Arquivo de Categorias: História

O retorno e os retornados

La Revedere. Fotografia de Vlad Savin

Durante um quarto de século, o passado das centenas de milhares de portugueses chegados ao Portugal europeu com a descolonização pareceu ter sido apagado. A integração foi dramática, difícil e em larga medida incompleta, mas se o seu futuro continuou a preocupar, o que ficara para trás parecia «merecer» o completo apagamento. Foi só quando a normalização possível da situação dos «retornados» deixou de ser um problema coletivo que estes adquiriram uma nova visibilidade. Esta foi conquistada recentemente e de um modo muito lento, apenas projetada no interesse público, aliás, numa fase bem posterior à abordagem da própria Guerra Colonial, também ela silenciada e só a partir da década de 1990 em condições de começar a ser objeto de um grande número de leituras de natureza crítica, jornalística, histórica, política ou ficcional. Neste caso, afora a publicação de alguns romances (como o recente O Retorno, de Dulce Maria Cardoso) e de textos de natureza memorialística e nostálgica, poucos livros abordaram o tema do regresso de uma forma equilibrada, sem com isso querer dizer desvinculada da emoção invocada pela memória e da mágoa imposta pelo silêncio. Mas é isto que procura e consegue Voltar, da autoria da jornalista Sarah Adamopoulos. (mais…)

    História, Memória, Olhares

    23 de Outubro em Budapeste

    Em 23 de outubro de 1956, há exatamente 56 anos, uma manifestação estudantil ferozmente reprimida pela polícia política em Budapeste tornou visível, mais de uma década antes da «Primavera de Praga», a primeira tentativa de democratizar o socialismo de Estado, associando-o a uma maior transparência política e a mais liberdades públicas no contexto do que foi então chamado «um socialismo verdadeiro». O movimento de oposição ao regime de partido único cresceu rapidamente e prosseguiu com a formação de milícias que tomaram o poder na capital e em outras cidades. O derrube da estátua colossal de Estaline teve na altura um particular simbolismo. Num ambiente efervescente, foram levadas a cabo ações de vingança sobre os agentes da ÁVH, a Polícia de Segurança do Estado, bem como sobre muitos quadros do Partido dos Trabalhadores Húngaros. O seu Comité Central ensaiou então uma abertura e Imre Nagy, um comunista reformista em tempos quadro do Comintern, foi nomeado primeiro-ministro, mas o Bureau Político mudou de ideias e acabou por apelar à intervenção militar de Moscovo. Em 4 de novembro, uma poderosa força soviética entrou em Budapeste. (mais…)

      Democracia, História, Memória

      As nossas brigadistas

      A primeira parte deste Mulheres de Armas foi escrita por Isabel do Carmo, ex-dirigente das Brigadas Revolucionárias, a organização fundada em 1970 por militantes saídos do PCP e outros antifascistas com o objetivo de sabotar o aparelho militar ao serviço da Guerra Colonial e, a partir de 1973 em conjugação com o Partido Revolucionário do Proletariado, de impor pela via das armas uma revolução socialista. A antiga militante revolucionária evoca nestas páginas os momentos fundamentais da história das Brigadas no que respeita à participação ativa de mulheres no seu lançamento e nas ações de combate que a organização protagonizou, como assaltos a bancos para recolha de fundos, sabotagens de instalações militares ou iniciativas de propaganda que incluíram o rebentamento de petardos. Ressalvando pormenores de natureza autobiográfica, alguns deles pitorescos, nesta longa introdução aquilo que sobressai não é a exposição de informação totalmente desconhecida, mas a manifestação do papel destacado de muitas mulheres, único então nas fileiras da Oposição, em iniciativas de primeira linha no campo da ação armada. (mais…)

        História, Memória

        No verão de 75

        Uma curiosidade. De acordo com listagens publicadas nos principais jornais diários da altura, para além de obras de autores portugueses perseguidos pela ditadura, os livros mais vendidos em Portugal entre Maio e Julho de 1975 foram O Combate Sexual da Juventude e O Que É a Consciência de Classe?, ambos de Wilhelm Reich, O Livro Erótico Chinês, de Li Yu, A Situação da Classe Trabalhadora em Inglaterra, de Engels, A Pequena Antologia do Anarquismo, contendo textos de Stirner, Bakunine e Kropotkine, a Prática Epistemológica das Ciências Sociais, de Manuel Castells, e as anónimas Memórias Eróticas de um Burguês. Marx, Lenine ou Mao ocupavam lugares relativamente modestos.

          História, Memória

          1918: o ensino técnico na Rússia

          Lunatcharski na abertura de uma exposição
          (De um documentário de Dziga Vertov)

          As extrapolações dos factos e das interpretações da História são quase sempre tão sedutoras quanto perigosas. Servem muitas vezes para conceder legitimidade à ordem do presente, o que raramente produz efeitos benignos. Mas podem também ampliar a experiência do contemporâneo, municiando-a com episódios, atitudes, descobertas, ideias, que do passado podem projetar um eco útil, ou ilustrativo, sobre o presente que nos cabe. Apesar de a nossa vivência ser irrevogavelmente singular, e de cada momento envolver sempre condições próprias, é sempre bom saber que raramente vivemos a completa novidade. Vem isto a propósito de uma descoberta (uma entre muitas outras) produzida durante a leitura de A Peoples’s Tragedy. The Russian Revolution. 1891-1924, um estudo épico, editado em 1997, que foi um dos primeiros do grande e polémico historiador britânico Orlando Figes. (mais…)

            Apontamentos, História, Olhares

            Jornais, política e poder

            Após o 25 de Abril, a extensão da liberdade de expressão e o desenvolvimento do sistema multipartidário alimentaram em Portugal uma forte aproximação entre as diversas instâncias do poder e a vida dos jornais. Políticos e jornalistas compreenderam rapidamente que a sua atividade e os seus destinos se encontravam agora unidos: os partidos e as instituições democráticas precisavam da comunicação social para se relacionarem de forma mais direta e eficaz com aqueles que formalmente representavam, enquanto esta encontrava na divulgação da atualidade política um motivo de interesse para fidelizar os diferentes públicos. Todavia, o processo não foi linear, tendo-se em alguns momentos produzido a relação de promiscuidade entre os dois universos que ainda persiste. Neste cenário, o pior que pode acontecer, para a saúde da democracia, mas também para a vitalidade da informação, é esse relacionamento não ser observado de uma forma crítica e contextualizada. É por isso de grande interesse e proveito a leitura de Apogeu, Morte e Ressurreição da Política nos Jornais Portugueses, da jornalista, investigadora e professora Carla Baptista. (mais…)

              História, Memória

              O historiador mudo

              Fotografia de Mehmet Kirmizi

              Desde que alguém passou a ocupar parte da vida a reunir e a dar um sentido a fragmentos do passado, expondo-os aos olhos dos outros, existe uma reflexão sobre a função e a condição de quem a essa tarefa se dedica. Numa entrevista publicada em 1997 na Sciences Humaines, Jacques LeGoff falava de três grandes obrigações, que de algum modo interferem nas circunstâncias com as quais o historiador convive: investigar, ensinar e divulgar. O modo de o fazer, ou de o não fazer, é que define os diferentes pontos de vista. Seria fastidioso, e seguramente pouco motivador para a leitura casual e instantânea que se faz no espaço de um blogue, a exposição e o debate das diferentes conceções, tendências ou atitudes que sobre esse papel complexo têm sido produzidas e divulgadas. Mas vale a pena olhar para um lado do assunto que se presta a frequentes equívocos. Principalmente numa época como esta que cruzamos, na qual, apesar do recuo da História como saber nos programas escolares, nas preocupações dos governantes e na consideração pública, a palavra dos historiadores continua a ser utilizada, ou cirurgicamente manipulada, como instrumento de legitimação do discurso político, tanto do lado dos que procuram conservar o poder como da parte dos que o tentam conquistar. (mais…)

                História, Memória

                Berlim 61 e a morte de Günter Litfin

                Na noite de 12 para 13 de Agosto de 1961, precisamente às duas da manhã, começou em Berlim, sob a direção de Erich Honecker, secretário do Comité Central do Partido Socialista Unificado da Alemanha para os assuntos oficiais, a construção do muro destinado a separar as zonas de ocupação francesa, britânica e americana da área então controlada pelos russos. Para a União Soviética e as autoridades da República Democrática Alemã, responsáveis pela decisão, esta destinava-se a «defender» a sua forma peculiar de socialismo da «agressão capitalista». Na verdade, o primeiro objectivo foi pôr termo ao êxodo massivo da população da Alemanha Oriental, que representava uma enorme hemorragia demográfica e económica para o bloco de Leste e abalava a sua imagem internacional. (mais…)

                  Apontamentos, História, Memória

                  Nós e o Holocausto

                  Uma parte importante de Portugueses no Holocausto, escrito por Esther Mucznick, procede a um trabalho de rememoração das circunstâncias que conduziram o governo da Alemanha nazi a passar de um antissemitismo visceral à decisão política, abertamente genocida, da Solução Final. Aquela que determinou os horrores mais extremos e sem remissão do Holocausto. Até há relativamente pouco tempo, esta era uma história bem conhecida; no entanto, o recuo do conhecimento da história do século vinte por parte de um segmento importante das gerações mais novas, associado a uma certa influência das teorias revisionistas e negacionistas, torna imperativo o retomar dos factos e das circunstâncias do horror. Não é este, porém, o objetivo primordial da obra, principalmente centrada na forma como uns e outras se relacionaram com Portugal e com os portugueses, ou pelo menos com muitos dos seus descendentes. (mais…)

                    História, Memória

                    História pouco edificante

                    Em Dezembro de 1949, no mesmo ano em que foi proclamada a República Popular da China, Mao Tsé-Tung fez uma visita de Estado a Moscovo e a Estaline. Levou consigo uma autêntica arca do tesouro de ofertas chinesas e vários vagões carregados de arroz. Muitos dos ornamentos de laca ainda hoje decoram as paredes do apartamento, situado na Rua Granovski, onde Molotov viveu. Já o arroz, então um bem raro na capital soviética, foi distribuído pelos altos dignitários do Partido. Em troca, segundo conta Simon Sebag Montefiore, Estaline ofereceu os nomes dos agentes soviéticos infiltrados no Politburo dos comunistas chineses. De regresso a Pequim, como seria de prever, Mao liquidou-os imediatamente.

                      Apontamentos, Etc., História

                      V. Ilitch e Fofanova

                      Numa rua de Kiev. Fotografia de Pavlo

                      É maior do que pensava a minha ignorância da petite histoire do socialismo e por isso estou sempre a encontrar episódios novos. Nos dias que antecederam a tomada do poder pelos bolcheviques, Lenine escondeu-se em Moscovo no número 91 da Rua Serdobolskaia, apartamento 41 (atualmente o 106 da Perspetiva Marx, apartamento 20). A proprietária era uma mulher moscovita de 34 anos, que não só alojou Vladimir Ilitch, fornecendo cama, mesa e roupa lavada, como lhe serviu de ligação com os restantes membros da direção do Partido. É legítimo supor que o relacionamento entre os dois não tenha sido apenas estritamente político, dado o bilhete, ainda hoje conservado, que Lenine lhe deixou quando abandonou o apartamento para ir mudar a história da Rússia e do mundo: «Vou agora para onde tu me pediste que não fosse. Adeus.» De onde se depreende que a camarada possuía um nome só aparentemente convincente: Margarita Vasilevna Fofanova.

                        Apontamentos, Devaneios, História

                        As noites da emancipação

                        Num dado momento do seu trajeto filosófico, Jacques Rancière (n. 1940) passou a dedicar-se aos discursos dos excluídos, daqueles que num dado momento da História se viram confinados ao silêncio, empurrados para as margens pelas vozes hegemónicas: os proletários, os pobres, as mulheres, as minorias. Este A Noite dos Proletários, originalmente publicado em 1981, integra-se nesse esforço, procurando encontrar no discurso «desclassificado» de um conjunto de operários franceses saint-simonianos, «letrados» autodidatas da primeira metade do século XIX, um olhar diferente do habitual a propósito de conceitos – como exploração, domínio, trabalho, fadiga, economia, libertação, associação ou saber – associados à afirmação, então em pleno curso, do capitalismo triunfante e da nova identidade do universo do trabalho. (mais…)

                          Democracia, História

                          A fábula do passado

                          Afonso Henriques
                          De uma animação de Pedro Lino

                          O post que escrevi ontem a propósito da morte de José Hermano Saraiva destacou aspetos que se completam no que representou a sua vida como homem público: a enorme popularidade que colhia como comunicador, a forma como a maioria dos historiadores o não considerava um dos seus, a maneira como ainda assim contribuiu para uma valorização popular da História, sem esquecer o percurso como quadro do Estado Novo e defensor do legado de Salazar. Ficou no entanto por comentar um aspeto importante: o que determinou uma popularidade tão grande que agora, na hora do seu desaparecimento, tantas pessoas que não serão propriamente adeptas do anterior regime se indispõem com as críticas, mais do que legítimas, mais do que necessárias, que lhe são feitas? (mais…)

                            Apontamentos, História, Memória

                            O verdadeiro J. H. Saraiva

                            Castelo de areia. Imagem de Lydia

                            Como seria de esperar, a morte de José Hermano Saraiva (1919-2012), está a dar lugar, a par das demonstrações de pesar que são devidas sempre a quem parte, a um cortejo de elogios excessivos. Mas deteta-se também a invocação de algumas de críticas ao seu trabalho no campo da História e a exibição de comprometedores silêncios sobre o seu papel como cidadão. O peso do lugar que ocupa no nosso imaginário coletivo justifica um olhar sobre estes três aspetos.

                            Os elogios decorrem, naturalmente, da sua popularidade como divulgador da História de Portugal, ou, de acordo com algumas leituras, como historiador. Os seus programas televisivos, ampliados pela enorme capacidade histriónica que detinha, tornaram-no figura única, em termos de popularidade, na sua área de especialização. Relato um episódio que me foi contado há já uns anos por um colega, historiador e professor da Universidade do Porto, que é bastante revelador do peso dessa aura. Tendo sido a dada altura decidido fazer aos alunos do 1º ano de História da Faculdade de Letras um inquérito sobre os seus conhecimentos da disciplina, e tendo-lhes sido pedido que indicassem o nome de três historiadores portugueses vivos, nem um só deles deixou de indicar o nome de José Hermano Saraiva. O curioso, e também significativo, é que vários indicaram como segunda e terceira escolha… Alexandre «Saraiva» (referindo-se a Herculano, claro, falecido em 1877) e Vitorino Magalhães «Saraiva» (Godinho, como é bom de ver). «Saraiva» tem, pois, para muitos portugueses, uma relação de sinonímia com «historiador», reforçada pelo facto de, nesta profissão, poucos serem conhecidos fora dos círculos académicos ou dos setores educados da classe média. (mais…)

                              Atualidade, História, Memória

                              Paris 1940

                              Paris sob a Ocupação
                              Fotografia de André Zucca

                              O antigo primeiro-ministro britânico Anthony Eden disse certa vez que quem não viveu diretamente «os horrores de uma ocupação por um inimigo estrangeiro» não tem o direito de julgar aqueles que os sentiram na pele. Algo de idêntico, aliás, pode dizer-se da forma como são avaliados determinados comportamentos em situações de guerra ou de perigo extremo: é fácil fazer juízos benévolos, ou proclamar heroísmo, ou anotar cobardias, quando nunca se soube pela experiência própria o que é pisar o frágil risco que pode separar a vida da morte, sabendo, ademais, que se está a fazê-lo. And the Show Went On: Cultural Life in Nazi-Occupied Paris, do jornalista brasileiro, filho de ingleses, Alan Riding, é um absorvente relato da vida artística parisiense sob a ocupação nazi, explorando a desconfortável e instável região instalada entre o colaboracionismo, forçado ou não, e a genuína resistência.

                              Os primeiros capítulos mostram de que modo a vida intelectual da França se encontrava já ideologicamente fraturada no período que antecedeu 1940 – a data de início da ocupação nazi e do estabelecimento do governo-fantoche de Vichy – com o antissemitismo a marcar profundamente a vida dos criadores e do público. Para o final da Guerra, a luta pela sobrevivência tornou tudo ainda mais turvo, envolvendo escritores, artistas e atores numa teia de ofuscações, compromissos e virares de casaca. Cheio de detalhes – as solas de madeira dos sapatos das mulheres, forçadas pelas restrições impostas ao consumo de cabedal, provocando um ruído único sobre os pavimentos da cidade; os números de music-hall flirtando com o perigo ao desafiarem veladamente os alemães – por esta história magnificamente contada passam inúmeros personagens, desde jovens estrelas de cinema que procuram dar-se a conhecer à primeira oportunidade até figuras já notáveis e omnipresentes como Picasso, Piaf, Sartre, Beauvoir, Cocteau e o violentamente antissemita Céline. Um caso ao acaso: Edith Piaf deslocando-se à Alemanha para cantar a convite dos nazis mas também para obter a libertação de soldados franceses detidos. Um livro sobre um lado da normalidade possível em tempo de guerra, no qual se confundem muitas vezes, na luta pela sobrevivência, a cobardia e a coragem. Onde nem tudo é branco versus preto, simples de distinguir.

                                História

                                Para sair do labirinto

                                Para além de ser um dos nossos mais importantes medievalistas, José Mattoso é também um historiador que não tem vivido a sua profissão como um espartilho, refletindo sobre domínios que se cruzam com os caminhos do contemporâneo e a experiência da cidadania. Comprovam-no os quinze ensaios escritos ao longo das últimas quase duas décadas que este Levantar o Céu reúne. Fá-lo adotando uma busca de sentidos, apoiada sempre numa reflexão muito pessoal, para essa «sabedoria verdadeira» que jamais se mostra à primeira vista, sendo por isso necessário «desejá-la, compreendê-la, descobri-la», aceitando que ela «não explica nada, explica-se». O título é pois uma declaração de intenções: se «levantar o céu» impõe a vontade de desvendar a relação entre o ideal que este representa e a materialidade da vida terrena, como possível via para perceber a mudança na ordem do mundo, já compreender o percurso labiríntico para alcançar a sabedoria é o mote que acompanha estes textos. A bússola oferece-a Mattoso no encontro, tantas vezes julgado como um inevitável desencontro, ou no equilíbrio que pessoalmente sempre procurou obter, entre fé e razão. O ceticismo do qual em alguns momentos nos dá conta apenas reforça esse sentido de procura. (mais…)

                                  Atualidade, História

                                  Otelo: uma biografia

                                  Otelo

                                  Paulo Moura é um excelente jornalista, de quem sou fiel leitor. Mas esta crítica negativa é condicionada por um imperativo: contornar o nevoeiro que um livro como este pode lançar sobre a imagem pública e a representação histórica da intervenção de Otelo Saraiva de Carvalho. Talvez o resultado pudesse ser outro se o posfácio, que poucos lerão, tivesse sido antes um prefácio, que toda a gente lê. Porque nele o autor aclara algumas das suas escolhas. Estas são, obviamente, tão legítimas quanto discutíveis. E muito discutíveis. Como é possível, por exemplo, compatibilizar um trabalho, descrito como «biográfico», e ainda que não seja «um livro para académicos» (qualificativo pouco preciso nele sugerido como restritivo), com a afirmação de que o autor decidiu ser «mais fiel às recordações do que ao passado»? E se se considera que é uma biografia «narrativa e interpretativa, não crítica», isenta de «juízos de valor», como excluir estes do território das recordações, que nunca sem manifestam sem a subjetividade de quem recorda? Muitos trabalhos sobre a conexão entre história e memória, na relação com a intervenção do testemunho dos atores dos factos vividos, tratam este assunto, procurando soluções que este livro exclui do horizonte. (mais…)

                                    Biografias, História, Memória