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	<title>A Terceira Noite &#187; Memória</title>
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	<description>leituras, polémicas e iluminações / um blogue de rui bebiano</description>
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		<title>Na rota de Kolyma</title>
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		<pubDate>Wed, 16 May 2012 17:40:09 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Como Auschwitz na rede de campos instalados pelos nazis, Kolyma é sinónimo de morte e sofrimento extremo no interior do universo concentracionário da antiga URSS. O complexo, instalado no glacial extremo-nordeste siberiano, detinha e conserva uma particularidade que marcou o seu destino: o de principal território de mineração do ouro da Rússia. Daí o interesse [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone  wp-image-34846" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/05/kolyma.jpg" alt="" width="261" height="421" /></p>
<p>Como Auschwitz na rede de campos instalados pelos nazis, Kolyma é sinónimo de morte e sofrimento extremo no interior do universo concentracionário da antiga URSS. O complexo, instalado no glacial extremo-nordeste siberiano, detinha e conserva uma particularidade que marcou o seu destino: o de principal território de mineração do ouro da Rússia. Daí o interesse de Estaline em enviar prisioneiros para as suas minas. Estima-se que entre 1932 e 1956 foram mais de 2 milhões os deportados para o complexo instalado na região. E muito poucos regressaram. Varlam Shalamov foi um dos que sobreviveu e nos intensamente autobiográficos <em>Contos de Kolyma</em>, escritos entre 1953 e 1963 mas reportando-se a uma experiência que vinha dos anos 30, deixou-nos reflexos desse lugar terrível. Décadas depois, relatos e reportagens fotográficas testemunham de uma forma perturbante o silêncio e a desolação desse espaço imenso, um dos mais hostis da Terra, no qual tantas vidas foram rapidamente consumidas, deixando um rastro de dor e sombra que ainda se não extinguiu. Foi por isso que o escritor e jornalista polaco Jacek Hugo-Bader resolveu percorrer de mota os 2 025 quilómetros da rota de Kolyma, que vai de Moscovo a Vladivostok. Ao longo do trajeto, relatado no seu <em>Dziennik Kolymski</em> (<em>Diário de Kolyma</em>), editado na Polónia no ano passado e recenseado na revista francesa <em>Books</em>, todas as pessoas com quem falou conservam uma qualquer ligação familiar ou emocional com aquelas minas que continuam malditas. Quem já leu na íntegra diz que o relato do longo e gélido périplo de Hugo-Bader é espantoso. E principalmente uma reflexão sobre a humanidade num lugar que já foi o da mais impiedosa desumanidade.</p>
<p><span style="font-size: 85%;"><a href="http://aterceiranoite.org/2009/12/04/o-combate-pela-dignidade-na-memoria-do-gulag/" target="_blank">um outro post relacionado com o tema</a></span></p>
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		<title>História, memória e política</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Apr 2012 14:57:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O passado, modos de usar, de Enzo Traverso – saído em 2005, antes de L’Histoire comme champ de bataille –, trata principalmente daquilo a que Habermas chamou «o uso público da história». O trabalho deste historiador e cientista político italiano tem vindo a ser preenchido com o estudo de épocas e de temas contemporâneos com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34718" title="Enzo Traverso" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/traverso.jpg" alt="Enzo Traverso" width="400" height="308" /></p>
<p><em>O passado, modos de usar</em>, de Enzo Traverso – saído em 2005, antes de<em> L’Histoire comme champ de bataille</em> –, trata principalmente daquilo a que Habermas chamou «o uso público da história». O trabalho deste historiador e cientista político italiano tem vindo a ser preenchido com o estudo de épocas e de temas contemporâneos com os quais conflituam interesses atuais e que por esse motivo permanecem perturbantes, como acontece com a «questão judaica», o Holocausto, o totalitarismo, o fascismo, a violência nazi, o comunismo ou o eurocentrismo. Em conexão com todos eles, Traverso tem-se ocupado com os problemas difíceis mas incontornáveis que levanta a conexão entre história e memória. Aquela proximidade com o presente torna entretanto o tratamento destes assuntos algo que não pode deixar de dialogar – independentemente do rigor inerente à intervenção própria dos historiadores – com as suas escolhas políticas, com as repercussões do seu trabalho entre os outros profissionais do mesmo ofício e, acima de tudo, com o impacto junto dos setores da opinião pública que vão acolhendo os ecos do que dizem ou escrevem.<span id="more-34717"></span></p>
<p>Este livro pequeno mas precioso decompõe de um modo pedagógico, sempre associado a contextos precisos, as linhas que aproximam os diferentes segmentos da memória coletiva (a «forte», tendencialmente hegemónica, e a «fraca», silenciada ou alternativa), a escrita histórica do passado e também as políticas da memória, fazendo-o sempre em diálogo com os temas que Traverso conhece bem e com a produção historiográfica recente que com eles converge. Mostrando de que maneira, perante um século marcado pela violência, a memória reivindica os seus direitos sobre a forma como esse passado é representado, na presunção de que a história, como recordou Paul Ricoeur, «não é mais do que uma parte da memória, escreve-se sempre no presente.» E quando tantos fatores, da indústria cultural aos museus, das comemorações aos programas educativos, contribuem para que se faça dessa memória do passado partilhado uma espécie de religião civil, pautando a perceção que as sociedades têm de si próprias, o tema torna-se particularmente importante.</p>
<p>Este passado cumpre muitas vezes um papel instrumental: conservar a recordação dos totalitarismos de forma a legitimar a ordem liberal, validar a ocupação da Palestina para evitar um novo Holocausto, invadir o Iraque para que se não repita Munique. Pode também trilhar caminhos mais discretos, por vezes mais subterrâneos, com uma dimensão crítica ou de resistência que define experiências de emancipação, de utopia e de revolta contra os poderes hegemónicos. A escrita da história é pois o resultado de um trabalho que emerge dessa trama complexa de recordações pessoais e partilhadas, de saberes herdados, de tradições literárias, de constrangimentos e de questionamentos políticos sempre ancorados no presente. É essa trama subterrânea que este ensaio expõe de maneira brilhante mas também transparente. Incorporando um vasto debate intelectual – de Halbwachs a Nora e a Ricoeur, de Benjamin a Yerushalmi, de Ginzburg a LaCapra e White – que reformula as fronteiras da história e questiona de um modo crítico e positivo os seus processos de escrita. Tornando-a um território vivo e não o eco de um museu decrépito.</p>
<p><span style="font-size: 85%;">Enzo Traverso,<em> O passado, modos de usar. História, memória e política</em>. Trad. de Tiago Avó. Edições Unipop. 196 págs. Versão revista de nota saída na <em>LER </em>de Abril.</span></p>
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		<title>Um adeus sentido e combatente</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Apr 2012 10:48:51 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Hesitei um pedaço antes de escrever algumas linhas sobre o desaparecimento triste e prematuro do Miguel Portas. Por diversos motivos. Desde logo, porque muitas outras pessoas, mais próximas dele, mais e melhor conhecedoras da sua jornada de vida, escreveram de maneira informada sobre episódios, dificuldades, alegrias e projetos partilhados. Fizeram-no, em diversos casos, de forma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34675" title="Miguel Portas" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/miguelp.jpg" alt="Miguel Portas" width="470" height="205" /></p>
<p>Hesitei um pedaço antes de escrever algumas linhas sobre o desaparecimento triste e prematuro do Miguel Portas. Por diversos motivos. Desde logo, porque muitas outras pessoas, mais próximas dele, mais e melhor conhecedoras da sua jornada de vida, escreveram de maneira informada sobre episódios, dificuldades, alegrias e projetos partilhados. Fizeram-no, em diversos casos, de forma muito sábia, justa, comovida e magnífica. Jamais o poderia ou saberia eu fazer com idênticos atributos. Hesitei depois porque falei com o Miguel apenas uma meia dúzia de vezes desde que o conheci, tardiamente, no ano 2000. O Bloco de Esquerda nascera há pouco e na altura sentia-me suficientemente perto para participar como orador numa iniciativa pública. Recordo que sendo o penúltimo a falar me vi interrompido pela chegada de uma equipa de televisão com pouco tempo para gravar o discurso principal, da responsabilidade do próprio Miguel. Fiquei, claro, um tanto irritado com a situação, mas horas depois, já no comboio, recebi um telefonema caloroso e gentil, explicando detalhadamente o sucedido e pedindo um milhão de desculpas. Gesto definidor de um modo de agir raro no universo, tantas vezes brutal e cheio de prioridades trocadas, do ativismo profissional de todos os quadrantes. Mas hesitei ainda porque não queria, nem quero, servir-me de um acontecimento tão infeliz para travar o meu próprio combate político. Não posso, no entanto, deixar de recordar, uma vez que nestas horas tem permanecido omisso nos obituários, a luta do Miguel que conheci contra o sectarismo de todos os matizes e pela ampliação da crítica e da autocrítica dentro da «esquerda da esquerda». Opção difícil pela qual se bateu, mesmo até ao final do caminho, com perseverança e equilíbrio, por considerá-la a única forma de somar forças e ideais para o combate, cada vez mais urgente, cada vez mais imprescindível, por um país melhor e por um mundo mais justo. E do novelo de tantas hesitações resultou este acanhado post, que não passa de um adeus sentido e combatente.</p>
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		<title>O Segundo Século Vinte (2) &#124; Casas p&#8217;ró Povo</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Apr 2012 07:12:17 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[O Segundo Século Vinte é um ciclo de debates e apresentações relacionado com temas da história recente de Portugal. A iniciativa, uma organização do Centro de Documentação 25 de Abril e do Teatro Académico de Gil Vicente, é de periodicidade bimensal e tem mais uma sessão nesta quinta-feira, dia 26 de abril, pelas 18 horas. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class=" wp-image-34695" title="Casas p'ró Povo" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/casas.jpg" alt="" width="404" height="321" /></p>
<p><em>O Segundo Século Vinte</em> é um ciclo de debates e apresentações relacionado com temas da história recente de Portugal. A iniciativa, uma organização do <a href="http://www1.ci.uc.pt/cd25a/wikka.php?wakka=HomePage" target="_blank">Centro de Documentação 25 de Abril</a> e do <a href="http://www.tagv.info/" target="_blank">Teatro Académico de Gil Vicente</a>, é de periodicidade bimensal e tem mais uma sessão nesta quinta-feira, dia 26 de abril, pelas 18 horas. Será em Coimbra, no TAGV. Nesta sessão, <strong>«Casas pró Povo. O Projeto SAAL antes e agora»</strong>, falar-se-á da experiência e do exemplo deste projeto pioneiro de habitação social criado em Julho de 1974 e desarticulado a partir de Outubro de 1976. Participarão os arquitetos<strong> Alexandre Alves Costa</strong> e <strong>José António Bandeirinha</strong>, sendo a moderação de Natércia Coimbra. Pode <a href="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/02/ssvinte.jpg" target="_blank">ver e copiar aqui</a> o cartaz do ciclo.</p>
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		<title>De 24 para 25</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Apr 2012 11:24:14 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[De 24 para 25 de Abril &#8211; emissão histórica em direto. Uma iniciativa do Centro de Documentação 25 de Abril e da Ideias Concertadas. Na página Facebook do CD25A, das 22 horas de 24 às 22 de 25, a Revolução dos Cravos passo a passo, relatada e documentada.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>De 24 para 25 de Abril &#8211;  emissão histórica em direto</strong>. Uma iniciativa do Centro de Documentação 25 de Abril e da Ideias Concertadas. Na <a href="https://www.facebook.com/cd25a?ref=ts" target="_blank">página Facebook do CD25A</a>, das 22 horas de 24 às 22 de 25, a Revolução dos Cravos passo a passo, relatada e documentada.</p>
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		<title>Millôr Fernandes (1924-2012)</title>
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		<pubDate>Wed, 28 Mar 2012 17:00:53 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Vi o milionário saltar da limusina, caminhar tranquilamente para dobrar a esquina e penetrar na mansão onde mora. Antes de dobrar, exatamente na dobra da esquina, e nas dobras da noite, lhe saiu um trintoitão na cara acompanhado da voz surda de um sujeito que ele mal viu por trás de galhos: «Passa tudo e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34247" title="Millôr" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/03/millor.jpg" alt="Millôr" width="500" height="278" /></p>
<blockquote><p>Vi o milionário saltar da limusina, caminhar tranquilamente para dobrar a esquina e penetrar na mansão onde mora. Antes de dobrar, exatamente na dobra da esquina, e nas dobras da noite, lhe saiu um trintoitão na cara acompanhado da voz surda de um sujeito que ele mal viu por trás de galhos: «Passa tudo e não chia!»</p>
<p>Homem do mundo, acostumado aos azares e venturas da economia da vida, o rico banqueiro não se deixa assustar. Apenas aconselha: «Calma, amigo. Passo tudo e não chio, que não sou besta. E vou te dizer uma coisa, reconheço o teu valor &#8211; você faz o que pode para conseguir o que precisa. Como me assalta deve saber quem sou, um banqueiro, um capitalista. Mas, curiosamente, não sabe quem é, pois aceita o vergonhoso epíteto de assaltante. E, no entanto, você é um capitalista igualzinho a mim. Só que, até agora, conseguiu capital apenas pra se estabelecer com um trinta e oito. Boa noite. Posso ir?»</p>
<p><span style="font-size: 84%;"><em>Apotegma XVIII</em> (de «Apotegmas do Vil Metal»)</span></p></blockquote>
<p><a href="http://www2.uol.com.br/millor/index.htm" target="_blank">Millôr Online</a></p>
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		<title>Duas ou três coisas que eu sei sobre manifes</title>
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		<pubDate>Tue, 27 Mar 2012 16:17:20 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Depois de uma época na qual fui ativista profissional, a certa altura quase deixei de participar em manifestações de rua. As razões podem reduzir-se a três, sendo as duas iniciais com toda a certeza partilhadas. A primeira teve a ver com o recuo das causas durante os anos 80 e a forma como, falhas de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_34216" class="wp-caption alignnone" style="width: 456px"><img class=" wp-image-34216" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/03/maniflisboa.jpg" alt="" width="446" height="297" /><p class="wp-caption-text">Fotografia: Patrícia de Melo Moreira/AFP</p></div>
<p>Depois de uma época na qual fui ativista profissional, a certa altura quase deixei de participar em manifestações de rua. As razões podem reduzir-se a três, sendo as duas iniciais com toda a certeza partilhadas. A primeira teve a ver com o recuo das causas durante os anos 80 e a forma como, falhas de imaginação e de um norte, as correntes que contestavam a ascensão neoliberal se limitavam a repetir até à náusea, receitas, motivações, bandeiras e palavras de ordem que tinham sido necessárias nos anos de resistência ao regime e durante o processo revolucionário mas já não se aplicavam a uma realidade em rápida mudança. A segunda razão ligou-se à apropriação das datas simbólicas por uma burocracia partidária, ou mesmo sindical, que procurou usar os movimentos de massas como ferramenta de estratégias sectárias, rejeitando uma corrente dinâmica, unitária e participada que pudesse exprimir-se também na rua. Banalizou-se assim o protesto, cada vez mais ritualizado, controlado, organizado para «marcar posição» e não para arquitetar futuros. A terceira razão, mais recente, não tem motivação política: justamente quando as circunstâncias mudaram e as manifestações de rua passaram a ter de novo um papel decisivo na mobilização cívica, algumas limitações de ordem física impedem-me de estar presente como queria e deveria. Por isso sou agora mais um apoiante do direito à manifestação do que um manifestante, o que, no entanto, não reduz o meu direito à crítica ou minimiza a minha condição de «homem da luta».<span id="more-34214"></span></p>
<p>E no entanto nem sempre foi assim. Pelo contrário. Sensivelmente entre 1969 e 1981 participei, muito ativamente, em especial antes do 25 de Abril, em ações de rua, maiores ou menores, relâmpago ou mais extensas, micro ou mega, nos lugares e nos momentos mais diversos. Com tanta intensidade que por duas vezes fui preso e interrogado pela polícia, tendo a segunda prisão como consequência imediata o envio compulsivo, ainda <em>teenager</em>, para cumprir o serviço militar. Dessas manifes, sobretudo daquelas que antecederam a revolução de Abril, em luta pela democracia, contra a repressão política e contra a guerra colonial, retenho muito viva na memória, a par do risco e da bravura de quem se dispunha a participar, a imagem, sentida na pele, das cargas da polícia de choque ou da GNR, tantas vezes à bastonada, algumas com cavalos ou cães, que não poupavam a ninguém e tinham, claramente, muito mais a ver com a exibição da força do que com a conservação da «ordem pública». Vejo-os agora mesmo ainda à minha frente, aos «chuis», aos urros demoníacos, <em>casse-têtes</em> agitados no ar, os olhos vermelhos de raiva, a cara transtornada, vomitando pela força um ódio que o regime se esforçava por incentivar. Revejo a fuga pelos becos e quintais, o abrigo em pequenas lojas ou elevadores dos prédios, a dor a aumentar, os inchaços da pancada, por vezes o sangue. E posso garantir que uma das melhores mas também das mais estranhas sensações de liberdade que vivi logo a seguir ao 25 de Abril de 1974 foi poder gritar na rua aquilo que entendesse gritar sem por isso ter de me preparar para correr acossado ou pagar pela audácia.</p>
<p>A mudança foi brusca e foi, realmente, tão estranha quanto boa. De uma ou de outra maneira a democracia seguiu o seu curso imperfeito e os verdugos foram amansando ou mudando de vida. Antigos pides passaram a pacatos cidadãos, alguns compensados pelo governo com reformas por serviços prestados. Tenho até uma experiência única: no início da atividade como assistente universitário tive como aluno, cordato e aplicado, um ex-graduado da polícia de Coimbra (major na época, se não me engano, e o nome recordo-o bem), que fora o responsável pela minha última prisão e pelo interrogatório que a seguiu. Comportámo-nos como se não nos reconhecêssemos, com expressões regulares de cortesia por parte da fera amansada. Os tempos eram outros e o novo regime deixara de ver a expressão da opinião pública nas ruas, nas escolas ou nas fábricas como um crime, ao mesmo tempo que a própria filosofia de comando e os objetivos da polícia iam mudando. Nestas décadas de democracia, a imagem do «polícia mau» e da Estado-algoz foi desaparecendo, e isto traduziu-se na afirmação tendencialmente livre do direito ao protesto. E por isso é impossível aceitar as manifestações de ódio ao manifestante da qual parte das forças policiais tem dado provas nos últimos tempos, em particular no dia da última greve geral. Trata-se de um, de mais um, sinal do regresso ao passado, à ideia de uma ordem inquestionável, legitimada por um indefinível «interesse público» e imposta pelo medo. Antes que ele se torne um hábito, convirá pois inscrever nas bandeiras do combate cívico – e nas dos partidos que defendem inequivocamente a democracia – a própria ideia de liberdade e do direito inalienável à opinião. Por todas as vias e em quaisquer circunstâncias. No voto, pela palavra e na rua. Na rua.</p>
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		<title>1962 e agora</title>
		<link>http://aterceiranoite.org/2012/03/25/1962-e-agora/</link>
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		<pubDate>Sun, 25 Mar 2012 19:17:10 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Os cinquenta anos virados sobre o eclodir, em Portugal, da Crise Académica de 1962, têm dado lugar a um conjunto de iniciativas públicas. Iniciativas importantes por três motivos. Primeiro motivo: porque têm reunido muitos homens e muitas mulheres, antigos ativistas ou participantes, que sem excesso de nostalgia nos têm ajudado a perceber como a sua [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/03/1962.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-34185" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/03/1962.jpg" alt="" width="438" height="302" /></a></p>
<p>Os cinquenta anos virados sobre o eclodir, em Portugal, da Crise Académica de 1962, têm dado lugar a um conjunto de iniciativas públicas. Iniciativas importantes por três motivos. Primeiro motivo: porque têm reunido muitos homens e muitas mulheres, antigos ativistas ou participantes, que sem excesso de nostalgia nos têm ajudado a perceber como a sua ação, naquela época, foi muito importante para fazer crescer as fileiras da resistência à ditadura salazarista. Segundo motivo: porque têm agregado a intervenção, ao nível da informação e da interpretação dos acontecimentos, de historiadores, jornalistas e outras pessoas com um papel essencial na transformação daquilo que são as experiências e as recordações de alguns em património coletivo ao dispor de todos. Terceiro motivo: porque no contexto atual têm servido para mostrar como, muitas das vezes, a energia de uma minoria pode exprimir e servir de motor à participação cidadã do coletivo, revelando que a resignação de nada serve e que a coragem pode ser um fator de mudança.</p>
<p>Mas já não justifica grande atenção a tentativa, levada a cabo em alguns jornais, de pôr em paralelo o associativismo universitário da época e o atual. As diferenças históricas são óbvias e todos as reconhecem: o mundo e o movimento estudantil deram muitas voltas ao longo destas cinco décadas, tanto em Portugal como em toda a parte. O que é incompreensível é tentar estabelecer semelhanças entre os principais ativistas de 1962 – em regra pessoas culturalmente muito preparadas, com um forte sentido cívico e reconhecidas no terreno – e os seus sucessores «no cargo», jovens geralmente pouco aptos do ponto de vista cultural, que da intervenção estudantil possuem uma dimensão corporativa, e que «representam» colegas em regra incapazes de lhes identificarem os rostos. Falamos, de facto, da água e do vinho. Claro que ninguém pretende encontrar cópias, hoje, do que foram os ativistas de ontem. Os de 1962, os de 1969-74, ou os dos anos 90. Mas hoje, hoje mesmo, continuam a percorrer as universidades estudantes inteligentes, cultos e generosos, com uma perceção dinâmica do papel que podem ter na mudança do país e não apenas na das suas vidas. Só que não estão, geralmente, nas direções associativas, organizando-se ou agindo à margem destas. Esta é a realidade e comparações absurdas iludem os leitores.</p>
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		<title>Vinhos &amp; enchidos</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Mar 2012 19:11:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Apontamentos]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[A palavra «provinciano» aplica-se a duas condições diferentes, embora muitas vezes complementares. Uma distingue «aquele que é da província» ou «que vem da província», tendo nascido e vivido uma parte ou a totalidade da sua existência muito longe das grandes cidades e do ruído das autoestradas. E isso somos muitos. A outra, pejorativa, integra a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34061" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/03/salazar.jpg" alt="«Dar de comer a um milhão de portugueses.»" width="300" height="363" /></p>
<p>A palavra «provinciano» aplica-se a duas condições diferentes, embora muitas vezes complementares. Uma distingue «aquele que é da província» ou «que vem da província», tendo nascido e vivido uma parte ou a totalidade da sua existência muito longe das grandes cidades e do ruído das autoestradas. E isso somos muitos. A outra, pejorativa, integra a tacanhez de quem apenas habita o lado plácido, repetitivo e intensamente conservador do mundo, ou a de quem, mesmo cruzando as avenidas e os ritmos das cidades, se afasta dos caminhos por onde flui e se desdobra o múltiplo que carateriza a vida moderna. Provinciano é pois aquele que ignora, por imposição do meio, ou então deliberadamente, aquilo a que Baudelaire chamava «o transitório, o fugitivo, o contingente», fixando-se antes no que acredita ser eterno, imutável e apenas visível em pequena escala. Esta aceção mais integral foi ferida na sua dignidade com a interferência dos meios de comunicação de massa &#8211; primeiro a rádio, depois a televisão, por fim a Internet &#8211; generalizados durante a segunda metade do último século. A condição do provinciano deixou então, para muitos, de ser uma inevitabilidade, passando a definir-se ainda mais como uma escolha, uma opção pelo padrão de vida que rejeita a novidade, as atividades mundanas e, em consequência, a diferença.</p>
<p>A notícia <a href="http://www.jn.pt/paginainicial/pais/concelho.aspx?Distrito=Viseu&amp;Concelho=Santa%20Comba%20D%E3o&amp;Option=Interior&amp;content_id=2362721" target="_blank">lida nos jornais</a> sobre o projeto de uma marca de vinhos a comercializar a partir de Santa Comba Dão, o concelho natal do antigo ditador, sob a designação de «Memória de Salazar» – estando desde já prometido um esforço de <em>marketing</em> equivalente a aplicar a uma marca de enchidos –, enquadra-se nesta dimensão do provinciano. É um bom exemplo, talvez extremo, do que podemos ler ou ouvir todos os dias seguindo grande parte dos jornais ou das emissoras de rádio localistas e regionalistas: o culto da «figura grada» da terra, transformada em símbolo que supostamente a eleva diante das outras. É normalmente alguém que por aquelas partes passeou um pouco de poder e em consequência algum dinheiro. O doutor, o comendador, o industrial, o benemérito que, para o espaço da aldeia, da vila, da pequena cidade, da pequena mente, substitui sem hesitação o escritor, o poeta, o artista, a figura da ciência ou da cidadania, preenchendo preferencialmente as placas toponímicas e as colunas das folhas locais. Este projeto santa-combense, a materializar-se, será, de facto, mais um ato de provincianismo do que de revanchismo salazarista. Não destaca a grandeza de uma figura local ou as qualidades de um concelho, mas a pequenez de quem propõe uma iniciativa tão desastrada. E é como tal que deve ser rejeitado. Ou boicotado. Santa Comba Dão não pode exibir, sob o pretexto de apoiar um produto local, a celebração da repressão e do ódio aos quais, enquanto houver memória, permanece associada a figura do seu natural. Será mau, desde logo, para a própria terra e para os seus.</p>
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		<title>Preston, Garzón e o Holocausto espanhol</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Mar 2012 17:51:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Livros & Leituras]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[O historiador britânico Paul Preston considera que durante a Guerra Civil de Espanha perto de 200.000 homens e mulheres foram assassinados longe das áreas de batalha, executados extrajudicialmente ou na sequência de processos sumários. Morreram em consequência do golpe militar contra a Segunda República levado a cabo em julho de 1936. Pelo mesmo motivo, pelo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-33971" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/03/holocaustoespanol.jpg" alt="" width="470" height="264" /></p>
<p>O historiador britânico Paul Preston considera que durante a Guerra Civil de Espanha perto de 200.000 homens e mulheres foram assassinados longe das áreas de batalha, executados extrajudicialmente ou na sequência de processos sumários. Morreram em consequência do golpe militar contra a Segunda República levado a cabo em julho de 1936. Pelo mesmo motivo, pelo menos 300.000 homens perderam a vida nas frentes de combate. Além disso, um número desconhecido de homens, mulheres e crianças foi vítima dos bombardeamentos e dos penosos êxodos que se seguiram aos avanços das forças de Franco diretamente apoiadas pela Alemanha e pela Itália e com a conivência de Salazar. No conjunto da Espanha, depois da vitória definitiva dos rebeldes nos finais de março de 1939, cerca de 200.000 republicanos foram por sua vez liminarmente executados. Muitos mais, aliás, morreram de fome e de doenças nas prisões e nos campos de concentração onde foram acantonados e mantidos em condições infra-humanas. Outros ainda sucumbiram ao regimento brutal dos batalhões de trabalho. A mais de meio milhão de refugiados não lhes restou então outra saída se não o exílio, perecendo muitos nos campos de internamento franceses. Vários milhares foram também enviados para os campos de extermínio nazis. Toda esta lista de mortes e horrores constitui aquilo a que Preston, num livro publicado em Espanha há perto de um ano, chamou o «Holocausto espanhol».<span id="more-33968"></span></p>
<p>Neste volume de quase 900 páginas, boa parte delas ocupa-se da repressão na retaguarda. É verdade que ela ocorreu tanto na zona republicana quanto nas áreas controladas pelos franquistas, mas o livro comprova que a intensidade e a ferocidade da repressão foram incomparavelmente maiores do lado antirrepublicano, atingindo um número impressionante de pessoas quem nem sequer haviam participado em qualquer forma de ativismo político. Os cabecilhas da rebelião, os generais Mola, Franco e Queipo de Llano, tomavam uma parte do povo espanhol como raça inferior a qual havia que subjugar de modo fulminante e intransigente, aplicando logo que puderam o terror exemplar que haviam treinado no exército colonial. Foram, no entanto, apenas a cabeça de um corpo muito maior de adeptos da repressão sangrenta dos republicanos, que Preston trata de lembrar. Como o conde Gonzalo de Aguilera, que durante a guerra declarou a um jornal americano: «Tenemos que matar, matar, sabe usted? Son como animales, sabe? Y no cabe esperar que se libren del virus del bolchevismo. Al fin y al cabo, ratas y piojos son los portadores de la peste. Ahora espero que comprenda usted qué es lo que entendemos por regeneración de España&#8230; Nuestro programa consiste&#8230; en exterminar un tercio de la población masculina de España. Con eso se limpiaría el país y nos desharíamos del proletariado. Además también es conveniente desde el punto de vista económico. No volverá a haber desempleo en España, se da cuenta?»</p>
<p>Ora foi por ter querido ajustar historicamente contas com os crimes e os criminosos da Guerra Civil e do franquismo, e indiretamente com os seus atuais seguidores ou encobridores, que Baltasar Garzón se viu levado à barra dos tribunais por organizações de extrema-direita e agora foi expulso da carreira judicial. Independentemente dos ardis processuais, sempre complexos e fáceis de desvitalizar no plano político, é bom que se saiba o que está verdadeiramente em causa no lado espanhol do <em>caso Garzón</em>. Este <em>El Holocausto Español</em> pode ajudar-nos bastante nesse esforço.</p>
<p><span style="font-size: 82%;">Paul Preston,<em> El Holocausto Español. Odio y exterminio en la Guerra Civil y despues</em>. Debate Editorial. 860 págs.</span></p>
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