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	<title>A Terceira Noite &#187; Olhares</title>
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	<description>leituras, polémicas e iluminações / um blogue de rui bebiano</description>
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		<title>Meter os pés ao caminho</title>
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		<pubDate>Wed, 16 May 2012 22:46:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não fazendo parte do seu núcleo impulsionador e redator, fui dos primeiros signatários do «Manifesto para uma Esquerda mais livre». Neste momento, o número de pessoas que assinaram o documento, muitas delas de trajeto e méritos publicamente reconhecidos, já vai em cerca de duas mil e continua a aumentar. A sua localização política é muito [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34858" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/05/lookleft.jpg" alt="" width="421" height="316" /></p>
<p>Não fazendo parte do seu núcleo impulsionador e redator, fui dos primeiros signatários do <a href="http://paraumaesquerdalivre.net/home/manifesto/" target="_blank">«Manifesto para uma Esquerda mais livre»</a>. Neste momento, o número de pessoas que assinaram o documento, muitas delas de trajeto e méritos publicamente reconhecidos, já vai em cerca de duas mil e continua a aumentar. A sua localização política é muito plural e a leitura que cada uma delas faz do documento será, por isso, com toda a certeza muito diferenciada. É natural que assim aconteça, dado não se tratar de um programa partidário, de uma plataforma eleitoral ou de um plano para a tomada do poder, mas antes de um conjunto de princípios maleáveis, razoavelmente consensuais para diversas áreas da esquerda não dogmática, destinados – é essa a minha leitura, e foi nessa perspetiva que assinei – a colaborar na procura de estratégias de aproximação e de renovação para uma esquerda dividida. Uma esquerda demasiadas vezes entrincheirada nas suas diferenças e absolutas certezas, como tal sem hipóteses de enfrentar com êxito uma direita que sabe unir-se e incapaz de aplicar a estratégia de mudança que a atual situação do país e da Europa requer. É o princípio de algo, não se saberá ainda bem do quê. Mas em relação a uma coisa podemos desde já ficar com alguma segurança: não servirá para dividir, mas sim para unir, como não servirá para enquadrar, mas para pensar. E não é «contra os partidos», embora admita que estes por si só não bastem para abrir os caminhos da mudança.<span id="more-34857"></span></p>
<p>O mais curioso para quem sofra de alguma ingenuidade política é que entretanto, e apesar de tão amplo naquilo que proclama, o Manifesto começou já, principalmente em alguns blogues e nas redes sociais, a ser alvo de ataque e detração. Porque é fulano ou beltrana que «estão por trás» (em alguns dos casos nem é verdade, e além disso cada um pensa por si), porque é «muito verde e fresco» e o logótipo não comporta os símbolos tradicionais do trabalho, porque é coisa de intelectuais desligados das massas, porque os seus promotores se propõem «promover um capitalismo que funcione em benefício de todos». São estes os «argumentos» mais simples, em relação aos quais não vale a pena qualquer trabalho de refutação. Mas existem objetivos expressos que levantam possibilidades insuportáveis e contranatura para alguma esquerda. Mesmo quando esta proclama, em decisões políticas, a necessidade de unir, de incorporar independentes, de agregar «democratas e outros patriotas» sem partido. Porque propor a construção de uma esquerda plural, «liberta das suas rivalidades, do sectarismo e do feudalismo político que a paralisa» impõe contornar aqueles que os alimentam constantemente. Porque falar de «uma democracia mais representativa e mais participada» sugere a necessidade de ver a política para além das dinâmicas eleitorais e da luta de rua, embora em conjugação com elas. Porque falar de «uma Europa apoiada na solidariedade e na coesão dos países que a formam» torna necessária a superação das estratégias isolacionistas e nacionalistas que têm paralisado. Porque propor um «alto nível de desenvolvimento económico, social e ambiental» contesta a velha política da terra queimada. E principalmente porque este Manifesto exclui a possibilidade de uma corrente hegemónica ditar às outras – na teoria ou na prática – o caminho partilhado a seguir. Abre o campo, em vez de cavar trincheiras. Não pretende unir, mas aproximar.</p>
<p>Estas reações estão afinal na natureza das coisas e é precisamente por elas existirem e se mostrarem à primeira oportunidade que este <a href="http://paraumaesquerdalivre.net/home/manifesto/" target="_blank">«Manifesto para uma Esquerda mais livre»</a>, aberto à participação e em desenvolvimento, faz todo o sentido e parece ter boas razões para meter os pés ao caminho.</p>
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		<title>Na rota de Kolyma</title>
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		<pubDate>Wed, 16 May 2012 17:40:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Memória]]></category>
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		<description><![CDATA[Como Auschwitz na rede de campos instalados pelos nazis, Kolyma é sinónimo de morte e sofrimento extremo no interior do universo concentracionário da antiga URSS. O complexo, instalado no glacial extremo-nordeste siberiano, detinha e conserva uma particularidade que marcou o seu destino: o de principal território de mineração do ouro da Rússia. Daí o interesse [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone  wp-image-34846" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/05/kolyma.jpg" alt="" width="261" height="421" /></p>
<p>Como Auschwitz na rede de campos instalados pelos nazis, Kolyma é sinónimo de morte e sofrimento extremo no interior do universo concentracionário da antiga URSS. O complexo, instalado no glacial extremo-nordeste siberiano, detinha e conserva uma particularidade que marcou o seu destino: o de principal território de mineração do ouro da Rússia. Daí o interesse de Estaline em enviar prisioneiros para as suas minas. Estima-se que entre 1932 e 1956 foram mais de 2 milhões os deportados para o complexo instalado na região. E muito poucos regressaram. Varlam Shalamov foi um dos que sobreviveu e nos intensamente autobiográficos <em>Contos de Kolyma</em>, escritos entre 1953 e 1963 mas reportando-se a uma experiência que vinha dos anos 30, deixou-nos reflexos desse lugar terrível. Décadas depois, relatos e reportagens fotográficas testemunham de uma forma perturbante o silêncio e a desolação desse espaço imenso, um dos mais hostis da Terra, no qual tantas vidas foram rapidamente consumidas, deixando um rastro de dor e sombra que ainda se não extinguiu. Foi por isso que o escritor e jornalista polaco Jacek Hugo-Bader resolveu percorrer de mota os 2 025 quilómetros da rota de Kolyma, que vai de Moscovo a Vladivostok. Ao longo do trajeto, relatado no seu <em>Dziennik Kolymski</em> (<em>Diário de Kolyma</em>), editado na Polónia no ano passado e recenseado na revista francesa <em>Books</em>, todas as pessoas com quem falou conservam uma qualquer ligação familiar ou emocional com aquelas minas que continuam malditas. Quem já leu na íntegra diz que o relato do longo e gélido périplo de Hugo-Bader é espantoso. E principalmente uma reflexão sobre a humanidade num lugar que já foi o da mais impiedosa desumanidade.</p>
<p><span style="font-size: 85%;"><a href="http://aterceiranoite.org/2009/12/04/o-combate-pela-dignidade-na-memoria-do-gulag/" target="_blank">um outro post relacionado com o tema</a></span></p>
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		<title>O regresso do fascismo</title>
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		<pubDate>Wed, 09 May 2012 18:00:53 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Lê-se num instante este pequeno livro do filósofo e ensaísta holandês Rob Riemen. Com ele passamos em revista, de forma clara e informativa, como num manual de instruções, o modo insidioso como o fascismo – tomando outros nomes, invocando até a liberdade, a igualdade de oportunidades e a democracia – se tem vindo a instalar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34822" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/05/riemen3.jpg" alt="" width="270" height="388" /></p>
<p>Lê-se num instante este pequeno livro do filósofo e ensaísta holandês <a href="http://www.robriemen.nl/en/rob-riemen-home.html" target="_blank">Rob Riemen</a>. Com ele passamos em revista, de forma clara e informativa, como num manual de instruções, o modo insidioso como o fascismo – tomando outros nomes, invocando até a liberdade, a igualdade de oportunidades e a democracia – se tem vindo a instalar nas nossas consciências narcotizadas pelos média, preparando o terreno para novas formas de sujeição. Mais traiçoeiras, menos espetaculares, mas não menos escravizantes e violentas do que aquelas que na primeira metade do século passado foram aplicadas pelos protótipos italiano e alemão. Lembra a dada altura Riemen que o fascismo con­temporâneo «resulta, mais uma vez, de partidos po­líticos que renunciaram à sua tradição intelectual, de intelectuais que cultivaram um niilismo com­placente, de universidades que já não são dignas desse nome, da ganância do mundo de negócios e de <em>mass media</em> que preferem ser ventríloquos do público em vez de o seu espelho crítico», notando serem justamente estas elites corrompidas que alimentam o vazio espi­ritual que serve de caldo de cultura à sua expansão. <em>O Eterno Retorno do Fascismo</em> é um brado de alerta e um estímulo à crítica do acriticismo que vai chocando o ovo da serpente. Deve por isso ser lido com a etiqueta de urgente.</p>
<p><span style="font-size: 85%;">Rob Riemen, <em>O Eterno Retorno do Fascismo</em>. Bizâncio. Trad. de Maria Carvalho. 78 páginas. Ver também uma recente entrevista dada pelo autor <a href="http://www.ionline.pt/mundo/rob-riemen-classe-dominante-nunca-sera-capaz-resolver-crise-ela-crise-1" target="_blank">ao ionline</a>.</span></p>
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		<title>Média</title>
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		<pubDate>Sun, 06 May 2012 17:24:14 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Cibercultura]]></category>
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		<description><![CDATA[Outra das entradas escritas para o Dicionário das Crises e das Alternativas lançado pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, de parceria com as Edições Almedina, a revista Visão e o Jornal de Letras. Ainda em alguns quiosques. Até à década de 1960, média designava um campo integrador dos «meios de comunicação de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone  wp-image-34802" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/05/media.jpg" alt="" width="369" height="342" /></p>
<p><span style="font-size: 85%;"><em>Outra das entradas escritas <em>para o </em><strong>Dicionário das Crises e das Alternativas</strong><em> </em><strong></strong>lançado pelo <a href="http://www.ces.fe.uc.pt/" target="_blank">Centro de Estudos Sociais</a> da Universidade de Coimbra, de parceria com as Edições Almedina, a revista </em>Visão<em> e o </em>Jornal de Letras<em>. Ainda em alguns quiosques.</em></span></p>
<p>Até à década de 1960, <em>média</em> designava um campo integrador dos «meios de comunicação de massas» enquanto instrumentos de propaganda destinados a impor uma mensagem de natureza política ou publicitária. Nos anos 70 essa perspetiva foi alargada, percebendo-se que a dimensão instrumental não indicava apenas aos públicos <em>o modo</em> como estes deveriam pensar, mas incorporava também a aptidão para impor <em>aquilo</em> em que eles deveriam ou não pensar. Neste sentido, os média têm funcionado como aparelhos de subordinação dos cidadãos a formas de perceção do real social e do curso da História que escapam à intervenção da crítica, não sendo acidental que as piores formas de opressão, instaladas nos regimes de pendor totalitário mas também nas fissuras das democracias, recorram a eles para impor o seu domínio e eliminar a divergência. A ideia de «indústria cultural», proposta por Adorno e por Horkheimer, referia já o modo como a instauração de um dado fluxo de informação servia de instrumento de propagação da ideologia dominante, dando lugar a uma uniformização dos quadros de pensamento e dos comportamentos, no sentido da aceitação ordeira do capitalismo. Para Baudrillard, o peso do signo na «sociedade de consumo» irá, por sua vez, suscitar uma vertigem de natureza opressiva. A vulgarização da televisão, e depois a disseminação da Internet, crescentemente dependentes da intervenção dos grupos financeiros e também dos governos, irão reforçar este papel de manipulação e controlo, impondo, perante o recuo do jornalismo de combate, um ruído que ao mesmo tempo silencia. No presente contexto de crise, este tende a difundir a convicção de que não existe escolha perante os desmandos do sistema, o qual poderá quanto muito ser reabilitado. A capacidade da rede mundial de computadores integra, porém, uma forte dimensão democrática e libertária que tem servido a circulação de informação (veja-se o caso Wikileaks), o debate político, a mobilização do protesto e a perceção da possibilidade de uma mudança mais profunda, contornando os média tradicionais, eles próprios forçados a repensar-se.</p>
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		<title>Mulheres com M</title>
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		<pubDate>Thu, 03 May 2012 17:04:10 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Tem sido boa a repercussão pública do ensaio Humilhação e Glória, de Helena Vasconcelos. Sendo inteiramente merecido, esse eco deve, no entanto, ser confrontado com algumas dúvidas que a leitura da obra levanta. É desde logo evidente a intenção da autora de conceber o livro como uma introdução à história das mulheres, concebida de forma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone  wp-image-34785" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/05/femme.jpg" alt="" width="425" height="341" /></p>
<p>Tem sido boa a repercussão pública do ensaio <em>Humilhação e Glória</em>, de Helena Vasconcelos. Sendo inteiramente merecido, esse eco deve, no entanto, ser confrontado com algumas dúvidas que a leitura da obra levanta. É desde logo evidente a intenção da autora de conceber o livro como uma introdução à história das mulheres, concebida de forma atraente e vocacionada principalmente para o leitor comum. Ele vem preencher, aliás, na linha do que fez em Espanha Rosa Montero com o seu <em>Histórias de Mulheres</em>, uma lacuna na edição nacional. Ao mesmo tempo, a autora propõe um importante trabalho de resgate efetuado sobre os feitos e os trajetos públicos de um conjunto de mulheres, principalmente portuguesas, com papéis na literatura, nas artes, nas ciências ou na intervenção cívica que têm permanecido injustamente esquecidos ou na sombra. Se a Marquesa de Alorna é, pelo menos nos meios académicos, razoavelmente conhecida, poucos terão ouvido falar, por exemplo, de Teresa Margarida da Silva Orta, apesar de esta ter sido a primeira portuguesa a escrever um romance (<em>As Aventuras de Diófenes</em>, de 1752). Atravessa também o livro uma brisa de otimismo que contribui, sem dúvida, para ampliar o seu papel de instrumento destinado a sublinhar a importância de um trajeto histórico de combate pela emancipação e de afirmação positiva da voz das mulheres.</p>
<p>Uma leitura crítica levanta, porém, algumas perplexidades. Anoto três. Em primeiro lugar, a consideração de eventos e práticas originários de distintos tempos e lugares como se inscritos num percurso único, visando uma espécie destino trans-histórico comum. Em segundo lugar, a falta das propostas, dos problemas e dos combates que se levantaram, a partir da década de 1980, no contexto do chamado feminismo de terceira vaga, ficando as alusões canónicas pelas pelas autoras de segunda vaga (Simone de Beauvoir, Elaine Showalter, Betty Friedman e outras). E em terceiro o tom quase celebratório, em relação à situação atual de uma «tendência para a igualdade» que estudos no campo da sociologia e da ciência política têm vindo a desmontar, revelando, ao invés, que este padrão de discurso pode validar subordinações reais, aparentemente invisíveis. Pode ainda, entretanto, levantar-se uma última objeção que parecendo apenas formal, de facto o não é. A designação de um enquadramento do ensaio, enquanto género, no campo dos estudos «femininos» – e não «sobre as mulheres», ou «feministas», como são catalogados dentro de um universo hoje já bastante alargado, inclusivamente em Portugal, que se dedica ao seu estudo nos domínios da investigação de ponta e do debate teórico – advém de uma escolha da autora que sendo inteiramente legítima, respeitável, pode também ser questionada por dar a impressão de advir de uma noção essencialista sobre o «belo sexo» derivada de um modelo cultural dominantemente masculino. Um livro bastante útil e recomendável que convirá ler com alguma vigilância crítica.</p>
<p><span style="font-size: 85%;">Helena Vasconcelos, <em>Humilhação e Glória. O acidentado percurso de algumas mulheres singulares</em>. Quetzal. 328 págs.Versão revista de nota saída na <em>LER </em>de Abril.</span></p>
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		<title>A bela palavra</title>
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		<pubDate>Tue, 01 May 2012 01:09:20 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Música]]></category>
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		<description><![CDATA[Mantenho uma relação difícil com a palavra «camarada». Houve um tempo no qual a pronunciei vezes sem conta. Para mim significava então um destino, uma missão. Uma vontade de partilhar a redenção dos que a história havia empurrado para a humilhação e a pena. A certeza de que esse resgate chegaria. E por isso um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mantenho uma relação difícil com a palavra «camarada». Houve um tempo no qual a pronunciei vezes sem conta. Para mim significava então um destino, uma missão. Uma vontade de partilhar a redenção dos que a história havia empurrado para a humilhação e a pena. A certeza de que esse resgate chegaria. E por isso um sinal de futuro. Era essa a palavra bonita, «c’est un joli nom, tu sais», que Jean Ferrat, comunista e artista de variedades, proclamava em 1968. Aquela que combinava o sabor da cereja e o da romã com os perfumes do maio. Mas na mesma canção Ferrat rompia com o PCF e acusava os tanques russos: «Ce fut à cinq heures dans Prague/ Que le mois d’août s’obscurcit/ Camarade Camarade». Porque a palavra serviu também, no dobrar das décadas, para perseguir e delatar, para marcar um grau de pureza («amigo, companheiro, camarada»), para torturar e abater («porque desejas, canalha, matar o Camarada Estaline?»), deixando manchar o brilho matinal que estava na sua natureza. E, no entanto, sobreviveu. Porque nenhum mal foi capaz de expulsar a centelha que contém. A fraternidade que invoca, que espera, que procura. «Camarada» permanece uma palavra linda. Por isso necessária.</p>
<p><iframe src="http://www.youtube.com/embed/-r7xBhJEmSA" frameborder="0" width="400" height="225"></iframe></p>
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		<title>25 de Abril</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Apr 2012 23:45:04 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[O processo de transfiguração do país que o 25 de Abril de 1974 abriu foi descrito como «Revolução dos Três D» (Democratizar, Descolonizar, Desenvolver). Este é o fundamento comum dos projetos políticos com os quais nos confrontámos por mais de três décadas e meia. A expressão pode parecer hoje algo redutora por não englobar as [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone  wp-image-34661" title="25 de Abril" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/25abril.jpg" alt="25 de Abril" width="534" height="286" /></p>
<p>O processo de transfiguração do país que o 25 de Abril de 1974 abriu foi descrito como «Revolução dos Três D» (Democratizar, Descolonizar, Desenvolver). Este é o fundamento comum dos projetos políticos com os quais nos confrontámos por mais de três décadas e meia. A expressão pode parecer hoje algo redutora por não englobar as enormes mudanças que estavam para ocorrer no campo da vida privada, das relações de trabalho e das práticas culturais, mas não deixa de verbalizar princípios programáticos e uma linha de rumo que cruzaram os anos e os diferentes governos. Democratizar supunha assim abrir a gestão da coisa pública e do coletivo à voz e à vontade livremente expressa dos cidadãos, o que até ali era impossível. Descolonizar significava alijar o fardo da ideia de império e do domínio dos povos colonizados, o que até ali era impraticável. Desenvolver impunha encontrar e expandir novos ritmos para a criação de riqueza e o bem-estar das populações, o que não constava das perspetivas do velho «país habitual», idealizado por Salazar como quieto, naturalmente desigual e indiferente às tentações da vida moderna.</p>
<p>A memória partilhada do 25 de Abril guardou esse rastro, que até há pouco governo algum se propôs contrariar. À esquerda ou à direita do bloco político que tomou conta da gestão do Portugal pós-revolucionário, com ou sem cravo ao peito, fosse qual fosse a posição diante da Constituição aprovada em 1976, programas e orçamentos jamais ousaram afastar o horizonte de um país melhor, habitado por portugueses mais felizes, tendencialmente «livre, justo e solidário». Só o atual contexto de crise pôs travão a esta orientação, definindo uma nova realidade na qual a ditadura dos mercados parece impor, com a complacência de quem governa, o retorno a uma paisagem na qual os processos da democracia e os caminhos do desenvolvimento são confrontados com um enorme recuo e uma subalternização neocolonial. Nos anos 80, referindo-se a Portugal, João Martins Pereira falava da «singular intensidade do seu passado recente». No presente, perante o cenário de resignação e pessimismo que emana da atuação das autoridades públicas, o recurso a estratégias de alternativa passa pelo exercício de uma intensidade democrática em ação, de uma dinâmica do possível, da qual o 25 de Abril permanece um sinal.</p>
<p><span style="font-size: 85%;"><em>A terceira das entradas escritas <em>para o </em><strong>Dicionário das Crises e das Alternativas</strong><em> </em><strong></strong>lançado pelo <a href="http://www.ces.fe.uc.pt/" target="_blank">Centro de Estudos Sociais</a> da Universidade de Coimbra, de parceria com as Edições Almedina, a revista </em>Visão<em> e o </em>Jornal de Letras<em>. Ainda nos quiosques.</em></span></p>
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		<title>Futebol e desencontros</title>
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		<pubDate>Sat, 21 Apr 2012 23:45:24 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone  wp-image-34624" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/futebol4.jpg" alt="" width="349" height="389" /></p>
<p>Como no amor, existem, na história da literatura, das artes ou da filosofia, desencontros que poderiam ter sido belos encontros. Possíveis que se revelaram impossíveis. Karl Marx e Charles Darwin tiveram uma reunião prevista, marcada por um amigo comum, mas esta acabaria por não acontecer. Soljenitsine e Nabokov falharam por muito pouco uma prometida conversa. E nos anos quarenta Orwell marcou um encontro com Camus em Saint-Germain-des-Prés, mas como este se atrasou um pouco, aborreceu-se e foi-se embora. Conhecendo o percurso de ambos, as causas que partilharam, as marcas que deixaram, aquele poderia ter sido o princípio de um belo entendimento.</p>
<p>As suas vidas tiveram, de facto, muito em comum. Ambos lutaram contra o fascismo, Orwell em Espanha e Camus na Resistência francesa. Ambos sofreram de tuberculose e morreram cedo, aos 47, em janeiro, se bem que com a diferença de uma década. Mais importante: os dois permaneceram intérpretes de uma esquerda democrática e independente, combatendo o totalitarismo em todas as suas formas e sofrendo por isso o isolamento e a derrisão por parte de alguma<em> intelligentsia</em>. <em>O Homem Revoltado</em> (1951), de Camus, é, aliás, um ensaio que parece encapsular posições e pontos de vista de Orwell. A diferença mais notável acabou por se centrar nos géneros literários que cada um deles praticou.</p>
<p>No entanto, onde jamais se teriam entendido nesse hipotético encontro seria ao conversarem sobre futebol. É que, se Orwell chegou a escrever que já existem «suficientes motivos de conflito» entre as pessoas comuns, não precisando nós, portanto, «de lhes juntar mais um, incentivando alguns jovens a darem caneladas uns aos outros, por entre os urros dos espetadores em fúria», Camus, antigo guarda-redes de primeiro plano no futebol da sua Argélia natal, pensava rigorosamente o contrário. Insistiu aliás, por diversas vezes, em que devia «seguramente ao futebol» tudo aquilo que aprendera sobre a essência do sentido ético e do compromisso humano. Por causa dele iriam provavelmente discutir e talvez a hipotética amizade acabasse logo ali, antes de começar.</p>
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		<title>Simetria semiológica</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Apr 2012 07:35:57 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Reparará quem segue este blogue que em seis anos quase não se publicaram fotografias de políticos portugueses no ativo. Chegou o momento de proclamar urbi et orbi os três motivos pelos quais isso sucede. O primeiro prende-se com o mais genuíno snobismo: este blogue vive da e para a polis, mas não é um blogue [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-34525" title="" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/politicos.jpg" alt="" width="500" height="399" /></p>
<p>Reparará quem segue este blogue que em seis anos quase não se publicaram fotografias de políticos portugueses no ativo. Chegou o momento de proclamar<em> urbi et orbi</em> os três motivos pelos quais isso sucede. O primeiro prende-se com o mais genuíno snobismo: este blogue vive da e para a <em>polis</em>, mas não é um blogue de politiquinha, daqueles que se ocupam quase a full-time (e fazem bem, cumprem a sua função) dos rodriguinhos de São Bento, das fífias de Belém e atividades afins. Por isso, quando fala deles, gosta de relativizar o seu papel nas preocupações do leitor. O segundo é de natureza meramente estética: <em>A Terceira Noite</em> pode ter alguns posts fraquinhos (ou até o podem ser praticamente todos), mas esforça-se por ser um prazer para os olhos, um lugar visualmente incitante, ou então tão relaxante quanto uma massagem ayurvédica acompanhada pelo som de vagas marítimas. A maioria das imagens pessoais disponíveis destruiria esse equilíbrio, como um par de peúgas brancas usadas com um fato escuro. O terceiro motivo é o mais fácil de expor: o blogue preparava-se para este breve momento de simetria semiológica, esgotando de uma vez a quota para os próximos seis anos.</p>
<p><em><span style="font-size: 80%;">[fotografia extorquida à página facebook de maquinistas.org]</span></em></p>
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		<title>Günter, Israel e os outros</title>
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		<pubDate>Sat, 14 Apr 2012 18:12:43 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[«O que deve ser dito», o «poema» na origem da polémica é, de facto, confrangedoramente mau para alguém com a sua responsabilidade literária. Desqualificado como decrépito e apodado de insensível antissemita, Günther Grass declarou entretanto à Associated Press que se pudesse reescrevê-lo teria evitado usar o termo «Israel» e referido expressamente o atual governo de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone  wp-image-34512" title="Günter" src="http://aterceiranoite.org/wp-content/uploads/2012/04/gunter3.jpg" alt="Günter" width="429" height="322" /></p>
<p>«O que deve ser dito», o «poema» na origem da polémica é, de facto, confrangedoramente mau para alguém com a sua responsabilidade literária. Desqualificado como decrépito e apodado de insensível antissemita, Günther Grass declarou entretanto à <em>Associated Press</em> que se pudesse reescrevê-lo teria evitado usar o termo «Israel» e referido expressamente o atual governo de Benjamin Netanyahou. O episódio conta-se em poucas palavras: revoltado com o facto de a Alemanha vender a Israel um submarino com capacidade para lançar mísseis armados com ogivas nucleares, Grass publicou o referido <a href="http://revistacult.uol.com.br/home/2012/04/gunter-grass-publica-poema-acusando-israel-de-ameacar-a-paz-mundial/" target="_blank">«poema»</a>, no qual, num arremedo estético da cartilha do velho realismo (socialista ou não), acusa o governo israelita de «ameaçar a já frágil paz mundial». A peça vai mais longe, condenando «o suposto direito de um ataque preventivo» contra as «supostas» ameaças de um Irão empenhado, também ele, reconhecidamente, em desenvolver armamento nuclear. Em consequência, o governo militarista de Israel declarou o escritor <em>persona non grata</em>, impedindo-o de regressar a um país que, como convidado, visitou já por diversas vezes.</p>
<p>A posição do governo israelita é, obviamente, escusada e bastante condenável, apenas possível porque este se encontra nas mãos de alguns dos setores mais conservadores e agressivos do país. É contraproducente, do ponto de vista da imagem global de Israel, e incompreensível até para quem gosta, sem estar de todo desprovido de razão, de se gabar de ser «o único Estado democrático da região». Bernard-Henri Lévy, que também <a href="http://www.huffingtonpost.com/bernardhenri-levy/gunter-grass-israel-poem_b_1417160.html" target="_blank">não é um anjo</a>, aproveitou para desancar nos esquecimentos do escritor alemão, lembrando-lhe que, já agora, podia falar do que ao mesmo tempo se passa na Coreia do Norte, na Rússia de Putin, na Síria e no Irão ali mesmo ao lado. Mas aquilo que realmente impressiona é o facto de a esquerda antissemita ocidental – a mesma que ainda há pouco tempo apontava o dedo a Grass pelo seu longínquo e por longo tempo escondido passado filo-nazi – passar a incensá-lo como se de um herói se tratasse. Vale tudo para ser «contra Israel», independentemente das circunstâncias históricas e políticas do seu trajeto, seja o que for que possa desenhar-se no horizonte da região. Uma atitude que indicia a ausência de uma «política de princípios», justa e democrática, que é, afinal, cada vez mais necessária. Entre outras coisas para obter para aquelas paragens uma paz duradoura, sem vencidos e vencedores.</p>
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