O que aconteceu no dia 28 de fevereiro de 2025, quando do encontro público em Washington entre o presidente da Ucrânia, Vlodymyr Zelensky, e, do lado norte-americano, Donald Trump e J.D. Vance, ficará bem marcado nos anais da diplomacia mundial, pautando um novo tempo no qual as conversas entre governos ao mais alto nível podem ser condicionadas pela ameaça, pela coação e pela falta absoluta da mais elementar urbanidade no trato pessoal. O que aconteceu com a ignóbil armadilha colocada ao presidente ucraniano na Casa Branca foi uma despudorada exibição em horário nobre, perante o povo norte-americano e o mundo, de arrogância imperial, de autoritarismo de «patrão», e de ausência da educação cívica mais elementar, na linha do que se sabe que o presidente norte-americano faz com todas as pessoas que considera suas subalternas.
A atitude de Zelensky foi, em contrapartida, de uma dignidade enorme, procurando, no contexto inesperado e desfavorável de quem acaba de ser emboscado, continuar a defender os objetivos do seu país e do seu povo no contexto de continuada ocupação e de criminosa agressão por parte da Rússia de Putin. Independentemente das escolhas políticas que o levaram ao poder – algumas discutíveis, sobretudo aquelas que apontavam para uma vaga noção de reformismo do sistema corrupto herdado do tempo da União Soviética – Vlodymyr Zelensky tem-se revelado, naquele pequeno corpo e voz sempre rouca, um gigante de determinação e de coragem que, salvo os inimigos jurados e obstinados da Ucrânia, quase todo o mundo reconhece. Mais ainda a partir do que aconteceu ontem e das lições que do episódio devem forçosamente ser retiradas.
De fora nestas contas ficam também os setores da opinião pública, saudosos do mundo que implodiu a partir de 1989, que por mais que a realidade mude continuam a ecoar a narrativa de Putin sobre o caráter «nazi» do governo de Kiev – um mito já repetidamente desmontado, se bem que existam por ali, como em todo o lado, setores da extrema-direita nacionalista – e todos os dias insultam a heroica resistência do povo ucraniano e a bravura do seu presidente. Basta uma rápida visita a sites e redes sociais próximas dos ortodoxos de uma esquerda que já só o é nas proclamações, para se observar como aquele setor mergulha, cada vez mais cegamente, no lado das trevas. Nas suas absolutas certezas, com o episódio de ontem nada aprendeu.
P.S. – Já agora: apenas se «humilha» quem se deixa humilhar.