo Lusitano.</p>
<p>Todavia, a rígida afirmação dos princípios seria visivelmente suavizada nos últimos anos de vida, numa altura em que a sua intervenção se encontrava já poderosamente condicionada pelo isolamento forçado e pelo peso da idade. Então, foi uma vez mais a gestão das colónias que principalmente o preocupou, discordando da opção salazarista de a submeter aos limites impostos pelas metas financeiras do Estado e advogando uma intervenção bastante mais ativa nos territórios africanos. Nessa escolha, continuava a considerar a sua experiência pessoal e a sua intervenção como decisivas. Por isso, em novembro de 1937, na dura carta dirigida a Salazar que lhe valeria a detenção pelo regime e um exílio de dois anos em Espanha, se referiu à forma favorável e reconhecida como considerava que o povo português continuava a confiar no seu «desinteresse», no seu inequívoco «patriotismo», e no modo como ele próprio avaliava «uma vida inteira com uma cara só». Foi esta uma boa forma de resumir uma conceção de honra e uma persistência de convicções que, por aquela época de capitulações perante o ascendente autoritário do regime, se mantinha rara e exigente. E talvez seja esta a melhor maneira de, independentemente da distância política que possamos ter das suas escolhas, melhor conservarmos a sua memória. Que este livro vem refrescar, ampliando muito o conhecimento que temos do seu autor.</p>
<p>Na capa de um número de 1902 do jornal humorístico <em>A Paródia</em>,<em> </em>publicado por Rafael Bordalo Pinheiro, Paiva Couceiro surgia representado como um Quixote, investindo a eito, na savana africana, contra invisíveis inimigos. Apesar da intenção satírica, será provavelmente essa a representação mais justa que dele hoje podemos conceber. Avançando, com voluntarismo e convicção, na defesa, cada vez mais solitária, dos ideais a contracorrente aos quais se conservou fiel. Ele mesmo o sublinhou pelo seu punho, quando na referida carta a Salazar o invetivou: «Venha para o ar livre, e ponha o ouvido à escuta, a ver se ouve, lá das profundezas da História, a voz de Portugal verdadeiro». Que o velho coronel, o <em>Paladino</em> que os seus antigos apoiantes veneravam, acreditava conhecer e interpretar da melhor forma. Talvez melhor que ninguém.</p>
<p><span style="font-size: 85%;"><em>Paiva Couceiro. Diários, Correspondência e Escritos Dispersos</em>. Organização e introdução de Filipe Ribeiro de Meneses. Prefácio de Miguel de Paiva Couceiro. Publicações Dom Quixote. 806 págs. Texto saído na <em>LER </em>de Abril.</span></p>
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		<title>História, memória e política</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Apr 2012 14:57:18 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[O passado, modos de usar, de Enzo Traverso – saído em 2005, antes de L’Histoire comme champ de bataille –, trata principalmente daquilo a que Habermas chamou «o uso público da história». O trabalho deste historiador e cientista político italiano tem vindo a ser preenchido com o estudo de épocas e de temas contemporâneos com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34718" title="Enzo Traverso" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/traverso.jpg" alt="Enzo Traverso" width="400" height="308" /></p>
<p><em>O passado, modos de usar</em>, de Enzo Traverso – saído em 2005, antes de<em> L’Histoire comme champ de bataille</em> –, trata principalmente daquilo a que Habermas chamou «o uso público da história». O trabalho deste historiador e cientista político italiano tem vindo a ser preenchido com o estudo de épocas e de temas contemporâneos com os quais conflituam interesses atuais e que por esse motivo permanecem perturbantes, como acontece com a «questão judaica», o Holocausto, o totalitarismo, o fascismo, a violência nazi, o comunismo ou o eurocentrismo. Em conexão com todos eles, Traverso tem-se ocupado com os problemas difíceis mas incontornáveis que levanta a conexão entre história e memória. Aquela proximidade com o presente torna entretanto o tratamento destes assuntos algo que não pode deixar de dialogar – independentemente do rigor inerente à intervenção própria dos historiadores – com as suas escolhas políticas, com as repercussões do seu trabalho entre os outros profissionais do mesmo ofício e, acima de tudo, com o impacto junto dos setores da opinião pública que vão acolhendo os ecos do que dizem ou escrevem.<span id="more-34717"></span></p>
<p>Este livro pequeno mas precioso decompõe de um modo pedagógico, sempre associado a contextos precisos, as linhas que aproximam os diferentes segmentos da memória coletiva (a «forte», tendencialmente hegemónica, e a «fraca», silenciada ou alternativa), a escrita histórica do passado e também as políticas da memória, fazendo-o sempre em diálogo com os temas que Traverso conhece bem e com a produção historiográfica recente que com eles converge. Mostrando de que maneira, perante um século marcado pela violência, a memória reivindica os seus direitos sobre a forma como esse passado é representado, na presunção de que a história, como recordou Paul Ricoeur, «não é mais do que uma parte da memória, escreve-se sempre no presente.» E quando tantos fatores, da indústria cultural aos museus, das comemorações aos programas educativos, contribuem para que se faça dessa memória do passado partilhado uma espécie de religião civil, pautando a perceção que as sociedades têm de si próprias, o tema torna-se particularmente importante.</p>
<p>Este passado cumpre muitas vezes um papel instrumental: conservar a recordação dos totalitarismos de forma a legitimar a ordem liberal, validar a ocupação da Palestina para evitar um novo Holocausto, invadir o Iraque para que se não repita Munique. Pode também trilhar caminhos mais discretos, por vezes mais subterrâneos, com uma dimensão crítica ou de resistência que define experiências de emancipação, de utopia e de revolta contra os poderes hegemónicos. A escrita da história é pois o resultado de um trabalho que emerge dessa trama complexa de recordações pessoais e partilhadas, de saberes herdados, de tradições literárias, de constrangimentos e de questionamentos políticos sempre ancorados no presente. É essa trama subterrânea que este ensaio expõe de maneira brilhante mas também transparente. Incorporando um vasto debate intelectual – de Halbwachs a Nora e a Ricoeur, de Benjamin a Yerushalmi, de Ginzburg a LaCapra e White – que reformula as fronteiras da história e questiona de um modo crítico e positivo os seus processos de escrita. Tornando-a um território vivo e não o eco de um museu decrépito.</p>
<p><span style="font-size: 85%;">Enzo Traverso,<em> O passado, modos de usar. História, memória e política</em>. Trad. de Tiago Avó. Edições Unipop. 196 págs. Versão revista de nota saída na <em>LER </em>de Abril.</span></p>
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		<title>Lemkin e o genocídio</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Apr 2012 17:31:40 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Veio há dias parar-me às mãos um ensaio do jurista francês Olivier Beauvallet sobre a vida e a obra de Raphael Lemkin (1900-1959). O nome do advogado polaco de origem judia não me era totalmente estranho, mas jamais o seu trabalho me havia surgido como algo que justificasse uma atenção especial. Todavia, o conteúdo do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34711" title="Lemkin" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/lemkin2.jpg" alt="Lemkin" width="500" height="149" /></p>
<p>Veio há dias parar-me às mãos um ensaio do jurista francês Olivier Beauvallet sobre a vida e a obra de Raphael Lemkin (1900-1959). O nome do advogado polaco de origem judia não me era totalmente estranho, mas jamais o seu trabalho me havia surgido como algo que justificasse uma atenção especial. Todavia, o conteúdo do ensaio veio provar-me a injustiça de um desconhecimento generalizado. Acontece que Lemkin foi «apenas» o fundador do conceito de «crime bárbaro», que na qualidade de procurador público na Polónia apresentou em 1933 a um comité jurídico da Sociedade das Nações reunido em Madrid. Escusado será dizer que a iniciativa, associada à sua condição de judeu polaco, lhe causou problemas na década e meia de escuridão que se seguiu. Começou por perder o cargo e, após ser ferido ao participar na defesa de Varsóvia perante o avanço das tropas alemãs, viu-se forçado a fugir para a Suécia e depois para os Estados Unidos. Entretanto quase toda a sua família havia perdido a vida nos campos de extermínio. Já na América, foi em 1948 um dos impulsionadores, agora no âmbito das Nações Unidas, da Convenção para a Prevenção e o Castigo do Crime de Genocídio, conceito do qual fora também, quatro anos antes, o criador, estabelecendo nessa altura um dos fundamentos jurídicos sobre os quais assentou o trabalho da acusação nos julgamentos de Nuremberga. Se é verdade que o padrão de prática que conseguiu criminalizar no domínio do direito internacional não deixou de prosseguir o seu caminho depois da Segunda Guerra Mundial – a fúria genocida fez ainda, continua a fazer, muitos milhões de vítimas –, devemos a Lemkin a consideração, no campo da culpa pública e da sua penalização, dessa modalidade extrema de violência que durante a maior parte da história humana ocorreu num registo de normalidade.</p>
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		<title>Donos de Portugal</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Apr 2012 21:53:15 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Um documentário de Jorge Costa.]]></description>
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<p>Um documentário de Jorge Costa.</p>
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		<title>De 24 para 25</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Apr 2012 11:24:14 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[De 24 para 25 de Abril &#8211; emissão histórica em direto. Uma iniciativa do Centro de Documentação 25 de Abril e da Ideias Concertadas. Na página Facebook do CD25A, das 22 horas de 24 às 22 de 25, a Revolução dos Cravos passo a passo, relatada e documentada.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>De 24 para 25 de Abril &#8211;  emissão histórica em direto</strong>. Uma iniciativa do Centro de Documentação 25 de Abril e da Ideias Concertadas. Na <a href="https://www.facebook.com/cd25a?ref=ts" target="_blank">página Facebook do CD25A</a>, das 22 horas de 24 às 22 de 25, a Revolução dos Cravos passo a passo, relatada e documentada.</p>
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		<title>Coimbra: a cidade e a luta estudantil</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Apr 2012 16:45:05 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Disponível em formato pdf um texto que escrevi em 2007 sobre «Coimbra: a luta estudantil e o património identitário da cidade». Poderá servir de munição, ou de contrapeso, no debate atualmente em curso sobre os usos e os abusos da praxe estudantil. E também para uma apreensão mais completa do papel dos estudantes na vida [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone  wp-image-1225" title="coimbra_c" src="http://ruibebiano.net/wp-content/uploads/2012/04/coimbra_c.jpg" alt="coimbra_c" width="443" height="296" /></p>
<p>Disponível em formato pdf um texto que escrevi em 2007 sobre «Coimbra: a luta estudantil e o património identitário da cidade». Poderá servir de munição, ou de contrapeso, no debate atualmente em curso sobre os usos e os abusos da praxe estudantil. E também para uma apreensão mais completa do papel dos estudantes na vida e na história deste lugar diferente. Uma apreensão menos passadista sem por isso promover o esquecimento. <a href="http://ruibebiano.net/docs/RB_Coimbra_cidade_movest.pdf" target="_blank">Pode baixá-lo aqui</a>.</p>
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		<title>O passado é agora [20]</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Apr 2012 01:36:22 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Sous les Pavés, la Plage [Retomo a série O passado é agora usando o título do meu primeiro blogue. RIP]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34421" title="Sous les pavés la plage" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/paves.jpg" alt="Sous les pavés la plage" width="478" height="316" /></p>
<p><em><span style="color: #993300;">Sous les Pavés, la Plage</span></em></p>
<p><span style="font-size: 85%;">[Retomo a série <em>O passado é agora</em> usando o título do meu primeiro blogue. RIP]</span></p>
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		<title>Marcuse de volta</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Apr 2012 01:54:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Atualidade]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
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		<description><![CDATA[Protegido provavelmente pelo estado de confusão no qual viviam os censores do marcelismo, em janeiro de 1971 o semanário de atualidades Vida Mundial, com uma tiragem, exorbitante para a época e para o país, de 40.000 exemplares, fazia a capa com um cartoon representando Herbert Marcuse, ao qual dedicava um dossiê inteiro. A razão da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone  wp-image-34371" title="Herbert Marcuse" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/marcuse1.jpg" alt="Herbert Marcuse" width="387" height="290" /></p>
<p>Protegido provavelmente pelo estado de confusão no qual viviam os censores do marcelismo, em janeiro de 1971 o semanário de atualidades <em>Vida Mundial</em>, com uma tiragem, exorbitante para a época e para o país, de 40.000 exemplares, <a href="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/marcuse3.jpg" target="_blank">fazia a capa</a> com um <em>cartoon</em> representando Herbert Marcuse, ao qual dedicava um dossiê inteiro. A razão da escolha: pouco tempo antes, já com setenta anos cumpridos, o filósofo da Escola de Frankfurt passara para a ribalta ao ser apropriado pela reflexão libertária e crítica da sociedade pós-industrial que integrou a vertente mais radical e antissistema das movimentações saídas de Berkeley e do «Maio francês». Em 1955 saíra <em>Eros e Civilização</em>, obra que recorria à conceção freudiana do progresso da civilização para demonstrar como a sociedade capitalista altera e condiciona o desejo. Uma posição muito naturalmente sedutora para o padrão hedonista de representação do mundo que moldava a cultura <em>sixtie</em>. Foi no entanto em 1964, com <em>O Homem Unidimensional</em>, só agora traduzido e editado em Portugal, que Marcuse passou a integrar o núcleo duro dos acusadores da sociedade tecnológica desenvolvida que considerava um fator de escravidão.</p>
<p>A particularidade desse modelo societário residiria então, para além de seu elevado nível de automação, no facto de suscitar um enganador «funcionamento suave do todo». Este assumiria características totalitárias, já que continha «uma coordenação técnico-económica não-terrorista» capaz de operar «através da manipulação das necessidades por interesses estabelecidos», impedindo desta forma o surgimento de «uma oposição eficaz ao todo». O próprio indivíduo transformar-se-ia num produto da alienação provocada por uma sociedade consumista e massificada, dentro da qual a possibilidade de oposição fora suprimida ou desviada, criando uma forma unívoca, padronizada, de pensamento e de ação. Obra de denúncia do modelo monstruoso para o qual o capitalismo parecia empurrar a sociedade, foi no entanto reprovada por uma parte da crítica de esquerda por não oferecer uma via de escape para essa forma servidão que impunha ao indivíduo uma atitude conformista, consumista e acrítica. No entanto, se bem que a estrutura da obra defina principalmente uma intenção analítica – desenhando um quadro ainda hoje de considerar – não terá sido acidental a escolha da frase redentora de Walter Benjamin com a qual termina: «Só através dos que não têm esperança a esperança nos é dada.»</p>
<p><span style="font-size: 85%;">Herbert Marcuse, <em>O Homem Unidimensional. Sobre a Ideologia da Sociedade Industrial Avançada</em>. Trad. de Miguel Serras Pereira. Letra Livre. 326 págs. Versão revista de nota saída na <em>LER </em>de Março.</span></p>
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		<title>A glória do bicho-papão</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Mar 2012 07:19:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Biografias]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
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		<description><![CDATA[Charles Esdaile começa por recordar que Napoleão Bonaparte é, depois de Jesus Cristo, a personalidade histórica mais vezes representada no cinema, e também uma daquelas sobre quem mais se escreveu. Lembra também que poucos notáveis do passado determinaram posições tão extremadas, no seu próprio tempo ou na posteridade, quanto aquelas que desde cedo se definiram [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone  wp-image-34282" title="Napoleão Bonaparte" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/03/napoleon.jpg" alt="Napoleão Bonaparte" width="303" height="391" /></p>
<p>Charles Esdaile começa por recordar que Napoleão Bonaparte é, depois de Jesus Cristo, a personalidade histórica mais vezes representada no cinema, e também uma daquelas sobre quem mais se escreveu. Lembra também que poucos notáveis do passado determinaram posições tão extremadas, no seu próprio tempo ou na posteridade, quanto aquelas que desde cedo se definiram em volta do caráter, da ação e das intenções do «leão corso». De um lado, um certo entendimento da sua aparência como a de um monstro, capaz de pôr um continente inteiro a ferro e fogo apenas determinado por um desejo insaciável de poder e de fama. Do outro, a representação positiva de um visionário com papel decisivo no despertar da «Europa das nações», prova provada do dinamismo do «grande-homem» na História. Sem a intervenção do qual, no caso em apreço, o fim do <em>Ancien Régime</em> e a reforma política e administrativa da coisa pública não poderiam ter sido obtidos do modo e nos termos em que ocorreram.<span id="more-34281"></span></p>
<p>Esdaile<strong>,</strong> historiador da Guerra Peninsular (1807-1814) sobre a qual tem publicado bastante, revisita aqui esse complexo legado interpretativo. Procurando no entanto observar a intervenção de Napoleão num plano que não se limita ao estudo detalhado das campanhas militares, nem a tem sequer como principal condicionante, ao contrário do que acontece com a maioria das obras da «historiografia napoleónica». Define três objetivos primordiais para a obra: sintetizar o trajeto e a iniciativa de Bonaparte, inserindo-os num debate que habitualmente está ausente e permanece dominado por tomadas de posição peremptórias; escrever uma história das Guerras Napoleónicas capaz de refletir a sua dimensão pan-europeia e não seja apenas francocêntrica; e colocar os doze anos de conflito envolvendo a ambição expansionista francesa no âmbito de uma cadeia de acontecimentos e de mudanças que envolveram o continente europeu de uma ponta à outra, sem exceção, e dos quais aqui se traça uma panorâmica completa e ao mesmo tempo absorvente.</p>
<p>O estudo criterioso das condições e dos episódios, fundamentais para uma compreensão mais completa, e menos emotiva do que crítica, desta biografia de Napoleão inscrita no tempo que a sua iniciativa pessoal moldou ou condicionou, não exclui, no entanto, a consideração da função desempenhada pela sua personalidade de protagonista de um intenso drama internacional. O historiador insiste em que sem a sua enorme determinação, e sem o seu insaciável desejo de glória, jamais o imperador teria, desde a Península Ibérica à Rússia, dos Balcãs à Escandinávia, da Polónia à Turquia, conseguido perturbar de maneira tão profunda as vidas e os destinos dos povos, tornando-se uma obsessão, ou um fantasma, que ainda se não dissolveu inteiramente. Se o seu nome teve, como tantas vezes se afirma, um papel fundamental no conhecimento mútuo e na aproximação dos povos europeus, esse papel foi, como escreve Esdaile, o «de bicho-papão» que a todos amedrontava.</p>
<p><span style="font-size: 85%;">Charles Esdaile,<em> As Guerras de Napoleão. Uma história internacional. 1803-1815</em>. Trad. de João Bernardo Paiva Boléo. A Esfera dos Livros. 676 págs. Versão revista de nota saída na <em>LER </em>de Março.</span></p>
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