Arquivo da categoria Recortes

Frases inquietantes (4)

sapatos

«Depois de muita reflexão (…).» (Aníbal Cavaco Silva)

Frases inquietantes (3)

«Já terá o leitor ouvido alguma vez falar das mães palestinianas que choram a transformação dos seus filhos e das suas filhas em bombistas suicidas?» (Gayatri Chakravorty Spivak)

Frases inquietantes (2)

superhero

«Fue precisamente en la década de los treinta, cuando las prolongadas secuelas de la Gran Depresión roían la existencia de la inmensa mayoría y otra guerra mundial se vislumbraba en el horizonte, cuando surgió en Estados Unidos una nueva mitología repleta de superhéroes consoladores: Superman, Batman y Robin, Wonder Woman, Capitán Marvel, Aquaman, Supergirl, etcétera. Ellos serían, en la imaginación de las gentes, los únicos capaces de enfrentarse a los más terribles villanos.» (Manuel Rodriguez Rivero)

Papéis Roubados #4

Um dia Mario Vargas Llosa parafraseou em público palavras de Albert Camus: «A única moral capaz de tornar o mundo suportável é aquela que esteja disposta a sacrificar as ideias de cada vez que estas entrem em conflito com a vida, ainda que seja a de uma só pessoa, porque esta será sempre infinitamente mais valiosa do que as ideias». A partir deste tópico, o romancista de origem colombiana Juan Gabriel Vásquez traçou uma teia de afinidades que parece fazer todo o sentido.

Cinco notas conjeturales
Juan Gabriel Vásquez

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CamusCamusCamus
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«Babelia», El País -16/10/2010

A la realidad le gustan las simetrías, se lee en un cuento de Borges, y es sin duda por eso que Vargas Llosa ha recibido el Nobel en el mismo año redondo en que los lectores de Camus conmemoramos los cincuenta años de su muerte. Vargas Llosa y Camus tienen algo de almas gemelas, o de vidas, si no paralelas, por lo menos análogas. ¿Quién le iba a decir esto al sartrecillo valiente? Algún día escribiré algo serio al respecto. Mientras ese día llega, he tomado algunas notas.

1. No me sorprende encontrar el nombre de Camus en las páginas de Sables y utopías, esa especie de retrato del intelectual público a través de sus textos. Cuando piensan en Vargas Llosa, sus lectores suelen pensar en Sartre: la idea de que las palabras son actos deslumbró a Vargas Llosa en su juventud y moldeó buena parte de su concepción de la literatura. Pero es la trayectoria de Camus, el hombre de izquierdas decepcionado por la izquierda totalitarista y violenta, y no la del existencialista dogmático, la que tiene más de un punto en común con la de Vargas Llosa. No llegan al mismo lugar, es cierto, pero sufren los mismos malentendidos, soportan los mismos ataques, deben enfrentar los mismos intentos de secuestro intelectual por parte del enemigo. En un discurso pronunciado en 1978, Vargas Llosa recuerda o parafrasea a Camus: “La única moral capaz de hacer el mundo vivible es aquella que esté dispuesta a sacrificar las ideas todas las veces que ellas entren en colisión con la vida, aunque sea la de una sola persona humana, porque ésta será siempre infinitamente más valiosa que las ideas”. Vargas Llosa no dice de dónde viene la paráfrasis, así que me pongo a buscar argumentos semejantes en El hombre rebelde. Los encuentro, y en varias páginas; y entonces encuentro también otras cosas.

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Frases inquietantes (1)

A reserva

«O Presidente da República é a última reserva de um país em caso de crise grave.» (Aníbal Cavaco Silva)

Vavilov em Leninegrado

Vavilov Vavilov

Fome, o pequeno mas precioso romance de Elise Blackwell (ed. Livros de Areia, trad. de Safaa Dib, 102 págs.), arranca com um lembrete, imprescindível para aproximar o leitor da paisagem a um tempo luminosa e invernal sobre a qual a autora ficcionou a sua história de amor, morte e coragem.

«O célebre biólogo Nikolai Vavilov reuniu centenas de milhares de sementes e espécies de plantas do mundo inteiro, albergando-os no Instituto de Pesquisa da Indústria de Plantas em Leninegrado. Vavilov tornou-se uma vítima da campanha antigenética levada a cabo por Trofim Lysenko, que gradual mente tomou controlo da agricultura soviética no tempo de Estaline. Vavilov morreu na prisão em 1942 ou 1943 de uma combinação de maus tratos e fome. Muitos dos seus associados e funcionários foram presos, exilados, enviados para campos de trabalho correctivo, ou dispensados. Durante o cerco de Le­ninegrado, aqueles que permaneceram protegeram as colecções de Vavilov dos ratos, de intrusos humanos e deles próprios.»

A vida aventurosa, o triunfo e a queda de Nikolai Vavilov (1887-1943), as provações de quem o seguiu de perto ou nele acreditou, o imenso logro pseudo-científico que acompanhou a sua desgraça, mais se parecem, no entanto, com uma fábula negra, de tão delirantes e improváveis que agora se nos afiguram.

«A 9 de Julho de 1941, o colégio militar do Tribunal Supremo declarou o grande director culpado de pertencer a uma conspiração da direita, de espiar para Inglaterra, de sabotagem agrícola, e, como prova de que os juízes têm sentido de humor, de ser o líder do Partido Trabalhista Camponês. Foi condenado à morte. A reunião durou vários minutos.»

E mais adiante:

«Entre os evacuados de 1942, encontravam-se a mulher do grande director e o filho, que se estabeleceram em Saratov. Foram informados de que ele fora preso em Mos covo, quando na verdade dormia, subalimentado, a pou­cos quilómetros do local onde se encontravam. Sentiriam eles a sua proximidade ou serão tais coisas impossíveis, pensei eu mais tarde, quando soube.

Com a sentença de morte comutada mas a morte iminente, foi transferido da prisão de Saratov para Magadan, onde a sua cela era arrefecida pelo frio mas invisível Mar de Okhotsk. Os detalhes nunca seriam revelados, mas certamente morreu de maus tratos e subnutrição, talvez mais de um do que outro, em finais de Janeiro de 1943.»

Fome pode, portanto, ser lido como estranha homenagem de uma americana nascida em 1964 em Austin, Texas, a um punhado de autênticos heróis soviéticos dos tempos de resistência ao nazismo e ao estalinismo. E evoca, assumindo-se embora como «relato ficcional desse tempo e lugar», um triste e extremo exemplo da perversão sempre inerente ao casamento da «ciência certa» com o poder absoluto.

11/9

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imagem ampliada e créditos aqui

Papéis Roubados #3

Partes de um texto de reflexão crítica sobre a educação dirigida para o crescimento económico que subalterniza as humanidades e as artes. Publicado no TLS e reproduzido no Courrier Internacional (trad. de Ana Cardoso Pires). A autora é a filósofa e professora universitária norte-americana Martha Nussbaum.

Uma crise planetária da educação
Martha Nussbaum

Martha Nussbaum

Courrier Internacional, ed. portuguesa – No. 175, Setembro de 2010

Atravessamos actualmente uma crise de grande amplitude e de grande envergadura internacional. Não falo da crise económica mundial iniciada em 2008; falo da que, apesar de passar despercebida, se arrisca a ser muito mais pre­judicial para o futuro da democracia: a crise planetária da educação.

Estão a produzir-se profundas alterações naquilo que as sociedades democráticas ensinam aos jovens e ainda não lhe afe­rimos o alcance. Ávidos de sucesso económico, os países e os seus sistemas educati­vos renunciam imprudentemente a competências que são indispensáveis à sobrevivência das democracias. Se esta tendência persistir, em breve vão produzir-se pelo mundo inteiro gerações de máquinas úteis, dóceis e tecnicamente qualificadas, em vez de cidadãos realizados, capazes de pensar por si próprios, de pôr em causa a tradição e de compreender o sentido do sofrimento e das realizações dos outros.

De que alterações estamos a falar? As Humanidades e as Artes perdem terreno sem cessar, tanto no ensino primário e secundário como na universidade, em quase todos os países do mundo. Considera­das pelos políticos acessórios inúteis, nu­ma época em que os países têm de desfazer – se do supérfluo para continuarem a ser competitivos no mercado mundial, estas disciplinas desaparecem em grande ve­locidade dos programas lectivos, mas também do espírito e do coração dos pais e das crianças Aquilo a que poderíamos chamar os aspectos humanistas da ciência e das ciências sociais está igualmente em retrocesso, preferindo os países o lucro de curto prazo, através de competências úteis e altamente aplicadas, adaptadas a esse objectivo.

Procuramos bens que nos protegem, satisfazem e consolam — aquilo a que [o escritor c pensador indiano] Rabindranath Tagore chamava o nosso «invólucro» material. Mas parecemos esquecer as faculdades de pensamento e imaginação que fazem de nós humanos e das nossas interacções relações empáticas e não simplesmente utilitárias Quando estabelecemos contactos sociais, se não aprendermos a ver no outro um outro nos, imagi­nando-lhe faculdades internas de pensa­mento e emoção, então a democracia é vo­tada ao malogro, porque assenta precisamente no respeito e na atenção dedicados ao outro, sentimentos que pressupõem que os encaremos como seres humanos e não como simples objectos.

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Papéis Roubados #2

Segundo episódio desta série com palavras dos outros. Desta vez um pequeno texto de circunstância (e intervenção) do escritor, cronista e jornalista Manuel António Pina.

Pedras para o Irão
Manuel António Pina

M. A. Pina

«Opinião», Jornal de Notícias -19/08/2010

Cem cidades de todo o Mundo, entre elas Lisboa, serão no próximo dia 28 palco de protestos contra a selvajaria (como nomear o inominável?) das execuções por lapidação no Irão, onde, nas últimas décadas, 150 pessoas, a maior parte mulheres, foram apedrejadas até à morte e mais 25 aguardam actualmente idêntico destino, entre elas Sakineh Ashtiani, de 43 anos, mãe de dois filhos, acusada de adultério. A iniciativa «100 cities against stoning» é do International Commitee Against Execution e o protesto de Lisboa, nascido na Net, visa chamar ainda a atenção para as sentenças de morte aplicadas no Irão tanto a opositores políticos como a homossexuais ou adúlteros «por um sistema de justiça que não respeita os mais elementares direitos de defesa das suas vítimas». O protesto está marcado para as 18 horas, no Largo Camões. Eu teria preferido a sugestão do leitor de um dos blogues que divulgaram a iniciativa: levar à embaixada do Irão um monte de pedras conformes ao artº 104º do Código Penal iraniano, isto é, «não tão grandes que matem à primeira nem tão pequenas que não mereçam a classificação de pedras».

Papéis Roubados #1

Uma nova série que se espera de vida longa e com alguns sobressaltos. Sempre com as palavras dos outros. A abrir um notável artigo de Antonio Muñoz Molina sobre a construção da memória apócrifa e o mau serviço que ela presta.

Holocaustos para todos
Antonio Muñoz Molina

Antonio Muñoz Molina

«Babelia», El País -10/07/2010

Habíamos estado presentando en Nueva York un libro de Marcel Cohen y cuando llegó el momento del coloquio un espectador levantó velozmente la mano. El libro de Cohen, que tiene la forma de una larga carta a su amigo Antonio Saura, es una memoria lacónica y estremecedora de una pérdida doble, la de la lengua judeoespañola que Cohen aprendió a hablar de niño y la de la comunidad sefardí de Salónica, de la que procedía su familia, y que fue virtualmente borrada del mapa por los nazis. El libro, en inglés y en judeoespañol - In Search of the Lost Ladino - lo había publicado en Jerusalén la diminuta editorial Ibis, que difunde por igual a autores judíos y palestinos, con una vocación más bien heroica de buscar lazos comunes en una época y en una tierra cada vez menos propensas a la concordia. Cuando yo vi a Marcel Cohen, después de haber leído el libro, que para mí tenía además la emoción del recuerdo de Antonio Saura, me acordé de ese dictamen de Buffon según el cual el estilo es el hombre. Marcel Cohen, como su escritura breve e intensa, tenía una presencia discreta, exquisitamente amable, de una inmediata cordialidad emocional contenida por el pudor. Era un hombre delgado, elegante, menudo, de rasgos muy óseos y piel muy morena. Cuando terminó de hablar miró al público y se inclinó ligeramente para aceptar la pregunta de aquel espectador tan lleno de impaciencia por intervenir que se movía en el asiento y seguía agitando la mano levantada como si temiera no haber sido visto, o que por algún motivo se le negara la palabra.

La Montaña

O fotograma

- No sabe usted cómo le comprendo – dijo -. Soy catalán, y los catalanes también hemos sufrido un genocidio.

Aquel señor había estado escuchando la historia de la deportación en masa a Auschwitz de los judeoespañoles de Salónica y de lo fácil que es borrar un idioma mediante el procedimiento de asesinar a quienes lo hablan, y en su celo patriótico no había querido ser menos: lo que Hitler les hizo a los judíos de Salónica se lo hizo Franco a los catalanes y a su lengua. ¿Y quién iba a argumentar que la comparación era disparatada, o más exactamente obscena? Si uno levantaba la mano y sugería que Franco no había sido Hitler, y que el sufrimiento de los catalanes bajo su dictadura, con perdón, no podía calificarse de genocidio, ¿no estaría uno en el fondo justificando a Franco, sugiriendo que su dictadura en realidad no había sido tan terrible? Por no hablar de otro matiz algo más incómodo, porque tiene que ver con la sagrada integridad de las identidades colectivas, y con los campeonatos por la primacía del sufrimiento que se han puesto tan de moda: ¿sufrieron todos los catalanes por igual, o hubo algunos que apoyaron la dictadura y hasta se beneficiaron de ella, mientras otros eran fusilados, penaban en las cárceles o escapaban al exilio? ¿Y sufrieron más los catalanes que los de Jaén, o los de Murcia o Zaragoza, bien porque al ser más cultos tenían más sensibilidad, bien porque el tirano y sus secuaces se cebaban especialmente con ellos?

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É mesmo disto que o povo precisa

Cuba libre

«Raúl Castro lança o maior exercício militar dos últimos cinco anos, envolvendo cem mil soldados e quatro milhões de milícias populares, como treino para uma resposta a uma hipotética agressão norte-americana.

O Presidente cubano, Raúl Castro, mobilizou cem mil soldados e reservistas no maior exercício militar dos últimos cinco anos em Cuba. Às manobras, iniciadas há três dias, juntar-se-ão amanhã cerca de quatro milhões de cubanos, organizados em milícias populares desde a implantação do actual regime comunista, em 1959. (…)

As manobras, sob o título genérico ‘Bastião 2009′, visam responder a uma hipotética invasão norte-americana apesar de o actual inquilino da Casa Branca, Barack Obama, ter assegurado mais de uma vez que não tem qualquer intenção de usar a poderosa força militar de Washington contra a ilha.»

aqui

O quê, ainda não havia disto?

She, spy

Do DN em linha:

«Os serviços secretos portugueses estão a assinar protocolos com serviços públicos com vista a infiltrar nesses serviços agentes não identificados ou com a identidade codificada. O objectivo da celebração destes protocolos será promover, através desses agentes, o combate ao crime financeiro e à criminalidade organizada dentro de organismos do Estado.

Segundo o jornal Correio da Manhã, que avança a notícia na sua edição de hoje, os protocolos deverão colocar, para já, agentes do SIS e do SIED no Ministério da Administração Interna, dos Negócios Estrangeiros e das Finanças. O mesmo jornal diz que a medida, prevista na lei orgânica do Serviço de Informações da República Portuguesa (SIRP), estará a ser alargada a outros serviços públicos.»

(uma pergunta ingénua: terão os nossos agentes dois vencimentos?)

Comer safio em Portugal

Ramalho em 1877, n’As Farpas. Uma singela homenagem deste blogue aos infelizes desalojados do 5 de Outubro de 1910.
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No coração da raça

Mcgyver

Neste post limitei-me a pegar num texto sem autoria declarada que me chegou às mãos e a dar-lhe pequenos retoques cosméticos. Aliás, alguns blogues mencionaram o assunto há meses atrás. Mas vale a pena retomá-lo em pleno «Dia da Raça».

Um site norte-americano fez uma lista das 10 palavras estrangeiras que mais falta fazem à língua inglesa. The 10 Coolest Foreign Words The English Language Needs são lideradas pela palavra portuguesa «desenrascanço», aquela que, de acordo com os autores do site, mais falta faz no vocabulário inglês. Depois de percorrermos duas páginas com explicações sobre nove palavras de um valor muito prático correntes noutras línguas, chegamos aquela colocada em primeiro lugar. A falta da cedilha não importa para se perceber que estamos a falar do «desenrascanço», conceito supostamente emblemático da nossa cultura. Um uso, experiência ou qualidade da qual, aliás, adoramos vangloriar-nos. Entre nós ou diante dos outros.

«Desenrascanço» é  pois «a arte de encontrar a solução para um problema no último minuto, sem um plano prévio e sem meios», revelando ao mesmo tempo muito sobre a cultura local. E continua o site: «enquanto a maioria de nós [norte-americanos] cresceu sob o lema dos escuteiros “sempre preparados”, os portugueses fazem exactamente o contrário». Desta forma, «conseguir um improviso de última hora que, não se sabe bem como, até funciona, é o que eles [portugueses] consideram como uma das suas mais valiosas aptidões». Adianta-se ainda ser a palavra tão importante que «até a ensinam na universidade e nas forças armadas», acreditando-se que tal capacidade tem sido a chave «da sua sobrevivência durante séculos»,  tendo igualmente representado um dos fundamentos da aventura colonial. «Que se lixe a preparação, eles têm o desenrascanço», conclui o artigo, que sugere uma expressão em inglês capaz de se aproximar minimamente do sentido tomado pela palavra portuguesa: «To pull a MacGyver».

A evolução da espécie

Al Capone

«Lavagem de dinheiro actual faz de Al Capone um azelha»

Também era cinema

Potemkine

Para nós – falo de quantos viveram o Potemkine como fantasma e paradigma de uma revolução sonhada e adiada anos a fio – o filme foi sempre mais acto de clandestinidade do que acto de subversão. Quem não recorda essas sessões (anos 60, 70) em casa de amigos, que tinham trazido uma cópia do filme de Paris ou de Londres, em que um projector alugado de 16 ou Super 8 mm acendia num lençol a fingir de ecrã as imagens proibidas? Saíamos dessas noites sentido-nos mais transgressores, não mais resistentes. Simbolicamente, um dos dois grandes anacronismos que presidiu à tarde de 1 de Maio de 1974 foi o cartaz anunciando o filme, no Império, ao cimo da Alameda. O Couraçado ancorava em Lisboa. O outro (anacronismo) era essa multidão imensa trauteando A Internacional, cuja versão portuguesa por completo desconhecia.

João Bénard da Costa, «Histórias da Clandestinidade»,
Os filmes da minha vida. Os meus filmes da vida, vol. 1.

«Foleiros & doutores»

Já antes falei por aqui – e muitas vezes noutros lugares – do espectáculo lamentável em que se transformou, após a sua gradual «ressureição» na década de 1980, a vivência das praxes e de certos momentos das chamadas festas académicas. Não pelos elementos lúdicos e festivos que podem conter, aceitáveis apesar de tantas vezes discutíveis, mas pelos actos de violência que frequentemente comportam, pelos atentados à liberdade individual que certas vezes configuram, pelo conteúdos aviltantes, sexistas e mesmo boçais que quase sempre integram (embora uma boa parte dos eufóricos participantes, e até alguns dos seus orgulhosos paizinhos, não saibam sequer identificar para o que apontam tais adjectivos). Nas actuais condições, que reajustaram completamente o lugar social do estudante universitário, a tudo isto pode somar-se a ostentação de um «elitismo» anacrónico. Desta vez, para não me repetir, tinha escolhido não falar do assunto, mas uma crónica que Manuel António Pina acaba de publicar no Jornal de Notícias fez-me mudar de ideias. Como infelizmente os textos do JN depressa desaparecem da edição em linha, transcrevo-a numa página interior. Fica aqui.

Poética dos escaparates

Escaparate

É este o título da crónica de Antonio Muñoz Molina transportada no Babelia desta semana. Nela se aborda o panorama devastador, para quem ama os livros e gosta de flanar pelas livrarias, observado em cada aproximação a um desses coloridos e iluminados, frios e inóspitos, espaços-depósito que as grandes cadeias distribuem hoje pelas cidades. O texto de Molina pode ser lido aqui na íntegra, e dele se copia um fragmento.

No hay amor a los libros, no hay una inteligencia detrás de su disposición: tan sólo un amontonamiento desganado de los dos o tres éxitos masivos de la temporada, apilados como mercancías al por mayor, si acaso en compañía de algún cartel promocional. Nadie va a descubrir nada ni a llevarse ninguna sorpresa mirando ese escaparate: parece que se aspira a ofrecer un producto de venta tan garantizada como la hamburguesa de un McDonald’s. Claro que un libro, entre otras cosas, también es una mercancía, y que un librero es un comerciante honorable que aspira, como todo el mundo, a ganarse la vida con su trabajo, y a que éste sea, a ser posible, como quería Juan Ramón Jiménez, un trabajo gustoso. Pero en esos escaparates se ve que no ha existido ni trabajo gustoso ni amor por los libros, ni siquiera la sensibilidad plástica que hace tan atractivas las caminatas por la ciudad.

Corín e o amor

Corin Tellado

Vale a pena confirmar no El País de hoje aquilo que já se sabia: a Dona Maria del Socorro Tellado (1926-2009), poeta de tantas mulheres solitárias e de uns quantos homens não menos abandonados, mulher «muy lanzada, que montaba en bicicleta cuando estaba mal visto y que fumaba cigarrillos a escondidas», era uma grande fingidora.

Me emocionan las cosas reales, las que palpo, las que tienen vida. No me seducen las puestas de sol, ni las estrellas, ni la luna llena. Yo nunca he dicho ‘te amo’, ‘te quiero’, ‘vida mía’. Sólo lo sugiero en las novelas para que se emocionen otros. A mí me conmueven los animales, los prados, las personas, la roca viva, los acantilados.

Contem-nos coisas de Cuba

Cuba Libre

É bem triste «La Revolución» não aguentar palavras que apenas irradiam uma perspectiva do mundo diferente da arremessada pelos artigos hiper-saudosistas, caluniosos ou ameaçadores do Granma e do Juventud Rebelde. O cerco americano a Cuba, que Obama começa agora gradualmente a levantar, sempre me pareceu uma medida injusta e desnecessária, resultado de uma política externa míope e influenciada pelos «gusanos» um tanto ressabiados de Miami, mas o cerco interno, praticado na ilha, à liberdade de opinião de quem é visivelmente desalinhado do discurso oficial, não é menos injusto e injustificado. Para além de um tanto paranóico. Que a havanesa Yoani Sánchez tenha de publicar o seu primeiro livro de crónicas em Itália é um sinal desse desajustamento.

Es abril y no hay mucho que hacer, solo mirar desde el balcón y confirmar que todo sigue como en marzo o en febrero. La Plaza de la Revolución -un pirulí truncado que asustaría a cualquier niño- domina los bloques de concreto de mi barrio. Frente a mí, dieciocho pisos de hormigón llevan el cartel de Ministerio de la Agricultura. Su tamaño es inversamente proporcional a la productividad de la tierra, así que me dedico a mirar con mi catalejo las oficinas vacías y sus ventanas rotas. Vivir en esta zona “ministerial” me permite interrogar los altos edificios desde los que salen las directivas y resoluciones para todo el país. Manías de orientar el lente y pensar “ellos me observan, pues yo también los observo a ellos”. De esas inspecciones con mi telescopio azul he sacado bien poco, la verdad, pero una impresión de inercia traspasa el cristal y se cuela a través del hormigón de mi edificio modelo yugoslavo.

Extravagância

Mais um recorte neste domingo de Páscoa, para mim de trabalho. «Antigamente, a Igreja julgava saber o que era necessário à nossa alma, com os resultados que se conhecem. O Estado e a medicina julgam hoje saber o que é necessário ao nosso conforto e felicidade física, com resultados cada vez mais intoleráveis.» As palavras são de Vasco Pulido Valente. Em dia-sim na crónica dominical do Público.

Degustar pizza em Pyongyang

«Os cozinheiros italianos foram levados para uma base militar de alta segurança onde perceberam que a missão seria ensinar três oficiais do exército a confeccionar pizzas». «O nosso povo também tem de ter acesso a esta comida conhecida internacionalmente», disse na ocasião ao jornal japonês Chonson Simbo o gerente do restaurante, citando o próprio Kim Jong-Il. Para saber mais, siga-se a notícia do Público online sobre a abertura de uma pizzaria em Pyongyang.

Magalhanês em 10 lições

1 – O Tux escondeu algumas coisas. Encontra-las na boa ordem.
2 – Dirije o guindaste e copía o modelo.
3 – Pega as imagens na esquerda e mete-las nos pontos vermelhos.
4 – Primeiro, organiza bem os elementos para poder contar-los.
5 – Quando acabas-te, carrega no botão OK.
6 – Abaixo da grua, vai achar quatro setas que te permitem de mexer os elementos.
7 – Com o teclado, escreve o número de pontos que vês nos dados que caêm.
8 – Tens a certeza que queres saír?
9 – Aprende a escrever texto num processador. Este processador é especial em que obriga o uso de estilos.
10 – Quando o tangram for dito frequentemente ser antigo, sua existência foi somente verificada em 1800.
[Fonte: Expresso]

A firma responsável por esta estufa de horrores diz terem sido os mesmos provocados por um programa de tradução automática. A desculpa, neste caso, apenas agrava a culpa. A culpa da empresa que produziu os conteúdos, a daquela que vende o produto, e a das entidades escolares e governamentais que distribuíram o computador sem fazerem a necessária revisão.

Prosa marítima

Naco de prosa
J. Félix Nogueira in Archivo pittoresco: semanário illustrado – no. 1, 1857

Proletas

O Proletário

N’A Bola de ontem: «[O goleador Liedson] atingiu a marca de Yazalde, homem que nasceu num bairro pobre da Argentina, vendeu jornais, depois bananas e mais tarde ganhava a vida a picar gelo. Até nisso há algo de semelhante entre ambos: não há muito era Liedson repositor de armazém…»

I beg your pardon?

«Durante décadas, quando ser consumidor era praticamente o mesmo que ser comunista, guiávamos-nos todos por uma tabela que por cá nunca falhava: estrangeiro=melhor=mais caro. Quem fosse pobre ou tivesse um carinho fascista pela mediocridade, comprava nacional. Ou, pela calada, pedia a um fascista amigo para trazer do estrangeiro, onde era sempre mais barato.»

Entre escrever isto e estar sosssegado, dos já não muito verdes anos «colhendo doce fruito», eu optaria, sinceramente, pela segunda hipótese. De livre e espontânea vontade, of course. A prosa bizarra é de Miguel Esteves Cardoso – de quem apreciei, e ainda aprecio, muita da escrita – e não é um bom augúrio para aquilo que o Público nos promete para 363 dias de cada ano. Oxalá me engane, pois assim por assim prefiro ler blogues ao pequeno almoço.

Outro olhar

Amos Oz

Não necessariamente menos discutíveis, mas certamente menos comuns na blogosfera que observa a realidade apenas com um dos olhos, são as palavras de Amoz Oz no artigo «Israel deve defender os seus cidadãos», divulgado hoje na edição do Público. Aqui ficam alguns extractos, à consideração dos passantes:

«O mundo árabe irá cerrar fileiras em torno das imagens atrozes que a Al-Jazira irá emitir de Gaza e o tribunal da opinião pública mundial apressar-se-á a acusar Israel de crimes de guerra. Este é o mesmo tribunal da opinião pública que se mantém insensível perante o bombardeamento sistemático das povoações de Israel.»

«Vai haver muita pressão sobre Israel pedindo-lhe contenção. Mas não vai haver nenhuma pressão semelhante sobre o Hamas, porque não existe ninguém para os pressionar e porque já não há praticamente nada que possa ser usado para os pressionar. Israel é um país; o Hamas é um gang

«Os cálculos do Hamas são simples, cínicos e pérfidos: se morrerem israelitas inocentes, isso é bom; se morrerem palestinianos inocentes, é ainda melhor. Israel deve agir sabiamente contra esta posição e não responder irreflectidamente, no calor da acção.»

Olhar cubano

Yoani Sánchez

A entrevista dada pela bloguer cubana Yoani Sánchez, do blogue resistente Generación Y, a Patrícia Silva Alves, jornalista da revista Visão, merece um post inteiro. Mas não será por preguiça que nele me limito a citar, sem mais palavras, algumas das declarações de Yoani.

«Em Cuba, até respirar é um acto político. O Governo, a ideologia e os líderes da revolução estão presentes em qualquer decisão: desde os quilos de arroz que se comem por mês, definidos pelo racionamento, até onde passar férias. Costumo usar uma frase de uma banda rock, muito popular em Cuba, para me definir: ‘Eu não gosto de política, mas ela gosta de mim.’»

«Quando comecei a ler as primeiras novelas sobre a ditadura – estou a falar de obras como O Outono do Patriarca, de Gabriel García Márquez – percebi que havia muitos pontos de contacto entre as personagens e a minha vida.»

«Dos meus 20 colegas de turma só cinco ficaram em Cuba. Os outros emigraram. Mas não penso que fossem esses os seus planos.»

«Desde que entrei no aeroporto [após uma curta estadia na Suíça] – a maneira como te olham os militares de Havana, a maneira como te orientam para onde ir… Penso que essa impressão de controlo me marcou muito, porque vinha de um lugar onde o cidadão tem mais liberdade e, sobretudo, onde é mais respeitado.»

«Recebo muitas manifestações de solidariedade na rua. Isso é, para mim, o termómetro principal de quantas pessoas me lêem em Cuba.»

«Quando comecei o blogue, era um grito solitário. Era um exorcismo pessoal para expulsar muitos demónios: o demónio da apatia, da dor moral, do medo. Mas, aos poucos, esses demónios encontraram-se com os demónios dos outros. E isso fez do blogue uma praça pública onde há de tudo: gritos, insultos, discussões.»

«Cada pessoa que lê umas linhas do meu blogue constrói mais um milímetro do meu escudo protector. Isso não quer dizer que fique impune. Mas agora combate-se Yoani Sánchez na sombra. Com outros métodos. Fazem campanhas de difamação para isolar-me; pressionam os meus familiares e amigos. Esse tipo de coisas mais subtis, mas que também se sentem. Não é preciso estar atrás das grades para uma pessoa se sentir prisioneira.»

«A Cuba que imagino deve ter, pelo menos, um adjectivo: plural. (…) Não me imagino numa Cuba com todos os problemas resolvidos – que nunca a teremos assim – mas numa Cuba onde os cidadãos tenham a possibilidade de apontar as soluções em que acreditam.»

Desigualdade de facto

Da bula de um medicamento que o médico me prescreveu:

Utilização em doentes negros com pressão arterial elevada e dilatação do ventrículo esquerdo
Num estudo em doentes com pressão arterial elevada e uma dilatação da cavidade esquerda do coração, COZAAR demonstrou diminuir o risco de acidente vascular cerebral e ataque cardíaco, e ajudar os doentes a viver durante mais tempo. No entanto, neste estudo, estes efeitos benéficos não se aplicaram a doentes negros.

E se Obama fosse africano?

Imprescindível este texto de Mia Couto (que encontra aqui em versão Word). Também publicado por Joana Lopes, a quem devo a referência inicial, no Entre as Brumas da Memória.