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	<title>A Terceira Noite &#187; Livros &amp; Leituras</title>
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	<description>leituras, polémicas e iluminações / um blogue de rui bebiano</description>
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		<title>Na rota de Kolyma</title>
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		<pubDate>Wed, 16 May 2012 17:40:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Como Auschwitz na rede de campos instalados pelos nazis, Kolyma é sinónimo de morte e sofrimento extremo no interior do universo concentracionário da antiga URSS. O complexo, instalado no glacial extremo-nordeste siberiano, detinha e conserva uma particularidade que marcou o seu destino: o de principal território de mineração do ouro da Rússia. Daí o interesse [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone  wp-image-34846" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/05/kolyma.jpg" alt="" width="261" height="421" /></p>
<p>Como Auschwitz na rede de campos instalados pelos nazis, Kolyma é sinónimo de morte e sofrimento extremo no interior do universo concentracionário da antiga URSS. O complexo, instalado no glacial extremo-nordeste siberiano, detinha e conserva uma particularidade que marcou o seu destino: o de principal território de mineração do ouro da Rússia. Daí o interesse de Estaline em enviar prisioneiros para as suas minas. Estima-se que entre 1932 e 1956 foram mais de 2 milhões os deportados para o complexo instalado na região. E muito poucos regressaram. Varlam Shalamov foi um dos que sobreviveu e nos intensamente autobiográficos <em>Contos de Kolyma</em>, escritos entre 1953 e 1963 mas reportando-se a uma experiência que vinha dos anos 30, deixou-nos reflexos desse lugar terrível. Décadas depois, relatos e reportagens fotográficas testemunham de uma forma perturbante o silêncio e a desolação desse espaço imenso, um dos mais hostis da Terra, no qual tantas vidas foram rapidamente consumidas, deixando um rastro de dor e sombra que ainda se não extinguiu. Foi por isso que o escritor e jornalista polaco Jacek Hugo-Bader resolveu percorrer de mota os 2 025 quilómetros da rota de Kolyma, que vai de Moscovo a Vladivostok. Ao longo do trajeto, relatado no seu <em>Dziennik Kolymski</em> (<em>Diário de Kolyma</em>), editado na Polónia no ano passado e recenseado na revista francesa <em>Books</em>, todas as pessoas com quem falou conservam uma qualquer ligação familiar ou emocional com aquelas minas que continuam malditas. Quem já leu na íntegra diz que o relato do longo e gélido périplo de Hugo-Bader é espantoso. E principalmente uma reflexão sobre a humanidade num lugar que já foi o da mais impiedosa desumanidade.</p>
<p><span style="font-size: 85%;"><a href="http://aterceiranoite.org/2009/12/04/o-combate-pela-dignidade-na-memoria-do-gulag/" target="_blank">um outro post relacionado com o tema</a></span></p>
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		<title>O regresso do fascismo</title>
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		<pubDate>Wed, 09 May 2012 18:00:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Lê-se num instante este pequeno livro do filósofo e ensaísta holandês Rob Riemen. Com ele passamos em revista, de forma clara e informativa, como num manual de instruções, o modo insidioso como o fascismo – tomando outros nomes, invocando até a liberdade, a igualdade de oportunidades e a democracia – se tem vindo a instalar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34822" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/05/riemen3.jpg" alt="" width="270" height="388" /></p>
<p>Lê-se num instante este pequeno livro do filósofo e ensaísta holandês <a href="http://www.robriemen.nl/en/rob-riemen-home.html" target="_blank">Rob Riemen</a>. Com ele passamos em revista, de forma clara e informativa, como num manual de instruções, o modo insidioso como o fascismo – tomando outros nomes, invocando até a liberdade, a igualdade de oportunidades e a democracia – se tem vindo a instalar nas nossas consciências narcotizadas pelos média, preparando o terreno para novas formas de sujeição. Mais traiçoeiras, menos espetaculares, mas não menos escravizantes e violentas do que aquelas que na primeira metade do século passado foram aplicadas pelos protótipos italiano e alemão. Lembra a dada altura Riemen que o fascismo con­temporâneo «resulta, mais uma vez, de partidos po­líticos que renunciaram à sua tradição intelectual, de intelectuais que cultivaram um niilismo com­placente, de universidades que já não são dignas desse nome, da ganância do mundo de negócios e de <em>mass media</em> que preferem ser ventríloquos do público em vez de o seu espelho crítico», notando serem justamente estas elites corrompidas que alimentam o vazio espi­ritual que serve de caldo de cultura à sua expansão. <em>O Eterno Retorno do Fascismo</em> é um brado de alerta e um estímulo à crítica do acriticismo que vai chocando o ovo da serpente. Deve por isso ser lido com a etiqueta de urgente.</p>
<p><span style="font-size: 85%;">Rob Riemen, <em>O Eterno Retorno do Fascismo</em>. Bizâncio. Trad. de Maria Carvalho. 78 páginas. Ver também uma recente entrevista dada pelo autor <a href="http://www.ionline.pt/mundo/rob-riemen-classe-dominante-nunca-sera-capaz-resolver-crise-ela-crise-1" target="_blank">ao ionline</a>.</span></p>
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		<title>Mulheres com M</title>
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		<pubDate>Thu, 03 May 2012 17:04:10 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Tem sido boa a repercussão pública do ensaio Humilhação e Glória, de Helena Vasconcelos. Sendo inteiramente merecido, esse eco deve, no entanto, ser confrontado com algumas dúvidas que a leitura da obra levanta. É desde logo evidente a intenção da autora de conceber o livro como uma introdução à história das mulheres, concebida de forma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone  wp-image-34785" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/05/femme.jpg" alt="" width="425" height="341" /></p>
<p>Tem sido boa a repercussão pública do ensaio <em>Humilhação e Glória</em>, de Helena Vasconcelos. Sendo inteiramente merecido, esse eco deve, no entanto, ser confrontado com algumas dúvidas que a leitura da obra levanta. É desde logo evidente a intenção da autora de conceber o livro como uma introdução à história das mulheres, concebida de forma atraente e vocacionada principalmente para o leitor comum. Ele vem preencher, aliás, na linha do que fez em Espanha Rosa Montero com o seu <em>Histórias de Mulheres</em>, uma lacuna na edição nacional. Ao mesmo tempo, a autora propõe um importante trabalho de resgate efetuado sobre os feitos e os trajetos públicos de um conjunto de mulheres, principalmente portuguesas, com papéis na literatura, nas artes, nas ciências ou na intervenção cívica que têm permanecido injustamente esquecidos ou na sombra. Se a Marquesa de Alorna é, pelo menos nos meios académicos, razoavelmente conhecida, poucos terão ouvido falar, por exemplo, de Teresa Margarida da Silva Orta, apesar de esta ter sido a primeira portuguesa a escrever um romance (<em>As Aventuras de Diófenes</em>, de 1752). Atravessa também o livro uma brisa de otimismo que contribui, sem dúvida, para ampliar o seu papel de instrumento destinado a sublinhar a importância de um trajeto histórico de combate pela emancipação e de afirmação positiva da voz das mulheres.</p>
<p>Uma leitura crítica levanta, porém, algumas perplexidades. Anoto três. Em primeiro lugar, a consideração de eventos e práticas originários de distintos tempos e lugares como se inscritos num percurso único, visando uma espécie destino trans-histórico comum. Em segundo lugar, a falta das propostas, dos problemas e dos combates que se levantaram, a partir da década de 1980, no contexto do chamado feminismo de terceira vaga, ficando as alusões canónicas pelas pelas autoras de segunda vaga (Simone de Beauvoir, Elaine Showalter, Betty Friedman e outras). E em terceiro o tom quase celebratório, em relação à situação atual de uma «tendência para a igualdade» que estudos no campo da sociologia e da ciência política têm vindo a desmontar, revelando, ao invés, que este padrão de discurso pode validar subordinações reais, aparentemente invisíveis. Pode ainda, entretanto, levantar-se uma última objeção que parecendo apenas formal, de facto o não é. A designação de um enquadramento do ensaio, enquanto género, no campo dos estudos «femininos» – e não «sobre as mulheres», ou «feministas», como são catalogados dentro de um universo hoje já bastante alargado, inclusivamente em Portugal, que se dedica ao seu estudo nos domínios da investigação de ponta e do debate teórico – advém de uma escolha da autora que sendo inteiramente legítima, respeitável, pode também ser questionada por dar a impressão de advir de uma noção essencialista sobre o «belo sexo» derivada de um modelo cultural dominantemente masculino. Um livro bastante útil e recomendável que convirá ler com alguma vigilância crítica.</p>
<p><span style="font-size: 85%;">Helena Vasconcelos, <em>Humilhação e Glória. O acidentado percurso de algumas mulheres singulares</em>. Quetzal. 328 págs.Versão revista de nota saída na <em>LER </em>de Abril.</span></p>
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		<title>Um Quixote português</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Apr 2012 22:58:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por hábito ou falta de atenção, a figura de Henrique Mitchell de Paiva Couceiro (1861-1944) tem sido algumas vezes associada de um modo injustamente exclusivo às incursões monárquicas nortenhas de 1911 e 1912, lançadas contra a Primeira República sem efetivo poderio militar e outras consequências que não o reforço do regime que pretendiam combater. Surge [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34746" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/paiva2.jpg" alt="" width="290" height="439" /></p>
<p>Por hábito ou falta de atenção, a figura de Henrique Mitchell de Paiva Couceiro (1861-1944) tem sido algumas vezes associada de um modo injustamente exclusivo às incursões monárquicas nortenhas de 1911 e 1912, lançadas contra a Primeira República sem efetivo poderio militar e outras consequências que não o reforço do regime que pretendiam combater. Surge também ligada à sua condição de Presidente da Junta Governativa do Reino, assumida quando da efémera experiência da Monarquia do Norte – essa «Traulitânia» tão rebaixada no campo republicano – proclamada no Porto em janeiro de 1919. O estrondo da sua atuação durante esses anos bastou, no entanto, para que em torno da memória que dela sobrou se fosse construindo uma «lenda negra», que os republicanos facilmente ergueram, e outra de sinal inverso, que os adeptos da antiga ordem monárquica fizeram por manter, transformando-o em paladino e símbolo de uma causa que não queriam dar por perdida. Para evitar a perspetiva parcial, o impacto da sua intervenção pública deve por isso ser procurado dentro de um arco temporal mais alargado. O resultado final será o reconhecimento de um Quixote português, batendo-se, como o original, por idealismo e uma certa noção de honra, em nome de um Portugal que a corrente do tempo empurrava já para o passado.<span id="more-34734"></span></p>
<p>A biografia de Paiva Couceiro, marcada pela ascensão rápida numa carreira militar iniciada aos dezassete anos, passou por três fases distintas e complementares. À primeira definiu-a uma ligação profunda a África, por muito tempo o cenário central da sua vida. Abre com o comando da Cavalaria da Humpata, em Angola, onde entre 1889 e 1891 participou em viagens de reconhecimento e «campanhas de pacificação», na realidade agressivas iniciativas militares destinadas a impor a soberania portuguesa em territórios nos quais ela permanecia meramente formal. Após uma curta estadia na metrópole, combaterá integrado na Legião Espanhola na guerra do Rif (1893-1894), seguindo depois para Moçambique, onde, sob o governo de António Enes desempenhará um papel crucial nos combates contra os potentados autóctones que procuravam resistir à imposição da autoridade portuguesa. Superintendeu então as operações que conduziram à prisão e à deportação de Gungunhana, sendo Mouzinho de Albuquerque um seu subordinado. De regresso a Portugal, será proclamado «benemérito da Pátria» e nomeado conselheiro do rei. Ocupará então cargos militares e políticos de destaque, chegando mesmo, entre 1906 e 1907, a ser deputado, vinculado ao Partido Renovador Liberal e a João Franco. E nos dois anos seguintes será o Governador-Geral de Angola. A segunda fase, a mais conhecida, foi a da resistência à proclamação da República, que tentou impedir logo a 4 e 5 de Outubro, tendo mesmo sido o único oficial que neste dia fez fogo sobre o acampamento revolucionário da Rotunda. Apenas depôs as armas quando soube que o rei D. Manuel tinha deixado o país a caminho do exílio, apesar da vitória militar monárquica parecer assegurada. Pediu então a demissão do exército por desejar manter «a honra de servir uma só bandeira» e foi em consonância com esta atitude que chefiou as incursões armadas antirepublicanas, cumprindo depois um papel fulcral na tentativa restauracionista de 1919. A terceira e última fase da vida acompanhará os anos da ascensão política de Salazar e os primeiros tempos do Estado Novo, tendo sido marcada por uma crescente divergência em relação a muitas das opções do novo governo.</p>
<p>É da etapa da resistência ativa à República, mas sobretudo da subsequente a 1919, que trata a maior parte dos apontamentos diarísticos, das cartas enviadas e recebidas, dos panfletos e dos artigos de jornal, até agora conservados inéditos ou esquecidos, que, como parte do enorme acervo deixado pelo autor, foi agora publicada com a organização e uma introdução do historiador Filipe Ribeiro de Meneses. Ela permite, no conjunto, projetar um olhar mais profundo sobre a vida e a atividade pública de Paiva Couceiro, libertando-as da ideia mais comum segundo a qual, após o desastre da Monarquia do Norte, este teria entrado numa fase de progressiva obscuridade. Todavia, não foi assim que as coisas aconteceram, como se pode agora perceber e Ribeiro de Meneses reconhece de imediato na introdução, quando, ao enfatizar a dimensão e a qualidade do espólio, deixa claro que o militar continuou a desempenhar um papel de relevo na oposição à Primeira República e que a sua atividade intelectual no campo da reflexão política prosseguiu também com vigor.</p>
<p>Para compreender o sentido e o registo mais essencial da documentação agora posta ao dispor dos investigadores e do público, é necessário, naturalmente, conhecer o trajeto militar e cívico do seu autor, mas principalmente compreender o processo de formação das suas convicções. Em <em>Um Herói Português</em>, a biografia que Vasco Pulido Valente escreveu há cerca de uma década para a <em>Análise Social</em> e republicou como livro em 2006 (Ed. Alêtheia), ficaram expostos contornos que esta documentação vem corroborar, mostrando o coronel Paiva Couceiro como homem em quem ao «ardor religioso, militar e patriótico em que fora educado» se sobrepôs sempre um certo padrão de coragem e iniciativa que o impeliram para a ação. Sob a perspetiva da democracia representativa de inspiração demoliberal, o seu anti-individualismo e o seu antiparlamentarismo, que tinham como contraponto a defesa de um autoritarismo benévolo, apoiado na ordem, na hierarquia e na tradição, não resultam particularmente simpáticos. No entanto, estes foram sempre temperados por um fortíssimo <em>ethos</em>, capaz de transformar as suas escolhas mais em gestos de ousadia – embora não de bravata – do que em opções de alguém condicionado pela ambição e o calculismo. Desta forma deverá, aliás, ser interpretada a sua aproximação, fugaz e pouco pacífica, às convicções do Integralismo Lusitano.</p>
<p>Todavia, a rígida afirmação dos princípios seria visivelmente suavizada nos últimos anos de vida, numa altura em que a sua intervenção se encontrava já poderosamente condicionada pelo isolamento forçado e pelo peso da idade. Então, foi uma vez mais a gestão das colónias que principalmente o preocupou, discordando da opção salazarista de a submeter aos limites impostos pelas metas financeiras do Estado e advogando uma intervenção bastante mais ativa nos territórios africanos. Nessa escolha, continuava a considerar a sua experiência pessoal e a sua intervenção como decisivas. Por isso, em novembro de 1937, na dura carta dirigida a Salazar que lhe valeria a detenção pelo regime e um exílio de dois anos em Espanha, se referiu à forma favorável e reconhecida como considerava que o povo português continuava a confiar no seu «desinteresse», no seu inequívoco «patriotismo», e no modo como ele próprio avaliava «uma vida inteira com uma cara só». Foi esta uma boa forma de resumir uma conceção de honra e uma persistência de convicções que, por aquela época de capitulações perante o ascendente autoritário do regime, se mantinha rara e exigente. E talvez seja esta a melhor maneira de, independentemente da distância política que possamos ter das suas escolhas, melhor conservarmos a sua memória. Que este livro vem refrescar, ampliando muito o conhecimento que temos do seu autor.</p>
<p>Na capa de um número de 1902 do jornal humorístico <em>A Paródia</em>,<em> </em>publicado por Rafael Bordalo Pinheiro, Paiva Couceiro surgia representado como um Quixote, investindo a eito, na savana africana, contra invisíveis inimigos. Apesar da intenção satírica, será provavelmente essa a representação mais justa que dele hoje podemos conceber. Avançando, com voluntarismo e convicção, na defesa, cada vez mais solitária, dos ideais a contracorrente aos quais se conservou fiel. Ele mesmo o sublinhou pelo seu punho, quando na referida carta a Salazar o invetivou: «Venha para o ar livre, e ponha o ouvido à escuta, a ver se ouve, lá das profundezas da História, a voz de Portugal verdadeiro». Que o velho coronel, o <em>Paladino</em> que os seus antigos apoiantes veneravam, acreditava conhecer e interpretar da melhor forma. Talvez melhor que ninguém.</p>
<p><span style="font-size: 85%;"><em>Paiva Couceiro. Diários, Correspondência e Escritos Dispersos</em>. Organização e introdução de Filipe Ribeiro de Meneses. Prefácio de Miguel de Paiva Couceiro. Publicações Dom Quixote. 806 págs. Texto saído na <em>LER </em>de Abril.</span></p>
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		<title>LER de Maio</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Apr 2012 22:24:55 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[A revista LER de Maio já nos quiosques e livrarias. Para além das habituais colunas e notas críticas, este mês a capa identifica de imediato os principais temas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34729" title="LER de Maio" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/Ler_Mai12.jpg" alt="LER de Maio" width="332" height="471" /></p>
<p>A revista <em>LER </em>de Maio já nos quiosques e livrarias. Para além das habituais colunas e notas críticas, este mês a capa identifica de imediato os principais temas.</p>
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		<title>História, memória e política</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Apr 2012 14:57:18 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[O passado, modos de usar, de Enzo Traverso – saído em 2005, antes de L’Histoire comme champ de bataille –, trata principalmente daquilo a que Habermas chamou «o uso público da história». O trabalho deste historiador e cientista político italiano tem vindo a ser preenchido com o estudo de épocas e de temas contemporâneos com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34718" title="Enzo Traverso" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/traverso.jpg" alt="Enzo Traverso" width="400" height="308" /></p>
<p><em>O passado, modos de usar</em>, de Enzo Traverso – saído em 2005, antes de<em> L’Histoire comme champ de bataille</em> –, trata principalmente daquilo a que Habermas chamou «o uso público da história». O trabalho deste historiador e cientista político italiano tem vindo a ser preenchido com o estudo de épocas e de temas contemporâneos com os quais conflituam interesses atuais e que por esse motivo permanecem perturbantes, como acontece com a «questão judaica», o Holocausto, o totalitarismo, o fascismo, a violência nazi, o comunismo ou o eurocentrismo. Em conexão com todos eles, Traverso tem-se ocupado com os problemas difíceis mas incontornáveis que levanta a conexão entre história e memória. Aquela proximidade com o presente torna entretanto o tratamento destes assuntos algo que não pode deixar de dialogar – independentemente do rigor inerente à intervenção própria dos historiadores – com as suas escolhas políticas, com as repercussões do seu trabalho entre os outros profissionais do mesmo ofício e, acima de tudo, com o impacto junto dos setores da opinião pública que vão acolhendo os ecos do que dizem ou escrevem.<span id="more-34717"></span></p>
<p>Este livro pequeno mas precioso decompõe de um modo pedagógico, sempre associado a contextos precisos, as linhas que aproximam os diferentes segmentos da memória coletiva (a «forte», tendencialmente hegemónica, e a «fraca», silenciada ou alternativa), a escrita histórica do passado e também as políticas da memória, fazendo-o sempre em diálogo com os temas que Traverso conhece bem e com a produção historiográfica recente que com eles converge. Mostrando de que maneira, perante um século marcado pela violência, a memória reivindica os seus direitos sobre a forma como esse passado é representado, na presunção de que a história, como recordou Paul Ricoeur, «não é mais do que uma parte da memória, escreve-se sempre no presente.» E quando tantos fatores, da indústria cultural aos museus, das comemorações aos programas educativos, contribuem para que se faça dessa memória do passado partilhado uma espécie de religião civil, pautando a perceção que as sociedades têm de si próprias, o tema torna-se particularmente importante.</p>
<p>Este passado cumpre muitas vezes um papel instrumental: conservar a recordação dos totalitarismos de forma a legitimar a ordem liberal, validar a ocupação da Palestina para evitar um novo Holocausto, invadir o Iraque para que se não repita Munique. Pode também trilhar caminhos mais discretos, por vezes mais subterrâneos, com uma dimensão crítica ou de resistência que define experiências de emancipação, de utopia e de revolta contra os poderes hegemónicos. A escrita da história é pois o resultado de um trabalho que emerge dessa trama complexa de recordações pessoais e partilhadas, de saberes herdados, de tradições literárias, de constrangimentos e de questionamentos políticos sempre ancorados no presente. É essa trama subterrânea que este ensaio expõe de maneira brilhante mas também transparente. Incorporando um vasto debate intelectual – de Halbwachs a Nora e a Ricoeur, de Benjamin a Yerushalmi, de Ginzburg a LaCapra e White – que reformula as fronteiras da história e questiona de um modo crítico e positivo os seus processos de escrita. Tornando-a um território vivo e não o eco de um museu decrépito.</p>
<p><span style="font-size: 85%;">Enzo Traverso,<em> O passado, modos de usar. História, memória e política</em>. Trad. de Tiago Avó. Edições Unipop. 196 págs. Versão revista de nota saída na <em>LER </em>de Abril.</span></p>
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		<title>25 de Abril</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Apr 2012 23:45:04 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[O processo de transfiguração do país que o 25 de Abril de 1974 abriu foi descrito como «Revolução dos Três D» (Democratizar, Descolonizar, Desenvolver). Este é o fundamento comum dos projetos políticos com os quais nos confrontámos por mais de três décadas e meia. A expressão pode parecer hoje algo redutora por não englobar as [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone  wp-image-34661" title="25 de Abril" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/25abril.jpg" alt="25 de Abril" width="534" height="286" /></p>
<p>O processo de transfiguração do país que o 25 de Abril de 1974 abriu foi descrito como «Revolução dos Três D» (Democratizar, Descolonizar, Desenvolver). Este é o fundamento comum dos projetos políticos com os quais nos confrontámos por mais de três décadas e meia. A expressão pode parecer hoje algo redutora por não englobar as enormes mudanças que estavam para ocorrer no campo da vida privada, das relações de trabalho e das práticas culturais, mas não deixa de verbalizar princípios programáticos e uma linha de rumo que cruzaram os anos e os diferentes governos. Democratizar supunha assim abrir a gestão da coisa pública e do coletivo à voz e à vontade livremente expressa dos cidadãos, o que até ali era impossível. Descolonizar significava alijar o fardo da ideia de império e do domínio dos povos colonizados, o que até ali era impraticável. Desenvolver impunha encontrar e expandir novos ritmos para a criação de riqueza e o bem-estar das populações, o que não constava das perspetivas do velho «país habitual», idealizado por Salazar como quieto, naturalmente desigual e indiferente às tentações da vida moderna.</p>
<p>A memória partilhada do 25 de Abril guardou esse rastro, que até há pouco governo algum se propôs contrariar. À esquerda ou à direita do bloco político que tomou conta da gestão do Portugal pós-revolucionário, com ou sem cravo ao peito, fosse qual fosse a posição diante da Constituição aprovada em 1976, programas e orçamentos jamais ousaram afastar o horizonte de um país melhor, habitado por portugueses mais felizes, tendencialmente «livre, justo e solidário». Só o atual contexto de crise pôs travão a esta orientação, definindo uma nova realidade na qual a ditadura dos mercados parece impor, com a complacência de quem governa, o retorno a uma paisagem na qual os processos da democracia e os caminhos do desenvolvimento são confrontados com um enorme recuo e uma subalternização neocolonial. Nos anos 80, referindo-se a Portugal, João Martins Pereira falava da «singular intensidade do seu passado recente». No presente, perante o cenário de resignação e pessimismo que emana da atuação das autoridades públicas, o recurso a estratégias de alternativa passa pelo exercício de uma intensidade democrática em ação, de uma dinâmica do possível, da qual o 25 de Abril permanece um sinal.</p>
<p><span style="font-size: 85%;"><em>A terceira das entradas escritas <em>para o </em><strong>Dicionário das Crises e das Alternativas</strong><em> </em><strong></strong>lançado pelo <a href="http://www.ces.fe.uc.pt/" target="_blank">Centro de Estudos Sociais</a> da Universidade de Coimbra, de parceria com as Edições Almedina, a revista </em>Visão<em> e o </em>Jornal de Letras<em>. Ainda nos quiosques.</em></span></p>
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		<title>Ideologia</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Apr 2012 21:36:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Outra das entradas que escrevi para o Dicionário das Crises e das Alternativas lançado pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, de parceria com as Edições Almedina, a revista Visão e o Jornal de Letras. Ainda nos quiosques. Com o «fim das ideologias» projetado nos anos 60 por Daniel Bell, resultante do facto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34653" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/ideologia.jpg" alt="" width="434" height="325" /></p>
<p><span style="font-size: 85%;"><em>Outra das entradas que escrevi <em>para o </em><strong>Dicionário das Crises e das Alternativas</strong><em> </em><strong></strong>lançado pelo <a href="http://www.ces.fe.uc.pt/" target="_blank">Centro de Estudos Sociais</a> da Universidade de Coimbra, de parceria com as Edições Almedina, a revista </em>Visão<em> e o </em>Jornal de Letras<em>. Ainda nos quiosques.</em></span></p>
<p>Com o «fim das ideologias» projetado nos anos 60 por Daniel Bell, resultante do facto de a «sociedade de bem-estar» haver exaurido o dinamismo e as capacidades de instigação de uma teleologia da História propostas pelo liberalismo, pelo nacionalismo e pelo socialismo, ter-se-ia desembocado numa era pós-ideológica. Desta emergiu um pensamento consensualista, expurgado das contradições, alimentando-se do realismo do possível e de um pragmatismo alheio a qualquer lógica transformadora e emancipatória. A derrocada das ideologias significa, no entanto, não o seu suposto fim mas a imposição, na condição de hegemónica, de uma ideologia incorpórea, insidiosa porque auto-ocultada, apresentada como única forma de pensamento possível, feita de unanimidades e de valores universais tomados como absolutos, associados a um imutável senso comum. Esta não-ideologia imporia uma mistificação das assimetrias e dos conflitos, apresentados como dirimíveis apenas dentro de uma lógica de estabilidade que seria a do capitalismo e a de uma democracia de baixa densidade.</p>
<p>É neste quadro que o «fim das ideologias» produziria esse «fim da história», sugerido no imediato pós-Queda do Muro por Fukuyama, no âmbito do qual presente e futuro passariam a ser inteligíveis apenas na medida do «realismo conformista do possível». Todavia, a crise atual e as suas circunstâncias têm vindo a revelar a inadequação desta atitude às necessidades sociais e à ação política, determinando uma gradual revalorização do «realismo revolucionário do impossível» (S. Dias). Este surge então como possibilidade e projeto político que faz sentido. Porém, o impossível não é aqui sinónimo do irrealizável, projetando antes uma oportunidade teórica capaz de dialogar com a construção prática de iniciativas transformadoras, implicando um retorno à essência da ideologia tal como Marx – o filósofo da revolução, não o monstro criado pela dogmática – a concebeu. Enquanto complexo de ideias instigador de uma «ciência falsa» meramente instrumental (Althusser), mas também capaz de projetar uma sociedade-outra. No presente, em condições de inverter a lógica destrutiva do capitalismo, soltando a imaginação do futuro e expulsando o perigoso logro da não-ideologia. Pois, como sustenta Zizek, a ideologia está em toda a parte.</p>
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		<title>Futebol e desencontros</title>
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		<pubDate>Sat, 21 Apr 2012 23:45:24 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Como no amor, existem, na história da literatura, das artes ou da filosofia, desencontros que poderiam ter sido belos encontros. Possíveis que se revelaram impossíveis. Karl Marx e Charles Darwin tiveram uma reunião prevista, marcada por um amigo comum, mas esta acabaria por não acontecer. Soljenitsine e Nabokov falharam por muito pouco uma prometida conversa. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone  wp-image-34624" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/futebol4.jpg" alt="" width="349" height="389" /></p>
<p>Como no amor, existem, na história da literatura, das artes ou da filosofia, desencontros que poderiam ter sido belos encontros. Possíveis que se revelaram impossíveis. Karl Marx e Charles Darwin tiveram uma reunião prevista, marcada por um amigo comum, mas esta acabaria por não acontecer. Soljenitsine e Nabokov falharam por muito pouco uma prometida conversa. E nos anos quarenta Orwell marcou um encontro com Camus em Saint-Germain-des-Prés, mas como este se atrasou um pouco, aborreceu-se e foi-se embora. Conhecendo o percurso de ambos, as causas que partilharam, as marcas que deixaram, aquele poderia ter sido o princípio de um belo entendimento.</p>
<p>As suas vidas tiveram, de facto, muito em comum. Ambos lutaram contra o fascismo, Orwell em Espanha e Camus na Resistência francesa. Ambos sofreram de tuberculose e morreram cedo, aos 47, em janeiro, se bem que com a diferença de uma década. Mais importante: os dois permaneceram intérpretes de uma esquerda democrática e independente, combatendo o totalitarismo em todas as suas formas e sofrendo por isso o isolamento e a derrisão por parte de alguma<em> intelligentsia</em>. <em>O Homem Revoltado</em> (1951), de Camus, é, aliás, um ensaio que parece encapsular posições e pontos de vista de Orwell. A diferença mais notável acabou por se centrar nos géneros literários que cada um deles praticou.</p>
<p>No entanto, onde jamais se teriam entendido nesse hipotético encontro seria ao conversarem sobre futebol. É que, se Orwell chegou a escrever que já existem «suficientes motivos de conflito» entre as pessoas comuns, não precisando nós, portanto, «de lhes juntar mais um, incentivando alguns jovens a darem caneladas uns aos outros, por entre os urros dos espetadores em fúria», Camus, antigo guarda-redes de primeiro plano no futebol da sua Argélia natal, pensava rigorosamente o contrário. Insistiu aliás, por diversas vezes, em que devia «seguramente ao futebol» tudo aquilo que aprendera sobre a essência do sentido ético e do compromisso humano. Por causa dele iriam provavelmente discutir e talvez a hipotética amizade acabasse logo ali, antes de começar.</p>
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		<title>Grécia</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Apr 2012 18:56:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O Centro de Estudos Sociais da  Universidade de Coimbra, de parceria com as Edições Almedina, a revista Visão e o Jornal de Letras, acaba de lançar um Dicionário das Crises e das Alternativas que reúne, em 222 entradas escritas por 113 investigadores, informação destinada a esclarecer o cidadão, de uma forma tanto quanto possível despojada [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone  wp-image-34616" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/greece2.jpg" alt="" width="445" height="291" /></p>
<p><span style="font-size: 85%;"><em>O <a href="http://www.ces.fe.uc.pt/" target="_blank">Centro de Estudos Sociais</a> da  Universidade de Coimbra, de parceria com as Edições Almedina, a revista </em>Visão<em> e o </em>Jornal de Letras<em>, acaba de lançar um </em><strong>Dicionário das Crises e das Alternativas</strong><em> que reúne, em 222 entradas escritas por 113 investigadores, informação destinada a esclarecer o cidadão, de uma forma tanto quanto possível despojada do jargão técnico, sobre muitos dos conceitos, palavras e acrónimos que invadem atualmente os noticiários. Uma das quatro entradas que escrevi: <strong>Grécia</strong>.</em></span></p>
<p>Antigo «berço da democracia» e espaço matricial da identidade europeia como lugar ao mesmo tempo integrador e excludente de povos, crenças e culturas, a Grécia é parte de um passado amplamente partilhado. Nas atuais circunstâncias é também um indicador de futuro para os países e as populações que mais carregam o peso da crise económica e política. O mundo da finança quis fazer dela um exemplo, e na tentativa de punir o Estado da zona euro que lhe parecia mais frágil empurrou-a para uma situação dramática, mas transformou-a também no território onde começa a definir-se a alternativa. A Grécia encontra-se pois no centro da tormenta, mas também na vanguarda do combate contra a ditadura financista que está a destruir o Estado social, a ameaçar a sobrevivência de milhões de pessoas, a propagar o desespero, o medo e a guerra de todos contra todos. Nas ruas e praças, como nos espaços de informação, organização e debate, ao lado da cólera emocional desencadeada na tentativa de destruir os símbolos imediatos da opressão, desenvolve-se uma ira lúcida: a dos que resistem a deixar-se espoliar em benefício da lógica implacável dos especuladores.</p>
<p>Perante o descrédito dos partidos institucionais que têm dominado a democracia parlamentar instalada no país após a queda em 1975 do «regime dos coronéis», associada a um clientelismo endémico e a uma corrupção num grau extremo, sucedem-se as assembleias de democracia direta, as formas de desobediência civil, as primeiras experiências de autogestão, preludiando um sistema possível que rejeita a tirania dos mercados em nome do humano. Ao mesmo tempo, a situação promove um cenário mais vasto, capaz de enquadrar novas possibilidades: o verdadeiro desafio não é já a preservação da identidade de um Estado, mas sim a da Europa. Se todos os olhares se voltam para Atenas, para escapar à crise é necessário escolher a Europa que se quer reerguer. Nas ruas helénicas, como nas dos Estados que serão o cenário imediato da perda de soberania, tem lugar um combate pela construção de uma alternativa justa e democrática. A mais recente tragédia grega não passa pela derrocada da democracia como conceito, mas pela épica da sua refundação.</p>
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