
Ao conversar com quem conhece bem a realidade da Ucrânia e do leste europeu, tenho sido confrontado com a sua surpresa sobre a contradição entre a forma como setores da esquerda portuguesa encaram o regime de Kiev, a guerra e o caminho para a paz, e o modo como o faz a maioria da esquerda ucraniana. Não consideram na comparação os grupos e indivíduos nostálgicos da União Soviética e da Europa pré-1989 – desde logo o Partido Comunista, banido logo em 1991 e de novo em 2015, o Partido Progressista Socialista, proibido em 2022, após a invasão de fevereiro, e pequenas forças interditas em 2024 –, colaborantes da agressão russa e separatistas, mas numerosas personalidades de orientação socialista, libertária, feminista e verde, e, na mesma área, organizações como o Movimento Social e a Ação Direta, defensoras da resistência ativa a Moscovo.
Perante esta realidade, e para tentar compreender o abismo cavado neste domínio, importa observar as escolhas que, sobre a invasão militar e o conflito, assume em Portugal uma parte muito ativa dos setores à esquerda do Partido Socialista. Esta distribui-se por duas vertentes. A primeira é assumida pelos setores mais ortodoxos, que apoiam de forma mais ou menos explícita a invasão imperial determinada pelo Kremlin e o propósito do derrube do governo legítimo de Kiev, embora não deixem de invocar a «paz». A segunda vertente, mais ambígua, é preenchida por quem defende a Ucrânia e uma solução de paz, considerando, todavia, que esta deve ser obtida por meios estritamente diplomáticos ou através de sanções, mas sem o recurso ao auxílio militar das democracias europeias.
Tendo sido questionado sobre esta contradição e os seus motivos, encontrei cinco. O primeiro prende-se com a consideração estruturante da sua matriz política, herdada de Lenine e hoje em parte anacrónica, dos Estados Unidos como única potência imperial e o inimigo principal da paz e da justiça global, bem como com a consideração da NATO como mera correia de transmissão de Washington, desvalorizando a participação, agora determinante, dos Estados democráticos europeus. Já o segundo motivo é determinado por um antieuropeísmo atávico e pela aversão à União Europeia, encarada como mero instrumento do capitalismo neoliberal, não como organização essencial na vida dos povos do continente, com uma relevância reforçada devido à política protecionista de Trump.
O terceiro motivo é imposto por uma visão distorcida do ideal positivo de paz, encarado, não como resultado de um quadro político de relações equilibradas, consentidas e justas, mas, contrariamente, associado a meros equilíbrios de poderes e de influências, numa «paz podre» assente por vezes na aceitação «pacífica» da injustiça e da dominação. O quarto baseia-se no desconhecimento e na manipulação da história, em particular a que a Ucrânia viveu após a Revolução Soviética, com a destruição da economia e o assassinato em massa, o Holodomor, imposto por Estaline durante o processo de coletivização forçada. Nesta linha, Putin tem também procurado estabelecer – usando «o passado como campo de batalha», assinala o escritor búlgaro Georgi Gospodinov – uma efetiva negação da identidade ucraniana, com a qual estes setores da esquerda portuguesa são cúmplices.
O quinto e último motivo para virarem as costas aos ucranianos prende-se com a ignorância ou a deturpação de factos invocados, e o frequente recurso à mentira e à calúnia através das redes sociais, a propósito da legitimidade democrática – condicionada pela invasão, como é inevitável – do próprio regime ucraniano. Espalhando informações erradas ou descontextualizadas, e manipulando factos históricos, procuram, ecoando na prática um dos temas centrais da propaganda de Putin, dar a entender que existe uma componente «neonazi» no governo de Kiev, assim reunindo contra este a animosidade de pessoas honestas e genuinamente antifascistas. Todavia, pelo que é possível constatar, a esquerda democrática ucraniana não invoca qualquer desses cinco motivos. Já o segmento da portuguesa que o faz, defende, na realidade, a rendição, e rejeita a necessária conquista de uma paz justa. Aquela que, como afirmou Camus, «não pode trazer consigo a servidão».
Rui Bebiano
Fotografia de Byron SmithPublicado no Diário As Beiras de 5/4/2025