Arquivo da categoria Livros & Leituras

Uma Europa pisada e exangue

Bloodlands

Bloodlands, Terra Sangrenta na tradução portuguesa, inscreve-se numa região delimitada da Europa Oriental na qual se fixou, desde os finais do século XVIII até à Segunda Guerra Mundial, com proibição de habitar noutras paragens, um conjunto importante de comunidades judaicas, até aí errantes, com as quais só uma pequena parte da primitiva população se fundiu. Servindo-nos de um mapa atual, podemos dizer que ela se estendia entre o Báltico e o Mar Negro, desde o leste da Polónia até à parte mais ocidental da Rússia europeia, integrando a Lituânia, a Bielorrússia, a Ucrânia e a Moldávia. Ali foi sendo levantado um microcosmos cultural muito próprio, fundado numa sociedade particularmente dinâmica em volta da qual cedo confluíram, todavia, os fantasmas mais negros e letais do antissemitismo. Foi sobre este território que o historiador americano Timothy Snyder desenvolveu o extenso trabalho de investigação do qual resultou uma obra que nos desperta para uma realidade nem sempre olhada de frente. Leia o resto do post »

LER de Fevereiro

A revista LER de Fevereiro pode ser encontrada à venda a partir desta quarta-feira nos quiosques e nas livrarias habituais. Inéditos, entrevistas, crónicas, notas de leitura, notícias e muito mais. Informação detalhada aqui.

Galvão: um herói português

Henrique Galvão

É possível que jamais venha a escrever-se uma história da oposição ao Estado Novo capaz de mostrar a trajetória das muitas figuras, hoje reconhecidas como questionadoras da autoridade de Salazar e das orientações do regime, que com um e outro confluíram em muitos momentos ou a propósito de determinados princípios de política. Exemplar deste estilo de percurso é o capitão Henrique Galvão, cuja biografia, da autoria de Francisco Teixeira da Mota, acaba de ser editada. De facto, Galvão é hoje principalmente recordado pelo seu papel na luta contra o Estado Novo, que ocupou sensivelmente a última década da sua vida, e em particular pela retumbante iniciativa, concretizada em 1961, do assalto ao paquete Santa Maria. Foi aliás por esta atitude de resistência ativa que, trinta anos mais tarde, o Presidente Mário Soares o condecorou postumamente com a grã-cruz da Ordem da Liberdade. Todavia, durante a maior parte do trajeto cívico que escolheu, o seu posicionamento foi o diametralmente oposto, tendo participado no 28 de Maio, ocupado lugares de destaque no aparelho do regime (como importante dignitário da administração colonial, primeiro diretor da Emissora Nacional, organizador da Exposição Colonial do Porto e da Exposição do Mundo Português, deputado da União Nacional, entre outros) e defendido posições autoritárias, anticomunistas e até de apreço pelo nazismo. Leia o resto do post »

Mário Dionísio em Coimbra

Mário Dionísio

Essa quase sempre desgraçada fonte contemporânea do saber condensado que é a versão em português da Wikipédia, identifica Mário Dionísio (1916-1993), muito abreviadamente, como «um escritor e um pintor português do Século XX». Refere ainda em duas tristonhas linhas a sua atividade enquanto professor, crítico, polemista e tradutor. Mas sem descer a pormenores. Sem mencionar a força e a originalidade de um trajeto. E assim, por facilitismo e omissão, reduz a vida, a intervenção e a obra de um português de exceção – atento, sempre, tanto à inovação quanto à dimensão social da literatura, da arte e da política – a um apontamento baço no qual é fácil não reparar ou que num instante se esquece. Nada de mais imerecido em relação a um homem que tantos de nós, ou dos que nos antecederam, olham ou olharam como exemplo do escritor independente, do companheiro de muitas lutas ou do mestre de explicações do mundo. Pois se até o Pacheco, o insuspeito Luiz sempre adverso a louvores, escreveu em 1969 no Notícia de Luanda que «o homem, Mário Dionísio, a obra e sua repercussão (…), dão para muita conversa»!

É já neste dia 2 de Fevereiro, quinta-feira, que pelas 17H30 é inaugurada na Biblioteca Municipal de Coimbra a exposição «Mário Dionísio – Vida e Obra», organizada pela Casa da Achada/Centro Mário Dionísio e pelo Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra. Intervirão nesta sessão António Pedro Pita e Eduarda Dionísio. A exposição irá manter-se até ao dia 15 de Março. A iniciativa conta com o apoio da BMC, do CEIS20 – Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX e das Ideias Concertadas.

Dulce Maria Cardoso / Páginas Tantas

Dulce Maria CardosoEsta segunda-feira, dia 9 de janeiro, pelas 18H30, tem lugar a primeira sessão do programa Páginas Tantas, organizado em Coimbra pelo TAGV – Teatro Académico de Gil Vicente e pelo Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. Nele se irá falar de livros e de literatura, das artes e dos artistas, e de mais coisas absolutamente úteis. Está já a rodar no ar um blogue do programa. Em cada sessão estará presente um/a convidado/a que irá conversar com o público sobre a sua obra. A primeira é a escritora Dulce Maria Cardoso (Trás-os-Montes, 1964). Dulce publicou em 2001 o seu romance de estreia, Campo de Sangue, Grande Prémio Acontece, escrito na sequência de uma bolsa de criação literária do Ministério da Cultura. Desde então saíram Os Meus Sentimentos (2005), Prémio da União Europeia para a Literatura, e O Chão dos Pardais (2009), Prémio Pen Club. Uma antologia de contos, Até Nós, foi publicada em 2008. O Retorno (2011), seu último livro, aborda a grande migração dos «retornados» de África na sequência da descolonização de 1974-1975. O painel do programa é constituído, nesta primeira sessão, por Ana Maria Machado e Osvaldo Manuel Silvestre.

notas & recados

Correio

#21 – Dois novos blogues no ar para os quais chamo a atenção. O primeiro é o Tantas Páginas, que falará «sobre livros & demais coisas úteis» e se encontra associado ao programa Páginas Tantas, a iniciar no dia 9 de Janeiro no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra. Sobre blogue e programa voltarei (em breve) a falar por aqui. O outro link é para um O Ouriço que promete. Nem tudo é mau nas notícias.

O regresso do mundo bipolar

Logo no prefácio deste Da China, Henry Kissinger informa que desde a viagem secreta a Pequim no ano de 1971, realizada, segundo instruções de Richard Nixon, com o objetivo de restabelecer o contacto entre os Estados Unidos e aquele país e de preparar um pacto de defesa antissoviético, esteve neste país mais de cinquenta vezes. Algumas delas na qualidade de Secretário de Estado dos presidentes Nixon e Ford, outras nas de académico e investigador de temas de política internacional e diplomacia, outras ainda a título particular. Entre estas últimas, sem dúvida – Kissinger não o refere mas a capa do livro di-lo claramente – algumas na qualidade de presidente da Kissinger Associates, Inc., uma empresa de consultadoria internacional obrigatoriamente atenta às transformações das últimas décadas e à afirmação da China num âmbito global. Em todo o caso, transversal às diversas qualidades do visitante é o conhecimento que este foi acumulando da história e da realidade chinesas. Destaca por isso, nos capítulos iniciais, a forma como ao longo do século XIX, por vontade própria ou não, as autoridades do país começaram a pôr termo ao tradicional isolamento, tecendo uma diplomacia complexa e criteriosa destinada a controlar uma abertura imperativamente gradual. Um dos caminhos mais evidentes tomados por este volume resulta pois do esforço para, sem negar as vicissitudes históricas vividas na região e as sucessivas configurações que o poder político foi tomando, nele se demonstrar a existência de uma linha de continuidade estratégica, no campo das relações com o exterior, que o autor acredita remontar ao tempo dos mongóis e da dinastia Manchu e se terá estendido de modo quase ininterrupto até à atualidade. Leia o resto do post »

O chalet de Judt

Quando foi publicado este pequeno livro de Tony Judt, o seu último, o destaque das notícias e da crítica centrou-se nas condições dramáticas em que foi escrito. Em 2008, três anos após a publicação do aplaudido Pós-Guerra, fora-lhe diagnosticada uma doença motora neurológica, incapacitante e irreversível, que rapidamente o iria fazer perder a mobilidade, a voz e por último a vida. Este seu derradeiro esforço reflexivo foi, por isso, produzido em condições particularmente difíceis e incomuns. No segundo capítulo, «Noite», saído originalmente em janeiro de 2010 – como a maioria dos textos que integram o volume na New York Review of Books –, fala da forma como as características da doença o foram deixando livre para contemplar, com um desconforto mínimo, o desenvolvimento catastrófico da sua própria destruição. Mas é o primeiro texto, que dará o título à obra, aquele que melhor caracteriza a sua intenção. Nele o historiador explica-nos o método de que se serviu, noite após noite de solidão e imobilidade, para, recorrendo aos mesmos artifícios mnemónicos utilizados pelos primeiros pensadores e viajantes modernos, revisitar, reorganizar e expor algumas das suas mais marcantes experiências. Leia o resto do post »

A caminho da Praça Tahrir

Agora que os destinos do Egito retornam à encruzilhada, com os militares ainda no poder, os muçulmanos moderados a ganharem as eleições e os radicais salafistas a obterem 30% dos votos expressos, reivindicando as regras medievais da sharia como fundamento da nova Constituição, vale a pena lembrar o nascimento da Praça Tahrir como território simbólico e elemento orgânico do encontro de credos e do combate pela liberdade.

Em 25 de janeiro de 2011, o dentista e escritor egípcio Alaa Al Aswany, fundador do movimento oposicionista Kefaya que havia anos preparava a mudança no Egito, chegou atrasado à manifestação da Praça Tahrir que iria marcar o fim do regime despótico de Hosni Mubarak. Quando foi avisado do que estava a acontecer, vestiu-se à pressa e correu para se juntar ao milhão de compatriotas que haviam saído à rua para exigir a queda do regime. Ali permaneceu dezoito dias, vivendo os acontecimentos revolucionários e assistindo ao renascimento de um país que em todo o mundo muitos olhavam como destinado a viver na indolência, na estagnação e sob o jugo da bota militar.

Este O Estado do Egito recua um pouco no tempo e reproduz mais de quatro dezenas de crónicas publicadas em jornais entre 2008 e 2010. Nelas se abordam temas tão diversos, que a revolução iria rapidamente passar para o centro das atenções, como o autoritarismo e a corrupção do regime, a estagnação económica, a brutalidade da polícia, a pobreza endémica, a repressão das mulheres, o cerco vivido pelas minorias cristãs, o lugar do fanatismo ou a construção da democracia. Em todos esses artigos se pode entretanto detetar uma leitura comum, ajustada a duas linhas coincidentes e complementares que o movimento revolucionário irá adotar. A primeira aponta para aquilo a que o escritor discutivelmente chama o «caráter especial» da generalidade dos egípcios, que os terá tornado «menos propensos ao conflito e mais inclinados ao compromisso», à recusa maioritária da violência e da tentação do extremismo político e religioso. A segunda, decisiva nos acontecimentos de janeiro, leva-o a considerar que os seus compatriotas «como camelos», suportando a repressão, as humilhações e a fome por muito tempo, mas com uma enorme capacidade, quando finalmente se revoltam, de o fazerem «subitamente e com um ímpeto que é impossível controlar».

Este livro ajuda-nos a mitigar a surpresa causada na maior parte do mundo pelo eclodir da aparentemente inexplicável revolução egípcia, e a compreender o impulso de esperança e de mudança que esta suscitou. Mas também a vislumbrar, por vezes mascarados, alguns dos seus piores inimigos.

Alaa Al Aswany, O Estado do Egito. Trad. de Lucília Filipe. Quetzal. 296 págs. Versão revista de uma nota publicada na LER de Novembro de 2011.

LER de Dezembro

LER de Dezembro

A revista LER de Dezembro já pode ser encontrada à venda nos quiosques e nas livrarias habituais. Entrevistas, crónicas, notas de leitura, notícias, os livros do ano e muito mais.

Do impasse radical à libertação

SZ

Para além de filósofo, crítico e académico, atividades em regra associadas a hábitos de recolhimento e ao sossego das bibliotecas, Slavoj Žižek é, como se sabe, personagem único do seu próprio espetáculo. Deve-o em parte ao estilo idiossincrático e enérgico, no qual o desassombro e a iconoclastia ocupam um lugar central. Mas também ao facto de atrair um público interessado na reflexão, por vezes nos sound bites, de alguém que volta a colocar a ideologia, há duas décadas declarada liquidada, no centro do debate teórico. Fá-lo seguindo um método caleidoscópico, no qual os seus interesses de partida – Lacan, Lenine, o ciberespaço, a crise da modernidade, o pós-Marxismo ou Hitchcock – surgem combinados com os mais diversos e desclassificados temas da materialidade contemporânea, num processo de «tudo ligado com tudo», associado à diluição da fronteira entre alta e baixa cultura e ao repensar radical da esquerda política, que reúne legiões de indefetíveis entusiastas mas também de cáusticos detratores. Viver no Fim dos Tempos, publicado originalmente em 2010 e acabado de traduzir numa série de edições do esloveno que a Relógio d’Água tem vindo a publicar, é um excelente exemplo dessa prolixidade e da vastidão de um olhar que incorpora a capacidade de questionar as dimensões menos visíveis mas não menos obsidiantes do mundo atual. Leia o resto do post »

O alpinista do Kremlin

Não estando por esse motivo impedido de compreender o enredo, talvez o leitor comum não tenha uma perceção completa do imenso trabalho da urdidura dos factos – e da verosimilhança das falas às quais recorrem os personagens – que antecedeu a escrita de O Epigrama de Estaline, o romance de Robert Littell, saído em 2009, que a Civilização acaba de editar. Mas quem conheça de perto a história da União Soviética nas primeiras quatro décadas da sua existência não pode deixar de sentir-se impressionado com o conhecimento que o autor demonstra desse tempo, desse universo humano e até do modo de falar (e, diria, de pensar) das personagens, espelhos de pessoas com uma existência comprovada, que são os narradores deste romance. Falo dos poetas Osip Mandelstam e Anna Akhmatova, de Nadezhda, a mulher de Osip, de Zinaida, amante ocasional, de um vacilante Boris Pasternak, de Nikolai Vlasik, guarda-costas pessoal de Estaline, e de Fikrit Shotman, um antigo campeão de levantamento de pesos. E, acima de todos eles, como um espetro omnipresente, do bigode desse «alpinista do Kremlin» que Mandesltam parodiou num poema clandestino, o epigrama mencionado no título, assim assinando o seu destino de prisão, tortura, desterro e morte. Littell é, de facto, um profundo conhecedor da realidade e do passado da Rússia, e só isso lhe permitiu, apesar de nascido em Brooklyn, transformar este romance num quase-documento sobre a coação e o medo, e também a presença da traição, que comprovadamente percorreram a terra soviética nesses anos trinta espoliados e enegrecidos pelo Grande Terror. Triturando, inevitavelmente, Osip. Afinal o que seria de esperar do destino de quem, em pleno ano de 37, escreveu: «Se as pessoas não falarem comigo, / (…)Se me tratarem como a um animal, / Se me atirarem o comer pró chão –, / A dor não amordaço, não me calo (…)». Sim, este é um excelente e inquietante romance.

LER de Novembro

LER de Novembro

Já nos quiosques e nas livrarias habituais. Neste número, uma longa conversa entre George Steiner e António Lobo Antunes e uma entrevista de Carlos Vaz Marques a João Magueijo, Para além das secções habituais de crónicas, notas de leitura, notícias e muito mais.

De Gaulle revisitado

Duas das mais difundidas fotografias de Charles De Gaulle (1890-1970) ilustram de forma sinóptica o essencial do seu legado como homem público com um lugar central na História da França e da Europa. A primeira foi obtida a 18 de junho de 1940, nos estúdios da BBC, no momento em que a partir de Londres exortava os franceses a resistirem aos ocupantes nazis e aos colaboracionistas de Vichy. A outra apanhou-o em 1970, quase no final da vida, quando já sem qualquer cargo passeava com a mulher, Yvonne, pela propriedade-refúgio de Colombey-les-Deux-Églises. Entre o momento da empolgada coragem e o da retirada amarga e sem glória tinham decorrido apenas três décadas, suficientes, no entanto, para fazerem do general uma figura decisiva do segundo pós-guerra. Escrita por Éric Roussel, jornalista do Figaro, esta biografia evoca no entanto um De Gaulle peculiar, reescrevendo certos momentos do seu trajeto e juntando-lhe outros, por ter sido possível ao autor aceder a arquivos entretanto abertos onde encontrou entrevistas, declarações, citações e confidências menos conhecidas ou de todo ignoradas. Leia o resto do post »

Dinâmicas do fascismo

Mussolini

Autor de diversos trabalhos no campo da teoria social e da sociologia histórica, Michael Mann serviu-se dessa experiência para abordar o fascismo de uma forma pouco habitual. Desde logo, fazendo uma aproximação sistémica e comparativa a situações e a movimentos mais habitualmente estudados experiência a experiência, país a país. Depois, dando uma importância maior às circunstâncias, em detrimento da centralidade normalmente atribuída aos factos de natureza política. E, por fim, como resultado desses dois primeiros aspetos, insistindo no lugar decisivo das pessoas, das suas aspirações e das suas propostas. Deixando, ao mesmo tempo, a dimensão mais propriamente orgânica e institucional num segundo plano. O que lhe importa é, afinal, menos a conservação do poder do que a preparação da sua conquista, sendo esta que em Fascistas (Edições 70) se propôs observar, compreender e revelar-nos. A estrutura da obra, saída originalmente em 2004, é entretanto razoavelmente simples: um capítulo de natureza metodológica no qual se justificam as escolhas e se passa em revista a produção académica e a teoria geral do fascismo; outro sobre a emergência dos movimentos fascistas no seu contexto histórico, aproveitando para construir uma tipologia das correntes europeias de natureza autoritária; e mais sete dedicados a seis Estados no interior dos quais a corrente pôde impor-se como dominante, tomando e conservando o poder (Itália, Alemanha, Áustria, Hungria, Roménia e Espanha). Leia o resto do post »

Papéis Roubados #10

Henri Cartier-Bresson - «Roma» (1957)

Logo no início de O Chalet da Memória, acabado de sair nas Edições 70, Tony Judt evoca as formas e os ritmos da austeridade vivida na Inglaterra do imediato pós-Segunda Grande Guerra. Aqui fica, no original em inglês, o capítulo «Austerity», mencionado no post anterior – que procura situar historicamente a defesa de uma certa frugalidade não consumista defendida por Judt – e publicado num número da New York Review of Books saído em Maio de 2010. A atualidade do tema, e logo o seu interesse, parecem evidentes.

My wife earnestly instructs Chinese restaurants to deliver in cardboard cartons. My children are depressingly knowledgeable about climate change. Ours is an environmental family: by their standards, I am a prelapsarian relic from the age of ecological innocence. But who traipses through the apartment switching off lights and checking for leaking faucets? Who favors make-do-and-mend in an era of instant replacement? Who recycles leftovers and carefully preserves old wrapping paper? My sons nudge their friends: Dad grew up in poverty. Not at all, I correct them: I grew up in austerity.

After the war everything was in short supply. Churchill had mortgaged Great Britain and bankrupted the Treasury in order to defeat Hitler. Clothes were rationed until 1949, cheap and simple “utility furniture” until 1952, food until 1954. The rules were briefly suspended for the coronation of Elizabeth, in June 1953: everyone was allowed one extra pound of sugar and four ounces of margarine. But this exercise in supererogatory generosity served only to underscore the dreary regime of daily life.

To a child, rationing was part of the natural order. Indeed, long after the practice ceased, my mother convinced me that “sweets” (candy) were still restricted. When I protested that school friends appeared to have unlimited access to the stuff, she explained disapprovingly that their parents must be on the black market. Her story was all the more credible because the legacy of war was ever-present. London was pockmarked with bomb sites: where once there had been houses, streets, railway yards, or warehouses there were now large roped-off areas of dirt, usually with a dip in the middle where the bomb had fallen. By the early 1950s unexploded ordnance had been mostly cleared and bomb sites—though off-limits—were no longer dangerous. But these impromptu play spaces were irresistible for small boys. Leia o resto do post »

Dois novos romances

Dois novos romances no mercado português, e por estes lados em fila de leitura, que tomam como argumento, a partir de circunstâncias geográficas e históricas muito diferentes, e com uma dimensão literária também ela desigual, o mesmo tema e o mesmo cenário da transformação do poder despótico, exercido em nome de «grandes causas», num fator incontrolável de horror e de arbitrariedade sobre as pessoas das quais se vai servindo e que vai triturando. Comissão das Lágrimas, de António Lobo Antunes (Dom Quixote), referindo os acontecimentos vividos numa Angola pós-independência em redor do golpe (e do contragolpe) de 27 de maio de 1977, e O Epigrama de Estaline, de Robert Littell (Civilização; original de 2009), sobre o combate sem futuro e o fim trágico do poeta e ensaísta russo Osip Mandesltam, merecem ambos a maior atenção. Nos episódios e circunstâncias históricas mencionados, omnipresente a sombra da cumplicidade e da cobardia dos intelectuais que se traíram a si próprios compactuando com a violência e servindo a tirania. Para desta receberem o respetivo prémio ensopado em sangue.

Esmagados pelo terror

Kazimir Malevich, «A Cavalaria Vermelha» (1928-1932). Em 1929, acusado de «subjectivismo» na imprensa, Malevich foi expulso das funções que ocupava, preso e torturado. Morreu só e na miséria em 1935.

Tradução de um artigo de Julia Luzán publicado na secção de arte do El País Semanal de 16 de Outubro de 2011. Sobre a exposição La Caballería Roja. Crea­ción y poder en la Rusia soviética de 1917 a 1945. Se for a Madrid até 8 de janeiro poderá vê-la no Centro Cultural La Casa Encendida. Informação detalhada a obter aqui. E pode clicar aqui para obter o programa em pdf.

Outubro de 1917. Ano zero de uma nova era. A revolução russa triunfara e o mundo inteiro assistia, entre o entusiasmado e o teme­roso, ao nascimento de um Estado que saudava um novo tipo de homem, um novo humanismo. Lenine estava no vértice, velando sempre, apesar dos acontecimentos se sucederem a uma velocidade estonteante. Os bolcheviques começavam a escrever a sua parte da História e era necessário dotá-la de sím­bolos, de imagens, de palavras. Os artistas, «engenheiros da alma», como os batizaria Estaline, meteram as mãos à obra enchendo a nova Rússia de ciência, técnica, livros e arte. Leia o resto do post »

Memórias de um leitor #3

Os Três Mosqueteiros

Editado pela Bertrand em capa dura, eis o primeiro livro da colecção Histórias que me passou pelas mãos. Tinha a particularidade de conter o texto original de Dumas, mas também uma versão simplificada vertida em «quadradinhos». A coragem de D’Artagnan, o jovem gascão aventureiro e um pouco fanfarrão, era realçada pela sua oposição a figuras tão decididamente pérfidas como o antipático Cardeal Richelieu e a venenosa Milady. Um exemplo para qualquer rapaz de província desejoso de trespassar a vida a certeiros golpes de espada.

Um Deus consentido

L'homme

No primeiro de novembro de 1954, Camus escreveu no caderno diário: «Leio frequentes vezes que sou ateu, oiço falar muito do meu ateísmo. Ora essas palavras nada me dizem, não têm qualquer sentido para mim. Não acredito em Deus e não sou ateu.» Uma forma íntima, e suficientemente simples, de insistir na abordagem de Deus, traduzida na decisão de não considerar o problema da sua existência como tema que merecesse sequer grande preocupação. Em A Peste, quando é perguntado ao Dr. Bernard Rieux se acredita em Deus, este responde com outra pergunta: «Não. Mas o que é que isso quer dizer?». Dito de outra maneira: a resposta a essa dúvida interessará a alguém? A aproximação mais elaborada ao tema surge, no entanto, n’O Homem Revoltado. Aqui, o sujeito em estado de revolta não põe necessariamente em causa a existência de um ser supremo, mas contesta a sua autoridade, que pensa dever ser aceite apenas com o consentimento unânime dos humanos. Uma religião consentida, um Deus democraticamente adotado, que não seja todo-poderoso, temível e castigador, eis a única medida aceitável do divino.

Um humanista no verão

Claudio Magris

Os cinquenta artigos que compõem a coletânea A História Não Acabou foram quase todos publicados por Claudio Magris no Corriere della Sera entre 1999 e 2006. Ao lembrá-lo quase no final, o escritor sublinha a importância do meio utilizado para a forma tomada pela mensagem, declarando o jornal «um grande ginásio de luta kafkiana com a realidade e um laboratório de linguagem para a contar». Por isso todos esses textos, apesar de curtos e circunstanciais, travam um diálogo permanente, aberto ao leitor comum mas sempre exigente na forma, que materializa a aproximação criteriosa do autor com os acontecimentos que o vão confrontando. Só que, para este, o vínculo não impõe concessões ao fácil ou ao superficial, seja ao nível dos conceitos ou no campo da linguagem, tão comuns, como é sabido, entre os intelectuais que procuram a todo o custo o sucesso mediático. É pois um caminho árduo, mas por isso mesmo imprevisível e enriquecedor, o escolhido aqui para falar de muitas das feridas do presente e das opções que este nos vai fatalmente impondo. Leia o resto do post »

Tintim no Congo e a dentada na maçã

Tintim no Congo

Discordo em absoluto da tentativa de proibição a decorrer na Bélgica de Tintim no Congo, o segundo livro de banda desenhada de Hergé. O motivo invocado é a perspetiva, próxima dos estereótipos eurocêntricos e racistas da África e dos seus naturais não-caucasianos, que em 1931, quando o álbum foi editado pela primeira vez, dominava a maior parte do hemisfério norte. Sob este aspeto, o livro incomoda, sem dúvida, mas não menos que milhares de outros, fáceis de encontrar em bibliotecas e livrarias, contendo representações e ideias que podemos abominar mas não devemos apagar, pois fazem parte do património coletivo e servem até para mostrar, por oposição, aquilo que consideramos detestável e merece, muitas vezes, ser conhecido para ser lido criticamente. Neste caso, aliás, o próprio Hergé (1907-1983) veio a reconhecer que na altura da criação da aventura congolesa do jovem repórter belga, tal como acontecera com o também polémico Tintim no País dos Sovietes, vivia num ambiente no qual o preconceito e a recusa da diferença eram a norma: «Era 1930. Conhecia desse país apenas o que as pessoas contavam na época: ‘os negros são grandes crianças, felizmente estamos lá!’, etc. E desenhei os africanos de acordo com esses critérios, de puro espírito paternalista, que era o da época na Bélgica». Leia o resto do post »

LER de Outubro

LER de Outubro

À venda nos postos habituais a partir deste sábado. Neste número Dulce Maria Cardoso, António Lobo Antunes, Valter Hugo Mãe, Miguel Real, Rui Zink, Eduardo Lourenço, o Padre António Vieira, Angola, e muito mais.

Os caminhos do extermínio

Daniel J. Goldhagen

O título do livro explica-se de forma simples, embora brutal: estima-se que ao longo dos últimos cem anos cerca de 150 milhões de pessoas foram vítimas de iniciativas persistentes de extermínio, responsáveis, no seu conjunto, pela duplicação do número de mortos em combate contabilizados em todas as guerras que tiveram lugar no mesmo período. A tese central de Daniel J. Goldhagen apoia-se nesta contabilidade avassaladora para mostrar que ela não dependeu de acasos, de circunstâncias, ou da iniciativa isolada de dirigentes transfigurados em serial killers, mas antes de escolhas políticas apoiadas num razoável ou mesmo num amplo consenso social. A ideia já se encontrava, aliás, presente numa obra anterior deste cientista político americano, motivo pelo qual foi objeto de feroz crítica: em Hitler’s Willing Executioners, saída em 1996, considerava que a busca da Solução Final determinada pelos nazis apenas fora possível com a cumplicidade, ou pelo menos a complacência, das pessoas comuns, alemães e aliados de outras nacionalidades, sem os quais os burocratas e os destacamentos especiais do Terceiro Reich não poderiam ter levado a cabo de modo tão eficaz o seu trabalho sujo. A obra foi, aliás, criticada por historiadores como Norman Finkelstein, que acusou o seu autor – sendo ambos, acusador e acusado, filhos de sobreviventes do Holocausto – de justificar com a sua explicação a criação de uma «indústria do Holocausto» de orientação sionista. Leia o resto do post »

Vamos brincar à leitura

O leitor

Desconfio muito da maioria dos estudos que atestam o crescente interesse dos jovens portugueses pela leitura. Dando de barato que em regra falamos de indivíduos que têm entre 15 e 24 anos, é uma evidência que o grau de relacionamento com o ato de ler se tem vindo a ampliar, quanto mais não seja porque têm vindo também a crescer em volume e distribuição geográfica os espaços e os suportes que impõem a presença do texto, da palavra escrita, no quotidiano das pessoas. Jovens ou não, claro. Admito até que a perceção do valor social da leitura tenha crescido em ligação com o alargamento da escolaridade e o aumento do número de cidadãos e de cidadãs com maior formação académica. Mas já questiono o crescimento de um padrão de leitura sólido e que integre de facto a formação e os hábitos dessas pessoas.

O problema, a meu ver, advém desses estudos se fundarem em inquéritos com perguntas vagas sobre se o inquirido lê ou não, se acha ou não importante que o faça, se planeia ou não fazê-lo no futuro. Brincando um pouco, diria que se me perguntarem se é útil ou se gostaria de fazer uma viagem pela Antártida para ver os pinguins e observar um continente a derreter-se, eu afirmarei que sim, apesar de não ter a menor intenção de ir amanhã de manhã marcar a viagem e comprar um anorak. O que me parece é que este tipo de estudos requer, para ser válido, uma observação ampla e continuada, e a materialização de respostas mais objetivas a perguntas como «que géneros lê e em que percentagem?», «quais os livros que leu de facto no último ano?», «lê-os na totalidade ou só parcialmente?», «com que frequência desiste a meio da leitura de um livro?», e outras que com mais algum esforço decerto ocorreriam. Leia o resto do post »

Memórias de um leitor #2

A Ilha do Tesouro

Em tradução de Alsácia Fontes Machado para a «Biblioteca dos Rapazes» da Portugália, foi este A Ilha do Tesouro o primeiro livro apenas com letras miúdas que me recordo de ter lido. Um Robert Louis Stevenson de capa mole desenhando o estereótipo do pirata e revelando – «só para mim», como eu imaginava, como esperava cada pequeno leitor – o mapa marcado com um X que todos insistimos em procurar.

Com o fiel Kindle a caminho de Babadag

Babadag

Não serei suspeito de não gostar de livros. Afinal vivo deles. Procuro-os sempre, a todas as horas, e faço deles um elo vital na relação com os outros ou na procura de um sentido para morar no planeta. Tenho muitos milhares, tantos que lhes perdi a conta, que me tolhem o espaço doméstico sem que, no entanto, disso me queixe para além do razoável. E como cresci com o seu toque, os seus diferentes odores, o seu rumor, preciso deles para sentir que apesar de todo o mal nem tudo por cá é passageiro, bárbaro e triste. Mas sei que este é um ritual arcaico, de partida, e que em breve – uma brevidade relativa, embora fatal – os livros corpóreos serão memória, objeto de culto e sinal de anciania. Sei, sem a sombra da dúvida, que as bibliotecas serão transformadas em arquivos ao dispor dos eruditos e a generalidade dos leitores servir-se-á de suportes mais leves e móveis, mais fáceis de conservar, de arrumar, de armazenar, de consultar. É verdade que alguns dos aparelhos alternativos de leitura estão ainda na incubadora, mas a tendência é segura, irreversível e independente do desejo de quem o não deseja.

Comprei hoje mesmo na Amazon o meu centésimo livro para ler quase exclusivamente no Kindle – leio também em formato electrónico no computador de secretária, no netbook e no iPad, mas sei que estes são mais pesados, cansativos e dispersivos – e, estranhamente, muito estranhamente, pela primeira vez senti o forte desejo de terminar um certo volume em papel que tenho em mãos para rapidamente poder voltar ao prazer do pequeno ecrã de carateres em indelével e-ink. Espera-me ali, paciente, o número cem da minha biblioteca 2.0: On The Road to Babadag, um belo livro de Andrzej Stasiuk, o polaco escritor, jornalista, crítico e viajante, sobre trajetos por vias secundárias entre cidades pequenas, obscuras e moribundas da Europa do Leste ao longo das últimas duas décadas do século passado. E o prazer de, clique a clique, com uma chávena de café, um lápis e um papel (por enquanto) ao lado, lhe ir medindo os passos e revirando as páginas.

Memórias de um leitor #1

Contraste

A capa do número de Agosto-Setembro de 1986 da interessante, (“pós-”)moderna e humorosa Contraste, dirigida por Miguel Portas, era assim. Na revista colaboravam também Guiomar Belo Marques, Joaquim Margarido, Luís Calhau, Rui Zink, Paulo Varela Gomes, Henrique Cayatte e muitos outros. Custava 75 escudos.

Thomas Mann e o FBI

Thomas Mann

O escritor Thomas Mann, humanista après la lettre e homem estruturalmente conservador, cujas convicções mais estáveis mergulhavam na cultura alemã de Oitocentos, teve durante o exílio americano, em conjunto com os filhos Klaus e Erika, um processo de mais de mil páginas aberto pelo prestimoso Federal Bureau of Investigation. Segundo Rob Riemen, a acusação mais notável que ali pode ser encontrada é a de «antifascismo prematuro», isto é, resistência ao fascismo antes dos Estados Unidos da América declararem guerra à Alemanha no final do ano de 1941. Corriam os tempos turvos do McCarthismo e a sua atitude, de acordo com os aplicados investigadores do FBI, só poderia dever-se a uma simpatia não declarada pelo comunismo.

Uma outra Revolução Francesa

Liberté, Égalité, Fraternité

Desde as obras clássicas de Carlyle, Michelet e Tocqueville, tem permanecido fortíssima a carga política e ideológica que caracteriza a historiografia da Revolução Francesa. Sendo claro que todo o texto histórico é sempre um texto político, a forte vinculação do tema aos debates e contradições em curso nas sociedades nas quais as diferentes interpretações foram produzidas tem sido uma constante. O bicentenário de 1989, dado o seu forte impacto simbólico, catalisou o combate em torno dos trajetos e dos sentidos da Revolução, contrapondo então, embora com diferentes nuances, as abordagens «progressistas» e «reacionária». Em particular, o modo de tratar dois aspetos precisos – o papel da violência revolucionária e a caracterização conspirativa ou circunstancial dos acontecimentos – continuou então a separar as águas. Cidadãos, de Simon Schama, só agora editado por cá mas publicado justamente nesse ano, não fugiu ao confronto. Todavia, encarou-o de uma forma original, o que valeu ao historiador britânico a incompreensão da maioria dos seus pares e de quase toda a crítica. Mais de vinte anos depois, no prefácio que escreveu especialmente para esta edição portuguesa, lembra com ironia a perturbação que a obra causou: «Roger Chartier classificou-o como ‘reaganismo’ nas páginas do Le Monde, o que significou que fui imediatamente felicitado nas páginas do Le Figaro.» Leia o resto do post »